A Criada Francesa
1 Introdução
O inverno não tinha sido muito rigoroso no ano de 1886, mas eu estava contente em rever as cores trazidas pela primavera. As flores voltavam a alegrar e a perfumar as praças e as ruas de Londres, enquanto o clima agradável encorajava as pessoas a saírem de casa sem a companhia de seus pesados sobretudos.
Na Baker Street as coisas fluíam de forma vagarosa, pois já há algum tempo não surgiam novos casos. No entanto, essa falta de clientes estava até sendo bem-vinda naquele momento, pois Holmes havia acabado de solucionar um caso bastante complicado há menos de duas semanas e estava esgotado mentalmente. Para que vocês tenham uma ideia da complexidade da situação, até mesmo a ajuda de Mycroft tinha sido necessária para a conclusão do referido caso, mas essa é uma outra história, que eu talvez conte algum dia.
Embora Holmes se negasse a admitir que precisasse de um descanso, isso era nítido. No entanto, não usei meu diploma para obrigá-lo a se aquietar, porque sabia que se o fizesse, certamente obteria o resultado oposto, por pura e simples pirraça de meu colega. Então, eu apenas agradecia ao fim de cada dia, pela temporária ausência de batidas à nossa porta.
Aquela tranquilidade não era apena bem-vinda para Holmes, mas também para mim, já que eu finalmente tinha encontrado um momento de paz para voltar a escrever. Na época, eu havia voltado a atender alguns pacientes particulares, mas as consultas eram raras, por isso, quando Holmes estava sem clientes, o dinheiro vindo da publicação de meus manuscritos ajudava a sanar as despesas da casa.
Não passávamos por dificuldades financeiras, mas eu era o colega de apartamento, e dividir as despesas era minha obrigação, por isso, naquela bela manhã ensolarada, eu acordei disposto a pegar minha velha máquina de escrever e retomar o trabalho interrompido há quase um mês. Contudo, minha resolução durou apenas até eu entrar na cozinha, pois lá eu descobri que meus planos teriam que esperar mais um pouco.
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