A Criadagem

1 Capítulo 1 - O Sonho


Através da janela vejo o sol se por, colorindo o céu com seu laranja. Encosto-me no parapeito e, em transe, sigo olhando para o horizonte, vendo a luz sumir por trás das casas, por um momento esqueço dos problemas e apenas escuto o som do silêncio da minha mente. Até o momento que sou interrompida:

- Hannah! Hannah! Vem rápido, o Jornal Oficial já vai começar! – chamou minha irmã, Juliet.

Diante do apelo, corri. Hoje serão anunciadas as selecionadas. É minha chance. Minha chance de conhecer o castelo, a realeza. Minha chance de ser Um. Chance de conhecer o príncipe Benjamin, que acompanho pela televisão desde quando me conheço por gente. A escada parecia infinita e, apesar do risco de cair, desci o mais rápido que pude.

- Você chegou tarde demais! A família real já falou e as primeiras candidatas já foram anunciadas. – disse minha mãe, sem perder a oportunidade de me repreender.

- Já anunciaram nossa província?

- Não, mas fiquem quietas, quero ver as garotas! – disse Juliet, impaciente – Meu Deus! Olha que linda!

Isaac, o apresentador, continuou com sua lista repleta de lindas meninas. Brancas e negras, loiras, morenas e ruivas, das mais diferentes castas. Ver tantas selecionadas me deixava mais apreensiva e ansiosa, temendo a possibilidade de não ser escolhida.

-Angela Wright, de Sonage, Quatro

Virginia Baker, de Dakota, Dois

Alison Collins, de Columbia, Cinco

Hannah Thomas, de Sota, Quatro

Nesse momento minha cabeça começou a girar e a voz dizendo meu nome se repetia na minha cabeça. Não consigo acreditar! Eu fui selecionada! Eu vou pro castelo! Hannah Thomas! Hannah Thomas!

Hannah! Hannah!

Abro meus olhos com dificuldade desviando do sol que se espreme entre as cortinas cor de creme e invade meu quarto. Juliet está logo ao lado, escorada na parede com os olhos grudados em mim.

-Achei que você não fosse acordar. – e antes que eu pudesse pensar, continuou – Você prometeu me ajudar com as roupas.

- É claro, Juliet. Mas, por favor, preciso me vestir primeiro. – disse pedindo para que ela saísse.

Na minha família, somos Seis, formados por cozinheiros e costureiras, eu sou a exceção. Guiada por meu pai me perdi entre as panelas e me apaixonei pela cozinha. Depois disso consegui uma vaga no castelo do Conde de Harvey, que mora aqui na província. Naquele momento, apesar de continuar sendo uma cozinheira comum, eu trabalhava para a Corte, então fui realocada como uma Quatro, chef de cozinha.

Desci as escadas até a sala, onde minha irmã já me esperava. Ela, como todas as mulheres da família, seria uma costureira e queria impressionar a mamãe com um presente. Ajudei-a a terminar o vestido que a daríamos de aniversário na próxima semana. O talento de Juliet era inegável, os acabamentos estavam ótimos para alguém de 12 anos.

Jogamos um pouco de conversa fora e num piscar de olhos, já era hora de ir, a Corte não tolerava atrasos. Subi no ônibus já com o fone de ouvido em mãos e antes que entrasse em movimento, a música já estava tocando.

Porque eu sonhei com A Seleção? Não faz sentido nenhum. Eu nem ao menos posso ser selecionada, talvez nem que pudesse eu quereria. Tenho 20 anos, alguns meses a mais que o permitido para a inscrição das selecionadas. Sentiria saudades de casa, do trabalho e da rotina. Além disso, porque disputar um príncipe se já existe alguém em meu coração. Aaron. Conhecemo-nos ano passado. Assim como eu, ele é um Quatro, um corretor de imóveis.

Falando nisso, hoje iremos passar a tarde juntos e, a noite, ver quem são as verdadeiras selecionadas.

O castelo a minha frente indica que é hora de descer. Trabalho aqui desde os 17 anos, entretanto, nada posso dizer sobre o castelo. Para a criadagem só é permitida a cozinha e o jardim dos fundos. Em noite de banquete, espio o salão pela fresta na porta, mas não consigo ter nenhuma dimensão de espaço. Aérea como estou hoje, tenho medo de fazer alguma coisa errada e ir embora, então, procuro o foco novamente.

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Faltam poucos minutos para o fim do expediente e duas horas para encontrar Aaron. Vejo Kelvin, o grande chef da casa, aproximar-se e nos chamar para uma reunião de urgência. Essas reuniões nunca são boas, mas dessa vez nosso ‘mestre’ não parece nervoso como nas outras vezes. Não tem a expressão de quem está mandando um passarinho embora.

Nos encontramos todos no jardim dos fundos, único lugar onde nossa entrada é permitida.

- Atenção, senhores! Em virtude da Seleção, a Família Real decidiu sortear também novos chefs de cozinha para irem ao castelo. Cada província deve indicar três de seus melhores para participarem do sorteio que escolherá os 15 novos cozinheiros da realeza.

Olho para Julian, meu vizinho e colega. Nossos olhares de cruzam e nossos sorrisos se abrem com a possibilidade de trabalharmos com o Rei. Cruzamos os dedos.

- Diante disso, nomeei o que há de melhor em nosso castelo para fazer parte do processo de escolha. Parabenizem seus colegas Julian Cavendish, Hannah Thomas e Olivier Besnard que a partir desse momento estão a disposição do Rei Maxon e da Rainha America.

Sinto meu coração parar de bater. É a minha seleção! Sinto vontade correr pelo jardim e gritar como uma criança. Quero contar para meus pais, para Juliet e para Aaron. É a minha seleção, e vou com meu amigo de infância! Aaron ficará tão feliz.

Antes que eu pudesse pegar o telefone para avisar a grande novidade, um abraço coletivo me envolve. Uma onda de alegria toma conta de nós, apesar de alguns invejosos. Eles decidem se reunir hoje, assim que formos liberados, no boliche da região.

- Não, desculpem. Tenho um encontro hoje.

Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, uma mensagem faz meu celular vibrar. “Me desculpe, querida, mas vou ter que cancelar nosso passeio. Beijo, A.” Meu sorriso se desfaz e começo a ficar preocupada. Ele nunca cancela. Nunca nada nos atrapalha. Talvez seja algum problema. Decido relaxar e aceito o convite dos meus amigos.

Notas finais
Bem, esse é o primeiro capítulo. Espero que gostem! Vou adorar saber a opinião de vocês...