A Crise de Carmichael
1 Capítulo 1

Era só mais uma manhã monótona de sexta feira e por conta do feriado seria um longo dia em casa revendo a papelada acumulada da semana, a transferência é de tal importância que não pode haver nenhum deslize na organização dos documentos. Ao menos Rose e as crianças estavam fora, a doença da sogra com esses dias frios até que venho a calhar pra que o senhor Fitzgerald possa trabalhar em paz sem a pequena Miriam em cima sempre querendo brincar. Mas quando sentou-se em seu escritório reparou em uma carta em cima de sua pasta, e nela escrita Johan Carmichael, um colega de trabalho, mas que assunto teria pra tratar em carta sendo que se encontravam sempre ?...
"Olá meu caro colega e me arrisco a dizer amigo Carl Steve Fitzgerald, venho por meio desta lhe informar que já não faço mais parte do quadro de funcionários da empresa que trabalhávamos, tive muito tempo pra pensar e analisei que a vida é muito mais complexa do que apenas trabalhar, ter dinheiro, e de certa forma um prestígio na sociedade. Não tenho família e o mais próximo de um amigo que tenho é o senhor, pois sabe muito bem o meu jeito recluso e sem nenhuma forma de habilidade em lidar com as pessoas, e pensei em avisar ou ao menos conversar sobre o assunto, caso esteja com tempo estarei na cidade até o final desta semana, segunda já partirei pra uma aventura rumo ao desconhecido, decidi viver cada dia como se fosse o último e sem olhar pra trás de agora em diante, atenciosamente desejo-lhe paz, saúde pra toda vossa família e em especial a sua sogra que como mencionou esses dias esta de cama, mas acima de tudo recomendei que meu cargo fosse repassado ao senhor, e já acertei os detalhes, segunda feira a minha sala estará com o seu nome escrito na porta, sei que aquela sua viagem em família no final do ano dessa vez vai poder se realizar. Enfim, era esses os assuntos que precisava revelar e no mais até algum dia talvez, e tenha uma longa e próspera vida."
Fitzgerald não havia entendido ao certo o que estava ali descrito, era repentino tal mudança de um homem que almejava regras, tédio e marasmo mais do que tudo. Se levantou ainda curioso pelo que havia lido e decidiu visitá-lo antes que partisse, pois sabia que não era brincadeira ou duvidoso o que ele tinha revelado, a palavra daquela pessoa pra todos era considerada da mais pura veracidade.
Ainda nevava muito quando apertou a campainha da porta do senhor Carmichael, o qual não demorou muito para atender e lhe recolher daquele frio mortal:
—Ora, ora, Fitzgerald meu caro colega, achei que nem leria a carta a tempo, entreguei a sua esposa ontem a tarde quando voltava pra casa, tinha como certa a sua visita hoje a sua sogra adoentada.
—Sim, eu iria mas Rose achou melhor que ficasse pra organizar a papelada do trabalho, já que estava atrapalhando aquela montanha de papeis no escritório quando ela fazia a limpeza. — A risada venho mas notou que a fisionomia do colega não era nenhum pouco de alegria, percebeu que o motivo de sua partida não era insano como aparentava, havia um problema e estava ali pra descobrir qual era.
Depois de se sentarem e de tomarem um reconfortante chocolate quente preparado pela governanta Cheryl, ambos estavam aptos pra começar uma conversa intrigante pra ambos, já que o cargo que Fitzgerald tanto queria agora era seu, e o fato de realmente seu colega estar ali fez com que Carmichael pudesse considerá-lo um amigo de verdade e não apenas um colega de trabalho.
—Pois bem, deve ter tido algo que lhe fez tomar essa decisão tão repentina, eu poderia saber qual meu amigo ? — Direto e sucinto no que queria saber, como sempre. Carmichael da um sorriso de canto de boca, levanta-se e enquanto contempla a vista de sua janela da sala começa:
—Você é feliz Fitzgerald ? Eu não posso dizer que sei o que isso possa ser, meu pai faleceu semana passada, e o único motivo pelo qual estudei, trabalhei e enriqueci foi para dar tudo o que ele nunca teve. Meu pai me criou desde sempre sozinho, sendo analfabeto e na crise que estávamos, passamos fome, pedi esmola pra não morrer de fome, meu pai foi um herói, fez de tudo Fitzgerald, lutas clandestinas, corridas de cavalo, já que ele por ser baixo e magro ajudava pra que o cavalo corresse mais, já que tinha menos peso pra carregar, assim ele perdeu os dentes lutando, e quebrou a perna mais de uma vez caindo do cavalo, já que ele não sabia montar, mesmo assim conseguiu montar e colocar comida na mesa. Eu nunca vi um sorriso no rosto dele, exceto no dia que me formei, não sabia qual era maior, seu sorriso sem dente ou as lágrimas torrenciais em seu rosto. Agora que ele se foi eu não tenho objetivo, não me casei, não tenho ambições ou perspectivas, e vendo você ali tão bem percebi que lhe entregar o cargo e tentar encontrar o meu rumo é a melhor coisa que eu poderia fazer, e não se preocupe, nunca irei me perder no mundo ou morrer de fome, estou planejando a dias pra onde ir, o que fazer, tentar achar um motivo pra viver.
—Me parece apenas que você não ta conseguindo superar a perda meu caro... perder quem você mais aprecia deve ser realmente doloroso, mas eu não sei o que lhe aconselhar, apenas acho que deveria pensar mais um pouco, vai que aqui mesmo você poderia encontrar outro motivo pra ficar, ou melhor ainda, se recorda que nossa empresa vai abrir uma filial nos Estados Unidos ? Por que não vai ser o diretor dessa nova sede ? — Eis outra revelação:
—Meu pai foi comigo a Chicago pra preparar nosso escritório, e na volta venho com ele a tuberculose que o matou, não me leve a mau meu amigo, mas aquele país só me trás péssimas lembranças e não pretendo voltar lá enquanto eu viver. — Carmichael volta pra sua poltrona e encara seu amigo com um olhar perdido e sem foco.
Não havia palavras a serem ditas naquele momento, nada passava na cabeça de Fitzgerald que aliviasse a angústia que seu amigo sentia, então venho a melhor ponderação que conseguiu encontrar:
—Bem, esta claro que este sofrimento e solidão não lhe fariam bem, peço lhe encarecidamente que fique ao menos mais uma semana, e que passe lá em casa todos os dias, posso lhe garantir que meia hora de brincadeiras com a pequenina Miriam alegrariam até esse seu coração pesaroso.
—Não há por que não tentar , a última vez que a vi era apenas um bebê. — E então um assunto antigo e complicado vem a tona.
— Agora que você mencionou... a Rose nunca fala sobre isso, vocês eram conhecidos antes de ela se casar comigo ? Pois lembro que te vi na festa que fizemos e minha sogra me disse que você era um velho amigo da família.
—Ora meu caro, a família de Rose é de suma importância pra mim, a senhora sua sogra, a doce Mary que certa vez deu emprego pro meu pai quando ele com a perna manca não podia mais montar ou trabalhar direito, ela o deu o cargo de cocheiro da sua fazenda no interior, e lá que meu pai conseguiu me manter na escola e Universidade, antes disso eu sinto lhe informar que roubava comida pra nós dois... não me orgulho nada disso, mas lhe juro que depois que enriqueci devolvi com juros ao dono do armazém tudo que eu peguei.
—Incrível, e como eu nunca soube disso antes ? Ora Rose e Mary vão ter que se explicar pra mim qualquer ora. — O riso de Fitzgerald não foi compartilhado por Carmichael, que apenas desviou o olhar.
A tempestade havia passado e a governanta ressurge pra dizer que o almoço estava servido, mas Fitzgerald resolve voltar pra casa e se despede de Cheryl se dirigindo a porta:
—Sinto que já nos resolvemos meu amigo, apareça quando quiser e será muito bem recebido em minha casa. — A sua mão estendida não foi de imediato aceita por Carmichael, a angústia ainda não sairia de seu peito se toda a verdade não fosse finalmente revelada, afinal seu amigo estava ali pra ouvir, e alguém finalmente além dele deveria saber :
—Sinto muito, mas a viagem tem que acontecer, partir é a melhor coisa pra todos ... e peço lhe com toda cortesia e consideração que não mais insista, e passar bem Fitzgerald. — finalmente o cumprimenta e vai abrir a porta para que volte pra casa.
—Não sei o que se passa ainda em sua cabeça que não compartilha mas seja como for, você deve saber o que é melhor a ser feito, é sensato o suficiente pra saber, conversando deu pra perceber claramente, mas já que é assim adeus meu amigo, que você realmente encontre o que procura e que a felicidade o esteja aguardando em seu futuro, passar bem.
O coração de Carmichael pesava pela dor, angústia, mas ainda sim não teve coragem de destruir a vida de alguém que no último momento revelou ser alguém digno de ser chamado amigo, ele não esperava que seu colega leria a carta e muito menos se importaria de vir pra tentar entender as coisas.
Rose certa vez ainda criança encontrou Carmichael deitado num canto do armazém todo esfarrapado dormindo e tremendo de frio, ainda sim quando ela se aproximou o garoto deu um salto e chorando disse que não havia feito nada errado, 'só estava dormindo', escondido dos cães que o perseguiam a noite. A garota ficou horrorizada e logo chamou sua mãe pra que ajudasse aquele moribundo, e a senhora Mary mais do que assustada com o que viu sentiu um aperto no peito por ver uma criança na idade se sua amada Rose naquele estado, e por consideração a filha o ajuda, dando emprego a seu pai na sua fazenda, e um teto pra que não passassem mais por aquela situação.
Foram seis anos juntos com Rose, Carmichael se sentia bem perto da garota que sempre o procurava e se surpreendia pela mudança e inteligência do garoto que em pouco tempo aprendeu tudo o que ela já sabia e em seus últimos tempos antes de partir pra Universidade a ensinava assuntos que ela jamais ousou tentar entender.
—Me promete que um dia vai voltar Geniozinho ? Me promete ? — Aquele sorriso... aquela garota... e ali foi o único momento que o garoto conseguiu sorrir e sentir uma explosão em seu peito que até então não conseguia denominar... felicidade pela mulher que ama o desejar tanto quanto ele a ela.
Carmichael formado volta pra casa e é muito bem recebido por Mary, e sem entender ao certo nota um bebê, e seu coração quase salta do peito quando vê que a mãe era Rose, e o homem que o cumprimentava era seu marido.
No velório de seu pai Rose aparece e ambos tem uma conversa longa, dolorosa e explosiva. Carmichael exigiu que ela abandonasse seu marido e filha e que partissem na próxima semana, que ele cuidaria das coisas e eles seriam finalmente felizes juntos, e por remorso por tudo que havia ouvido de seu primeiro grande amigo e amor Rose consente , mas diz que levaria Miriam com ela.
Carmichael volta a sua poltrona após se despedir de Fitzgerald, e perdido em seus pensamentos desmorona em lágrimas, sabe que deve sair da vida de todos, que não podia destruir a vida de seu amigo e do amor de sua vida por seu próprio bem estar, aquela conversa o fez perceber que ela amava de verdade seu marido e que ele não merecia tal traição, o errado na história era mesmo, aquele garoto moribundo que novamente se encontra sem rumo na vida e agora definitivamente sozinho.
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