A Criança Pesadelo

6 A Borboleta e a Bailarina


Dustin era um menino de rua. Como qualquer outro menino neste estado, sua casa era a cidade, sem um lugar fixo. Não se lembrava de sua mãe, apenas sabia que tinha uma, afinal nascera, e isso já era prova suficiente de que havia uma mãe. Mas ele não a conhecia, portanto não havia importância. Assim como seu sobrenome. Ele não tinha um. Era apenas Dustin. Ele não se lembrava também de onde aquele nome viera. Os outros o chamaram assim, e o nome ficou. Dustin. Ele gostava muito daquele nome.

Ele estava parado, sentado na calçada, de frente para o 221, na Baker Street. Comia uma maçã, e fazia isso com dificuldade. Por não ter os dentes superiores frontais, ficava difícil a mordida. Ele não perdera os dentes numa batida, ou algo parecido, eles apenas não cresceram. Por isso ele levava sempre consigo um pequeno canivete, e com ele cortava nacos de maçã e os comia.

Dustin trabalhava para Sherlock Holmes. Fazia parte do seleto contingente de garotos de rua que serviam como mensageiros, informantes e espiões do grande detetive. Os Irregulares de Baker Street. Eram comandados pelo menino Wiggins, mas com o tempo Holmes notou as habilidades de Dustin e gostou do garoto, subindo-o de patente. Agora ele recebia ordens diretamente do grande detetive. Naquele momento ele estava à serviço. Sua tarefa: seguir o detetive Frederick Abberline. Dustin era muito bom em seguir pessoas. E como Abberline estava na Baker, lá ele estava, esperando para saber qual seria seu próximo passo.

Dustin notou certa movimentação na rua. Um grupo de homens não muito bem vestidos surgiram da mesma esquina, mas procuravam aparentar que não se conheciam. Foram se espalhando, parando em pontos estratégicos da rua. Um deles parou perto do menino, encarando-o e brandindo-lhe sua bengala.

—Vai-te, moleque!

Dustin se levantou, desviando-se do golpe e se afastando rapidamente. Quando já estava a uma distância segura do homem, mirou bem e atirou-lhe na cabeça o resto da maçã, disparando a correr em seguida. Escondeu-se detrás de um banco, olhando por entre a divisão da madeira. Viu Holmes, Abberline, o inspetor de polícia e uma moça magricela saírem e pegarem um coche. Assim que partiram, os homens pegaram tílburis e partiram na mesma direção. Dustin saiu de detrás do banco, correndo para o meio da rua, vendo um coche passando e saltando, agarrando-se em sua traseira e permanecendo abaixado para não ser notado pelo condutor.

Seguiu assim até seu destino. Quando percebia que o coche em que estava se desviaria do caminho desejado, saltava dele e agarrava-se a outro. Esse era um meio de transporte muito bom, e muito utilizado pelos meninos de rua. Quando viu que os tílburis haviam parado, deixando os homens descerem, ele pulou para o chão, correndo para detrás de um muro de esquina, e abaixando-se, espiando cuidadosamente. Cerrou os olhos, forçando a visão, e percebeu que estavam armados.

Dustin voltou para detrás do muro, ajeitando sua boina. Pensava em como avisaria Holmes de que estava sendo seguido. Olhou novamente, vendo a casa em que Holmes entrara, e fez as contas. Correu na direção contrária, dando a volta na quadra, contando as casas e saltando o muro de uma delas. Ele caiu do outro lado, atravessando o quintal, alerta à possível presença de cães, subiu em outro muro, usando um amontoado de sucata para descer de volta ao chão. Checou se era mesmo aquela casa, e correu até uma das janelas, batendo nela sem cerimônia.

—Sr. Holmes! — ele ia de janela em janela, batendo e gritando. Colou o rosto ao vidro. Não conseguia ver ninguém lá dentro. Foi quando ele ouviu algo como um animal grande rugindo. Encolheu-se contra a parede, olhando em volta, assustado. Daí viu uma janelinha perto do chão. Porão. Correu até a janelinha, ajoelhando-se e batendo nela com força. — Sr. Holmes!

—Dustin! — Holmes abriu a janela. — O que faz aqui?

—Tem homens seguindo vocês. Eu os vi desde o seu apartamento. Estão armados.

—Quantos são?

—Dez, eu mesmo contei.

—Vá embora e se esconda! — ele ordenou. Dustin se levantou, ouvindo batidas vindas da frente da casa. Correu para detrás da casa, saltando o muro e ficando em cima dele. Caminhou por cima do muro, equilibrando-se com facilidade e usando os galhos frondosos de uma árvore para se esconder. Viu os homens batendo na porta e, ao não serem atendidos, arrombaram-na. Dustin se assustou com o barulho do arrombamento, desequilibrando-se e caindo no quintal ao lado. Ouviu uma mulher gritar, levantou-se tossindo poeira e saiu correndo, saltando por cima do pequeno portão e chegando à rua. Olhou em volta, não havia policial algum à vista.

Tiros ecoaram. Barulho de coisas se quebrando. O estrondo foi tão alto que pareceu que as janelas tremeram. Todas as pessoas na rua se assustaram e começaram a correr. Dustin levou as mãos à cabeça.

—Sr. Holmes?

***

Frederick Abberline olhou através do buraco da fechadura. Viu três homens atravessando o corredor que levava à sala de Tesla. Todos armados. Ele voltou-se para os outros, tirando seu revólver do casaco.

—Como ela está?

—Semiconsciente. — disse Holmes, balançando Vee levemente e não obtendo reação. Ela continuava inerte, com olhos semicerrados, respirando pesadamente. Holmes limpou o sangue do rosto dela com cuidado. Mirou um olhar suspeito no companheiro. — Estão atrás dela.

Abberline assente, voltando a olhar pela fechadura.

—Há três deles vistoriando a casa. — ruído de algo se partindo. Abberline franze o nariz. — E quebrando coisas.

—Eles vão pagar por isso... — rosnou Tesla.

—Há mais homens lá fora, — diz Lestrade. — não viriam apenas três, não sabendo que estaríamos com ela.

—Vamos tentar distraí-los. — diz Abberline para Holmes.

—Vou tirá-la daqui.

—Leve-a a minha casa. Seu apartamento com certeza é carta marcada agora. — Holmes se levanta, carregando Vee consigo e saindo pelos fundos. Lestrade sobe alguns degraus em direção de Abberline. — Tesla ficará aqui. Esconda-se detrás de algo.

—Certamente, detetive.

—Quando eu abrir a porta... — Abberline encara Lestrade. — Atire na primeira coisa que se mexer.

—E se for um pombo?

—Por algum motivo estou pensando em atirar em você.

—Não há ninguém aqui. — ecoou do outro lado da porta.

—Eles podem ter saído pelos fundos.

—Agora! — Abberline chuta a porta com força, e Lestrade dispara pelo corredor, atirando e derrubando dois homens. O terceiro, ferido, escondeu-se detrás do sofá, revidando os tiros.

Lestrade encostou-se à parede, ainda no corredor. Recarregou sua arma, vendo Abberline se esgueirar por detrás da poltrona. O homem não teve tempo de reagir, e logo foi ao chão com uma coronhada na nuca. Lestrade esticou o pescoço, vendo Abberline arrastar o corpo inerte para o meio da sala. Foi quando sentiu algo encostar-se a sua cabeça.

—Abaixe a arma! — veio a ordem. Abberline se ergueu, apontando o revólver e vendo Lestrade surgir de detrás da parede, mãos para o alto, com um revólver de cano longo encostado a sua nuca. — Eu mandei abaixar a arma!

Abberline soltou o revólver a contragosto, que caiu com um baque seco no chão. O homem, um ser baixo e de bigode denso, apareceu detrás de Lestrade. Tinha olhos puxados e nariz torto.

—Melhor não atirar nele, baixote... — murmurou Frederick.

—Eu dou as ordens aqui, policial. Chute o revólver para longe.

Abberline obedeceu.

—Somos homens da lei, você sabe. — avisou Lestrade. — Se meterá em encrenca se nos matar.

—Policiais nunca são problema desarmados.

Abberline abriu um sorriso largo.

—Acredite, não preciso de armas.

—Solte a arma!

Todos olham para a porta do porão, surpresos.

Tesla. Segurando algo estranho que lembrava vagamente uma espingarda. Tinha tubos avermelhados ao redor do cano principal, e o gatilho era duplo. O inventor continuou andando, empunhando a geringonça com firmeza. O homem de olhos puxados hesitou.

—Vê isso? — disse Tesla, sorridente. — Inventei esta semana. Ainda não testei, mas sei que funciona. Foi produzida para evaporar um saco de carne em segundos, portanto você chegou em hora fortuita. Sabe como a chamo? Raio da morte.

—Blefe. — cuspiu o homem. — Nem Tesla inventaria algo tão rápido.

—Eu sou Nikola Tesla. — o inventor cerrou os olhos. — E eu não blefo.

O homem arregalou os olhos. Iria atirar em Tesla, mas assim que tirou a arma da cabeça de Lestrade, Abberline se lançou sobre ele, segurando pelo pescoço e levantando-o do chão, atirando-o pela janela.

Lestrade olha através do vidro quebrado.

—Você matou ele?

—Sei lá. — Frederick se volta para o inventor. — Sinto pela janela.

—Eu tenho seguro para tudo aqui. — Tesla pendura a geringonça nas costas. — Vivo quebrando coisas.

—Isso é mesmo o Raio da Morte?

—Claro que não, eu blefei. Isso aqui é um lança-chamas.

Lestrade encara Tesla.

—O que é um lança-chamas?

Tesla levanta as sobrancelhas, descrente.

—É uma arma... Que lança... Chamas.

Abberline vai até a porta da frente, encontrando a rua vazia. Avistou homens se aglomerando numa das esquinas.

—Temos de ir imediatamente! Vamos! — os homens partem correndo pela rua. Antes de virar a esquina oposta, Abberline olha rapidamente para trás. — Espero que você tenha escapado, amigo... — murmurou para si.

***

—Coloque os pés no chão, não consigo te carregar andando tão rápido...

Holmes dissera isso ofegante. Caminhava a passos rápidos por uma rua mais populosa, e procurava se misturar à multidão. Percebera que era seguido, e assim tentava despistá-los, o que era dificultado pelo fato de estar carregando uma mulher em estado de pânico.

Vee passara de sonolenta para psicótica em questão de minutos. Agora ela encontrava-se agarrada à camisa de Sherlock, com um dos braços ao redor de seu pescoço, e andava trôpega, olhando para todos com olhos injetados. Arfava, e era difícil mantê-la ereta.

—Estão vindo... — repetia. — Estão vindo...

—Eu sei disso, por isso estamos fugindo.

—Estão vindo! — ela exclamou, chamando a atenção de todos ao redor. Holmes abriu um sorriso sem graça, e apertou o passo.

—Você não está ajudando...

—Agulhas... É hora do remédio... Não desça lá, não desça lá!

Eles viraram numa esquina, entrando no que parecia uma feira de legumes. Pessoas lotavam o meio da rua, carregando sacolas de vime, cestos cheios de produtos, além de galinhas e outros utensílios.

—Maçãs! Maçãs!

—Cenouras frescas!

—Pago três pence pelo pacote!

—Roubo!

—Dançando, dançando, dançando... Sou uma linda bailarina!

—Vee, pare com isso!

—Eu não quero mais dançar... — ela gemeu, e ele notou que ela chorava.

Algo segurou-o pelo ombro. Ele soltou Vee por reflexo, virando-se e acertando um soco no rosto de um homem grande, que cambaleou para trás. Outros dois homens agarraram Holmes por trás, puxando-o e fazendo-o perder o equilíbrio. Vee caíra no chão, e ainda chorava.

—Parem... — gemia.

O homem grande acertou um soco no estômago de Holmes, que deixou saliva escorrer de sua boca. A feira era tão agitada que poucos notaram aquela briga.

—Parem!!!

Vee gritara, levando as mãos à cabeça. Neste momento Holmes ficou estático. Não acreditou no que via.

A feira era, via de regra, um lugar barulhento. Com tantos vendedores disputando a atenção de clientes em potencial, e tantas pessoas procurando as melhores pechinchas, era natural que fosse um lugar muito agitado e fragoroso. Mas não quando Vee gritou. Tudo ficou em silêncio.

Todos na feira. Todos eles. Pararam.

Ela se levantou, fitando os homens que haviam segurado Sherlock. Seu olhar era assassino. Levantou uma das mãos, e ao mesmo tempo em que fazia isso, as pessoas que haviam parado, todas elas, se voltavam para os homens. Vee inclinou a cabeça para o lado, sangue escorrendo de seu nariz. Seu indicador se ergueu.

Assim que ela apontou para os homens, as pessoas se lançaram sobre eles, fazendo isso com ódio, agarrando-os por todos os lados e arrastando-os para longe de Holmes. Os homens gritavam, mas foram engolfados por aquela multidão furiosa, que abafou seus gritos rapidamente.

Holmes se levantou, indo até Vee, que ficara novamente sonolenta, ergueu-a e voltou a andar.

—Vamos... — disse, deixando para entender o que acontecera numa outra hora. — Faltam três ainda.

Eles saíram andando, descendo uma escadaria e adentrando por um túnel. Andavam na escuridão, seus passos fazendo ecos aquosos pelas paredes.

Eles correram por aquele túnel escuro, e cada vez que avançavam, ele ficava mais cheio de água. Quando o nível já alcançava suas cinturas, eles ouviram gritos raivosos ecoarem. Apertaram o passo, a água já ultrapassava seus peitos, e prosseguiam adentrando na escuridão. Vee tentou retornar, mas Holmes segurava forte sua cintura.

—Não! — ela gritou. — Água não!

Holmes avistou um portão, daí agarrou-se aos canos paralelos ao teto, e continuou em frente, seus pés já sem tocar o chão. Ao chegar ao portão, forçou-o. Para seu terror, ele não abriu.

—Não é possível... — murmurou. — Eu sempre deixo ele aberto!

Os gritos ficavam cada vez mais próximos. Os homens estavam perto.

Holmes mergulhou, olhando a fechadura debaixo d'água e descobrindo um cadeado envolvendo-a. Foi puxado com força para cima.

—Respire! — Vee repetia, lívida de medo, segurando o rosto dele. — Respire!

Ele empurrou as mãos dela, nervoso.

—Tenho que abrir esse cadeado!

—Estão no final do corredor inundado! — alguém gritou.

Holmes fechou os olhos, tentando encontrar em sua mente um meio de abrir aquele cadeado.

—Sr. Holmes!

—Dustin?

O menino surgiu do outro lado do portão, agarrado às grades, sorrindo e cuspindo água.

—Eu segui vocês!

Holmes aponta para a água.

—O portão está trancado, consegue abri-lo?

Dustin pensa algum tempo, secando o rosto com uma das mãos.

—Espere um minuto! — e mergulha.

O menino nada até o cadeado, abrindo seu canivete e introduzindo-o na entrada de chave. Isso não foi fácil, pois a água era turva e cheia de detritos. Gira o punhal algumas vezes, e ouve o maravilhoso clique do cadeado se abrindo. Ele segura o portão com ambas as mãos, apoiando os dois pés na parede, abrindo o portão, que rangeu e acabou por obedecer. A força fora tanta que Dustin gastou todo o ar de seus pulmões, ficando brevemente tonto. Foi agarrado pelo colarinho e trazido de volta à superfície.

—Caramba! — disse, com água saindo pelo nariz.

—Não faça isso de novo! — ordena Holmes.

—Como assim? Eu te salvei!

Eles nadam rio afora, dirigindo-se a margem mais próxima. Chegando lá, Holmes primeiro empurra Vee para cima, ajuda Dustin a se agarrar na beirada e daí puxa-se para cima.

Quando Dustin também ia subir, foi empurrado de volta para a água. Ele afundou, engolindo um pouco de água, a confusão invadindo sua cabeça. Assim como um sentimento de traição. A correnteza o levou, e quando ele conseguiu se agarrar a uma grade de proteção, olhou para trás e viu alguns homens na margem. Provavelmente procuravam por Holmes. Dustin então entendeu. Holmes o empurrara, para que ele não fosse capturado. Ele içou-se para cima, rolando o corpo sobre a grade e caindo no seco, tossindo e pingando água. Pondo-se de pé, viu-se perto do Victoria's Embankment. Apertou os olhos, tentando enxergar Holmes ou a moça. Não conseguiu. Ao ver policiais se aproximando, disparou na direção contrária, desaparecendo de vista.

***

—Não entendi absolutamente nada.

—Eu explico.

Abberline tinha vincos de frustração em sua testa. Estes provinham de várias fontes. Seu caso. A demora de Holmes. Principalmente Tesla, que começara a falar desde a rua, e não parara desde então.

O homem parecia fervilhar de ideias. Tremia, e isso de agitação, e falava coisas sobre portais, raios e insetos. Estavam na casa de Frederick, sentados na sala de visitas, e Gregory Lestrade simplesmente não saía da janela, olhando para a rua com cenho absorto.

Abberline coçou a cabeça. Olhou para sua parede, que Tesla transformara numa lousa, e imaginava o que diria para sua esposa.

"Querida, foi o único jeito de mantê-lo longe de objetos cortantes..."

Tesla desenhou algo que parecia um caminho bem arborizado, e escreveu algo ao lado usando sua horrenda caligrafia.

—Tudo bem, — suspirou Abberline. — o que tem borboletas a ver com tudo isso?

—Você não ouviu nada do que eu disse?

—Eu ouvi, mas... — o bom detetive mordeu o interior da boca. — Ouvir e entender são coisas distintas.

—Ele já devia ter chegado. — murmura Gregory.

—Ele vai chegar. — Abberline volta-se para o inspetor. — Sente-se, Lestrade, está me deixando nervoso, por Deus.

Lestrade obedece, só então notando a parede-lousa de Tesla.

—Que diabos é isso?

—É a explicação. — diz Tesla, orgulhoso.

—Explicação de quê?

—Do que presenciamos, é claro. — ele sobe no sofá, apontando para um quadrado desenhado. — Meu rádio capta ondas sonoras de alta frequência. Eu digo alta frequência, por que são ondas que se repetem vez após vez sem parar. Meu rádio... — ele aponta para outro desenho. — Alcançou John Watson.

—Esse treco aí é John Watson? — pergunta Lestrade.

Tesla fecha o cenho.

—Se você prestar atenção no que digo não vai se incomodar com as ilustrações. Enfim, ele captou Watson e tudo o que acontecia ao seu redor.

—Watson está no Bedlam. — diz Abberline.

—Sim, mas não no nosso Bedlam.

—Como assim?

—Ele não estava aqui. Ele estava do outro lado.

Abberline e Lestrade ficaram em silêncio algum tempo.

—Hein?

—Pensemos. Foi a moça, Vee, que fez o rádio funcionar, não foi? Na primeira vez que ela fez isso, o som captado foi de uma garotinha, que está desaparecida e que foi vista pelo pai apenas em alucinações. Surgem mensagens dela em lugares por onde ela não passou, e ao sentir sua presença, Watson afirmou que ao seu redor tudo estava igual, mas de alguma forma diferente.

—É...

Tesla desenha um palitinho de vestido.

—A moça, Vee, captou a menina cantando utilizando-se de meu radinho. Daí ela teve acesso a um rádio mais potente, e captou Watson em alto e bom som.

—Sim...

—Mas ela não estava buscando Watson. — ele desenha um palitinho sem vestido. — Ela estava usando o caminho que usara antes para encontrar a menina. E ao invés da menina, ela encontrou Watson. Por quê?

—Não sei.

Tesla encarou os homens, os olhos brilhando de animação.

—Por que ele estava exatamente onde a menina estava! Não vêem? Ele estava lá, mesmo que rapidamente, e Vee o captou por que ele estava do outro lado!

—Por que você insiste em usar essa expressão?

—Do outro lado? Sim, sim. — ele desce do sofá, apontando para o desenho de árvores que fizera. — Eu fiquei muito curioso com a mensagem deixada pela menina, pois não fazia sentido, se ela podia ir até o pai para deixar-lhe uma mensagem, poderia muito bem abraçá-lo, ficar com ele e ser feliz. Mas não, ela deixou uma mensagem, e em madeira, algo que não é apagado com facilidade. Algo resistente. Algo que podia ser visto tanto de um lado como de outro. Uma marca aparente dos dois lados. Ela não foi vista fazendo a marca porque não está de fato neste mundo. Ela está num reflexo deste mundo.

—Hmm, quê?

Tesla se senta, juntando as mãos sujas de carvão preto, que usara para desenhar e escrever na parede.

—Há muito tempo venho, nas horas vagas entre minhas invenções, mimando teorias sobre mundos paralelos. Imaginem, senhores, todos tomamos decisões na vida. Mas e todas as decisões que não tomamos? E aquelas que rejeitamos? Para onde vão? E todas as versões de nós que tomaram outras decisões, que disseram não quando dissemos sim, que nasceram em outras épocas, em outros países, em outros dias que desconhecemos? E se houverem, para cada versão de nós, um universo em que existam e convivam com outras versões de outras pessoas e acontecimentos?

—Eu estou sonhando? — pergunta Lestrade.

—Pensem, senhores! Pensem! Não é tão difícil!

—Na verdade, é sim.

—Por que Watson só vê sinais da filha quando entra em transe? Por que não é um transe, é uma comunicação direta com o outro lado! A menina passou por um portal e ficou presa lá. E Watson visitou aquele lugar, nós o ouvimos chamar a filha, ele sabia que ela estava lá. Pelo visto ele é puxado para aquele lugar, Deus sabe a gravidade que os filhos exercem sobre os pais, mas ele não permanece, ele vai e volta, e isso explicaria seus "sonhos". Não são sonhos. São de verdade. Tenho certeza de que, se eu pudesse pesquisar mais, encontraria mais provas de que há um portal entre este mundo e o outro.

—Havia um machado dentro do guarda-roupa de Rosie. — disse Abberline. — Ele estava trancado por dentro.

—O quê? — soltou Lestrade.

—Vê? A menina tentou se defender, tentou se esconder... São vestígios do outro mundo, arranhões no tecido da nossa realidade. Por algum motivo, esta garotinha foi parar do outro lado, e a conexão com a filha faz Watson transitar livremente entre os dois mundos sem perceber. E Vee consegue nos conectar a este mundo através do rádio. Nós ouvimos um mundo paralelo. E Watson pode visitá-lo. — Tesla se levanta, apontando para outro desenho. — É como uma borboleta. Ela voa num lado do planeta, e afeta o clima do outro lado. John Watson tornou-se o que eu chamo de peregrino, ele afeta agora dois mundos. Ele é, neste momento, o homem mais importante de toda a humanidade.

—Então ele pode simplesmente... Buscar a filha?

—Em teoria, sim. — Tesla alisa seu bigode. — Acredito que ele tenha de passar por um portal físico para poder permanecer lá tempo suficiente para fazer uma busca pela menina. Da forma atual ele não consegue conservar-se lá, é como uma cadeira de balanço, para frente e para trás. E sinceramente isso é uma proteção para o homem.

—Como assim?

—Bem, vocês ouviram um rugido. — Tesla baixa a cabeça. — E havia um machado dentro do guarda-roupa. Seja lá o que mora lá, não é um amigo.

***

—Água não! Água não!

Vee estendeu os braços como se estivesse se afogando. Agarrou a grade do parapeito, e puxou-se para cima, desabando do outro lado, torcendo suas roupas e sua peruca. Tremia como se estivesse morrendo de frio.

Holmes também saltou a grade, fez isso com mais calma que sua companheira, e não pareceu tão desesperado para se secar. Passou a mão pelo rosto, observando a mulher torcendo-se incansavelmente.

—Isso leva tempo para secar. — disse. Vee não o escutou. Ele deu de ombros, sentando-se no chão e olhando em volta.

Estavam na Ponte de Waterloo, numa de suas pontas, e ninguém passava por ela naquele momento. Sorte. Ao menos ninguém estava planejando se matar àquela hora.

E Vee ainda lutava para se ver inteiramente seca.

—Preciso me secar... — repetia. — Preciso estar seca...

Sherlock observou-a, e fez isso com atenção. Aquela obsessão em não estar molhada não era normal. Dedos arroxeados, mãos hesitantes, lábios trêmulos. Repetição de gestos. Trauma. Ela soltava um ruído estranho, algo como um gemido, enquanto passava as mãos por suas roupas, juntando tecido entre seus dedos e torcendo-o com força. Holmes ajoelhou-se em frente a ela, segurando suas mãos. Ela o encarou, surpresa.

—Você já está seca. — ele disse.

—Ainda não...

—Sim, você está.

—Ele virá me secar. — ela disse.

—Quem?

—Se eu não me secar, ele vai vir. E vai me secar... — a voz dela falha. — E me afundar de novo.

—Afundar aonde?

Ela se encolhe. Sua voz sai num assobio.

—No tanque.

—Por quê?

—É onde eu danço. Ele gosta de me ver dançar.

Holmes fica calado alguns instantes. Processava o que ela dizia. Era a primeira vez que ela formava frases mais longas, e dizia algo além “não”. Ele tinha de aproveitar essa oportunidade.

—Onde fica esse tanque?

Vee prende a respiração. Aperta com força os dedos de Sherlock. Seus olhos desviam-se dos dele, passeando lentamente pela paisagem ao redor.

—Num lugar ruim.

***

O Dr. Hyslop relia o prontuário recém redigido de seu mais novo paciente, o também doutor John Hamish Watson. A folha era ainda branca, diferente das folhas de outros prontuários, e as letras ainda cheiravam tinta fresca. O Dr. Hyslop gostava do cheiro de tinta ainda por secar, mas naquele momento ele não dava a mínima atenção àquela mínima fonte de prazer. Ele relia aquele texto com a fronte franzida. Estava preocupado.

Ele lia e cruzava com seus subalternos, que o olhavam com uma mistura de preocupação e dúvida. Eles não entendiam. Nem mesmo o Dr. Hyslop entendia completamente.

O Dr. John Watson conseguira sair de sua cela. Fizera isso sem ao menos abrir a fechadura. Todos os enfermeiros estavam incrédulos. Não era possível. Era uma fechadura Chubb. Hyslop virou mais uma folha do prontuário. Com certeza Charles Chubb ficaria injuriado.

Watson saíra de sua cela, e por algum motivo saiu passeando pelo hospital, e também por algum motivo não foi notado por nenhum enfermeiro durante sua caminhada. Ele perambulou pelos corredores, e em certo momento o próprio Hyslop notou sua presença, indo até ele e inquirindo-o a respeito. Watson não respondeu. Tinha o olhar perdido, como se enxergasse através do médico-chefe. Daí deu as costas para ele, e voltou a andar. Neste momento Hyslop teve uma certeza: John Watson não estava ali. Não de verdade.

Hyslop se distraiu. Ele não soube por quê. Ninguém soube. Mas quando ele deu por si, Watson havia desaparecido. Ele olhou ao redor, para os enfermeiros com ele, e tais pareciam igualmente confusos.

Iniciou-se uma busca cabal em todo o hospital. Todos saíram em busca do médico internado fujão. Os outros internos foram colocados de volta à segurança de sua cela, facilitando a locomoção e posteriormente facilitando o trabalho. Todos os cômodos foram vistoriados.

Uma enfermeira gritou. Seu grito viera do andar de baixo. O subterrâneo. Hyslop pegou seus enfermeiros mais fortes para acompanhá-lo. Era a ala onde só homens podiam entrar. Ala para os insanos que haviam cometido crimes. Eles correram escadas abaixo, e encontraram a enfermeira aos prantos encostada à parede.

—Mulher tola! — Hyslop soltou. — Sabe que não pode vir aqui!

A mulher tremia, e mal conseguia montar frases completas.

—Estava procurando o interno desaparecido, senhor!

—Suba logo, e não volte mais aqui embaixo!

A mulher subiu, ajudada por um companheiro de ofício, ao mesmo tempo que um dos homens cutucou o Dr. Hyslop.

—Doutor... — disse, apontando para uma mancha na parede, mais à frente naquele corredor. Era um corredor escuro, bem mais sujo que os andares superiores, onde as celas pareciam realmente celas, com grades, ferrugem e limo. Manchas eram algo comum ali. Mas não aquela. Aquela era uma mancha de sangue.

Todos caminharam até a mancha, que lembrava o desenho de uma mão. Logo viram que o chão estava salpicado do mesmo líquido vermelho, e seguiram as marcas. Papéis avulsos voavam à esmo, e ninguém se deu ao trabalho de ver do que se tratavam. Alguns loucos estavam encolhidos no fundo de suas celas. Sujos e descabelados, lembravam animais acuados. Outros estavam encostados às grades, soltando blasfêmias e rindo do que eles mesmos diziam. Algumas lâmpadas piscavam. Realmente, aquele andar não era para mulheres. Naquele instante, não era para homens também. Todos os enfermeiros, incluindo Hyslop, sentiram os pelos de suas nucas se arrepiarem. Ao final do caminho ensanguentado, estava John Watson, sentado no chão, com as mãos sujas de sangue e segurando um pedaço de metal.

Hyslop fechou o prontuário. Lembrar aquela cena fez seu estômago revirar. Ele parou em frente a uma porta trancada, e acenou com a cabeça para o enfermeiro ali de guarda. O enfermeiro abriu a porta, e Hyslop entrou. Colocou o prontuário sobre uma mesinha, encarando Watson, que estava sentado na cama bem arrumada de lençóis brancos, já de banho tomado e com roupas limpas.

—John... — disse, sem paciência para rodeios. — Como saiu de sua cela? —Watson não respondeu. Olhava para frente, e tinha a expressão dura. — John, o que foi fazer no subterrâneo?... Você não tem ferimentos, de quem é aquele sangue lá embaixo?... Doutor, olhe para mim e me responda: como saiu de sua cela?

Watson encarou-o, e em seus olhos crepitavam uma chama que Hyslop nunca havia visto nem mesmo nos olhos dos mentecaptos. Ele deu um passo atrás, ressabiado. Watson manteve o olhar, e a chama que ardia nele era a do mais puro ódio. O bom doutor trincou os dentes.

—Eu sei... — disse, numa raiva contida. Hyslop endureceu. Watson balançou a cabeça. Esboçou um sorriso de desprezo. — Eu sei.

***

—Você vai terminar isso ou quer que eu termine para você?

Dustin encarou Mike, que o encarava de volta. Daí olhou para o naco de pão seco em suas mãos, e trouxe-o para perto do peito.

—Vá cuidar de sua comida! — ralhou.

Eles estavam sentados ao redor de uma fogueira, acesa por eles num dos cantos mais afastados do Hyde Park. Estavam Dustin, Mike e Lucas, três meninos de rua que por vezes se ajudavam e dividiam o que conseguiam pegar. Como eles diziam, o “despojo”. Era noite, e a fogueira era a única fonte de luz e calor.

—Comam logo, senhoritas. — diz Lucas, menino alto e magro, negro, que usava uma gravata grande demais para seu pescoço. — Temos ainda de encontrar um lugar para dormir esta noite.

—Sim. — concordou Mike, menino de estatura média, olhos inteligentes e blusa de lã, que cutucava o fogo com um graveto. — Nesse parque é que eu não durmo.

—Por que não? — pergunta Dustin.

—Não ouviu? — Lucas se aproxima da fogueira. — Os mendigos que dormem aqui estão procurando outros lugares, por que alguns deles simplesmente sumiram. Dizem que só acharam seus pertences, e nem sinal de vida.

—Dustin não precisa se preocupar. — ri Mike. — Ele já tem uma babá.

—Cale a boca!

—É mesmo... — Lucas puxa um dos cachinhos de Dustin, que o afasta com um tapa. — Ele virou pau mandado daquele detetive.

—Que nem o Wiggins!

—Ele paga muito bem! — diz Dustin. — Não fui adotado, fui contratado. Recebo três xelins por cada missão cumprida, e posso realizar várias num dia. Não sou um pau mandado. Sou um homem de negócios.

Lucas cai na risada, murmurando algo. Mike baixa a voz.

—Será que o homem está contratando?

Lucas abre os braços, incrédulo.

—É sério, Mike?

—Eu posso falar com ele se quiser.

—Vocês não deviam confiar nos adultos. Eles não prestam. Tudo o que querem é nos enfiar em orfanatos, onde limparemos privadas e enceraremos o piso sob as ordens de freiras gordas!

—Não o Sr. Holmes. — Dustin come o resto de seu pão. — Ele cuida da gente.

—Conversa!

—Ele salvou minha vida hoje. E eu salvei a dele. Foi recíproco. É uma camaradagem, e posso viver livre nas ruas. E um dia, quando eu juntar dinheiro suficiente, comprarei uma casa, e um coche, e vou trabalhar, e ganhar mais dinheiro.

—Para quê tanto dinheiro?

Dustin dá de ombros.

—Vou adotar todos os gatos que não tem um lar.

—Você é uma piada. — diz Lucas, cruzando os braços. Dustin põe-lhe a língua.

—Uma piada que tem emprego.

—Uma fogueira, que sorte a minha... — os três meninos se levantam, cada um pegando um pedaço de pau que jazia aos seus respectivos lados. Surge um mendigo, um adulto, sujo e maltrapilho, sorrindo com seus dentes estragados e olhando cada um dos meninos. — E três lindas criancinhas...

—Sai fora, idiota... — diz Mike, agressivo. — Essa fogueira é nossa!

O mendigo abre uma carranca horrível, e mostra um revólver no interior de seu casaco. Os meninos fazem menção de correr, mas o homem saca a pistola rapidamente.

—Fiquem paradinhos... — ele se aproxima da fogueira, largando sua sacola no chão. Encara os meninos. — O que vocês têm aí?

—Nada. — afirma Lucas. — Comemos tudo. Você chegou tarde.

—Vou ficar com um de vocês. Você. — ele aponta o revólver para Dustin. — Venha aqui.

—Por quê? — Dustin quase pode escutar seu coração batendo.

—Você é bonitinho.

—Ai não... — murmura Mike. — Ele é um...

—Um predador... — completa Lucas.

—Venha aqui, menino! — ordena o mendigo. Dustin dá alguns passos lentos, sem conseguir levantar os olhos. Sentia vontade de chorar. — Solte o pau. Os outros podem ir.

Os meninos disparam a correr, embrenhando-se na mata e desaparecendo. O mendigo sorriu de novo. Uma lágrima escorre pelo rosto da criança.

—O que você vai fazer?

—Nada que um monstrinho sem dentes como você já não tenha feito.

Algo se move entre os arbustos. Dustin olha em volta, enxugando a lágrima.

—Venha aqui do meu ladinho, moleque. — o mendigo estica a mão, agarrando Dustin pelo cabelo e puxando-o com força, fazendo-o derrubar sua boina. — Venha aqui, sua desgraça!

O mendigo soltou um grito. Livrou Dustin, que caiu no chão perto da fogueira. Caíra de costas, e tapou a boca com as duas mãos, segurando um grito de terror. Virou-se, engatinhando para longe da fogueira, chorando sem controle e ouvindo os estalos de ossos se partindo. Tremendo como uma vara verde, arrastou-se até os arbustos, pondo-se de pé e disparando pelas árvores, adentrando na escuridão. Não olhou para trás.

Agora, ele chorava ruidosamente.