A Corvo
1 A Corvo - CHAD.
Notas iniciais
Os sons dos tambores podiam ser ouvidos nos quatro cantos da floresta, a grande fogueira arde e ilumina tudo e todos ao seu redor, homens e mulheres seminus dançam e entoam cânticos a Titã, pedindo a ela que os acompanhem na batalha que se aproxima, sabem que sem a benção divina, jamais conseguirão vencer.
Entre as jovens seminuas que giram e dançam de mãos dadas ao redor da fogueira, uma chama minha atenção, não pela beleza –Que com toda certeza não lhe faltava- mas pela força de suas preces que emanavam a mais pura luz de seu coração, dou maior atenção a ela, sobrevoando sua luz, assim ouvindo seu pedido. Ela ansiava que Macha, A Titã Corvo que se alimenta das almas e também as abençoa, que proteja seu amado. Minha atenção é roubada mais uma vez, por um rapaz que de igual luz da garota a abraça e beija fervorosamente.
Como resposta as preces de ambos, pouso sobre o ombro da jovem, que parece nem notar minha presença, deixando emaranhado em seus cabelos loiros uma de minhas penas, não negra como as outras, mas minha pena azul, que somente as mensageiras de Macha carregam, para que saibam que suas preces foram ouvidas. Alço voo rumo ao destino final de todas as almas, o submundo.
Após voar sobre vales e montanhas, me aventurando sob a última luz daquele crepúsculo, chego ao meu destino. Ao norte do submundo, sobre a montanha negra fica a morada de Macha, é um castelo em ruinas, grande o suficiente para abrigar todas as almas do mundo, o castelo é iluminado por fogueiras nas torres e pelas almas que por ali vagam.
Pouso no pátio principal que não possuía cobertura alguma, ali já estavam minhas outras 4 irmãs, Morgana, Genevra, Marva e Avalon, cada uma de nós temos a missão de recolher preces diferentes, eu sou Chad a mensageira das batalhas.
“Tragam as preces até mim, minhas filhas. ”
Macha se materializou na nossa frente, vinda da fumaça assumindo a forma humana, vestida de sombras da cabeça aos pés, não podíamos ver seu rosto, sua voz é doce e acetinada para nós, caso um mortal a ouvisse, certamente seus ouvidos sangrariam. Uma a uma, de corvo, tomamos nossa forma humana, todas nuas até que fossemos cobertas por algo que se assemelha a um tecido negro, mas quando tocado é desmanchado como névoa.
Também uma a uma, nos aproximamos da Titã e depositamos as preces sobre ela, as preces assumiam diversas formas, as minhas eram como água e quando jogadas sobre a Titã, no momento em que tocam sua pele, se transformavam em pequenos pontos de luz que subiam cintilando até chegarem ao céu, onde ocupavam os lugares das estrelas que ali já estavam. Mas uma estrela que subia, entre todas as outras, se destacou, como a jovem que lhe desejara.
“Chad, creio que a jovem que fez esse pedido, não, que fez essa prece, esteja de fato reconfortada, não acha? ”
Por trás de seu véu de sombras, pela primeira vez, vi seu rosto, belo e congelado, sua expressão era raivosa, estaria ela irritada comigo? Soube, no momento em que cai no chão, agonizando de dor, ela estava me torturando, por ter deixado minha pena como sinal para os jovens. Essa não era a primeira vez que Macha tomava atitude tão controversa a sua posição, a muito que os outros titãs a desconsideram como parte do panteão, mas nessa noite, eles olharam por mim, no meu último segundo de vida. E sendo anunciada por um trovão ensurdecedor, a titã Cervo, a líder de todos os outros.
“Chega! A muito que você se levanta contra nós e age dessa forma com suas filhas!”
Urrou a titã cervo, que agora se materializou da luz para a forma humana –Não tão humana, já que suas pernas eram patas de cervo- ela veio até mim e me tomou em seus braços, me fazendo assim flutuar no ar, sobre Macha.
“Você a partir de hoje, até o findar dos tempos, não será mais A Titã Corvo, Chad assumirá seu lugar, como sua filha mais velha e como sábia que é, tenho plena certeza de que ela, jamais cometerá tais atrocidades, como você! ”
Macha, não teve tempo de se pronunciar, caio no chão, se retorcendo, o manto que lhe cobria todo o corpo, agora ficava sobre o meu corpo, a coroa sobre sua cabeça, agora estava sobre a minha e pude sentir mais uma vez a vida fluir de mim e ser espalhada para todo aquele lugar, que agora me pertencia.
A Titã Cervo materializou em suas mãos arco e flecha, atingindo em cheio o peito de Macha, que agora se transformava em poeira, poeira negra como a alma dela, um vento muito forte soprou tudo para longe e dali em diante, nunca mais uma alma fora injustiçada e todos os filhos e filhas do Corvo foram abençoados grandemente com a liberdade, para nunca mais servir.
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