"Eu não sei onde eu estou."

Um homem corre. Parece cansado, pois já faz isso há algum tempo. Seus pés se movem ligeiros, procurando uma base firme sobre o terreno acidentado e escorregadio. Suas mãos acompanham o movimento dos pés, espelhando-os com o objetivo de manter o equilílibrio. Seu peito arde, o ar é muito gelado, e o esforço o faz ofegar. Ele olha ao redor vez por outra, sem diminuir o passo. Está vestido como um perfeito cavalheiro vitoriano, e estaria realmente perfeitamente vestido, não fosse suas roupas estarem úmidas, com alguns rasgos tímidos, e uma mancha de sangue. Também perdera o chapéu.

Ele para de correr. Ouvira algo. Ouvira mesmo? Nos últimos dias seus ouvidos perdiam cada vez mais a confiabilidade. Assim como seus olhos. E qualquer um de seus outros sentidos.

"Será que estou ficando louco?"

Seus olhos perscrutam a penumbra ao seu redor. Via-se numa floresta, mas não conseguia mais acreditar no que via. Não conseguia mais acreditar em nada. Não se lembrava de como fora parar naquele lugar, e também não sabia como sair de lá. Corria, e em sua mente se passava centenas de memórias, lembranças que agora pareciam tão distantes, mas que lhe eram tão queridas.

Você vai ser papai!

Você tem certeza de que está pronto para isso?

Nada se compara a essa sensação.”

É uma menina!

As árvores eram altas e negras, e de seus troncos escorriam uma substância viscosa e clara, substância que também se encontrava no chão e na roupa do homem, que ainda corria. Uma névoa densa e leitosa pousava sobre o solo escuro, e nevava. Nevava o tempo todo.

O homem sentiu-se sufocar. Era como se aquilo que ele respirasse não fosse ar, apenas algo parecido, que não servia como substituto. Ele parou novamente, apoiando-se num tronco, levando a mão ao ferimento em seu abdôme. Sentiu-o repuxar.

Ele respirava com força, e sua respiração ecoava por toda a floresta. O homem andava, mas diferente da respiração, seus passos não ecoavam. Nada mais fazia som. Ele tremia, sentia tanto frio, e isso era piorado pelo estado de suas roupas. Seu corpo sacudia, ele abotoou o seu casaco até em cima, pois o frio era congelante. E nevava. Nevava o tempo todo.

O homem apoiou-se em outro tronco, percebendo o problema do eco. Virou-se para o tronco, e deu um tapa nele. Não houve som algum. Nada que ele fazia resultava em som, apenas sua respiração. Ele passou a mão sobre o rosto, tentando enxugá-lo. Não obteve muito sucesso.

"Tenho de continuar... Correr."

Ele ouviu um estalo. Encolheu-se detrás do tronco. Tremia sem controle, fosse pelo frio, fosse pela adrenalina que seu corpo jogava em suas veias. Encarava a floresta à sua frente, seu instinto lhe dizendo que havia algo passando detrás de si. Mas ele não ouvia. Nada fazia som. Ele começou a andar, pé ante pé, torcendo para que, de alguma forma, assim como ele não ouvia, ele também não fosse ouvido. O frio aumentava, ele sabia o motivo, seu treinamento militar lhe dizia que era a perda de sangue. Ele precisava de tratamento.

"Por favor... Alguém me ajude."

A floresta permanecia imóvel. Não havia vento. Nem mesmo céu, ou estrelas. Apenas troncos.

"Por favor... Eu não estou louco."

Seus joelhos começavam a se dobrar. Ele estava tão cansado.

—John! — ecoou pela floresta. — John!

O homem ergueu a cabeça. Conhecia aquela voz. Ouvira-a mil vezes, e apesar de já ter sentido tanta raiva, frustração e descrença ao ouvi-la, sentiu um alívio indescritível desta vez. Sentiu-se novamente com forças para correr.

Aquela voz lhe deu esperança.

Nada mudara no cenário. De onde vinha aquela voz? O homem procurava, adentrando ainda mais entre aqueles troncos gigantescos. Neste momento ele ouviu algo além de seu próprio fôlego. E os cabelos de sua nuca se arrepiaram.

Um rosnado. Baixo e gutural. E próximo.

O homem disparou pela floresta. Corria com ânimo renovado, seguindo a voz que o chamava. Parecia que nunca chegaria. Era como um pesadelo. E nevava. Nevava o tempo todo.

John parou de correr. Não tinha fôlego algum, e seu coração batia como louco. Não sabia o que fazer em seguida. Não sabia se encontraria uma porta, uma passagem, qualquer coisa que o levaria direto para o mundo que conhecia. Olhou para cima, vendo a neve cair. Estendeu a mão, deixando alguns flocos caírem sobre a palma. Observou-os com atenção.

Aquilo não era neve.

"Isso não é neve!" ecoou em sua mente. Lembranças inundavam sua mente. Ele sentiu náusea. Podia enxergar aquele pobre homem enrugado, mal vestido e despenteado, à beira da demência. Ele gritava, sacudindo furiosamente a mão. "Isso está me matando!"

—Isso não é neve... — John murmurou, sua voz se espalhando como se não fosse sua. — Não é... Aqui não é...

Ele baixou as mãos, prendendo sem perceber a respiração. O gelo engolfava seu corpo, e a umidade de suas roupas tomava seu peito. Mas ele não sentia.

—Aqui é… É…

Ele voltou a correr. Gritava agora, a plenos pulmões, sua voz saindo como se estivesse sendo estrangulada por alguém forte. Ele clamava, chamava, e seu desespero era perfeitamente distinguível na imensidão escura. Sua dor era palpável. Assim como sua saudade.

John Watson desabou. A exaustão o venceu. Seu corpo rolou chão abaixo, vindo parar virado para cima em meio a uma pequena clareira. Ele começou a chorar, lágrimas quentes, a única coisa quente a surgir naquele lugar, escorreram por seu rosto. Ele se virou, gemendo, erguendo parte do tronco e a cabeça, levantando os olhos e encarando mais uma vez aquele cenário inóspito. Puxou todo o ar que podia, e ecoou na floresta mais uma vez um nome. Um clamor.

—ROSIE!!!

Ele caiu. Seu rosto voltou a chocar-se contra o chão. Tornou-se uma visão fantasmagórica, um corpo inerte estirado sobre o solo.

E nevava. Nevava o tempo todo.