A Cortesã

4 A Vivenda York


Notas iniciais
Este capítulo mostra um pouco do passado. Pretendo intercalar a história entre o presente e o passado, e criar uma conexão para que vocês percebam tudo. Boa leitura,

10 Anos atrás

A vivenda dos York era uma das mais notáveis na simples vila de Hampshire. Comprada há anos pelos antigos da família, esta passava de geração em geração. Quando o último York saiu da vila em busca de novas oportunidades, o casarão ficou a mercê de seus empregados que durante os anos recebiam valores para cuidar do lugar impecavelmente.

A notícia de que o filho mais velho do senhor da casa atingiria os vinte e um anos de idade, e que realizariam um sarau na vivenda de York para apresentar a sociedade a sua futura noiva e lhe presentearem com uma propriedade, chegou como um relâmpago, obrigando todos os criados a duplicarem as tarefas para que tudo estivesse a postos.

Fazia anos que ninguém frequentava os cómodos daquela casa, dado que até reparações tiveram que ser feitas para albergar os convidados.

Um dia antes da festa, todos criados se juntaram ao belo pátio cujo jardim se encontrava deveras conservado, para receber a tão esperada família.

A carruagem vinha a uma velocidade média, e vários olhos ansiosos apreciavam o luxo do meio de transporte que se aproximava. Era toda de um castanho mogno e brilhante, com dois cavalos de pelagem escura.

De dentro saiu um senhor alto, de pele branca, cabelos e bigode brancos, olhos escuros que aumentavam o seu ar taciturno e sério. Ao seu lado uma senhora com um ar deveras débil, magra, pálida e com uns cabelos escuros de onde podiam se ver alguns fios brancos. Não usava maquilhagem, nem nenhum adereço e suas vestes eram simples. A única coisa que se destacava em sua face eram os olhos grandes e azuis brilhantes. Por fim surgiu de lá um belo rapaz, com traços delicados e não menos masculinos. Tinha o cabelo preto todo penteado para trás, e uns olhos azuis tão intensos como os da senhora.

Os empregados apressaram-se em saudar em reverências, e em dar espaço para a família passar. O patriarca há muito não punha ali os pés, observou algumas caras conhecidas e muitas das desconhecidas atentamente, até que se fixou numa jovem que se encontrava no meio dos empregados.

— Quem és, rapariga? — perguntou, seus lábios finos escondidos por baixo do bigode farto. Viu a jovem olhar para os lados e depois para os pés descalços, envergonhada.

— Cha-Charlotte. — gaguejou com medo. Nunca escutara nada sobre os York, e não sabia o que esperar deles.

— Pois bem, cuidarás de minha esposa durante a nossa estadia. É uma mulher frágil e precisará de vossa atenção. — ordenou, e sem a olhar duas vezes largou a mulher, a qual Charlotte se apressou em amparar.

Adentraram na majestosa vivenda, toda ela decorada com móveis antigos e quadros caros. Os homens se dirigiram para outro lado, enquanto Charlotte levou a mulher e as malas para um dos quartos principais.

— Necessito de um copo de água — pediu a mulher assim que se sentou na cama, parecia exausta apenas por subir meia dúzia de degraus.

Charlotte caminhou até ao criado mudo onde estava uma jarra de água fresca, serviu e apressou-se em levar até a matriarca que bebeu tudo de uma só vez.

— Está tudo bem, senhora? — questionou, seu tom de voz era preocupado. A mulher assentiu com a cabeça e deitou-se nas grandes almofadas que estavam na cama de dossel.

— Meu nome é Ana. — disse, e apontou para uma mala de couro menor em relação as outras. A jovem trouxe, e viu a senhora York abri-la com uma delicadeza jamais vista. De lá tirou alguns frascos de medicamentos e lhe instruiu as horas para tomar, sem deixar margem para a criada perguntar para que doença era.

Charlotte guardou-os todos ao lado da cabeceira, e em seguida foi arrumar os belos vestidos no grande armário de roupas. Encontrou também várias joias guardadas em belas caixas, e a curiosidade sobre a razão de Ana não as usar tomou conta. No fim da mala, estava um retrato da mulher ainda jovem com duas crianças pequenas, uma delas era sem dúvida o jovem herdeiro parado ao seu lado, mas o bebé de colo usava um vestido, e não viera com eles.

— Arranje quem pendure o retrato na parede. — A voz de Ana fez com que Charlotte se sobressaltasse, uma vez que pensava que a mesma estivesse a descansar. — É minha filha Elizabeth. O pai a colocou num colégio de Freiras, sairá de lá diretamente para o casamento. Foi prometida ao Infante desde que nasceu de meu ventre.

Ana soltou um suspiro profundo e doloroso, como se lamentasse o destino infortúnio das mulheres que eram obrigadas a casar sem conhecer sequer o futuro companheiro. Charlotte segurou a moldura em suas mãos, não saberia se valia a pena pendura-la quando a estadia dos York na vivenda seria de curta duração, contudo teve medo de perguntar.

— Falarei com o carpinteiro, senhora. — anuiu.

— Viverei aqui até ao fim de meus dias, só espero que não dure muito. O meu marido diz que o ar puro da vila fará bem para a minha saúde débil, quando ele na verdade voltará para a cidade. Se estiver viva espero ao menos ser convidada ao matrimónio de minha Elizabeth. — murmurou Ana, falava num desabafo, embora parecesse que se dirigia a vida e não a criada. — Diz que virá me visitar, veremos! Não se deixe enganar pelos homens, rapariga. A nossa beleza tem tempo, tarde ou cedo eles nos descartarão em busca de prazeres mais joviais.

Charlotte observou a mulher virar-se em forma de concha e fechar os olhos, como se quisesse dizer que a conversa tinha então terminado. Deixou o quadro em cima do criado mudo, e retirou-se em busca de quem o colocasse na parede assim que Ana acordasse. Sentiu um pesar profundo nas palavras daquela senhora, uma mágoa sem fim a invadia. Parou na janela do corredor escuro e viu o jovem herdeiro dos York sair em direção ao belo lago que ocupava uma parte do terreno da vivenda. “ Minha Nossa Senhora, o lago!” Exclamou ao lembrar-se do perigo. Durante muito tempo os empregados colocaram redes de uma extremidade a outra para capturar alguns peixes de água doce, com o qual se alimentavam quando o dinheiro enviado não chegava para todos! E quem não soubesse disso poderia cair numa armadilha e morrer afogado.

A jovem saiu dali a correr o mais rápido que podia, sentia a relva a agredir ligeiramente os seus pés e percebeu que da janela a distância parecia menor. Quando se aproximou do lago, o jovem debatia-se com o pé preso na rede e Charlotte não pensou duas vezes antes de mergulhar e ajuda-lo a desenredar-se da armadilha para os peixes. Ele tossia sem parar e sem saber o que tinha acontecido, pois num minuto estava preso na água e no outro em cima da relva. Olhou para o lado e viu a rapariga toda molhada que o encarava apreensiva.

— Sente-se bem, senhor? — Perguntou, num tom aflito. Viu ele anuir afirmativamente, de sobrolho unido, afinal sempre fora um exímio nadador.

— James. James York. — respondeu, e em seguida sorriu para ela amavelmente. — Não sei o que terá acontecido. Sou bom nadador.

— Tem redes, muitas delas velhas. Normalmente ninguém se banha por cá. — explicou, sentiu-se envergonhada sem saber a razão. — Charlotte, meu nome é Charlotte.

James assentiu com a cabeça. Queria perguntar qual seria o sobrenome, mas reteve-se, afinal muitos dos criados eram descendentes de escravos e raramente possuíam um.

Notas finais
Qualquer dúvida, crítica, sugestão, é só dizer. Obrigada.