A Criança do Labirinto
9 A tempestade
Notas iniciais
Jareth permaneceu algum tempo no quarto, sentado ao lado da jovem inconsciente. Ela respirava calmamente e seu rosto voltara à cor normal. Passado o susto, parecia dormir profundamente. Usando sua magia, o Rei sondou o corpo dela, analisando se alguma coisa podia estar errada, mas nada foi detectado e ele se acalmou. A criança no ventre de Helen crescia em seu tempo, como queria o Rei.
Ele se inclinou sobre a jovem e analisou o rosto dela. Seus olhos pousaram nos lábios de Helen e, num momento impensado, roçou sua boca na dela, um quase beijo do qual imediatamente desistiu, saindo do quarto. Caminhando pelo corredor, sentiu-se furioso consigo mesmo e voltou ao salão do trono, onde usou suas esferas de cristal para buscar a única coisa que não podia ter.
Sarah williams estava na casa de Edward. Os pais do rapaz tinham saído e o casal estava sozinho, na sala, assistindo a um filme na TV. Edward havia preparado pipoca e refrigerante para acompanhar a sessão caseira. Naquele momento, só o fato de estarem na companhia um do outro gerava uma tensão que tentavam disfarçar. Durante uma cena engraçada, Sarah começou a rir muito e Edward tocou a mão dela:
—Ei... Está nervosa...
Ela enxugou o rosto:
—Uau! Estou tão transparente assim?
Ele ri:
—Um bocado. Está gostando do filme?
—Na verdade não consigo me concentrar nele...
Surpreso, Edward se aproximou da jovem e tocou o rosto dela. Sarah olhou-o nos olhos e sorriu:
—Ed, eu...
Ele não a deixa terminar. Seus braços a envolvem e ele a beija com carinho e desejo. Sarah envolveu-o num abraço carinhoso e deixou-se embalar pelo namorado. Cada vez mais a necessidade de ficarem íntimos aflorava em seus corpos e mentes, nada poderia ser mais perfeito que aquele instante nos braços um do outro. Quando separaram seus lábios, Ed murmurou no ouvido dela:
—Sarah... Quer... Subir para o meu quarto?
Respirando com sofreguidão, Sarah está de olhos fechados, ainda abraçada ao rapaz:
—Eu... Ah... É tão...
Beijaram-se novamente e a imagem pareceu congelar na bola de cristal do Rei goblin. Ele fechou os olhos e segurou a esfera com força, pensando em arremessá-la na parede mais próxima. Respirou fundo e recostou a cabeça no trono, derrotado por seus próprios sentimentos. Maria tinha razão. Sarah seguia seu caminho independente do que vivera ali no reino de Jareth. Então porque ele não conseguia fazer o mesmo?
A curandeira foi encontrada e levada para o castelo. Ao ser apresentada no salão do trono, parecia furiosa e Jareth questionou isso:
—Achei que estivesse honrada em atender o chamado de seu soberano.
A criatura olhou Jareth com cara pouco amistosa:
—Chamado? Fui laçada, amarrada e amordaçada até chegar aqui com aquele bando de idiotas insanos! Garanto que não estou nem um pouco inclinada a “servir” nesse castelo!
A curandeira era magra nos braços e pernas, mas tinha um ventre gordo e um tanto caído. Sua pele era um verde musgo com traços amarelados, como se fosse feito de raízes emaranhadas, tal como seus cabelos. Parecia muito, muito velha, mas a língua dela era afiada como o olhar e o Rei goblin gostou dela logo de início:
—Muito bem! Estamos combinados. Ficará no meu castelo até o nascimento do meu herdeiro!
A curandeira abriu a boca para manifestar-se contra, mas a serva de Helen tomou-a pela mão e puxou-a pelo corredor. Ao entrar no quarto, a primeira coisa que a velha sentiu foi o cheiro. Ela olhou para a cama e murmurou:
—Oh, minhas raízes... O que o Rei goblin aprontou dessa vez?
Ela aproximou-se e tocou o ombro de Helen:
—Há muito eu não via um ser humano de novo... E veja isso, ela espera um menino! Então...
A curandeira olhou a pequena serva ao lado da cama:
—Está vendo isso, nanica? Seu Rei maluco ultrapassou as fronteiras e isso pode ter algum efeito no futuro. Ouça o que eu digo!
A serva balança os ombros, sem entender e espera o próximo passo da curandeira, mas essa puxa uma cadeira, se senta e espera. Enquanto isso, no mundo humano, Edward e Sarah estão deitados na cama dele, abraçados e silenciosos. A jovem acariciava o peito dele, de olhos fechados. Ela falou:
—Desculpe...
Edward beijou o topo da cabeça dela, estreitando-a nos braços:
—Tudo bem... Eu... Fui insistente. A culpa é minha...
Sarah apertou-se contra o corpo do namorado. Algumas horas atrás tentaram fazer amor, mas Sarah sentiu-se estranha, deixando o ato pelo caminho. Edward sentiu que algo impedia a namorada de se entregar, mas não perguntou nada. Teria de esperar que ela falasse o que a deixava aborrecida e ansiosa. Segurou o rosto dela com carinho e beijou sua testa:
—Vamos dormir...
—Ed, eu não...
—Shhh... Você vai me contar o que está acontecendo, mas sei que não vai ser hoje.
Ela esconde o rosto no peito dele:
—Obrigada...
Adormeceram quase ao mesmo tempo, enquanto Jareth, em seu mundo, olhava o labirinto ao redor do castelo, sentido seu coração frio, maldizendo o momento que decidiu ver onde Sarah estava e o que fazia. O céu sobre o reino encheu-se de nuvens negras e revoltas, trovões e raios abalaram o firmamento, um vento selvagem soprou, assoviando através dos corredores, assustando os moradores do castelo.
Helen acordou com a tempestade. A janela do seu quarto ainda estava aberta e a mulher viu a serva duende encolhida no canto ao lado da cama, com os olhos muito abertos, tapando os ouvidos por medo dos trovões. Numa cadeira, outra figura dormia profundamente, a cabeça inclinada sobre o peito, roncando baixinho.
Helen saiu da cama e uma lufada de vento soprou a chuva para dentro do quarto. Correu e empurrou a janela, trancando-a com dificuldade. Saiu do quarto e seguiu pelos corredores, pensando nas flores do jardim de Hoggle. Desceu as escadas e viu que duendes e goblins estavam se escondendo em cantos, debaixo de móveis, em nichos das paredes. Pareciam atordoados com a tempestade repentina e um pouco além disso. Helen murmurou para si:
—Que é que esse pessoal tem?
No pátio que dava para o referido jardim, Helen viu Hoggle parado, olhado o tempo. Ela aproximou-se:
—Hoggle! Você está...
Então ela viu o jardim destroçado pela chuva pesada e pelo vento. O anão tinha o semblante abatido, melancólico e Helen solidarizou-se com ele:
—Lamento... Se... Quiser te ajudo a cuidar dele quando essa tempestade passar. Vamos fazê-lo ficar ainda mais lindo!
Hoggle suspirou:
—Essa tempestade vai demorar a passar.
—Como pode saber?
—Ela não é uma tempestade comum.
—Não é?
—Ela é...
Então Helen vê um homem alto, bem vestido e muito parecido com o Rei goblin aparecer na escadaria. Ele parecia uma pessoa, mas de certo modo, Helen sabia que ele não era. A voz grave dele despertou-a de seus devaneios:
—Senhorita Helen... Venha comigo.
Sem saber por que, ela o seguiu por corredores ainda não explorados e foi parar na ala leste do palácio. Percebeu que lá, as cores das pedras eram mais suaves, tudo era mais limpo e bem iluminado e um perfume agradável era sentido por onde andava. Entrou num grande salão, decorado à moda renascentista e ao fundo do salão, sentada numa escrivaninha de madeira escura e bem talhada, uma mulher lia à luz de castiçais.
Helen esperou. O homem sentou-se ao lado da mulher e esta ergueu os olhos castanhos para a visitante:
—Olá. Meu nome é Maria Tyton.
Sem saber como se portar diante da estranha dama, Helen fez uma vênia desajeitada e Maria riu:
—Oh, querida! Sem formalidades! Não sou uma rainha!
Helen sorriu sem graça:
—As coisas andam um tanto loucas desde que cheguei...
—Imagino que sim... Conte-me... De quantos meses você está?
Surpresa, Helen gagueja:
—D-dois... Acho q-que quase isso! Como...
—Maddy é uma boa espiã.
—Ah, entendo agora...
Maria se levanta, abandonando o livro e toma a mão de Helen, conduzindo-a até o récamier, onde se sentaram lado a lado. A estranha dama sorriu para a jovem:
—Então você será a mãe do meu neto...
Helen se vira de uma vez:
—Oh! O que... Você é... Mas ele é... Oh, céus!
Maria ri:
—Vou te contar a história do Rei goblin, Helen. Depois você me conta o que sente a respeito.
Enquanto a tempestade caía, pesada e fria sobre o reino, Maria contou a Helen como teve seu filho sequestrado pelo Rei Coruja, como lutou para recuperá-lo antes que fosse transformado na criatura e como, apesar de seus esforços, parte de Jareth estaria presa ao mundo dos duendes para sempre.
Helen exclama ao saber que o Rei goblin tinha por volta de trezentos anos, assim como Maria. Esta sorri:
—Todo o tempo que tenho vivido aqui, sei que meu filho luta para dominar seu lado humano. O antigo rei desse lugar era uma criatura fria, sem sentimento ou amor a alguma coisa. Tudo que queria era viver pra sempre, reinando como o tirano que era, sacrificando o que fosse para se manter no poder. Meu filho não é assim...
Helen vira o rosto, visivelmente aborrecida por Maria defender Jareth, mas a dama toca-lhe o ombro:
—Minha jovem... Jareth não é um tirano. Ele tem todos os defeitos do mundo, sua natureza mágica faz dele uma criatura às vezes insana, mas nunca vai ferir ninguém! Esse mundo é peculiar, cheio de nuances que nós, humanos, não conseguimos entender. O mundo de goblins, fadas e duendes tem suas regras e leis próprias, então o Rei goblin tem que segui-las... Ele não tem escolha.
Lágrimas caem na face de Helen:
—Eu... Não pedi nada disso. Eu nunca imaginei que algo assim...
Maria abraça Helen:
—Deixe o tempo se encarregar das coisas. Esse bebê pode mudar alguma coisa a seu favor. Como se sente agora?
Helen toca a barriga e respira fundo:
—Nunca pude engravidar quando era casada. Quando Jar... Quando o Rei goblin veio ao meu mundo, ele se passou por uma pessoa e ficamos próximos. Eu me apaixonei pelo personagem que ele criou...
Maria sorri:
—Você ainda o ama.
—Não! Eu... Não conheço Jareth! Não é a mesma coisa!
—São a mesma pessoa. Ainda há nele a parte que te fez se apaixonar... A parte humana.
Helen encara Maria, misto de dúvida e espanto. Não podia admitir se deixar levar por aquele argumento e se levanta do assento:
—Ele me usou e agora vai tirar a criança de mim! Como pode defendê-lo?
Maria segura a mão de Helen e fala:
—Venha comigo. Quero te mostrar uma coisa...
Sem saída, Helen acompanha a mulher por um corredor que terminava numa sala ampla, decorada com móveis antigos e rústicos, tendo as paredes cobertas por cortinas de cor açafrão e detalhes em vermelho. Maria afasta uma dessas cortinas e um quadro aparece quase ocupando toda a parede. A pintura retratava o busto de uma jovem de cabelos longos e negros, olhos azuis e rosto angelical.
Helen observa a imagem:
—Quem é ela?
—Ela se chama Sarah Williams. Três anos atrás, ela pediu ao Rei goblin que levasse seu irmão pequeno, pois ele a aborrecia. Jareth atendeu ao pedido dela, mas essa menina se arrependeu e veio ao reino buscar o irmão... Isso nunca aconteceu antes e tal evento mexeu com meu filho. Seu orgulho foi posto à prova, seu coração vaidoso conheceu um sentimento que ele não estava preparado para enfrentar...
Helen baixa o olhar:
—Ele se apaixonou por ela.
Maria tocou o ombro da jovem:
—Jareth é a criatura mais poderosa desse mundo, mas há uma força maior que ele.
Helen enxuga uma lágrima que teimava em cair:
—Então porque ele não ficou junto dela?
—Sarah era uma criança ainda. Ela não estava preparada para o que meu filho oferecia e ele não entendeu isso.
—Então ele decidiu se vingar... E eu fui a escolhida.
—Vingança é uma palavra dura, Helen... Eu vejo isso como uma tentativa de...
Helen suspira. Passa os dedos entre os cabelos ruivos e levemente encaracolados e fecha os olhos:
—Senhora... Eu... Entendo que queira defender seu filho. Que queira justificar os atos dele por sua natureza... Diferente. Mas eu não posso ver assim. Ele ama essa menina e ela o desprezou. Não há nada mais perigoso que um coração ferido... Eu... Preciso voltar para meu quarto... Por favor.
Maria baixa o olhar:
—Entendo... Bem, foi um prazer conhecer você e eu... Gostaria de encontrá-la mais vezes, isso a aborreceria?
Helen analisa o rosto da mulher:
—Se não for para falarmos do Rei goblin, eu não me importo...
—Certo! Vamos tomar o desjejum amanhã?
—Sim.
Maria chama a serva duende:
—Maddy! Leve Helen de volta ao seu aposento, por favor!
A pequena duende pega Helen pela mão e a puxa com cuidado. Helen sorri com a intimidade do gesto e no caminho, pergunta:
—Maddy? Há quanto tempo serve à senhora Tyton?
—Duzentos anos.
—Ela é... Uma boa pessoa?
—A senhora Maria é uma pessoa doce e gentil. Nem parece mãe do Rei goblin...
—Entendo...
Maddy olha para Helen por um momento e fala, voltando a andar:
—Porque Helen vai ter um pequeno mestre?
Helen pestaneja e cobre a boca. Era uma pergunta difícil de responder, mas a mulher sabia que todos os servos de Jareth se questionavam sobre isso. Elas seguem até o quarto e encontram a serva de Helen e a curandeira mexendo no baú de roupas aos pés da cama.
A curandeira se vira e sorri com dentes amarelos e tortos:
_Eu não vi você saindo! Parece bem disposta, então posso ir embora e...
A serva de Helen balança a cabeça:
—Não pode! Não pode! Até que o pequeno mestre venha a nascer, você fica aqui!
Helen escuta o trovão ao longe e segue até a cama. Ela não fazia ideia que horas eram, mas não importava. Queria dormir e acordar do pesadelo, mas seu corpo em mudança informava que aquela era sua nova realidade. Olhou Maddy, que esperava pela história prometida e falou:
—Querem ouvir porque estou grávida desse bebê?
As criaturas sorriem e se sentam no chão. Então, como se tivessem telepatia ou algo parecido, outras criaturas surgiram na porta, entre fadas, goblins e duendes de tamanho e forma variados. Se acomodaram no quarto e esperaram por Helen. Ela olhou ao redor e riu:
—Me sinto uma professora num jardim de infância...
—O que é um jardim de infância?
—Lá os bebês nascem em árvores?
A jovem mulher ri. Outro goblin fala, nervoso:
—Não, seu tapado! É pra onde os bebês vão pra crescer! Eles enterram os filhotes até a cintura e regam todos os dias, igual o jardim do Hoggle!
Helen começa a rir cada vez mais, segurando a barriga. Era hilário estar cercada de seres tão peculiares e ainda assim, sentir simpatia por eles. Ela recupera o fôlego e diz:
—Certo! Certo! Vou explicar o que é um jardim de infância e como fiquei grávida, ok?
Pelo resto da noite chuvosa, Helen se esqueceu de onde estava e contou parte de como tudo aconteceu a ela até chegar ali. Reviver aqueles sentimentos era angustiante, mas diante da atenção que recebia das criaturas daquele mundo, era como um oásis no deserto.
Cansada, ela adormeceu sem perceber e a curandeira puxou a coberta sobre o corpo da mulher. Os seres mágicos ficaram murmurando entre si sobre o que acabaram de ouvir, sobre como seu Rei se passou por um humano e o que tudo aquilo significava. Era confuso e curioso ao mesmo tempo, mas estava longe de ser algo simples de resolver.
Maddy saiu dali com muitos pensamentos e voltou para junto de sua senhora com o semblante pensativo. Maria estava se preparando para dormir e Albert estava ao lado dela, acariciando seus cabelos, quando viram a duende entrar no quarto.
Maria sorriu-lhe:
—Demorou um pouco, Maddy!
—Eu estava... Escutando uma história da moça.
—Quer me contar também? Estou curiosa...
—Se eu contar... Vai ficar triste com o mestre?
Maria olhou Albert ao seu lado e ele inclinou a cabeça, em silêncio. Maddy sentou-se no tapete perto da cama e falou o que tinha ouvido. Os pingos da chuva batiam nas janelas de madeira e metal, fazendo um som acalmador, mas a tempestade estava longe de ceder. Ao fim da conversa, Maddy dormia no tapete, encolhida e Maria cobriu-a com uma manta. Acariciou os cabelos embaraçados da pequena criatura e voltou para a cama.
O falso conde Albert recebeu Maria nos braços e acomodou-a junto ao peito. Ela podia ouvir a vibração do coração mecânico dele, mas não se importava. Ela tinha dele amor e atenção que não recebeu de seu marido falecido no mundo humano. Ele foi uma criação de seu filho, mas Maria duvidava que fosse um ser desprovido de sentimentos.
Albert acariciou o ombro dela:
—Jareth está encrencado?
Ela suspirou:
—Eu não sei como ele pretende resolver isso... Helen... Teria coragem de enfrentá-lo para ficar ao lado do bebê? Oh, céus! Pobre moça!
Albert olha o teto da cama de dossel. Ele fecha os olhos e diz:
—Talvez... Jareth mude de ideia quando a criança nascer.
Continua...
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