A Crônica da Sereia
1 Ignicão
Notas iniciais
Se tinha uma coisa que Elisa adorava mais do que nadar, era olhar o pôr-do-sol. Vislumbrava extasiada, sentada sobre o píer, o sol se despedindo de mais um dia trabalhoso. A quentura tomava-lhe a face, e ela balançava as pernas de forma brincalhona, como uma criança, ao admirar seu amigo laranja de todos os dias. Agora, se encontrava em um tom de vermelho profundo, enquanto sua visão e calidez iam sumindo no horizonte de forma preguiçosa. Como um último suspiro, fechou os olhos, empinando o nariz para cima, sentindo os últimos resquícios de calor do dia, ao tempo que sorria de forma travessa por ter conseguido observar aquela paisagem tão estonteante.
— Janaina pediu que lhe chamasse pro café da tarde.
A voz repentina lhe tirou dos pensamentos e quase fez com que caísse na água. Encolheu-se em susto e arregalou os olhos na direção da pessoa que lhe tirara do transe. Uma carranca logo se fez em sua face.
— Como uma garota tão grande como você consegue ser tão sorrateira? – questionou Elisa, ainda irritada pelo susto.
A moça sorriu de forma constrangida, colocando uma das mãos atrás da cabeça nervosamente, enquanto repuxava o alto rabo de cavalo. Ela olhou o horizonte e colocou as mãos para trás, apertando-as de maneira ansiosa.
— Desculpa – pediu com a voz um pouco baixa. Estava envergonhada.
Elisa suspirou, meio arrependida pelo tom que usara naquele momento.
— Não precisa se desculpar, sei que não teve intenção – concluiu ela, oferecendo a mão para que Kyara a puxasse, e ela o fez, levantando-a como se ela fosse uma pena.
Elisa riu da força da colega, enquanto dava tapinhas leves na clavícula dela como forma de agradecimento. Era o ponto mais próximo do seu rosto, porque Kyara era a garota mais alta do time de esportes. Não. Kyara era, na verdade, a garota mais alta da universidade. Ela devia ter por volta de um e oitenta e nove, enquanto a cabeça de Elisa batia praticamente próximo ao queixo de Kyara, que a olhava de forma gentil e calma.
Naquela universidade, não havia nenhuma mulher mais alta do que aquela.
Mas além da altura, Kyara era bonita. Esguia, porém também tinha definição pelos anos e anos de atividade física. Apesar de fazer atividades pelo dia, a garota tinha a pele pálida e leitosa. Os olhos castanhos escuros combinavam com o cabelo, que quase sempre se mantinha preso no cotidiano rabo de cavalo, como o de agora. Ela usava uma camisa azul 3/4 do time de natação, acompanhado de um short ciclista preto e um tênis esportivo. Pela roupa, havia acabado de sair do treino.
Elisa também usava roupas esportivas, mas menos recatadas que o da colega. Vestia um top preto esportivo que deixava sua barriga à mostra, junto de um short legging azul escuro. Apesar da aparência atlética, usava sandálias.
Diferente de Kyara, Elisa tinha a pele bronzeada pelo sol. Os anos em que viveu no norte do país e aproveitou o sol tinha sido uma dádiva para melhorar sua cara de anemia. Os olhos eram cor de âmbar, e o cabelo era de um loiro escuro. A altura da colega em nada se comparava com a sua: tinha apenas um e sessenta e cinco.
— Quer tomar o café? – perguntou a moça novamente, enquanto olhava alguma notificação no celular. Provavelmente, a treinadora dela, Janaína.
Ela concordou com uma faceta de obviedade. Era claro que tomaria café, assim como o sol nascia todo dia.
Kyara concordou sem olhar pra ela, virando-se para andar pelo píer em direção ao seu caminho de volta para o hotel. Elisa seguiu ao seu lado, ambas caladas. A garota mantinha sua atenção no aparelho celular, digitando freneticamente algo e, vez ou outra, sorrindo de forma contida, como se alguém tivesse lhe contado algo muito engraçado, ou muito picante, que não a permitia rir de forma descontrolada perto da colega ao seu lado.
Colega.
Kyara, atualmente, era uma colega do time, mas antes eram muito mais que isso. Haviam sido amigas de infância até os quatorze anos. Eram inseparáveis, estudavam no mesmo colégio, moravam no mesmo bairro e faziam planos futuros sempre com uma incluindo a outra. O laço era profundo ao ponto de suas mães criarem um cronograma de quem dormia na casa de quem. Porém, sem a mínima razão ou motivo, no décimo quarto aniversário da garota que se mantinha ao seu lado, ela se isolou completamente. Iniciou um processo de distanciamento. Elisa achou que fosse algum tipo de coisa de adolescência, como irritação com o mundo, porém Kyara não cessou o comportamento. Primeiro, cortou as noites compartilhadas nas casas. Depois, diminuiu a quantidade de conversas e brincadeiras e, por último, qualquer contato na escola.
E quando, entre choros desconsolados, questionou o motivo da separação repentina, ela apenas deu de ombros, virando o rosto rosado e envergonhado, pedindo apenas um “me desculpa”, sem dar qualquer satisfação de sua recorrente ausência na vida de Elisa.
E após alguns meses, ela se mudou.
E Elisa teve que refazer seus ciclos de amizade. A garota tímida, que tinha uma amiga extrovertida que a incluía em tudo, agora tinha que se virar sozinha para ter uma migalha de interação social na sala.
Odiou mais que tudo seus últimos anos do ensino fundamental.
E seguiu odiando assim até o ensino médio, com poucos amigos, e apenas o esporte e sua irmã mais nova como companheiros de vida. Começou a correr aos quartorze, e manteve-se assim até os dias de hoje. Correr liberava sua cabeça da oficina que o diabo teimava em tentar manter.
Correr lhe dava paz.
Mas aí, aos dezenove anos, depois de um ano sabático, Elisa entrou em uma universidade pública no nordeste do país, e não sabia o que era mais espantoso: ela ter conseguido passar em música em uma universidade pública com a nota horrível dela, ou dar de cara com a sua ex amiga em uma calourada regada à álcool.
Naquele dia, o comitê esportivo havia reunido todos os universitários que se mantinham ativos para encontrar os calouros e apresentar os esportes e os centros acadêmicos. Kyara era uma veterana de engenharia naval. E, assim como na infância, ela se mantinha de forma extrovertida, rodeada pelos calouros e veteranos da universidade, do curso dela e de outros. Quando o presidente do comitê a apresentou aos calouros, ambas se cumprimentaram de forma cordial. Mas era tão estranho e incômodo dar de cara com sua ex amiga de infância, e ver que ela crescera muito mais do que antes era até ameaçador.
Ela parecia uma deusa. Sua altura e postura, com todos a rodeando e a adorando, fazia com que eles parecessem meros mortais próximos a algo tão perto dos deuses.
E era estranho ver que mesmo que estivessem no mesmo comitê, e que um ano se passara desde o primeiro encontro, ainda mantinham um afastamento intangível e sufocante. Às vezes, Elisa queria gritar com ela, lhe estapear o rosto com força, perguntar o motivo de seu afastamento sem parar, até que Kyara respondesse de forma objetiva e clara, mas mantinha os tapas e tudo apenas em pensamento. Se batesse nela, provavelmente seria expulsa do campus, e provavelmente seria espancada pelas fãs dela.
Um sorriso escapou de seu rosto ao pensar na possiblidade de levar bofetadas do fã clube de Kyara, e isso chamou sua atenção.
— Está tudo bem? – ela perguntou, lançando um olhar desconfiado. Dessa vez, a moça havia parado no calçadão, depois do longo caminho pelo píer. Ela se mantinha esperando o sinal ficar verde para atravessar a rua, o que a tirou do maldito devaneio do celular.
Elisa não respondeu, um pouco irritada pela cara de idiota da outra. Balançou a cabeça positivamente, ao tempo que atravessava a rua e a puxava pelo braço.
— O sinal já está verde – foi tudo o que disse enquanto praticamente a arrastava pelas ruas.
***
Estava começando a se arrepender amargamente de ter aceitado tomar café. Mantinha-se sentada e com os ombros encolhidos, enquanto tentava minimamente não ocupar espaço. A mesa estava cheia. Todos os times esportivos se mantinham ali, reunidos e encolhidos na mesa para que todos pudessem caber e conversar de forma amigável e eufórica.
Mas Elisa não era eufórica, tampouco amigável.
Respondia tudo de forma bem monossilábica. Só queria tomar café!
Analisava todas as guloseimas presentes na mesa, claramente sabendo que teria que treinar o dobro no dia seguinte, e logo mediou sua consciência a não se entupir de comida. Seu olhar pairou exatamente em um sanduíche de queijo, tomates secos e orégano, e pensou no quanto aquela combinação seria mais que perfeita com seu café com leite quentinho. O único, o esquecido, o desejado se mantinha ali apenas para ela. Salivou, estendendo um pouco o tronco para logo esticar o braço na tentativa de pegá-lo.
Tentativa.
Augusto, um dos garotos do time de futebol, esticou-se o mais rápido que pôde quando a viu tentar capturar o sanduíche. Ele soltou uma risada debochada ao ver a face irritada de Elisa para ele.
— Foi mal, hein! – debochou enquanto mordia o sanduíche. Ninguém notava aquela situação incômoda, porque não era importante prestar atenção em dois imbecis querendo o mesmo sanduíche. – Quem sabe da próxima, né, gatinha? Mas se quiser, podemos dividir – disse ele, ao tempo que mordia e dava lambidas generosas no pão de forma a babá-lo todo.
— Que morra engasgado – cuspiu as palavras para ele, que a fitou irritado.
Suspirou derrotada. Aquilo ali era o inferno, e não tinha ninguém para se esconder. Grande parte da sua equipe não estava ali, e os que estavam, se mantinham apertados entre pessoas desconhecidas. Nem sua irmã, do time de canoagem, estava ali. Provavelmente estava em algum local que ela considerava legal – boates, pizzarias, e sabe-se-lá-o-quê.
Espalmou as mãos sobre o rosto, sentindo um calor. Estava irritada, e a pontada atrás dos olhos lhe dizia que ia ter uma enxaqueca demoníaca. Por que havia aceitado o café da treinadora? Porque achava que apenas algumas pessoas do time de corrida estaria ali. Mas, pelo visto, os que deveriam estar no local estavam fazendo o mesmo que Louise, sua irmã: dando um chá de sumiço.
Já estressada, se levantou, espalmando as mãos na mesa para se apoiar, e logo uma mão tocou delicadamente em seu ombro, fazendo com que se sentasse novamente.
— Aqui, toma – disse enquanto entregava um sanduíche de queijo e tomate seco para Elisa. – Tome seu café antes de ir.
E Kyara saiu como se nada tivesse acontecido, rodeando a mesa e se juntando novamente a um grupo de moças que conversava euforicamente. Ela era todo sorriso, e seus olhos se fecharam quando uma das moças da mesa lhe rodeou com os braços, em um abraço caloroso.
Ela estava observando os dois esse tempo todo?
Elisa comeu o sanduíche silenciosamente, contente com a pitada de gentileza de sua colega de comitê. A fitou por um tempo, na tentativa de acenar com a cabeça em um agradecimento, mas Kyara não a olhou em nenhum momento, como se aquilo fosse um ato natural, que faria por qualquer um.
Após tomar seu café, se levantou e pôs-se a andar de volta para o seu quarto compartilhado. Queria tomar um banho, e se questionou se alguma das meninas estaria no quarto ou no banheiro. Tirou o celular do bolso para ver a hora. “São 19h45. Espero que estejam naquela maldita barulheira do restaurante do hotel”. Odiava ter que esperar mais de uma hora para tomar banho. Compartilhava o quarto com duas moças, e as duas eram do time de natação, assim como Kyara. Elas demoravam tanto no banheiro, que tinha vontade de questionar se algum laxante as ajudaria a sair mais rápido.
Chegou tão rápido, e logo se arrependeu ao andar com pressa: havia esquecido o cartão de acesso do quarto. Deu um tapa na própria testa, como um aviso para que não esquecesse na próxima. Bateu na porta, esperando que uma das moças que compartilhava o quarto atendesse, mas não havia barulho, e tampouco a porta sendo aberta.
Bufou em irritação, retornando pela escada de emergência, para não ter que aguardar o maldito elevador. Havia apenas um elevador social no hotel, com quantidade mínima de três pessoas. Sempre que pedia o elevador, havia ao menos umas sete pessoas entupidas no transporte. Preferia mil vezes suar pelas escadas a ter que ficar presa em um local claustrofóbico com pessoas a pressionando.
A descida foi rápida porque seu quarto era no segundo andar.
— Pode me dar o cartão do 207, por favor? – pediu ao recepcionista, que sorriu pra ela e concordou com a cabeça. Ele se virou e retirou o cartão do suporte.
— Prontinho. Carregado! Não esquece de voltar amanhã antes do meio dia pra recarregar novamente, hein? – disse ele de forma divertida, lembrando-se do segundo dia dela, em que ela ficara um bom tempo tentando usar o cartão de acesso no quarto, mas ele não havia sido liberado.
Agradeceu, assentindo, para logo se colocar de volta a escada de emergência. Ao chegar no primeiro andar, a porta de emergência foi aberta, lhe dando um susto que quase a fez jogar o cartão longe. Uma das meninas que julgou ser da equipe de natação apareceu, meio assustada também.
— Me desculpa! Não tinha a intenção de te assustar. O maldito elevador sobe e desce cheio, então não tive outra escolha a não ser pegar as escadas – justificou-se ela.
— Estou fazendo o mesmo – confessou, e a moça sorriu.
— Qual o seu andar? – questionou ela, subindo os degraus atrás de Elisa. – Tenho que subir até o sexto – lamentou.
Elisa sorriu de forma gentil.
— Meu andar é o segundo – completou, ao apontar para a placa, mostrando que já estava no local desejado. – Boa sorte.
Um olhar derrotado passou pelo rosto da estranha, como se lamentasse não ter companhia para andar até o sexto, e isso fez com que Elisa sorrisse em compreensão.
— Espera! – pediu a estranha, tocando levemente em seu braço. – Estou andando pro sexto pra avisar sobre a festa na praia hoje, às vinte e duas. Espero que você vá – falou, para logo continuar sua subida sem esperar uma resposta. – Ah! Meu nome é Beatriz! – soltou uns andares acima, sem se importar de aguardar a outra ser apresentada.
E Elisa seguiu para o seu quarto, revirando os olhos ao perceber que, ao abrir a porta, uma das meninas já se encontrava no quarto deitada, assistindo alguma bobeira no celular.
— Sua irmã apareceu aqui, a... Louise! – disse a moça tentando se lembrar do nome após cumprimentá-la. – Ela disse que era urgente.
E antes que Elisa sequer pensasse em pegar a toalha, rumou para o quarto andar. Ao chegar lá, bateu enlouquecidamente na porta da irmã dois anos mais nova, que abriu tão rapidamente quanto a velocidade das batidas.
Louise a puxou para dentro do quarto em brusquidão, como se algo horrível tivesse acontecido, e Elisa engoliu em seco.
— Comprei algumas roupas pra você – disse Louise com a voz aguda e eufórica. – Vai tomar banho, que vamos na festa de hoje!
***
Se tinha algo que Elisa odiava mais que tudo, era se sentir responsável por aquele ser irritante que dividia a mesma mãe e pai que ela. Louise, agora junto de todas as moças que compartilhava o quarto com ela, conversava animadamente enquanto escolhia qual batom iria usar. A mais velha olhava tudo atentamente, em um misto de raiva e desprezo.
— Se anima, irmã. Hoje pode ser o dia que você desencalha. Vai que você transa!
E um suspiro irritado passou pela sua boca. Sua vida sexual era uma piada para a irmã mais nova, e odiava quando ela começava as piadas sem graça. A verdade é que Elisa não se sentia à vontade com ninguém, nem mesmo com seu ex-namorado, que não havia conseguido o que queria, mesmo que tivessem namorado por dois anos.
“Odeio todo mundo por igual”.
— Você já transa por mim e por todos aqui nesse quarto – debochou, e ela apenas deu de ombros, sorrindo quando uma das meninas lhe deu um tapa no braço.
“E só tem dezoito anos”, pensou. Era assustador pensar que sua irmã mais nova já tinha quase zerado as posições da cama sutra. Tentou não pensar muito nisso ou vomitaria. Só estava indo para a festa para não a deixar só. Apesar de ser uma safada, ela ainda era sua irmã mais nova.
Sair do hotel foi mais fácil. As meninas se reuniam, embolando os braços um nos outros, andando como uma pequena corrente. Uma das meninas a tomou pelos braços e fez o mesmo, sorrindo de forma gentil. Apesar de não gostar de socializar muito com as amigas da irmã, era inegável o quanto eram gentis e agradáveis. Isso era o suficiente para confiar que as amigas eram mais conscientes que a cabeça oca da sua irmã.
Andaram por alguns minutos até chegar na praia em que o grande evento havia sido marcado, e só de pisar naquela festa já estava tomando toda a sua vitalidade. Toda a equipe esportiva se encontrava nas areias da praia. Alguns haviam improvisado um campo para jogar vôlei, enquanto outros se mantinham em rodas de conversas e bebedeira. Elisa viu a irmã se jogar em um dos garotos de uma das rodas, que provavelmente era seu namorado da noite, enquanto bebia no mesmo copo que o dele. As meninas se juntaram à ela em uma roda ao redor de uma fogueira para papear.
“Pelo menos não vai ser dopada”, pensou enquanto observava a irmã de longe, compartilhando a bebida com o garoto que sorria de forma charmosa.
De pé, observou todo o movimento de forma desinteressada. Aquele não era seu ambiente, e se sentia plenamente desconfortável ali, sem ninguém para conversar. Rodeou todo o ambiente à procura de alguém da equipe de corrida, mas não os havia visto. Não acreditava que seus colegas haviam a abandonado com a treinadora.
Procurou algum local para sentar, e viu um toco de madeira jogado, afastado do local, e correu para tomá-lo para si. Apesar de estar na casa dos vinte, era notável a falta de vitalidade jovial de Elisa. Quase uma velha em corpo jovem. Corrida era provavelmente a única coisa ativa que gostava de fazer.
— Você devia se juntar aos outros para cantar. Tem uma roda de violão mais para lá.
E a mesma voz da manhã lhe assustara novamente.
— Puta merda, Kyara! Para de ficar vagando igual um fantasma pra lá e pra cá – respondeu com as mãos no peito, verificando se a leve arritmia havia passado. Hoje era o dia em que havia tomado mais sustos do que na sua vinda inteira.
Ela riu de forma incontida, tomando um espaço do toco de madeira para se sentar ao seu lado. Não sabia o que aquilo significava.
— Por que não está junto deles? – perguntou Elisa, meio desconfiada da repentina interação.
Kyara sorriu de forma genuína.
— Estou um pouco cansada da barulheira – confessou. – E além disso, a maioria deles já está meio tombado.
Bêbados. Imaginou que algum deles podia já estar fazendo alguma cena. Elisa arqueou a sobrancelha.
— E vai dizer que já bebeu o suficiente? Sempre vi você nestas festas regadas à álcool – debochou.
Ela sorriu novamente, e dessa vez com os olhos.
— Mas não me viu bebendo – respondeu ela, e aquela constatação a espantou.
Era realmente um fato. Nunca havia visto ela beber em nenhuma das festas. Ela socializava sempre, às vezes com um copo de bebida na mão, mas sem tomar um gole sequer dele. E sempre que bebia algo, era uma garrafa d’água lacrada.
— Você não bebe?
Ela negou com a cabeça. Os joelhos se mantinham dobrados demais, que ela quase podia encostar o rosto entre eles. Ela se encontrava em uma posição engraçada.
— Até eu bebo – confessou, e era verdade. Havia dias em que apenas o álcool podia anestesiar algumas dores, mas no outro dia sempre se arrependia. Era muito fraca para beber – Por que você não bebe?
Ela fitou Elisa de forma séria, como se analisasse cada parte do seu rosto, mas logo sua feição se suavizou em um sorriso.
— Eu nunca provei – revelou, e aquilo a surpreendeu. Todos tinham vícios, porque era muito difícil aguentar o mundo sem o mínimo para te anestesiar em momentos ruins. Qual era o dela? – E nem quero. Não acho que seja necessário beber para se divertir. E sinceramente? Prefiro cometer meus erros de forma lúcida a ter que jogar a culpa na bebida – declarou ela, um pouco irritada.
Assentiu com a cabeça, concordando com o discurso da colega, mesmo que não entendesse o que ela queria dizer. Um silêncio se acomodou entre elas, mas nada desconfortável.
— Você não está com frio? – questionou ela ao sentir a brisa do mar bater em seu rosto. Ela se encontrava bem despojada. A colega vestia um casaco azul do time de natação de zíper aberto. Por dentro, usava uma camisa branca simples. A calça de moletom azul escuro fazia parte do conjunto do casaco. Nos pés, não havia nada.
Negou com a cabeça.
— Você?
Ela sorriu novamente de forma genuína, negando com a cabeça.
E ambas continuaram visualizando pontos aleatórios para que não se fitassem. De forma rápida e delicada, Kyara tocou em seus dedos que se encontravam descansando ao seu lado. Os dedos gelados e pálidos logo repousaram sobre o próprio colo assim que a atenção de Elisa fora atraída, como se um choque tivesse tomado o corpo da mais alta. A colega tinha uma faceta séria e carrancuda.
— Elisa, eu...
E foi interrompida quando a estranha do time de natação de mais cedo, Beatriz, chegou próximo à Kyara, tomando-a pela mão e a puxando.
— Oi, estranha! – cumprimentou a moça em um tom animado e jovial. – Vou tomar ela de você rapidinho. Vem, Kyara! O time de natação quer fazer uma competição.
E Kyara saiu, com uma faceta envergonhada e um pedido de desculpas silencioso.
***
Elisa não se importou em assistir à competição. Se levantou, tirando a areia da saia que vestia com pequenas batidas na região das nádegas. Espreguiçou-se vagarosamente, e pôs-se a andar na direção contrária ao que seus colegas de universidade se encontravam. Suas mãos seguravam o cropped que usava na tentativa de mantê-lo junto ao corpo com o vento avassalador. O clima estava maravilhosamente fresco. Enquanto caminhava bem próximo à água, sentia sua sandália afundar na areia úmida e fofa, e aquilo lhe fez sorrir, para logo se abaixar para retirar o calçado e segurá-lo entre os dedos. Já se encontrava bem longe, e já era impossível distinguir quem era quem naquela festa, pois pareciam todos como pequenas formigas transitando para lá e para cá.
A corredora se aproximou mais do mar, e agora seus pés eram molhados pelas águas, em um vai e vem confortável e gelado. Suspirou, fechando os olhos para se concentrar na sensação de paz. Não havia ninguém ali para perturbar o seu sossego: só ela, a areia e o mar.
Pensou o que Kyara queria dizer, se a colega de natação dela não a tivesse interrompido. Mas o que seria? A única pergunta feita era se ela tinha frio, e o jeito sério que chamara seu nome, como uma súplica. O olhar também não era o mesmo. Ela mantinha uma faceta séria, o que era um pouco incomum para ela, que se mostrava sempre tão divertida.
Sentiu raiva. Era tão estranho que de um momento para o outro, ela decidira ser mais legal que o comum com ela. Elisa e Kyara haviam determinado indiretamente, mas em igual consenso, uma linha que não podiam atravessar. Conversavam coisas relacionadas aos centros acadêmicos, comitês e necessidades das equipes esportivas, mas nada mais. Nunca se ofender, mas nunca, nunca, ser tão gentil ao ponto de fazer aqueles sentimentos escondidos voltarem, lhe rasgando o peito como uma faca afiada.
Ela parecia saber quando aparecer. Talvez Kyara fosse como aquela coceira no pé: aparecia repentinamente, e não era possível se livrar, apenas quando ela quisesse sumir. Enquanto isso, você ficava sofrendo com a sensação de que algo te atacava, mas sem conseguir alcançar.
Como um fantasma, talvez.
Uma mão gelada tocou em seu braço, tirando-a da divagação, e Elisa sorriu em puro deboche e irritação, imaginando quem era.
— Você tem que parar de ser sorrateira desse jeito! Dessa vez você não... – e sua voz fora perdida ao se virar e abrir os olhos, se deparando com um completo estranho tomando seu braço.
Um arrepio tomou seu corpo.
— Boa noite, moça bonita – cumprimentou ele, ainda segurando seu braço. O tom jocoso lhe arrepiou a espinha.
Um nó se formou em sua garganta, e enquanto procurava qualquer pessoa presente na praia para ajudá-la, respondia um “boa noite” bem baixinho, sem forças.
Olhar para todas as direções não a estavam ajudando, porque não havia ninguém, e se amaldiçoou por isso, porque aquele havia sido exatamente o motivo de ter andado para longe: porque não haveria ninguém para perturbá-la. Mas a burrice humana precede a lucidez. Aos olhos de qualquer cara, era uma presa fácil, andando para lá e pra cá.
Ele pressionou ainda mais o seu braço, puxando-a para diminuir a distância que Elisa queria manter.
— Você quer namorar comigo? – perguntou ele, mais próximo, e Elisa sentiu o cheiro de álcool exalando dele, que cambaleava vez ou outra quando ondas se batiam contra sua perna. Flashes passaram pela sua cabeça, que entravam em conflito para lhe mostrar as cenas mais traumáticas da sua vida.
Não, não, não. De novo não.
Estava com medo. Pelos deuses, como estava com medo. Tinha uma sensação de febre, e seu corpo estava paralisado pelo pavor de pensar que aquele homem estava tomando seu braço como se fosse seu, e que provavelmente desejava tomar muito mais do que o espaço entre eles.
De novo não.
— Solte o meu braço, por favor – sussurrou em um pedido fraco. Fitava o chão para não ver o rosto dele e nem sentir seu cheiro enjoativo. Percebeu que ele estava sem camisa e sem calçados, apenas com uma bermuda frouxa que, pela altura em que se encontrava no quadril, revelava que não usava roupa íntima também.
— Me solta, por favor – pediu novamente, dessa vez um pouco mais forte.
Mas ele não respondeu. Ao invés disso, ele a puxou para mais perto e forçou um beijo em sua boca que a pegou de surpresa e a deixou em choque por alguns segundos. Dessa vez, ele segurava um dos seus braços, e o outro agarrava sua nuca. A mão que agarrava seu membro voou para um de seus seios por baixo do cropped que teimava em subir, e uma onda de adrenalina tomou o corpo de Elisa, que o empurrou com toda a força que tinha naquele momento. Ambos caíram no chão com o empurrão, e tudo o que a moça pudera fazer foi ficar com uma das mãos na boca, enquanto se tremia de medo na areia molhada.
Ele se levantou em um único supetão, sorrindo como louco, antes de remover com facilidade a bermuda que utilizava. Nu, começou a estimular o pênis já ereto.
— Já quer ficar deitada? – questionou ele de forma zombeteira ao notar seu choque. – Eu vou ser gentil.
Eu vou ser gentil. Aquelas palavras corriam pela sua cabeça, trazendo de forma vívida os traumas do seu passado.
E ele correu para alcançá-la. A única reação que Elisa teve foi a de correr em direção ao mar escuro e gelado o mais rápido que podia, tropeçando nos próprios pés em puro terror e desespero. Jogou-se no mar como um filho desesperado por um abraço da mãe, e quase esqueceu como se nadava. Ele ainda se encontrava atrás dela, e sentiu o dedo dele esfregar nas suas costas, em uma tentativa mal sucedida de puxá-la de volta para a terra. Balançou os braços o mais rápido que podia, em um nado desastrado e mal coordenado, sentindo as ondas baterem contra sua face que expressava pavor. Nadava em direção ao horizonte, enquanto ainda escutava braçadas atrás de si, e pensou que morreria afogada, mas ele também.
Não era uma má nadadora, mas naquele momento, mal lembrava sequer como boiar ou mexer as pernas. Já estavam na região mais funda, e o sentimento de perdição lhe tomava o peito, assim como a água que engolia vez ou outra com a força das ondas que lhe esbofeteavam a cara.
— Você vai morrer se continuar nadando pro nada – gritou o homem atrás dela, ainda era possível sentir o divertimento em sua voz. Diferente dela, ele nadava de forma serena, mesmo que parecesse bêbado. Aquilo a aterrorizou mais ainda.
Elisa olhava para a imensidão escura à sua frente sem saber o que fazer. Se continuasse nadando, morreria afogada por cansaço ou pelas ondas fortes que já tentavam abatê-la e afundá-la. Se desistisse, não queria saber o que aquele homem faria com ela.
Não conseguia chorar, mas se pudesse o faria. Nem o frio congelante da água tomavam para ela algum sentimento. Estava entorpecida.
Parou, batendo com os pés e virando-se para ele, que manteve uma mínima distância, para logo avançar sobre ela. Ele a agarrou, e Elisa iniciou um confronto com ele na água, que os levou para baixo e os fez continuar o conflito debaixo d’água. Ele a puxava para baixo na tentativa de fazê-la desistir da luta, enquanto ela tentava chutá-lo e se desvencilhar dele, mas cada golpe lhe tirava uma parte do oxigênio que tentava manter de forma miserável.
Sentiu a dor na garganta, uma queimação, como se aquela angústia lhe avisasse que morreria em pouco tempo.
E, com o último suspiro de oxigênio se dissipando, desistiu, deixando que seus braços flutuassem com as ondas do mar. O homem a puxou para cima, e ambos tossiram descontroladamente.
E foi tudo tão rápido que não conseguiu acompanhar.
No momento em que ele a agarrou para que a levasse de volta para terra firme, seu corpo fora puxado com violência para o fundo, fazendo com que Elisa tentasse compreender o que havia acontecido, mas mal conseguia pensar. Em um ato instintivo, a corredora afundou seu rosto sob a água para tentar ver algo no mar escura e apavorante e, por um momento, notou uma mão monstruosa em sua direção, que agarrou seu braço rapidamente.
— Não, por favor! – implorou ela, sentindo o puxão para o fundo do mar. – Por fa...
Um repentino beijo lhe tomou os lábios, mas tudo o que sentiu foi oxigênio entrando de forma delicada à sua boca, e uma paz invadiu seu ser, como se aquele toque fosse cheio de carinho e consolo. Como se aquele simples toque de lábios dissesse, pela primeira vez, que estaria bem.
“Se acalme”, pediu a voz em sua cabeça.
E, por um momento, pensou que sua consciência pedia que ela mantivesse o controle do seu corpo.
Mas uma faceta com maçãs do rosto avantajada e meio cinzenta a observava de forma ameaçadora, porém com um toque delicado em seu corpo.
Mesmo daquela forma, Elisa saberia quem era.
“Kyara!”
E não houve respostas. A garota a segurava pelo tronco em um abraço. Elisa se deixou ser levada em alta velocidade de volta para terra firme e, durante o trajeto, Kyara beijava-lhe os lábios na intenção de mantê-la com oxigênio.
As palavras que lhe pediam calma ainda tomavam sua mente, mas vez ou outra outras frases surgiam, e ela não sabia se Kyara havia tomado conta do seu fluxo de consciência ou se estava ficando louca.
Se bem que tudo ali era uma loucura.
Apesar de não precisar – sim, Elisa acreditava que precisava, pois suas pernas não estavam funcionando – Kyara a levou o mais próximo da terra firme. Colocou-a deitada de lado na terra para que Elisa pudesse cuspir todo o líquido consumido contra sua vontade, ambas com a cintura ainda afundada na água.
Visualizou rapidamente a forma. A pele branca agora era cinzenta. O rosto era um pouco esquelético, como se perdesse massa muscular, e a maçã do rosto era proeminente, como se houvesse um osso a mais ali. No rosto, havia algumas marcas que pareciam até desenhadas, como triângulos longos surgindo nas bochechas, assim como espirais na testa e linhas na área do maxilar. As orelhas não existiam, e no lugar parecia m ocupar pequenas barbatanas. O pescoço tinha guelras, assim como a região do tronco, que era manchada em um tom de cinza, quase esverdeado, com escamas grossas que pareciam cobrir as mamas e parte do abdômen. Não havia umbigo. Os dedos eram longos, com unhas enormes, e o membro não era separado por uma membrana que a lembrou um pé de pato. A membrana parecia fina, e era escura, da mesma forma que as manchas que tomavam seu corpo. As costas tinham barbatanas na região dorsal, e as cores eram de um tom rosado para o avermelhado. Tentou olhar para a região do abdômen e inferior, mas Kyara se arrastava pela areia e, lentamente, começou a adquirir a forma humana. Se não estivesse em choque, provavelmente estaria ruborizada. A morena mantinha os braços enterrados entre areia e água, se apoiando enquanto as pernas voltavam a funcionar.
Ela se levantou e, nua, correu em direção à terra firme para vestir as peças de roupas jogadas na areia – que acreditou que ela havia deixado lá. Ela vestiu o casaco e a calça de moletom tão rápido que imaginou que o tempo de mudança ocorreu antes de piscar. Sem qualquer preocupação, ela enterrou as pernas de volta na água, para ajudar Elisa a se levantar.
Ainda estava em choque.
- Você matou aquele homem! – foi tudo o que conseguiu dizer enquanto se debatia para tentar se desvencilhar dela.
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