A Cruz de Cada Dia
1 I - Encontros No Outono
Notas iniciais
Prólogo – Foragida...
O vento congelante daquele outono cortava a minha pele, fazendo com que ficasse vermelha. Uma dor percorria meu corpo, como se milhares de adagas fossem jogadas sobre ele. Eu corria pelo vale, mas àquela altura da noite não enxergava o lago negro à minha frente. Sabia que ele estava lá, a alguns passos de mim, somente por intuição. Desde pequenina andava por aqueles montes, caminhando com a brisa.
Lágrimas desprenderam-se de meus cílios, caindo sem permissão por meus longos cabelos de um dourado forte, quase ruivo. Eu fugia. Queria deixar para trás aquele lugar amaldiçoado que um dia chamei de lar. Não olhava por sobre meus ombros, pois agora não tinha mais medo de meu destino. O som de vozes ao longe contrastava com minha respiração forte e irregular, e sabia que estava sendo seguida, mas eu era mais rápida.
Cheguei até o penhasco com minhas pernas tremendo — se de frio ou de terror, até hoje não sei. Tentei mirar os pequenos rochedos abaixo de mim, mas as brumas do fim da noite embaçavam meus olhos. A queda não era grande o suficiente para causar uma morte, eu sabia disso, pois muitas vezes já me jogara dela, por pura diversão. Caia na água inteira, sem nem um corte sequer. Preparei-me para o salto, enquanto ouvia o murmúrio dos soldados da minha família chegar mais perto. Eles logo estariam lá, e me prenderiam com a mesma facilidade que um falcão caça um rato. Agora eu estava pronta. Prendi a respiração o máximo que pude, fazendo meus pulmões doerem com o ar seco.
Quando retornei à superfície segurei o desejo enorme que tinha de gritar. Seria um brado de alívio; sim, eu estava livre! Mas, quando tentei nadar ao longe procurando me distanciar o quanto podia das rochas, percebi que algo de muito errado acontecia com minha perna esquerda. Não conseguia fazê-la responder aos meus comandos, e logo fiquei desesperada. Nadava freneticamente com os braços, e quando passei a mão na perna, percebi que havia um líquido mais denso que a água. Levei os dedos até o nariz e descobri: era, na verdade, meu próprio sangue, que agora manchava em forma de um círculo toda a superfície ao meu redor. Não poderia voltar, nem gritar por socorro. Eu preferiria morrer naquele instante, ao menos sabendo que levei minha alma ao extremo por liberdade, pois naquele lugar eu era uma prisioneira, sempre havia sido. Meus músculos reclamavam do cansaço e da sobrecarga que haviam sofrido, e senti que minha perna nunca mais seria a mesma. Meus ossos pareciam ter sido quebrados ao meio, e com um rosnado, percebi que o sangue não parava de sair.
Fechei os olhos, esperando por uma intervenção divina, pois quem sabe a Providência me perdoasse por aquela ousadia juvenil, ainda mais para proteger minha dignidade. Tentei imaginar a paz que nunca tive; a luz do túnel que muitos haviam falado que existia, mas nada disso apareceu. Mexi com fervor os braços quando vi o que parecia ser um tronco grande de árvore boiar alguns metros de mim. Agarrei-me a ele, como alguém segura sua única garrafa de água no deserto; como a última esperança. Duas vozes me tiraram do estupor e quebraram o silêncio agourento.
“Não consigo enxergar nada! Maldita neblina.”
“Será que ela sobreviveu?”
“Possivelmente, não. Mas se está viva, logo, logo morrerá de hipotermia ou cansaço”.
“Devemos salvá-la. Sir Bertoli nos matará se não voltarmos com a jovem”.
“É impossível descer lá agora.”
“E o que devemos fazer?”
“Esperar... Se ela for esperta e tiver medo da morte, vai nadar de volta até a margem. Amanhã desceremos pelas pedras e a prendemos.”
Meus ouvidos zumbiram, como se um enxame de abelhas habitasse neles. Não ouvia mais nada, e lentamente meus pensamentos foram ficando cada vez mais esparsos, todos fora de ordem e sem sentido. Eu estava perdendo a consciência, jogada para lá e para cá com o movimento da água.
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Capítulo I – Encontros no outono
— Irmão Benedito, aonde vais? – perguntou-me surpreso o monge Franchesco – um homem baixinho com olhos muito pequenos para o tamanho do seu rosto ovalado.
— Caminhar perto do lago, se me der permissão, signore – titubeei eu. Na verdade, nós estávamos no mesmo nível hierárquico, mas por educação e respeito, nós, beneditinos, tratávamos uns aos outros com extrema educação e cordialidade. Lá não se aceitava arrogância, e eu bem entendia as regras.
— Mas nem terminou seu desjejum – repreendeu-me ele paternalmente.
— Estou acostumado a fazer passeios de manhã. Jejuando eu aprecio mais humildemente a natureza que Nosso Senhor criou para nós tão perfeitamente, e consigo me concentrar mais nas orações.
— Entendo... Se for assim, então vá, bom menino. Reze para todos nós, pecadores arrependidos – E assim, irmão Franchesco saiu andando, movimentando quase imperceptivelmente os lábios, provavelmente rezando o seu terço matinal... E sumiu de meu campo de visão.
Eu segui o seu exemplo e logo me vi fora do mosteiro, cujo patrono de nossa ordem era São Bento. Estava feliz lá, na verdade, nunca me imaginara vivendo outra vida. Desde a mais terna idade, assim como contava minha mãe, sempre tive vocação para ser religioso, e nesse dia de outono, tudo parecia estar no seu devido lugar. Atravessei a enorme ponte de pedra que separava nosso humilde mosteiro do restante da vila, e fui recebido por um halo de luz dourada tremeluzindo em meu rosto magro. Minhas pernas se alegraram pelo novo esforço da caminhada de alguns quilômetros, já que estavam agora mal acostumadas com o confinamento no pequeno ambiente religioso. Eu sorri, assim como a natureza me dando as boas vindas para apreciá-la.
As casas – se é que poderiam se chamar assim -, eram feitas rudimentarmente, com palha e pedras que os próprios camponeses achavam na região. Todos, embora pobres, lutavam ao máximo para sobreviver, porém apenas alguns utilizavam de meios ilícitos para garantir sua felicidade. Roubava-se na feira, e os bordéis, lotados com a gente mais duvidosa, estavam sempre em horríveis condições. Tudo lá cheirava a mofo e a putrefação. Eles trabalhavam duramente no campo para estocarem alimentos para o rigoroso inverno que se aproximava. A minha consciência muitas vezes pesava, ao saber que tantas famílias, quantos filhos de desafortunados passavam fome e congelavam, enquanto nós estávamos comendo uma das melhores carnes de caça no Natal, vindas direto do castelo de nosso senhor feudal, o rigoroso e temido Felippo de la Costelle.
De repente, um rugido na estrada perto do moinho me tira de meus devaneios de moral.
— Você disse que ia me pagar, seu bastardo! – berrou o homem mais baixo.
— Eu sei, Matiele, mas os negócios não foram bons na Ponte Belle. Eles saquearam todo o estoque quando nossas tropas estavam passando por lá... – o outro, que era, na verdade, um homenzarrão, parecia se encolher inutilmente perante o menor, com um medo incrivelmente respeitoso. Ele parecia não ter consciência da enorme diferença de tamanho entre os dois, e que, com um simples golpe, escaparia das garras do baixinho. A cena seria no mínimo engraçada, se o outro não o tivesse cortado na sua terrível explicação e olhasse de soslaio para mim.
— Mas, é claro! Seu idiota! Acredita mesmo que essa história vai lhe livrar de sua dívida? – seu olhar era de uma serpente pronta para dar o seu bote fatal. Matiele pegou com uma simples mão poderosa a gola da blusa do outro, e parecia ter uma força descomunal ao encará-lo e apertar ainda mais o pescoço do homenzarrão.
— É a verdade. Juro! – balbuciou ele, quase sem voz.
— Todos juram, meu caro! – Matiele soltou uma risada repentina e seca.
— Mas é verdade... Acredite em mim. Por que mentiria se sei que estou te devendo? Não sou tolo a ponto de arriscar a minha vida por algo tão banal quanto armas! – gritou ele.
— Calado, Bertório!
Os dois, ao perceberem que eu estava mais perto dessa vez, e ao verem minhas vestes, olharam repreensivamente para mim. Logo peguei outra trilha para seguir meu caminho, até o lago, sem nem ao menos dar uma olhadela para trás.
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Valente...
Durante todo aquele fim de noite e início de madrugada, lutei arduamente tentando nadar até à outra margem. Apenas uma de minhas pernas funcionava, e meus braços já estavam cansados. O tronco oco ainda me servia de apoio, mesmo assim, a dor era insuportável e eu sabia que não duraria muito tempo. Há uma hora – o que me pareceu -, eu havia desmaiado, e agora, já não suportando mais, e embora conseguisse enxergar a margem a apenas alguns metros de mim, sabia que ia sucumbir novamente. Senti a água fria banhar meus cabelos, e a subir pelo meu pescoço, serpenteando por mim. Estava me afogando, e comecei a ficar desesperada, agitando histericamente os braços. Eu gritei por socorro, mas minha voz fraca apenas ecoou pelos enormes pinheiros na terra à frente. Ninguém iria escutar. Desmaiei novamente.
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Os pássaros gorjeavam mais animados hoje, percebi. Caminhei por entre as pedras que se espalhavam ao meu lado, que pareciam guiar um visitante, quase em um formato de trilha. Lembrei-me do conto de João e Maria, e dos pequenos pedacinhos de pão, os mostrando o caminho de volta para casa...
De repente, um grito agudo e fraco cortou a harmoniosa melodia de um casal de pardais. Corri até o local de onde o brado parecia ter vindo. Uma figura boiava inconsciente a uns dez metros da borda do lago. Nesses momentos, a racionalidade nos deixa completamente, e um instinto animal de proteção corria por cada veia de meu ser: adrenalina.
Despi meu manto que me protegia do inverno que se aproximava. Senti meu hábito molhar cada vez mais. Nadei, como se fosse a minha vida que estava lá, afogada e inerte. Dei longas braçadas até chegar ao corpo, e o segurei pela cintura. Chegamos à margem e a deitei na terra ao meu lado. Não havia sinal de qualquer vida naquele ser. O sopro da existência parecia tê-lo deixado, para levar aquela alma à eternidade. Havia mais... Um rasgo em sua perna esquerda. Assustei-me ao perceber que ela ainda vivia, embora o sangue ainda saísse, e agradeci por ser em menor quantidade. Tremi, e agachei para sentir o coração ainda pulsante; o pulso ainda quente. Chorei de felicidade.
Abri lentamente seus lábios, e apertei de leve seu nariz. Um espasmo percorreu meu corpo, e uma faca parecia ter transpassado meu coração, quando meus lábios tocaram, inseguros, os dela. Sim, pois agora me ocorria, depois de todo aquele susto, que era uma jovem figura de mulher. Fiz-lhe massagem cardíaca, e temerosamente, mergulhei em sua boca novamente. Mais do que qualquer consciência; através de qualquer dogma religioso, eu sabia que aquilo era o certo a se fazer. Não havia sido um beijo. Eu, como religioso, não havia pecado. Sofreria muito mais sob os algozes do julgamento final se tivesse deixado aquela criatura morrer.
Ela não demorou a expelir a água de seus pulmões pela boca. Eu sorri. Ela começou a tossir sem parar. Não poderia deixá-la ali, com certeza eles a iriam pegar, já que viera do outro lado, e por eles a considerarem, por isso, uma inimiga a ser aniquilada.
Eram tempos difíceis aqueles, onde a voz dos menos favorecidos sumia entre as muralhas dos senhores feudais. Tempos de guerra sempre revelavam o pior e o melhor do homem, mas embora soubéssemos qual era o nosso lado, a opressão dos cruéis sobre nós era inevitável. Nosso senhor feudal Fellipo de la Costelle tinha um ódio enorme pelo nobre que vivia do outro lado do lago, embora eles fossem parentes de primeiro grau. Laços familiares eram os mais perigosos em uma disputa. Se ela fazia parte da comunidade que vivia além daquelas águas, e se alguém a visse ali, desacordada e desconfiasse de sua origem, seu sofrimento apenas começaria. Eu não poderia deixar que ela fosse presa por uma disputa de anos por poder, e nem que a mantivessem por pura desavença entre os senhores nobres.
Ficaria segura comigo. Peguei minha manta e enrolei-a em seu corpo, peguei a jovem e a carreguei, sumindo pela floresta de pinheiros.
O almoxarifado no porão era um esconderijo perfeito. Ninguém ia lá há anos, e eu poderia arrumar a desculpa de que estava arrumando antigos documentos enquanto passava o tempo lá, assistindo a ela, que ainda adormecida e fraca pelo esforço recente, não abrira sequer os olhos, nem me atordoara com sua voz. Eu arrumei uma cama improvisada, que estava quebrava há tempos, e seu dono a descartara ali. Concertei-a o mais rápido que pude, para acomodar sua nova dona.
O machucado em sua perna parou de sangrar, e depois que o sequei, enrolei um pano. Não havia como fechar a ferida, e eu senti medo de que uma febre a levasse por definitivo. Quando movimentei novamente a perna ferida, percebi que ela soltou um gemido. Deduzi que havia quebrado e que possivelmente a forte dor a havia feito ficar inconsciente.
Meus olhos de repente miraram o rosto pálido como o mármore Carrara, os lábios de uma cor coral e delicada. O pensamento de que eles também eram tão macios invadiu minha mente. Não poderia ser novamente. Jamais. Aquele momento fora de uma decisão que não tinha segundas alternativas. Eu nunca poderia deixá-la morrer, mas será que eu conseguiria viver sabendo que nossos lábios dançaram tão serenamente? Eu conseguiria suportar aquele sentimento que me invadia agora ao olhá-la tão estática, tão sublime em seu sono? Algo dentro de mim me atormentava, e eu temia que a resposta para todas as perguntas fosse não. Não...
— Não! – gritei para mim mesmo, agarrando meus cabelos negros.
Fixei o olhar novamente naquela tez angelical, que os longos cabelos acobreados com finos fios dourados como ouro emolduravam. Era uma obra de arte.
— Não! – bradei novamente, virando para o outro lado.
Já ouvi várias histórias sobre bruxas, sobre como eles a queimavam em suas fogueiras, queimando suas carnes amaldiçoadas e livrando suas almas da perdição. Se a descobrissem a levariam também; a Inquisição a transformaria em pó. Dentro de mim não acreditava que ela, tão inocentemente deitada sobre seu leito, poderia ser uma bruxa. Mas ninguém ouviria. Eles nunca a ouviriam. Precisava o quanto antes possível arrumar outro esconderijo para ela, quem sabe a levando para outro vilarejo longe daqui e a encorajando a voltar para a família, se ela despertasse – o que eu esperava ser logo.
Já era hora das orações e dos trabalhos comunitários da tarde. Enfim eu tinha um forte motivo para deixá-la por algumas horas em segurança, e fugir – se é que era possível -, daquela imagem que me assombrava. Subi as longas escadas em espirais que levavam ao primeiro andar, que era a sala onde nos encontrávamos para as orações. Entrei sem ser notado e me juntei aos outros. O latim que escapava de nossas bocas ecoava em formas de palavras vivas pelo ambiente. Minha alma alcançava uma paz indescritível. Os irmãos saíram depois de uma hora de salmos e louvores. Todos iam ao salão das refeições em filas.
O jantar fora servido como de costume, na hora certa, e nos sentamos para comer a comida farta. Ao meu lado, irmão Lorenzo – um frade careca de olhos muito azuis – estava se entretendo com um pedaço de asa de galinha, sendo repreendido severamente por frei Pedro, que era o homem mais taciturno que conhecíamos; o temor que ele nos impunha era tão grande quanto por de la Costelle. Mas era boa pessoa quando não estava nos observando ou no mesmo ambiente conosco.
— O que aconteceu com seu crucifixo, frei Benedito? – questionou-me Lorenzo.
Eu pus as mãos automaticamente no lugar onde a cruz sempre estivera, e constatei que, estranhamente, havia perdido.
— Não sei, eu devo... ter esquecido em meu quarto...
Irmão Pedro me lançou um olhar questionador, e eu abaixei respeitosamente minha cabeça. Nós sempre tivemos uma educação rigorosa quanto aos nossos pertences, que eram poucos. Quando entrávamos para a ordem, recebíamos apenas poucas peças de roupa, uma simples sandália, e o crucifixo... Perdê-lo demonstrava falta de interesse não só com o objeto, mas com a ordem e nosso patrono.
Levantei do banco sobressaltado.
— O que ouve irmão Benedito? – perguntou frei Pedro.
— Desculpem-me, lembrei agora que tenho umas lições inacabas... Eu preciso terminá-las – balbuciei, mentindo descaradamente, o que ele pareceu descobrir.
— Agora não é o horário das lições. Sente-se e coma como os outros ou eu terei de encaminhá-lo para uma conversa com o abade – retorquiu ele, apunhalando-me com os olhos.
Na verdade, o abade Joaquim não era um senhor mal encarado, e tinha até aparência gentil e amigável, porém, poderia ser facilmente persuadido por alguém como frei Pedro.
— Compreendo... – voltei a sentar a contra gosto e tentei não olhar em sua direção, porém eu sabia que ele ainda me mirava, analisando meus gestos.
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