A Cortesã

14 Uma Nova Chance


Notas iniciais
Desculpem-me a demora e o atraso. De salientar que A Cortesã encontra os seus momentos finais, e agradecer a todos que estiveram aqui até então. Vou tentar publicar uma vez por semana, sendo que não faltam mais de 3 capítulos para terminar. Boa Leitura,

"Tomem cuidado.
Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: 'Estou arrependido', perdoe-lhe.

Lucas 17:3-4"

Maribelle Powell-Gilleston tinha aprendido bem as façanhas da Cortesã. Fazia algum tempo que o seu marido começava a prestar a sua atenção, pois todas as noites quando este chegava bêbado e a cheirar o perfume do corpo de outras mulheres, a jovem casada deixava um vestido em cima do divã, sapatos e fumava um cigarro para dar a impressão de que tinha saído.

Adrian Gilleston começara por questionar sua sogra, mas Loretta contava a verdade sobre sua filha passar as noites em casa, e isso provocava ainda mais a curiosidade do jovem, que acreditava que as duas andavam em combinações para o enganar! Começou então a reparar mais na bela loira que tinha em casa, e que tinha deixado de o perseguir e de choramingar pelos cantos, e que passara a se perfumar e a usar as melhores lingeries e a abusar de maquilhagem e sorrisos excessivos. Alguma coisa estava errada.

Passou a espia-la enquanto se banhava e cantarolava alguma canção melodiosa, cheia de vivacidade e um brilho que nunca antes tinha visto. Suas roupas cheiravam a cigarro e a vinho, nada que identificasse outro homem, mas deixando claro a possível existência de um. Aquelas saídas durantes as tardes com Irina Harris, uma mulher promíscua e que dividia uma cama sem estar casada com um homem.

— Mari — chamou por ela certa noite, e a viu entrar numa leve camisa de dormir, transparente, mas não mais branca e pueril, era vermelha e sensual.

— Boa noite meu amor. Estarás de saída? — A bela loira perguntou, os olhos azuis pareciam despreocupados, e tinha naqueles lábios rosados um sorriso disfarçado.

— Esperas que eu saía? — Adrian questionou.

— Muito pelo contrário, senhor meu marido. Apenas não desejo contraria-lo. — No bico dos pés, caminhou até a mesa de apoio e procurou dentro um licor, servindo nas pequenas taças, de rabo empinado e um suave assoviar em sua boca.

— Não penso ser interessante deixa-la sozinha — respondeu a receber o licor, e a sentir um desejo que nunca se lembrara de sentir por Maribelle. Havia um fogo diferente nela, na forma de falar e de se mexer com sensualidade. Ainda assim, o que mais o assustava era a estranha confiança que parecia ter adquirido.

— Não é algo ao qual já não esteja acostumada — murmurou com atrevimento, e bebericou com certa sensualidade o seu licor.

— Não pretendo voltar a deixa-la mais. Prometo — disse Adrian cuja excitação estava no rubro. E saltou para cima de Maribelle sem se importar com o conteúdo que se entornava pelos lençóis.

Se achava o homem mais burro do mundo ao saborear os lábios da sua maravilhosa esposa, e por tê-la negligenciado por tanto tempo. A loira apenas sorriu cheia de felicidade, e por dentro agradeceu às lições da Cortesã, enquanto se entregava para os braços do marido, o perdoando do sofrimento que lhe causara no passado, e desfrutando das descobertas do amor carnal.

***

James chorou enquanto olhava para Charlotte, sem conseguir parar de se crucificar por dentro. Estava desgostoso como quando pensou que ela a tivesse traído, e podia jurar nunca mais ter sido feliz. A vida tinha sido injusta com todos eles, lhes privara de ter uma família e de cuidar da pequena Ana, que lhe era desconhecida e já tão querida. O que dizer?

Quis abraçar o corpo amado, mas a Cortesã recuou, magoada demais para se permitir a tal ato.

— Quero tira-la daqui. Não confio em Fitzadam Price e muito menos a quero em perigo, senhorita Dumont — conseguiu dizer, ensaiando as palavras. — Farei de tudo, nem que custe a minha própria vida para trazer nossa filha de volta. Desejo que me perdoe, pois destrui sua vida como jamais mereceu, quando podia não ter sido cego e tê-la escutado uma vez que fosse.

Não adiantava pensar no que poderia ter feito, ou como sua mãe podia ter-lhe aberto os olhos. Tudo já tinha acontecido de maneira escabrosa, e muito se enojou pelas várias vezes em que depositou flores na campa de seu pai.

— Sempre foi boa, cuidou de minha mãe e agora de minha irmã. Tudo o que cometi foi uma grande injustiça a sua pessoa e não sei mais quais palavras usar para me redimir por tudo o que lhe fiz passar — continuou, a vergonha dos belos olhos azuis confirmavam a veracidade de suas palavras. Sentiu cada palavra horrível que disse a Charlotte, cada blasfémia pronunciada em seu nome, todas as noites que a amaldiçoou. Pensou na fome e no frio que esta teria passado, nos inúmeros homens com quem se deitara apenas para poder sobreviver, no seu sofrimento infinito e nem assim, poderia classificar.

— Eu a admiro — declarou ao perceber que a bela negra não iria dizer nada. — Foste uma mulher forte e corajosa. E sou eu quem não é digno de estar diante de si. Quando tudo terminar, se não quiser mais olhar na minha cara, prometo afastar-me o suficiente, desde que não se aplique a Ana.

— O que pretende fazer para resolver essa questão? — Perguntou Charlie por alto, o coração maldito se remexia dentro do peito ao ouvir o que tanto esperou em todos aqueles anos. Nunca em seus sonhos imaginara ver James York, pedir perdão, e muito menos elogia-la. Não depois dos olhares maldosos e do quanto a parecia odiar. Mesmo sendo estranho, de um momento para o outro, o sofrimento pareceu abrandar em seu peito.

Nunca neguei o meu amor pela senhora. Aquelas palavras continuavam a vaguear por sua mente, como um bálsamo para todas suas feridas.

— Fitzadam Price é ambicioso o suficiente para permitir a queda do Rei, pois ocupará o lugar do irmão. Farei um trato perigoso com ele e conseguirei assim o desquite de minha irmã. — O Duque de Mountbatten era esperto como nunca.

— E já parou para pensar que tudo o que Lizzie quer é ser feliz com seu marido, e quem sabe a futura rainha desta corte? — Soltou sem hesitar e ainda de peito erguido, fingiu não estar abalada pelos acontecimentos. — Sua irmã está empenhada em conquistá-lo, e recorreu a mim para a ajudar.

— Se assim for, eu aceitarei de bom agrado. Contudo, terás de te afastar para isso ser possível. — Arqueou o sobrolho numa forma de afirmar que não seria por sua causa, e sim por Elizabeth.

— Apesar de ser a minha profissão, deve imaginar que dormir com homens contra meu desejo não é algo que me agrade de todo. — Insistia em jogar na cara do belo herdeiro York, que era uma prostituta, e que isso seria uma marca que carregaria por toda sua vida ainda vindoura. — Não sei fazer mais nada para além de abrir as pernas e seduzir homens ricos e com poder.

— Pare — pediu com a voz rouca a falhar. Tais palavras eram como farpas em seu coração quebrado. Desta vez conseguiu se aproximar, e segurar os ombros femininos. Um choque percorreu o corpo de ambos, como se suas almas acabassem de se reconhecer pela milésima vez, por muito que pudessem negar, existia uma ligação para além das explicações possíveis. O universo os unira e conspirava a seu favor. — É uma mulher maravilhosa, inteligente e batalhadora. Se me permitir não lhe faltará nada mais nesta vida.

— Como poderia confiar no senhor? — Estavam tão perto que se esqueciam onde estavam, as respirações se entrecortavam e os corações tocavam a mesma melodia.

— Quando lhe digo que não faltará nada, é exatamente o que quero dizer. Nem amor se assim o desejar — ganhou coragem para deixar os sentimentos brotarem de seus lábios, mas não queria perder mais tempo do que já tinham desperdiçado. Não se ia permitir.

— Estás demente? Até onde sei, a sua noiva…

— Deixei-a quando vim a sua atrás em busca da verdade — cortou-lhe sem hesitar, e inclinou o rosto para mais perto. — Não mais poderia viver em conflito comigo. Posso inventar milhares de justificações, mas a verdade, senhora, é que iria deseja-la de qualquer jeito, mesmo que todas as mentiras em que eu acreditei fossem verdades.

— Mentes, James. — Pela primeira vez chamou pelo nome que há muito não pronunciava.

— Nunca lhe menti.

Pela primeira vez, em dez anos, Charlie não se reprimiu e deixou que James encostasse os lábios nos seus, demonstrando uma fraqueza e contrariedade às palavras antes proferidas quando afirmou não perdoa-lo. Afinal, o coração já o tinha feito desde que se livrara de todo o fel nele habitado, a partir do momento em que a verdade lhe foi dita.

Os lábios se uniram primeiro com receio, e depois um suspiro escapou dos lábios masculinos, ao se aperceber que ainda combinavam, e continuavam doces e apaixonados.

— S’nhora! — Edith entrou pelo quarto adentro, assustada, mas já era tarde demais, pois Fitzadam Price, entrou a tempo de vê-los se afastarem do beijo romântico.

— Como se atrevem? Que sois uma prostituta eu já tinha o devido conhecimento, mas em minha casa? Depois de a ter ajudado? — O infante estava zangado, com o ar de um leão que perdeu a sua presa, e por isso puxou a Cortesã bruscamente pelo braço, encarando o seu maior inimigo. — Com que então William Harris sempre teria razão quanto a vossa estranha relação!

— William? — O Duque curvou a sobrancelha ao ouvir o nome do amigo e ex cunhado.— O que quer dizer com isso?

— Não é de sua conta. Quero que saia de minha propriedade, duque fajuto! — Insultou a salivar, toda sua imponência indo pelo ralo abaixo.

— Dou graças que tenha aparecido, preciso lhe falar e é um assunto de máxima importância — O jovem York não se mostrou intimidado. — Penso ter algo de vosso interesse.

Fitzadam olhou para a serviçal que correra a avisar a patroa de sua chegada, e Edith se retirou, cheia de medo. Sem deixar de se importar com a fúria visível nos olhos do irmão do Rei.

— Não tenho tempo! — Vociferou, ainda com os olhos fixos na sua Cortesã e se sentindo traído como nunca. Poderia estrangular aquele pescoço se a sua consciência não o impedisse.

— Eu e Charlotte temos algo de vosso interesse, e que provavelmente seria o golpe final para torna-lo rei e destronar seu malvado irmão. — Foi direto ao assunto e arrancando a atenção do infante. — Sabemos então que são donos de certa armação contra Charlie, e que procuram algo, pois não teriam assaltado a casa de um infante num momento estranho em que todos guardas desapareceram.

— Vá direto ao assunto! — Não negou, apenas engoliu em seco.

— Este livro que Charlie está a escrever é de um perigo sem fim, colocando cabeças de vários nomes em praça pública e para o domínio de qualquer um. Nós o temos, e o nome do Rei consta nele. — Levantou o conjunto de papéis para o mostrar, e os olhos atentos de Fitzadam brilharam ainda mais. — Se juntar-se a nós, e nos contar o que tramam. Poderemos unir o útil ao agradável, e cada um terá o que quer.

— Quem me garante que um monte de papéis velhos será uma arma assim tão destruidora? — Indagou, cheio de cautela na voz grossa.

— Estaria o rei assim tão preocupado? Pelo que sei, o seu nome não consta aqui, Price. Essa é a oportunidade única que lhe dou, outro certamente quererá! — James sabia como aliciar, e naquela vida, quem não sabia era deixado para trás.

— É de meu interesse. — Num piscar de olhos se voltou contra o irmão, se lembrando de anos de serventia para aquele traste injusto e egoísta. — Marie Du Rothandberg investiga Charlie Dumont fazendo se passar por sua amiga, e William Harris foi atrás de alguma informação que pudesse servir de moeda de troca. Acredito eu estar adiantado quanto a isso.

— Devemos neutraliza-lo — adiantou o Duque de Mountbatten, de momento ignorando o choque no rosto da Cortesã por descobrir a traição da Marquesa e por saber ter dormido nas mãos dos inimigos por muito tempo. Pensou estar salva, mas as bocas corriam desde França até Londres, e pessoas poderosas unidas eram mais perigosas. — Descubra a informação que traz antes de chegar ao rei, traga até nós e o livro será seu.

— Não manda em mim. — Fez pirraça só porque sim, afinal a ideia de ocupar o trono lhe era bem mais tentadora, e nada melhor que um escândalo para usurpar o lugar do irmão.

— E lembre-se que um casamento bem quisto é de mais-valia para uma possível futura coroação. Elizabeth é uma mulher que facilmente cairia nas graças do povo — ignorou o que o cunhado disse, e continuou a falar. — Minha irmã merece um marido digno, senão posso ser eu a contar suas façanhas para o povo. Lizzie está melhor de saúde, pode sempre aprender a ama-la como bem merece.

— Me ameaça? — Price ergueu a sobrancelha sem demonstrar nenhum medo. — Posso chamar os guardas e prende-los por traição e conspiração neste exato momento. Não há nada que me impede e posso muito bem arrancar o livro de vossas mãos com facilidade.

— Esta é só uma parte, não está completo. — Mentiu. — Se fizer qualquer coisa contra nós, os escândalos serão publicados e farei questão de inventar algo bem escabroso sobre a vossa pessoa. Lembre-se que contos sensacionalistas são mais credíveis do que suas palavras em contrário.

— Mais vale ficar de nosso lado, Infante — completou Charlotte, que até então não se tinha dignado a falar, descrente demais pela lábia do Duque e pela proporção que sua história teria ganho e tudo o que tinha causado até então.

— Levarei Charlie comigo, faça a sua parte e nos encontraremos dentro de três dias para a troca de informações. Certificar-me-ei de que não nos mente, por isso pense bem no que poderá perder caso pense em faze-lo — concluiu e andou até a Cortesã, segurando-a pelo braço e sem tirar os olhos do seu rival eterno.

Os dois desceram a passos largos para fora da propriedade, e montaram no cavalo do York, para bem longe dali.