A Cortesã
15 Resoluções e Reconciliações
Notas iniciais
O Condado de Mountbatten ficava afastado uns bons quilómetros de Hampshire. Tinha-lhe sido atribuído o título nobiliárquico de Duque aquando o casamento de sua irmã mais nova com o Infante. Para fazer jus à posição social e a entrada dos York à realeza, recebendo uma barganha como oferta para a venda do maior Condado da cidade, assumindo assim uma posição hierárquica inferior ao Infante e superior ao Marquês du Rothandberg, na altura ainda vivo.
O vilarejo tinha vários habitantes e comercialização sob o tutelado de James, seu pai fizera questão de deixá-lo comandar tudo desde cedo, e a sua maneira. As variadas casas estavam todas na parte baixa e mais acima, numa colina alta via-se o castelo de pedras enrustidas, e enegrecidas pela noite.
O cavalo ao galope foi logo reconhecido pela sobrançaria e altivez, passando pelos portões gigantes e já abertos para a chegada do Duque, e mesmo com apenas a iluminação das tochas, a bela mulher negra cujos cabelos se desprendiam do penteado antes bem arranjado, era notável pela beleza.
— Trancar portões! — O jovem York gritou, domando o seu cavalo e deixando o rapaz do estábulo apertar as rédeas para que os dois ocupantes descessem.
Uma criada surgiu de dentro do castelo, parecia assustada e correu para amparar a estranha para dentro, enquanto James atirava ordens explícitas para cobrirem os muros com vigia e preparar os homens para eventual necessidade.
Entrou algum tempo depois, as botas sujas de areia, e encontrou a bela negra, com o rosto altivo e um olhar nada admirado pelo lugar luxuoso.
— As meninas já acordaram. Uma vai aquecer a sopa e se preferir mais alguma coisa avise que mando preparar. E a outra foi arrumar os vossos aposentos. — Era uma senhora idosa, com fios brancos escondidos por baixo da toca e as mãos brancas já enrugadas.
— Por favor, Isobel. Acomode Charlotte. — Insistiu em usar o nome que a conhecera não se apegando a diminutivos. — Eu vou alertar para que preparem apenas um único cómodo.
A senhora os encarou, mas nada disse e apenas concordou com a cabeça, segurando na mão da convidada de seu patrão, como se a reconhecesse. Ninguém perguntou por Irina Harris, a noiva do Duque, e isso fez Charlie pensar se não a confundiam como uma amante.
— Lídia veja nossa convidada. — A senhora entrou na copa ampla, e quente por conta do fogão.
— Jesus Cristo! — A que estava no fogão era mais moça, com os grandes olhos escuros e um ritmo animado para aquelas horas da noite. Algo dizia que não estivera a dormir quando foi chamada aos afazeres. — Ela existe!
A Cortesã estava exausta e se sentou num dos bancos da longa mesa de madeira. Pode ver o espanto na cara de Lídia e o olhar estranho que trocou com a senhora mais velha.
— Dona Isobel será que ela sabe? — Até falava como se não estivesse ali, tamanha a empolgação.
— Sei o quê? — Charlie não resistiu a perguntar, os olhos escuros encaravam às duas serviçais.
James voltou naquele momento, os passos das botas dispersaram as duas para perto do lume. Aqueciam água e a panela de sopa.
— Não compreendo a razão de dividirmos um único quarto neste castelo imenso. — Rosnou num murmúrio, para que só ele a ouvisse.
— Se acontecer alguma situação de perigo, é mais fácil evacua-la de imediato estando ao meu lado. — Viu o olhar de reprovação espelhada nos furiosos orbes femininos. — Ou no mesmo cómodo que eu.
A Cortesã não rebateu, aguardou o jantar em silêncio, sem muita fome talvez. Estavam num jogo perigoso, e se tinha vindo à Hampshire era porque indicava que sua filha Ana percorrera tais caminhos. Em França tinha a proteção do rei, mas ali eram outras marés, não podia confiar no sucesso daquela operação, ainda assim, o homem ao seu lado lhe passava toda a segurança do mundo, mesmo sendo perigoso e de correrem risco de vida.
— O que vão pensar sobre sua noiva ao verem-nos deitar juntos?— Tomava a sopa de legumes com toda a regra e sem pressa, precisava de enganar a falta de apetite.
— Lhe dei minha palavra de estar sem compromisso, Charlotte. — A forma como a qual pronunciava seu nome, era provocativa de forma inocente.
— Isso as pessoas não têm noção. Devem pensar que o correto Duque arranjou uma amante. — Provocou em risos baixos, se sentindo realizada de cada vez que o espicaçava.
Viram as serviçais levarem água quente em baldes de metal lá para cima.
— Pode ter as certezas que não pensarão isso. — Garantiu encarando-a com os belíssimos olhos azuis preciosos.
— Não me interessam o que pensam!
Mentia. Mentia tal como sorria para fingir não pensar em Ana, sua filha, ou em como não amava mais o herdeiro York. Mentia para se esconder por trás de uma capa invisível. Camuflava toda a ansiedade patente em seu peito.
— Como levaram a Ana? — Quis saber o verdadeiro pai, que por sua vez, brincava com a colher prateada.
— Esse homem que era um grande tutor. Um amigo para mim e uma figura paterna para Ana. — Viu James fechar o punho com força, mas não dizer nada. — Teve acesso aos meus escritos ainda de início. E num dos jogos falou mais que a língua. Souberam que eu falava com outras prostitutas e cortesãs, e procurava todo tipo de informações.
Também deixou a colher. Forçar não era solução.
— As notícias correram pelo mundo. O juiz me avaliou como uma mãe inapta, e cedeu minha filha à corte. Em seguida a enviaram para algum colégio de freiras na europa. As fontes garantiram que seria por estas bandas.
— Por que não parou de escrever?
— A vida me ensinou que parar é morrer.
Charlie se levantou da mesa, e logo em seguida, James fez o mesmo, e a conduziu escadas acima até ao quarto com cama de dossel, e uma banheira em frente cheia de água quente. Toalhas de algodão e lençóis de seda. A lareira também crepitava.
— Podem se recolher ao descanso. Nada mais será possível — O Duque dispensou as serviçais e entrou pelo quarto, trancando a porta com trincos e chaves.
Procurou servir uma bebida e sentar numa das poltronas para ler o conteúdo do famoso livro. Se soubesse que a iria ensinar a escrever para aquilo, talvez tivesse repensado.
Sentiu os olhos chamarem sua atenção ao ver Charlie tirar a roupa com descaso, embora de costas e sem o olhar. A nudez total parecia não incomoda-la.
James viu as curvas de seu corpo, a saliência das nádegas e a cintura fina. Não era só pelo corpete, era real. O perigo de suas curvas eram deslumbrantes.
— Poderias ter escrito sobre outros assuntos não tão perigosos e promíscuos. — Tentou disfarçar a surpresa, o calor que lhe subiu o corpo e o ardor do instinto masculino que pareceu despertar no interior das ceroulas.
— Cada um escreve sobre aquilo que sabe. — Virou-se de frente a exibir os seios redondos e firmes, e sem medo encarou o olhar excitado do jovem York. — Não pensei descobrir tantos segredos e muito menos que a voz de uma simples prostituta incomodasse tanto a sociedade. Bem-aventurados são os escândalos.
Ela entrou na banheira e fechou os olhos ao sentir a água quente acomodar seu corpo. Sorriu e se deixou ali estar.
— O que pensavas fazer com o Infante?
— As obrigações indelicadas as quais certa vez me sugeriu. Conquista-lo e fazer com que tivesse o desquite para o bem de todos. Quem sabe se caísse aos meus encantos pudesse ajudar a reaver a minha filha.
James não conseguia tirar os olhos da figura dentro da banheira. Respirou fundo.
— Seria a ambição desse homem menor que o sentimento por uma mulher? Não creio.
— Só precisava de proteção e de fazer com que trouxesse Ana. Podia ser com qualquer um, desde que os objetivos fossem alcançados. — Começou a lavar o corpo com um sabonete caseiro e perfumado, com a ajuda de uma esponja.
James fingiu voltar a concentrar-se na leitura, mas era erótica demais para não se lembrar que a mulher que sempre desejou estava ali, nua na banheira do seu quarto fechado.
— Poder-me-ia passar a toalha?
Provocava-o sem vergonha nenhuma, e por isso ele não se fez de rogado, se aproximando com o mantel branco nas mãos. A Cortesã se levantou, o corpo molhado e cheiroso diante de James cujas faces coraram e a enrolou com vagar.
— Obrigada. — Desceu da banheira e começou a limpar-se quando sentiu o toque das mãos masculinas na sua cintura. — O que faz?
Virou o corpo escondido no tecido branco de algodão e se aproximou com a respiração ofegante. O membro estava rijo contra ela.
— Por que me atiças com tamanha sensualidade? Provocais-me! — Se aproximou para a beijar mas em resposta ouviu as gargalhadas de Charlie.
— Não passo de uma prostituta, não se esqueça. É o meu trabalho seduzi-lo, mas o preço não será amigável!
James se afastou confuso, levou as mãos ao cabelo e a encarou.
— Por quê isso agora, Charlotte? Nos beijamos, lhe pedi perdão. Roguei o meu amor e jurei nada mais lhe faltar nesta vida. Não entende?
— Um beijo num momento de fragilidade. Aceitei seu perdão mas isso não significa que está tudo bem e que volte a correr para os seus braços! Não sofro de amnésia e tudo o que aconteceu levará tempo. E sim, terá afirmado o seu amor por mim tal como certa vez me ignorou em praça pública, James. — Deixou cair a toalha ao chão, junto das roupas antes trajadas e saltou para o conforto da cama. — Não me peça para esquecer anos de tormento por conta de meras palavras. Não sou mais a menina ingénua da vivenda York, ademais, meu nome é Charlie.
Cobriu o corpo feminino com o cobertor e virou-se de costas para a figura envergonhada pela rejeição. Ainda havia mágoa, e isso não dissipava da noite para o dia. A prioridade agora era Ana, prometera e cumpriria. Mas depois não as queria largar para lado nenhum!
Sentou na poltrona novamente para ler o livro, ainda inebriado pela visão maravilhosa, pelo desejo de se fundir à Charlotte e sentir o seu calor.
Se concentrou no livro, passando a noite em claro, sem acreditar nos nomes caríssimos ali mencionados e no que os mesmos faziam por prazer.
Adormeceu ali, sempre vigiando a sua amada Charlotte.
Pela manhã quando despertou, percebeu que estava sozinha nos aposentos. Saiu da cama e foi-se lavar, procurando o que vestir nos grandes armários, encontrou uma camisa do Duque, branca e umas calças de equitação. Vestiu-as só para o provocar, e prendeu o cabelo no topo da cabeça.
Encontrou Lídia e Isobel na sala, a colocar a mesa do desjejum, procurou James com os olhos mas fingiu não se preocupar com tal ausência.
— Bons dias. — Estava esfomeada.
— Bom dia senhora, o senhor York pediu para avisá-la que foi a vila cuidar de procedimentos. Faz tempo que não aparecia por cá, deve ter muito para tratar — disse Isobel, afastando uma cadeira em frente a uma mesa farta, com pão fresco, compota, manteiga caseira, bolos e biscoitos. — Passamos toda noite a preparar para a senhora. É uma honra.
— Não era preciso se dignarem a tamanho trabalho por minha pessoa. Sou uma simples convidada. — Sentou na mesa, e viu quando as duas serviçais trocaram cotoveladas risonhas. — De certeza o senhor York trará muitas exigentes, mas não é o meu caso.
— Jamais veio alguma mulher ao castelo, senhora. — Lídia não escondeu segredo, e olhou de lado para a mais velha com cumplicidade. — A senhora não sabe pois não?
— O que eu tanto devo saber? — Questionou em resposta, estava curiosa.
— Deixe a senhora se alimentar, Lídia! — A outra chamou atenção. — Ontem mal tocou na sopa.
— Prefiro que me contem — exigiu Charlie num tom preocupado, e ouviu a mais nova rir com gosto.
— Venha connosco! — Lídia era impaciente, e a conduziu prontamente para fora da sala de refeições. Seguiram por um corredor cheio de portas de madeira bem ornamentadas, até ao fundo, onde se encontrava uma maior. — Abra!
— Não devíamos invadir assim o escritório do senhor York, valha-me...
Charlotte não deixou a velha terminar, e girou a maçaneta adentrando na sala embutida de livros e mais livros, não se via paredes e só tinha uma janela com vista para o campo. As mobílias eram renascentistas num toque acolhedor, mas o que mais chamava atenção era o grande retrato emoldurado no alto da parede.
O seu primeiro retrato.
— Está aí há anos. Sempre nos perguntamos se era uma pessoa real, pois me perdoe, nunca antes tínhamos visto um negro em fotografias. E tal retrato tão belo e único, e nem mudou em nada. — A serviçal continuava a tagarelar sem parar, ignorando os olhos marejados da mulher ao lado. Charlie não podia crer no que via, e sentiu uma angústia subir ao peito, na maior prova de amor alguma vez vista.
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Fitzadam Price teria revirado na sua cama toda noite, pensava no maldito James, Duque por sua benevolência, nos braços da sua querida Cortesã. Apesar de ter estado a conspirar contra aquela mulher todo o tempo, e de a ter arrebatado só por conta do maldito livro, ainda assim sentia o mais fiel dos sentimentos. Nenhuma outra lhe tinha chegado a alma até então, e quanto aos truques do prazer nem se podia mencionar.
Elizabeth adentrou no quarto do marido pela primeira vez em muito tempo, usava um vestido de dormir transparente e trazia um castiçal na mão.
— Lizzie, o que faz aqui? — Questionou a descer da cama, de sobrolho unido, e um ar admirado. — Volte para cama você precisa de...
— Descansar? Já dormi por muitos anos, senhor meu marido. Agora preciso de outra coisa — disse de forma rude e sem hesitações, algo longe do qual alguma vez o esposo estivera acostumado.
— Não compreendo. — Fitzadam passou a mão pelo belo cabelo salpicado de negro e cinza. Os olhos brilhantes lhe conferiam um charme inevitável.
— Pois saiba, que agora que a sua concubina sumiu. Poderá dar atenção que preciso. — Pousou o candelabro no criado mudo e deixou a peça transparente cair aos pés, e soltou os longos cabelos sedosos e macios.
— Quanto atrevimento! — Exclamou, e mesmo assim não deixou de sentir uma leve ereção ao vê-la tão forte e com ar de mulher. Sempre tivera a aparência frágil e infantil, e isso agora parecia mudar.
— Parece que é o que está a precisar. — Andou até ele, baixando as calças do pijama e se espantando com algo que poucas vezes já teria visto. Fechou os olhos e aproveitou o espanto do marido, para lhe tocar e se agachar para chupar o falo que rapidamente ganhou vida na sua boca. Sabia ser algo nada esperado de uma mulher comportada, mas as lições da Cortesã foram bem claras: Santa na mesa e puta na cama.
— Meu Deus, Elizabeth! — Revirou os olhos em loucura, quem a tinha ensinado tais coisas promíscuas? Isso era algo esperado de quando ia ao Queen and Kings, ou quando estava com a sua tutelada. Nunca imaginaria algo assim.
— Não rogue pelo nome do Senhor a esta hora. — Parou de o tocar e chupar para levantar os olhos para ver o rosto agraciado do esposo. — Apenas diga-me que gosta assim Fitz.
— Isso, assim mesmo. Oh! Chama-me de Fitz mais uma vez. — Com as duas mãos grandes ajudava-a nos movimentos. Era óbvia a falta de experiência mas por muito estranho que parecesse, era exatamente isso que mais o agradava.
O Infante devorou a mulher como nunca pensara em devora-la, e sentiu pelo resto da noite o quanto a negligenciara, e se não fosse pela entrada tão justa pela falta de uso, poderia jurar que outro a ensinara a ser fogosa. Elizabeth estava insaciável, e já era dia quando adormeceram pela primeira vez nos braços do outro. Quanto tempo teria perdido?
Acordou com o chamado do rei, não querendo deixar o conforto do corpo esguio, mas mesmo assim se lavou e vestiu a roupa, até ao salão principal onde para o seu susto, se encontrava William Harris, a Marquesa de Rothandberg e o glutão do seu irmão todo raivoso.
Teria falhado redondamente em intercetar William antes de chegar ao rei, contudo pensara que este fosse levar mais tempo a voltar com alguma informação. Deveria corrigir o deslize se queria sair vitorioso no plano combinado.
— Com que então vós perdestes a prostituta mesmo por baixo do nariz? — Acusou Adam Price, com o rosto vermelho como um suíno. Este tinha afastado a mulher e os filhos para um castelo afastado em Gales, apenas para poder desfrutar dos rapazes de que tanto gostava.
— O que pretende que lhe diga, Majestade? Se bem sabe a resposta. — Cruzou os braços, sempre pronto para defender-se das ferocidades alheias. Era o mais alto da sala.
— Por sorte o senhor Harris, o único aqui a pensar, nos trouxe informações devidas.— Salivava ao falar. — Percebem que será o meu fim? O meu fim se a Igreja tiver acesso a tamanha façanha! Não verão a gravidade da situação? Dois inúteis, uma que nem para ser falsa o suficiente conseguiu, preocupada com a má vida da própria filha descrita no livro, e outro que só serviu para encontrar o calor das pernas daquela...
— Majestade? — William se agachou sob o joelho. — Penso que devemos ser rápidos. A Cortesã procura uma filha, que eu penso ter tido com o meu ex cunhado.
— O Duque de Mountbatten? — A única mulher na sala exclamou, se lembrando então da tensão dos dois sempre que estavam juntos. — E como ex cunhado?
— Ter-lhes-ão visto partir em direção ao Ducado de seu direito. Procurei tudo o que pude, e descobri que essa criança se encontra no Convento em Worshire. Ao controle do senhor Conde de Châtellerault e que também procura pelo bendito livro. — Ignorou a pergunta da Marquesa e se concentrou em mostrar serviço ao rei.
— O próximo passo seria atacar Mountbatten, prender o casal em cárcere e resgatar a criança em troca do livro. — Pensou Adam Price com os pequenos dedos a tamborilar na sua poltrona real.
— Eu resgatarei a criança. Penso que devemos prender o casal quando a tivermos para não chamar demasiada atenção. — Prontificou-se o Infante e viu todos os olhares dirigidos à si. — Sou irmão do rei, e o Conde da França não tem nenhuma jurisdição em Inglaterra. Irei sozinho, já é hora de me redimir de minhas falhas.
— Pois bem. E você ficará aos cuidados da menina assim que ela chegar, deve servir de alguma coisa ser mulher. — Apontou para Marie, cheio de soberba.
— Com a vossa licença. — Pediu Fitzadam e fez uma leve reverência antes de se retirar do grande salão.
— Permita-me Majestade. Não sabemos o tamanho da ligação entre o vosso irmão e a mulher de vida, sabemos que o coração é fraco. — Interveio William como sempre astuto. Queria ter o prazer de matar James pela vergonha que fazia sua irmã passar por todos aqueles anos para depois abandona-la.
— Eu sei disso. Leve um homem consigo e o siga. — Atirou outro pequeno saco de couro com moedas. — Se vir algo suspeito, envie-o para avisar-nos e tomarei medidas.
— Com a vossa permissão. — Harris se levantou de olhos a faiscar. Irina não sairia como solteira abandonada, e sim como viúva.
***
James só regressou ao castelo de noite, e não resistiu a sorrir ao ver as roupas masculinas que a amada vestia.
— Foi um dia longo. — A voz aveludada lhe acariciou a saudade.
— Estive a preparar homens e armas. E a retirar armamento de nossas bases. Provocamos o rei, não sei se terás noção. — Andou até ela sentindo o calor lhe subir pelo corpo. — Poderia ter providenciado algumas roupas de Lizzie guardadas para o dia que viesse morar aqui.
— Não gosta que vista sua roupa? — Bebia uma taça de vinho, e os lábios estavam molhados. — Eu vi o retrato do seu escritório.
Era para o Duque ter corado, mas pelo contrário, meteu a mão dentro da gola da própria camisa e tirou de lá um colar onde ficava a sua fotografia e a de Charlotte.
— Eu sei que me ama e que fui o maior idiota da face da terra. Contudo penso termos sofrido bastante com todos os mal-entendidos, e já chega! — Desta vez implorou, mesmo a contragosto, sabia não ter moral de exigir o contrário.
— Senhores. O jantar está servido — anunciou Lídia parada na porta e a quebrar o momento.
— Obrigado. Vou apenas me lavar. — James saiu da sala, e foi tomar um banho para tirar as impurezas do dia. Voltou e sentou com um ar soturno o qual não passou despercebido o resto da ceia.
Quando se retiraram para o aposento, lá fora começava a chover, e mais uma vez a Cortesã se deitou nua entre os lençóis de seda e o cabelo espalhado na almofada.
— Como foi seu dia? — James se viu obrigado a quebrar o silêncio. Quando não falavam, todo o sofrimento parecia vir ao de cimo.
— Interessante. — Bocejou. — Me aventurei pelo castelo. Há muito para ver.
— Ótimo! — Começou a arrumar cobertores na poltrona maior, de maxilar retesado. Era certo que tinha falhado redondamente com ela e sua família, mas não tinha sido por livre vontade, era um jovem sem muita experiência e que acreditara no próprio pai. — E só queria dizer que realmente sinto muito.
Continuava a desculpar-se mesmo quando estava zangado. E tal trejeito o deixava ainda mais belo como nunca.
— Vem aqui. — Charlie chamou com cuidado. — Deite-se do meu lado.
James sentiu suas feições suavizarem e sem refutar, andou até a cama sentindo o cheiro do corpo desejado assim que deitou.
— Nunca pensei que ainda me amasse — murmurou a Cortesã com sinceridade. Quantas vezes tinha sonhado em tê-lo do seu lado? Mesmo quando pensava que não, aquele sentimento voltava para a embriagar.
— Mas eu a amo. E isso, jamais desmenti. — Garantiu para o seu conforto, e envolveu os braços pálidos ao redor do corpo feminino.
Os corações bateram em uníssono.
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