A Criada Francesa

24 Descanso final


— Sr. Holmes, Dr. Watson, muito obrigado por finalmente terem nos dado uma resposta depois de tantos anos de espera. Apesar de eu já vir suspeitando há algum tempo que minha mãe pudesse ter algo a ver com o sumiço de Juliette, ainda é quase impossível para mim acreditar que ela tenha sido capaz de tamanha monstruosidade. – disse Ethan Hyde ainda tentando absorver todas as revelações trazidas à tona durante aquela noite.

— Embora eu não seja psiquiatra, é nítido que a Sra. Hyde não está em seu juízo perfeito. – comentei. – Tudo o que ela fez durante esses anos, somado ao comportamento apresentado aqui hoje, indicam que ela tem uma profunda obsessão pelo senhor. Não há como sabermos ao certo como e nem quando isso começou, mas está bem claro que ela não se arrepende de absolutamente nada e que, inclusive, justifica seus atos como sendo simples demonstrações de seu amor materno. Já eu, temo que estas sejam, na verdade, demonstrações de um quadro grave de neurose ou de psicopatia.

— Sim, doutor, minha mãe está doente. – concordou Ethan Hyde, com uma expressão triste. – Eu sinto muito por isso e não medirei esforços para que ela seja tratada pelos melhores especialistas do país, mas nada justifica o que ela fez, e ela também deve pagar pelos seus crimes.

— O senhor está preparado para o que virá a seguir? – perguntei.

— Serão dias sombrios para mim e para a Flora Cosmetics, mas curiosamente, esta é a primeira vez em minha vida que me sinto livre. Eu finalmente começarei a agir de acordo com a minha própria consciência.

— Muito bem dito, Sr. Hyde. – apoiou Holmes. – Nunca é tarde para se tomar as rédeas da própria vida. Mas ainda temos uma última coisa a fazer antes de darmos este caso por encerrado: precisamos dar um descanso digno à mademoiselle Renard e ao senhor seu pai.

— Você tem toda razão, Holmes. – concordei. – Nós já sabemos onde está o Sr. Hyde, mas como faremos para descobrir onde o Sr. Vincent enterrou o corpo de Juliette? Será que está no lago também? Acho que nem a Sra. Hyde sabe seu paradeiro e não adiantará muito perguntar para ele...

— Não creio que esteja no lago, mas também não creio que precisaremos perguntar sua localização ao Sr. Vincent, meu caro Watson, pois tenho a impressão de que ele já nos contou. – respondeu Holmes, coçando o queixo, indicando que já tinha alguma coisa em mente.

— E quando foi isso? – indaguei.

— Na verdade, acho que ele vem tentando dizer isso a todos já há vários anos. – respondeu Holmes. – Também tentou falar da existência do bebê, mas nós não fomos capazes de entender. Pelo menos, não até agora.

— Mas... oh, acho que você tem razão! – concordei, já começando a entender. – O urso de pelúcia!

— Exatamente, Watson. O urso de pelúcia com a flor na orelha, que ele carrega para todo o lado como um verdadeiro filho. – confirmou meu colega. – Talvez algum sentimento de culpa, alguma memória reprimida que nem ele mesmo consiga entender direito, o obrigue a carregar e a cuidar do bichinho, como fez com o bebê naquela noite.

Tive que concordar que o que Holmes dizia fazia algum sentido. Ninguém sabe ao certo como funciona o cérebro de uma pessoa mentalmente perturbada, mas era bem possível que o Sr. Vincent continuasse cuidando do “bebê”, mesmo depois de todos aqueles anos.

— Bem, devido a sua condição, acredito que ele tenha enterrado Juliette em algum lugar que lhe era familiar, principalmente pelo fato de ele estar bastante assustado com tudo o que estava acontecendo. – continuou Holmes. – Ele morava em uma casinha afastada no meio do jardim, não é mesmo, Sr. Hyde? Essa casa ainda existe?

— Sim, ela ainda existe, mas desde que ele desapareceu, ninguém mais morou lá. Agora o lugar é usado apenas como um depósito de coisas sem serventia.

— E por acaso há dentes-de-leão por lá? – perguntou Holmes.

— Sim, muitos. Ao redor da casa é onde eles mais crescem. Por quê? – respondeu o empresário sem entender muito bem o motivo da pergunta.

— É apenas um palpite, mas acho que é por lá que devemos começar a procurar.

Eu havia entendido o que Holmes estava imaginando. Se o ursinho tinha algum significado, era bem possível que o dente-de-leão sempre preso à sua orelha também pudesse ter. Talvez fosse uma pista involuntária, uma lembrança que ainda permanecia no subconsciente do Sr. Vincent.

— Me acompanhem, por favor. – convidou Ethan Hyde. – Eu vou levá-los até lá.

Alguns empregados vieram conosco a pedido do patrão e trouxeram consigo pás e algumas lamparinas que nos ajudariam a iluminar o caminho madrugada adentro. A luz da lua cheia que brilhava no céu limpo também estava sendo de grande ajuda.

Quando finalmente chegamos à casinha, atual depósito de quinquilharias, vimos que ficava realmente num local bem isolado da propriedade. E certamente havia muito mais flores do que imaginei que haveria. Bem próximo da casa, havia uma área enorme, aparentemente abandonada, onde as plantas cresciam desordenadamente, mas era notável a grande presença dos dentes-de-leão. A maior parte ainda estava amarela, enquanto algumas flores já haviam se transformado em sementes, que voavam singelamente enquanto andávamos por entre elas. Era uma área considerável para começarmos a cavar a esmo, então Holmes preferiu fazer uma vistoria antes de qualquer coisa.

Munido de uma lamparina e uma pá, ele começou a andar pelo lugar. Peguei um outro lampião e o segui.

— O que estamos procurando? – perguntei, tentando ajudar.

— Qualquer coisa que não deveria estar por aqui.

Seguindo a indicação de Holmes, fui para o lado oposto e comecei a olhar atentamente. Era muito difícil de ver alguma coisa por entre as folhas e raízes das plantas que se entrelaçavam, ainda mais no escuro, mas não pretendíamos desistir de nosso objetivo. Ethan Hyde e seus funcionários se juntaram à caçada, mas as horas iam passando sem encontrarmos nenhum sinal.

O gorjeio dos pássaros já dava boas-vindas à manhã e o sol alaranjado começava a mostrar suas cores, quando tive a impressão de ter pisado em algo que estalou e se partiu sob meu pé. Algo que certamente não era uma planta e que não deveria estar lá.

Curioso, afastei um pouco a vegetação para ver o que era e percebi que era algum tipo de joia em formato de uma libélula, bastante delicada, e que agora graças a mim, havia perdido uma das asas. Eu peguei o objeto e, olhando mais de perto, à luz do lampião, vi que era um ornamento para cabelo decorado. Um grampo.

— Holmes, acho que encontrei alguma coisa! – avisei.

Ao me ouvir, em questão de segundos Holmes já estava do meu lado, assim como o Sr. Hyde. Começamos a arrancar as flores com as mãos mesmo até encontrarmos apenas a terra para podermos cavar. Não demorou muito para que visualizássemos partes de tecido apodrecido pelos anos enterrado.

— Acho que já está bom assim. – disse Holmes, entristecido. – Não devemos continuar. Vamos parar e avisar à Scotland Yard.

Ao ver aquele simples pedaço de pano, Ethan Hyde caiu de joelhos e começou a chorar. Todos nós sabíamos o que estávamos procurando, mas o choque de realmente encontrar, não é algo fácil de se enfrentar.

Holmes tinha razão, aquele era um sinal claro de que havíamos encontrado o corpo e não havia motivos para continuarmos torturando o Sr. Hyde.

— Vamos voltar para a casa, Sr. Hyde. – chamou Holmes. – Acho que nossa missão aqui está finalmente encerrada. A polícia fará o resto do trabalho e a mademoiselle Renard finalmente poderá descansar em paz. Eles também se encarregarão de drenar o lago para comprovar se o que a Sra. Hyde disse a respeito do senhor seu pai é mesmo verdade.

Ethan Hyde continuava de joelhos, imóvel e em silêncio, olhando para o vazio. Parecia ter entrado em algum estado de transe. Sua cabeça certamente estava dando voltas e foi preciso algum tempo para que voltasse a si. Quando isso finalmente aconteceu, ele enxugou as lágrimas e se levantou.

— O senhor tem razão, Sr. Holmes. Peço desculpas por terem presenciado esse meu momento de fraqueza. – disse o homem, envergonhado.

— Não diga uma coisa dessas, Sr. Hyde! – repreendi-o. – Nunca peça desculpas por expressar seus sentimentos, porque isso é libertador. Médicos são capazes de curar o corpo, mas as lágrimas são capazes de curar a alma. Agora, devemos fazer como Holmes disse e voltarmos para casa. O dia já está quase amanhecendo, mas eu recomendo ao senhor que vá descansar e dormir um pouco. Nós voltaremos à Londres para dar nosso depoimento a Gregson e também aproveitaremos para contar sobre a descoberta no jardim.

— Muito obrigado, doutor. Eu seguirei os seus conselhos. Vou descansar um pouco e depois também irei à Scotland Yard. Eu quero acompanhar de perto o desenrolar de toda a investigação, mesmo que isso me doa. Eu já fiquei alheio a tudo o que acontecia ao meu redor por tempo demais e agora preciso encarar tudo de frente, afinal, eu também tenho culpa em toda essa desgraça que se abateu sobre as famílias Renard e Hyde.

— Faça isso, Sr. Hyde. – apoiou Holmes. – Recomponha-se e encare o que virá a seguir. Não será fácil, mas também estaremos por perto até que toda essa história chegue de fato ao seu fim.

Após retornarmos à mansão com o Sr. Hyde, nos despedimos em seguida, deixando para trás um homem com o coração destroçado. Sabíamos que as coisas não seriam fáceis para ele, principalmente quando tudo chegasse aos ouvidos da imprensa, o que não demorou muito para acontecer.