— Hoje será um dia incrível, Miranda! Finalmente, meu irmão estará de volta. Estou tão animada! — disse Helis à sua dama de companhia.

— Não se mexa tanto, princesa. Assim, não conseguirei terminar de arrumá-la a tempo para a celebração desta noite — respondeu a jovem moça de aparência gentil, que não parecia ter mais de vinte anos. Seu rosto era arredondado, com o queixo levemente pontudo. Os olhos, delicados e ligeiramente angulosos, eram escuros, contrastando com sua pele cor de creme. Seus cabelos, também escuros, ostentavam uma única mecha branca e caíam quase até a altura dos ombros.

Ela penteava os longos cabelos castanhos com delicadeza, como se temesse ser mandada para o calabouço caso puxasse um único fio. Pegou uma porção do cabelo e a prendeu para trás com uma fita cor de lavanda, adicionando uma presilha em formato de lírio. Brincos, em forma de pequenos botões de rosa, pendiam sob as orelhas da jovem princesa.

Ao lado da cama, um elegante vestido descansava em um manequim: o corpete adornado com pequenos cristais de ametista, a saia em tom púrpura, volumosa como um bolo, era um modelo muito usado pelas jovens solteiras do reino. Como pavões, elegantes e exagerados, clamando por atenção.

— Acho melhor deixar para pôr o vestido mais próximo do horário da festa, assim evitamos um acidente como da outra vez — disse Miranda, com um leve sorriso.

— Acabamos, está livre, princesa.

— Obrigada, bela dama — respondeu Helis em tom de brincadeira, e fazendo uma reverência.

Miranda apenas sorriu diante da brincadeira da jovem princesa e se retirou do quarto.

Helis pegou uma caixinha de música feita de cristal. Apesar da tampa rachada, ela ainda era linda e delicada. Ao abrir, uma bailarina começou a dançar, e a melodia suave que se espalhou pelo quarto era tão reconfortante que a fez lembrar das tardes passadas na companhia de seu irmão, brincando entre as árvores dos jardins de sua mãe.

Ambos eram muito próximos, pois não precisavam passar pelo tratamento especial e rigoroso que o irmão mais velho, desde jovem, recebeu ao ser preparado para assumir o trono. Isso permitiu que uma relação mais íntima florescesse entre ela e seu irmão.

Mas, quando seus dons mágicos começaram a se manifestar, ele foi enviado para um lugar onde aprenderia com os melhores professores das terras do leste. A caixinha de música foi um presente enviado alguns meses depois de sua partida, como uma forma de mostrar seu progresso no aprendizado e demonstrar um truque que aprendera recentemente: enfeitiçar objetos. A pequenina bailarina de cristal dançava livremente, com movimentos que nem o melhor artesão conseguiria programar em uma simples caixinha movida a corda.

Guardado na pequena gaveta da caixa de música, havia um colar com um pingente em forma de borboleta. Ela o pegou e colocou, pois nunca saía do palácio sem ele.

Do lado de fora dos grandes muros do castelo, Helis apressou-se em direção ao campo de treino. Gostava de observar os novos e inexperientes soldados. Vê-los manusear as espadas de forma desajeitada e andar desengonçados com as pesadas peças de armadura era um de seus passatempos prediletos. Se até mesmo aqueles, tão desprovidos de “talento nato”, poderiam tornar-se valorosos cavaleiros reais, talvez ela própria também fosse capaz.

Sonhava com aventuras tão grandiosas quanto as que lia em seus livros. Almejava o calor e a adrenalina de empunhar uma espada, explorar ruínas antigas e matar bestas selvagens. Acima de tudo, queria provar para si mesma que poderia ser mais do que apenas uma peça em futuras alianças entre reinos. Mas ela era uma princesa, e seus pais jamais permitiriam que se arriscasse dessa maneira. Amavam-na demais para isso, e ela sabia disso.

Um outro motivo, além de se divertir assistindo aos tropeços e à falta de jeito dos novos recrutas com as armas, era tentar absorver, mesmo que minimamente, algum dos ensinamentos transmitidos pelo ex-general do exército, Citrius. Alto e robusto, com a pele cor de canela, ostentava algumas cicatrizes no dorso e no rosto. Seus olhos, negros como uma noite sem estrelas, traziam um semblante cansado, não pela idade, mas pelas inúmeras atrocidades que já presenciara. Seus feitos como general eram grandiosos, e sua reputação nos campos de batalha era amplamente conhecida. No entanto, sua última batalha, contra aqueles vindos das profundezas do abismo, lhe cobrou um preço alto demais. Sua esposa, que era a segunda em comando do batalhão, foi encurralada e brutalmente atacada por bestas voadoras. Tentando a todo custo ajudá-la, Citrius teve parte de seu braço arrancado e devorado por uma das criaturas.

Por ordem do rei, ele agora estava encarregado de moldar e treinar os futuros membros da guarda real do palácio. Tal decisão visava mantê-lo afastado de seu trauma. Uma decisão tomada por um rei, mas acima de tudo, por um amigo.

***

Um dos presentes mais úteis que Helis já havia recebido era seu colar de borboleta. Além de ser lindo, ele era encantado com uma aura de glamour, permitindo-lhe disfarçar-se e misturar-se na multidão. Camuflada como uma simples jovem, ela podia andar sem se preocupar com o assédio constante das pessoas se reverenciando e encarando-a. Com o colar, era apenas mais uma garota comum, como centenas de outras pelo reino.

Ao passar perto de uma fonte em tributo à Santa Mãe, ela notou uma multidão à distância, deslocando-se em direção às portas da muralha do palácio. Aproximou-se de um menino sentado à beira da fonte, com um cesto de maçãs recém-colhidas.

— Garoto, você sabe para onde essas pessoas estão indo com tanta pressa? — perguntou Helis.

— Estão indo ver o retorno do príncipe. Ainda há pouco, um homem a cavalo passou dizendo que a carruagem real foi vista se aproximando do reino — respondeu o pequeno, enquanto organizava as maçãs na cesta.

— Se a senhora se apressar, poderá vê-lo chegar.

— Obrigada — disse ela, entregando uma moeda de prata ao garoto, que retribuiu com uma de suas maçãs e um grande sorriso.

Helis se apressou, desejando chegar o mais rápido possível ao palácio. Esperava por esse momento há tanto tempo. Já fazia anos que seu irmão havia partido, e agora, finalmente, ele estava de volta.

***

Toda a sua pressa havia sido recompensada; conseguiu chegar momentos antes de a carruagem estacionar por completo. A multidão ali presente segurava flores de gerânio, que perfumavam o ar de forma gentil, com toques leves de um aroma semelhante a menta e rosas. Tantas pessoas se mostravam ansiosas, perguntando como estaria o príncipe depois de todos esses anos distante; era apenas um garoto quando partiu do reino.

O cocheiro desceu de seu assento e enfim abriu a porta. Um jovem rapaz, com um semblante alegre e gentil, desceu da carruagem. Seus cabelos curtos, levemente ondulados e acastanhados reluziam sob o sol, e em seu rosto, um pequeno sinal próximo ao olho direito lhe conferia um charme à parte. Havia mudado, mas não o bastante para não ser reconhecido; agora, ali parado diante de todos, não era mais o garoto de que todos se lembravam, era um homem, o príncipe de Hosendell, Hugo, seu amado irmão.

O jovem acenou de maneira gentil para todas as pessoas presentes, um sorriso caloroso estampando seu rosto, feliz por finalmente retornar. Mudando sua atenção para a carruagem, a jovem notou uma silhueta de alguém sentado em seu interior. A figura se moveu para mais próxima da janela, e os raios de sol a revelaram. Era um rapaz de cabelos pretos, quase perfeitamente alinhados, exceto por algumas mechas que pendiam sobre seu rosto, como uma franja. Seus olhos eram de um verde tão vibrante e exuberante que a hipnotizava; era quase impossível desviar o olhar. Possuía um pouco de barba apenas em seu queixo, o que lhe conferia um ar despojado, contrastando com sua pele clara. Era tudo o que ela conseguia observar através da pequena janela.

Quando finalmente conseguiu se libertar do transe, apressou-se para chegar às portas do palácio, onde seus pais e também seu irmão mais velho a aguardavam. Removeu o colar e o escondeu ao fechar os punhos. Ao se aproximar da pequena comitiva de boas-vindas, entregou discretamente a joia para Miranda, que a guardou em um dos bolsos de seu vestido.

Sua mãe, a rainha, a olhou com um olhar repreendedor. Ela estava elegante, como sempre. Usava um longo vestido em tons de azul e verde, e uma capa de tecidos leves cobria seus ombros. Seu longo cabelo castanho estava preso em um coque alto, adornado por sua coroa e delicadas correntes de joias.

— Onde você estava? — perguntou sua mãe em um tom de voz baixo.

— Estava dando uma volta pelos jardins e me perdi no tempo — respondeu Helis discretamente.

— Sempre tão responsável — disse Hilius, com um tom de desdém.

A jovem apenas franziu os lábios. Não se importava com as provocações de seu irmão mais velho.

A carruagem finalmente chegou. O príncipe apressou-se para descer; já haviam se passado quatro anos desde a última vez que todos estiveram reunidos. Correu e deu um forte abraço em sua mãe e em seu pai. Cumprimentou seu irmão com um aperto de mão, ambos se encararam por um instante e, então, sorriram e deram um forte abraço.

Quando chegou a vez de sua irmã, a abraçou e a ergueu do chão, rodando-a no ar.

— É tão bom estar de volta, senti tantas saudades de todos vocês — disse o príncipe com lágrimas nos olhos.

— É ótimo ter você de volta, meu querido. Olha como você cresceu — Sua mãe acariciou, com leveza, o rosto de seu filho.

— Vamos todos entrar. Ordenei aos empregados que preparassem um banquete para o seu retorno — disse o rei, já se virando para os portões.

— Espere, não venho sozinho; trago um convidado, alguém muito especial — disse Hugo, olhando para a porta da carruagem que ainda estava aberta.

O rapaz misterioso desceu e parou ao lado de Hugo. Agora completamente sob a luz, era possível vê-lo por completo. Usava uma camisa vermelha, não totalmente abotoada, com mangas que se estendiam até a metade de seu antebraço. Um colete preto e devidamente fechado vinha por cima, calças escuras e acinzentadas, e longas botas de couro preto completavam suas vestimentas.

O jovem parecia receoso por estar ali. Manteve-se mais atrás do príncipe, quase como se quisesse se camuflar.

— Gostaria de lhes apresentar Dante. Nós nos conhecemos há cerca de um ano. Ele me ajudou com um problema envolvendo vinhas venenosas e meu professor — disse o recém-chegado príncipe.

— Na verdade, foi o filho dos senhores que me ajudou primeiro — disse Dante.

— Como assim?

— Ele me salvou de uma tribo de bárbaros que queriam tomar-me como um escravo.

— Que coisa horrível — disse a jovem princesa.

— Nos atacaram de surpresa e atearam fogo em vários pontos da floresta. Eu consegui escapar, mas meus irmãos…

— Sinto muito, querido — compadeceu-se a rainha. — Você é mais que bem-vindo em nossas terras para ficar o quanto quiser.

Dante sorriu em agradecimento à gentileza da monarca.

— Os tempos estão difíceis, há muitos bandidos, bárbaros e saqueadores vindos de terras distantes. — O rei franziu a testa.

— E ainda há os ataques dessas criaturas que estão se tornando cada vez mais frequentes, destruindo tudo o que encontram. Aproveitam-se das sombras do anoitecer para rastejar livremente. — Completou o mesmo, cerrando os punhos.

— Se ela ainda estivesse lá, brilhando sobre nós… — disse o rapaz, com um leve pesar em sua voz.

— Depois que a Donzela Branca nos abandonou, tudo se tornou mais difícil. Infelizmente, é impossível manter Sentinelas em todos os lugares para repelir esses monstros — falou o rei, levemente exaltado.

— A viagem deve ter sido cansativa para nosso filho e seu amigo, querido. Não vamos pensar em problemas, ao menos por hoje — ponderou a rainha, sabendo que tal assunto era motivo de grande estresse para seu marido.

— Tem razão, minha flor. Vocês devem estar cansados da viagem. Mate as saudades de casa, descansem um pouco e nos veremos mais tarde para o jantar — disse o rei Terius, recobrando a calma e sorrindo.

Notas finais
Obrigado por ler ʕ•́ᴥ•̀ʔっ