Notas iniciais
Descobertas intrigantes e novas ameaças estabelecidas. Como o menino Jester lidará com tudo isso?

Jester despertou horas mais tarde, em uma cama de hospital, ainda enfraquecido e confuso. A aventureira, que havia resgatado e cuidado dele, esteve ali o tempo todo, agora trocando os panos molhados usados para tratar a febre que as Amplificações de Classe usadas na batalha causaram. Sua expressão era gentil, mas havia uma aura de autoridade em sua presença. Uma figura imponente e notável como seu pai costumava exalar.

A surpresa de Jester aumentou quando a mulher começou a usar magia de cura nele. Ele podia sentir o calor reconfortante da magia fluindo através de seu corpo, curando ferimentos e aos poucos restaurando sua força. Era um tipo de magia avançada que raramente se via, e menos ainda em um nível tão elevado.

Enquanto a mulher continuava a usar a magia de cura, Jester não conseguia evitar uma sensação de espanto. Poucos magos no mundo eram capazes de realizar tal feito, e somente aqueles ligados à igreja conseguiam alcançar uma escala ainda maior de facilidade. O próprio Jester, como sua exposição à magia e treinamento, sabia o quão raro era esse talento.

A mulher, apesar de sua aparência suja e ensanguentada, era notavelmente bonita, com longos cabelos ruivos e uma figura esbelta. Ela usava uma armadura feminina, com um cajado de mago em suas costas e um capacete metálico entreaberto em sua cabeça. Seu olhar era profundo, e havia algo misterioso em seu único olho visível, que o intrigou. Ela era cega do olho direito.

— Humano. Nome. Idade. Por que desmaiado? — Jester entortou a cara em dúvida com essa maneira da mulher de falar.

— Como é? — Ela bufou, fazendo-o levar o assunto com seriedade. — Jester. Dezoito anos. Fui atacado por dois babacas durante a viagem até aqui, mas consegui dar um jeito neles!

— Babacas. Onde estar? — Questionou, mantendo um olhar curioso sobre a história do rapaz que há pouco quase foi abraçado pela morte.

— No quinto dos infernos. — Sorrindo, mas a atenção dela se voltou para a mecha grisalha em seus cabelos loiros, mexendo nela e pensando na razão daquilo.

— Mecha branca. Tão jovem! Amplificação? — Jester ainda tentava se acostumar com a fala pausada da mulher, e de certa forma se divertia com esse jeito incomum dela, se perguntando o que houve para deixá-la neste estado.

— Sim, tive que usar a amplificação verbal para poder vencer uma luta complicada. — A mecha, a febre e as dores musculares eram os efeitos mais notáveis dessas consequências, mas ele aos poucos se recuperaria. Era somente uma questão de tempo.

— Estar vivo. Milagre! — Ainda mantendo a magia de cura sobre o rapaz, iluminados pela luz do sol que invadia a enfermaria através das janelas de vidro.

Ela já havia presenciado os efeitos colaterais de amplificações em diversas ocasiões, e entendia bem o que aquele jovem guerreiro deveria estar sentindo apesar dos seus esforços para reduzir os danos. A mulher o ordenou que ficasse deitado, pois ela iria preparar algo para ajudar na conclusão do tratamento.

Ao ser deixado sozinho, Jester se perguntava repetidamente em sua cabeça sobre a identidade daquela moça ruiva e o quão forte ela aparentava ser, ainda mais por conta do sangue fresco por todo seu corpo representando uma batalha recente, e sequer parecia ofegante ou se importando com as dores das possíveis feridas abaixo da armadura. Em seguida, ela reapareceu empurrando um pequeno carrinho para dentro do quarto, trazendo sobre ele uma jarra com água quente, duas xícaras de porcelana e algumas ervas recém-colhidas.

— O que vai fazer? — Perguntou ele, vendo a mulher gentilmente misturar as ervas com a água.

— Chá. Dor Muscular... — Ele compreendeu e resolveu aguardar pacientemente para que a mulher pudesse trabalhar em paz, mas havia uma singela dúvida martelando sua cabeça que ele não conseguia mais permanecer sem saber.

— Por que dois? Também está com dor? — Observando-a misturar tudo calmamente com uma expressão de pura ternura, apesar da sua situação física um tanto controversa. Além disso, Jester sentia um tipo de calmaria mágica com os sons suaves da colher batendo nas laterais da xícara e os sons de “hum” que a mulher soltava, era como, uma bela melodia.

— Não! Esse chá. Tomo todo dia. — Foi a frase menos pausada que saiu de sua boca que Jester escutou hoje.

— Ah, então isso deve descer que nem água para você então... — Sorrindo levemente ao apreciar a companhia dela, parecia meio dura na forma de se expressar, mas ao mesmo tempo dócil como uma mãe cuidando seu filho.

— Sim. — Sorrindo de maneira graciosa e gentil, deixando Jester ainda à vontade no lugar.

— Achei que estava sentindo dor também, por causa de todo esse sangue saindo de você... — Ela o observou diretamente nos olhos, não parecia emitir nenhuma emoção de natureza ruim ou hostil, na verdade ela parecia ainda mais tranquila que o próprio Jester.

— Sangue. O sangue. Não é. Meu! — Terminando de preparar o chá medicinal e entregando uma xícara para o príncipe acamado.

— Saquei. — Bebendo um pouco do chá, mas parou em seguida e ficou de olhos arregalados. — Esse chá é forte! — Foi tomado por uma ligeira tontura e sua visão parecia desequilibrada, vendo as coisas se movendo embora ele esteja parado. — O que colocou aqui? — Ele voltou a atenção para a ruiva, e ela estava também bebendo o chá na mais sincera tranquilidade, fazendo-o de ridículo por se deixar delirar.

— Chá faz bem. Para os. Músculos e. Para alma! — Bebendo novamente, Jester já estava tonto e fazendo careta, sua mente viajou nos delírios e por pouco não foi visitar seus parentes mortos sem precisar morrer.

— Nervos de aço... — Comentou e caiu de cara sobre os próprios joelhos, deixando a xícara vazia cair de sua mão, mas a mulher usou algum tipo de alteração da gravidade e não permitiu que ela se quebrasse no chão, depois retornou para a posse da mesma.

Em questão de minutos mais tarde, Jester subitamente despertou novamente já se erguendo na cama, ele respirou pesadamente ao mesmo tempo em que sentia seu corpo se recuperar das dores que tanto o incomodaram desde a batalha. Jester percebeu o efeito de sonolência do chá se dissipar, e agora parecia mais capaz de poder se movimentar livremente sem desejar a morte por conta dos danos anteriores.

— Melhor? — A guerreira ruiva continuava sentada na cadeira ao lado da cama, com as pernas repousadas sobre uma pequena mesinha a frente, Jester percebeu que apenas ele caiu inconsciente pelo efeito relaxante que o chá de ervas dava aos nervos, e se sentiu levemente constrangido, mas contente por agora estar bem melhor graças à ajuda dessa mulher ainda desconhecida para ele.

— Incrivelmente! — Estralando o pescoço e as costas, sentindo cada uma de suas juntas e articulações relaxarem por completo. — Não faço ideia de que chá foi esse que você fez, mas fez milagres! — Estralando o resto do corpo, e a mulher sorriu satisfeita com tamanho progresso.

— Próxima. Não abusar. Amplificações! — Notificou seriamente ao jovem, que prontamente atendeu à ordem dela com firmeza. Depois, ela se aproximou outra vez dele para um novo diagnóstico e constatar que ele de fato foi curado por completo. Percebendo que ainda faltavam algumas pequenas fagulhas de danos de sua estrutura interna, e usou de sua magia de cura para resolver isso. — Hum... — Mesmo com seus recursos medicinais e magias usadas até o momento atual, alguns problemas persistiam. Ela se perguntava mentalmente sobre: “Que tipo de inimigos esse jovem acabou tendo de lidar?”

Todavia, Jester tinha noção das consequências que adquiriu com isso, e agora deveria tomar atitudes severas para não se ver novamente dependente das Amplificações de Classe para adquirir poder e superar alguma adversidade. Ele se recordava dos quatro anos que passou sob constante treinamento com Dalibor, ou melhor, das constantes surras que levou de seu velho amigo de batalha; os resultados foram notórios, possibilitando a concretização de sua vingança contra Darlan e Martius.

O ponto em questão que ele já havia assimilado, era a grande necessidade de continuar sua evolução para patamares ainda mais elevados. Ele precisava treinar. Mas por agora, queria de uma vez por todas saber a identidade dessa moça gentil que tanto cuidou dele.

— Receio que ainda não fomos devidamente apresentados. — Ele encarava a moça ruiva, completamente entretida em continuar o processo de cura e pensando na brava batalha que ele havia travado, seus inimigos realmente deveriam ter sido bem fortes, queria ela poder esmagá-los também. — Como eu ia dizendo antes, meu nome é Jester. É um prazer conhecer você, e saiba que te agradeço de todo coração por tudo que fez por mim! — Estendendo a mão para a moça, um gesto de gratidão que ela retribuiu delicadamente, a agarrando de volta. — Agora, poderia por favor me dizer o seu nome? — Pediu ele com um sorriso suave no rosto para deixá-la confortável em compartilhar essa informação.

— Meu nome... — Alguém adentra apressadamente na enfermaria, interrompendo a conversa amistosa dos dois.

— Perdoe-me a intromissão, minha rainha. Mas devo noticiar que o Rei Espantalho se aproxima dos portões de Zívia, trazendo consigo um comboio de inúmeras carruagens. — Notificou, e Jester arqueou as sobrancelhas ao voltar sua atenção para a mulher.

— Você é Zíria, a Rainha de Zívia?! — Surpreso e um pouco exaltado, lembrando das histórias que ecoavam por Vorosan, dizendo que a Soberana de Zívia era uma guerreira feroz e muito bruta com quem ela considerava um incômodo. E ela o carregou pelo reino que nem uma donzela, e sentia imensa gratidão por ter nascido humano, se fosse qualquer outra criatura de natureza agressiva, visitaria sua família mais cedo no paraíso.

— Sair. Preciso. Agora! — Jester não conseguia entender direito se: ela apenas falava pausadamente, ou sequer sabia as sequências corretas de palavras para formar uma frase. — Prazer. Conversar com. Você! Repetir. Futuro? — Ele assentiu com a cabeça, e tentou se curvar em respeito, mas a soberana não permitiu, depositando sua mão no peito de Jester para mantê-lo deitado em repouso.

— Sim, senhora. — Se posicionando na cama para tentar tirar um cochilo, ao mesmo tempo em que a Rainha Zíria se retirava da enfermaria para receber o Rei Espantalho na entrada da cidade.

Entretanto, Jester reabriu os olhos ao notar que estava sozinho e se forçou até a janela para assistir a cena da rainha recebendo um dos súditos e fornecedores de suprimento do imperador Razallath.

Longe dos limites do palácio, Zíria se aproximou dos portões de entrada da cidade onde os guardas de prontidão aguardavam a ordem para poderem abrir os portões. Ela gesticulou com a cabeça e os vários soldados começaram a puxar as costas de sustentação, erguendo a grande porta de madeira que lentamente revelou o visitante inesperado de pé logo a frente, mantendo sua presença de tranquilidade, porém, com uma atmosfera sombria em seu ser obscuro.

Zarlek, o Rei Espantalho, é uma figura excêntrica e imponente, com uma presença que não passa nem um pouco despercebida. Com quase dois metros de altura, ele se destaca em meio aos seus semelhantes, embora sua corcunda possa fazer com que pareça ainda mais alto. Sua aparência é uma mistura sinistra e enigmática, mas ele costuma manter um ar de bem-humorado, principalmente ao exercer suas funções de comerciante nato.

Em sua cabeça, Zarlek usa uma cartola negra, na qual uma abóbora, talhada com feições grotescas, atua como sua cabeça. Seu corpo, aparentemente feito de feno, coberto por um terno negro que, à primeira vista, parece ser tecido, mas na verdade é um traje feito de palha e outros materiais que tornam sua aparência ainda mais obscura. Esse visual peculiar seve como sua identidade única, e poucos ousariam zombar dele.

Zarlek também é frequentemente visto com uma bengala, que ele utiliza para se locomover, embora na realidade não precise dela. Essa bengala, no entanto, é mais do que apenas um acessório funcional, muitas vezes usado para manter as aparências perante os consumidores, demonstrando uma aparente fragilidade em sua apresentação de espantalho um tanto perturbadora aos povos não acostumados com essas formas obscuras existentes pelo mundo, possibilitando o alcance de seus objetivos gananciosos.

Seu papel como fornecedor de alimentos para o império de Razallath lhe dá acesso a informações e recursos valiosos, que ele não hesitará em usar em sua busca por vingança contra aqueles que lhe causarem problemas ao cruzarem seu caminho.

— Saudações, Rainha Zíria... — Começou o espantalho medonho, falando com cordialidade e respeito para com a soberana que não teceu palavra alguma ao mesmo. — Minhas fazendas foram colocadas em velocidade máxima de produção nos últimos meses para suprir as necessidades de meus fiéis consumidores.

— Você. Sugerindo? — Indo direto ao ponto com aquele ser de olhos laranja brilhantes emitidos a partir dos buracos esculpidos na cabeça da abóbora.

— Para estabelecer um período de prosperidade entre nossas alianças, vim aqui humildemente ofertar meus produtos que serão de grande utilidade para seu lar. Meus campos de horticultura alcançaram uma produção recorde, trazendo grande fartura e abundância em todas as áreas. — Logo, outros espantalhos-robóticos desceram das carruagens e abriram os estoques para expor as mercadorias abundantes no estoque para fornecimento.

E realmente havia muita coisa, desde legumes frescos até grãos, verduras e algumas safras das fazendas frutíferas de seu reino. A rainha parecia satisfeita com o produto, mas ainda sim mantinha um olhar altivo evitando tecer alguma palavra, não por ignorância, mas porque não conseguia evitar o fato do espantalho não ser humano e suas características de personalidade com ar de malícia. Pelo histórico de Zíria, Jester só conseguia visualizar uma única razão para ela se manter tão quieta forçadamente, pois todos ao redor, perto ou longe, conseguiam perceber uma tensão tomar o corpo da mulher, tão grande que a fazia estremecer por dentro na tentativa de conter seus instintos. A única coisa que ainda mantinha o Rei Espantalho respirando, era o fato do mesmo ser um dos aliados de maior utilidade para a causa de Razallath, e ela deveria conter suas intenções se não quisesse atrair mais problemas para o seu reino.

Para manter os nervos calmos, alguns dos nobres do mais alto escalão do reino se intrometeram na cena, dispostos a discutir a realização dessa transação para adquirir esses recursos ofertados por aquele ser bizarro. Pelo bem dele mesmo. A rainha Zíria parecia no limite de sua resistência e estava prestes a cravar suas mãos naquela cabeça de abóbora até virar sopa.

— Então posso permitir que meus acompanhantes entreguem os mantimentos em seus respectivos pontos de comércio? — Ele tinha um tom estranho na voz, parecendo sugerir coisas diferentes ao que estava de fato falando. Como se estivesse sempre armando alguma coisa.

— Sim, por favor. Quanto ao senhor, com o consentimento de minha soberana, discutirei seu preço pelo fornecimento. — Propôs um dos nobres mais próximos da realeza.

— Sim! — Respondeu ela assentindo positivamente com a cabeça, evitando olhar para a cara do Rei Espantalho e seus servos meio robóticos.

Os Espantalhos-Metálicos, servos do Rei Zarlek, eram seres de aparência peculiar aos olhos de quem os visse. Possuem também um pouco menos de dois metros de altura, e suas aparências eram um equilíbrio cuidadoso trabalhado entre elementos naturais e mecânicos. Meio robóticos e meio feitos de feno e palha, eles carregam a marca distintiva de Astares, o Rei do Reino das Máquinas em sua composição; uma cortesia do mesmo para deixá-los mais obedientes e leais ao Rei Espantalho.

Suas cabeças são esferas metálicas que lembram abóboras polidas, adornadas com uma expressão facial permanentemente sorridente e olhos que brilham com uma luz cintilante. Eles exalam um carisma bizarro e refletem o mesmo toque excêntrico do líder Zarlek.

Seus corpos são um híbrido engenhoso de feno e palha entrelaçados com partes metálicas. A pele de feno lhes dá uma sensação de naturalidade e, ao mesmo tempo, uma fragilidade aparente, enquanto as partes metálicas proporcionam durabilidade surpreendente. Essa combinação equilibrada é uma representação visual de dualidade entre o mundo natural e o mecânico.

Como serviçais do comércio de alimentos, eles usam uniformes elegantes feitos de panos escuros que lembram trajes formais. A vestimenta destaca sua conexão comércio e a sociedade nobre de Razallath. As partes metálicas ocultas sob o feno e a palha concedem-lhes uma força considerável, bem como habilidades mecânica, que são utilizadas em seu trabalho na produção e fornecimento de alimentos das fazendas do reino de Zarlek. Eles têm braços fortes, cada um com uma mão articulada de metal que pode facilmente manusear mercadorias e realizar tarefas mais complexas.

Esses Espantalhos não são apenas servos, mas também uma extensão do próprio estilo e personalidade excêntrica de seu mestre, Zarlek, o Rei Espantalho.

Ao perceber a indiferença da rainha com sua presença, o Rei Zarlek enfim lhe dirigiu a palavra:

— Rainha Zíria, percebo que está me evitando. Posso imaginar os seus motivos, mas quero que saiba que eu não causar desavenças entre nossas relações, então discutirei os termos da negociação com este nobre em sua presença. — Direcionando sua mão aberta para o homem, abaixou levemente a cabeça e concordância com as palavras do maior fornecedor alimentício do continente. — Ele será o mediador entre nós, conduzindo minhas palavras a você, e espero que Vossa Alteza faça o mesmo, assim não precisará se forçar a fazer algo que não tenha interesse... — Finalizando sua proposta, e Zíria manteve sua visão nos espantalhos que se moviam pelas ruas da cidade com as diversas caixas de legumes, verduras, frutas e até mesmo carnes bovinas e suínas mantidas frescas por meio de magia. — O que me diz? — Ela não disse nada, apenas gesticulou para o nobre que de imediato manifestou a aprovação da mesma. — Ótimo! — Terminou.

A reunião ocorreu no suntuoso salão de reuniões do palácio de Zívia. O ambiente era uma demonstração de opulência e grandeza, com características que refletiam o luxo e a importância dos eventos que ali ocorriam.

As paredes do salão eram revestidas com tapeçarias intricadamente bordadas, retratando cenas de batalhas e conquistas históricas de Zívia. A iluminação suave vinha de lustres de cristal pendurados no teto, criando uma atmosfera aconchegante e majestosa.

No centro do salão, uma grande mesa de magno maciço estendia-se, dominando o espaço. Sua superfície polida brilhava à luz das velas, e cadeiras ornamentadas a cercavam. A mesa era adornada com arranjos de flores frescas, servindo como um contraste elegante com a madeira escura e a decoração requintada do salão.

Os arcos que sustentavam o teto do salão pareciam esculpidos em cristal etéreo, emitindo uma luz suave e mágica que preenchia o ambiente. As paredes, além das tapeçarias históricas, eram decoradas com runas místicas que cintilavam fracamente, como se sussurrassem segredos há muito guardados.

A própria mesa de magno maciço, apesar de sua aparência terrena, era inscrita com símbolos mágicos que conferiam um toque de encanto à sua superfície. As velas que iluminavam o salão eram feitas de cera especial, produzida com ajuda de feiticeiros locais, e emitiam luz suave e dourada, criando uma atmosfera mágica e acolhedora.

Os três se reuniram ao redor da grande mesa, cada um ocupando um lugar de destaque. Os detalhes cuidadosamente trabalhados do salão de reuniões ressaltavam a importância desse encontro e as necessidades de resolução para manter uma harmonia entre ambos os reinos, com um livre comércio sólido e próspero.

— Então... — Começou o Rei Espantalho, mantendo seus olhos brilhantes focados sobre a rainha bruta. Ela continuava de olhos fechados, e segurando o cajado com a mão esquerda que estava encostado no chão ao seu lado. — É fato que meu trabalho para com o império de Razallath é manter todos os reinos bem abastecidos de alimentos, então tecnicamente essa remessa que trouxe hoje, será de graça. — O nobre repassou as informações para a rainha, que mais parecia perdida na realidade paralela de seus pensamentos ao invés de prestar atenção na situação que se desenrolava diante de seus olhos. Ao escutar as palavras de seu súdito, a Rainha Zíria se ergueu de seu lugar na mesa, e rumou em direção à janela de vidro para poder visualizar os espantalhos-robóticos realizando as entregas aos poucos. — Entretanto, gostaria de pedir um favor, Vossa Alteza. Me permita usar dos seus poderes de teletransporte para que possamos agilizar as entregas... — Solicitou ele, sabendo que as conclusões seriam alcançadas com muito mais rapidez com a ajuda da monarca local.

Novamente, o mediador repassou as palavras do comerciante para a rainha, mas desta vez, a mesma reagiu voltando sua atenção para ambos os presentes. Zíria caminhou lentamente em direção a mesa e colocou seu cajado sobre ela de maneira firme, estremecendo o lugar com sua presença imponente que parecia dobrar o peso gravitacional do ambiente.

— Eu. Cuido disso! — Com a reunião finalizada, os três retornaram para a entrada da cidade onde os súditos de Zarlek transitavam para cumprir a ordem de entrega. Em frente aos portões da cidade, o nobre gostaria de saber mais sobre esse pedido feito à rainha, e quais as intenções além do transporte de mercadoria.

— Lorde Zarlek... — Chamou o nobre, atraindo a atenção da criatura humanoide feita de palha. — Quais serão os próximos passos com a abertura de um portal no espaço-tempo entre reinos? Deseja apenas facilitar o trabalho dos súditos-robóticos, ou tem coisa a mais por aí? — O Rei Espantalho suspirou profundamente e voltou sua atenção para o porta-voz da rainha de Zívia, no qual ainda rejeitava qualquer tipo de contato com o comerciante bizarro. — Disse que precisava dos portais da minha rainha, mas não disse para onde deveriam ser os locais ao qual iria visitar... — Comentou com curiosidade, mantendo um olhar atento sobre as possíveis intenções ocultas daquele ser, este cuja voz e modo de agir permitiam que as pessoas sentissem uma ligeira suspeita de seu jeito maquiavélico.

— Sim, de fato. Preciso deles para poder retornar ao meu reino, reabastecer as carruagens e depois seguiremos rumo para os demais reinos. Zívia foi apenas o primeiro ponto de visita, e com a ajuda de sua rainha, poderei alcançar meus demais compromissos com muito mais rapidez. — Desde que ingressou à lista de reinos sob comando absoluto de Razallath, Zarlek procurou saber bastante sobre com quem estaria lidando e quais encargos estaria submetido nessa aliança. Como já trabalhava como comerciante alimentício, isso ficou bem óbvio. Além do mais, suas fontes revelaram a intriga que a Rainha Zíria tinha com seres não humanoides que trabalham contra a paz de seu lar, e suas experiências antigas precederam numa indiferença com qualquer ser estranho que apareça ou ameace seu reino, afinal, ela não pode prever o futuro e muitos menos ler mentes para saber quem é ou não realmente inimigo. Sabendo de tudo isso, Zarlek buscou maneiras de estabelecer uma conexão amistosa na relação que deveriam formar, e nada melhor que prover alimentação para livrar o povo de uma possível onda de fome, em troca de um pequeno favor.

— Entendo. — Respondeu o nobre com impassibilidade, e repassou tais informações à sua soberana. — Mas tem uma questão ainda em branco. Quais serão os próximos destinos da sua lista de tarefas? — A rainha estava ao lado dele, mas apenas observando os transeuntes nas calçadas do reino que assistiam os espantalhos súditos terminando as entregas.

— Depois que abastecermos as carruagens novamente, seguiremos para encontrar com Astares, o Rei Máquina! — Era do conhecimento deles sobre o Reino de Solaris, lar da tecnologia e principal fornecedor de todo tipo de equipamento sofisticado que Razallath poderia imaginar para ampliar seu poderio e avanços tecnológicos.

Na vastidão do mundo medieval, onde castelos, cavalos e espadas eram a norma, existia um reino único, um verdadeiro farol de inovação e tecnologia. O Reino de Solaris, sob o comando de Astares, o Rei Máquina, era uma visão de um futuro alternativo, onde o "steampunk" e o "solarpunk" se fundiam em harmonia. Seus domínios se estendiam por terras férteis, onde cidades de metal e vidro se erguiam majestosas contra o céu.

As cidades de Solaris eram verdadeiras obras-primas da engenharia. Torres metálicas pontiagudas e edifícios que pareciam saídos de um sonho de ficção científica dominavam o horizonte. Uma arquitetura que misturava elementos “steampunk” com designs futuristas criava uma paisagem urbana que desafiava a imaginação. As calçadas eram feitas de materiais brilhantes e translúcidos, e os prédios eram cobertos por enormes painéis solares, uma visão que fazia todos os que a contemplavam se maravilharem.

Mas o que tornava Solaris verdadeiramente único era a sua população. Os cidadãos de Solaris eram seres cibernéticos, um esplêndido exemplo da habilidade do reino em fundir a humanidade com a máquina. Entre eles, encontravam-se ciborgues com membros aprimorados, androides com inteligência artificial avançada e robôs completos, todos vivendo em harmonia com a tecnologia. Seus corpos de metal e circuitos eram uma prova da maestria de Solaris em combinar os aspectos humanos com a maquinaria.

A energia que alimentava esse reino impressionante era, em grande parte, proveniente do sol. Painéis solares gigantes, estrategicamente posicionados em áreas de maior exposição à luz solar, captavam e armazenavam a energia necessária para sustentar as cidades, as fábricas e a sociedade cibernética em crescimento. A busca pela energia limpa e renovável era um dos princípios fundamentais do reinado de Astares.

Solaris também era um centro de inovação científica. Laboratórios avançados trabalhavam incansavelmente para criar novas tecnologias, desde próteses sofisticadas até suas carruagens eram movidas através de motores abastecidos com energia solar. Além disso, desenvolviam armas e sistemas de defesa altamente avançados para proteger o reino. Seus avanços não apenas aprimoravam a vida dos habitantes de Solaris, mas também eram compartilhados com o Império de Razallath, fortalecendo ainda mais a aliança entre os dois reinos.

Astares, o Rei Máquina, via essa colaboração como uma oportunidade de moldar o futuro do mundo medieval. Ele acreditava que, com a tecnologia certa, o Império de Razallath poderia se tornar a força dominante no mundo conhecido. Sua ambição e seu compromisso com a inovação eram evidentes em cada aspecto de Solaris.

Mas Solaris não era apenas uma maravilha tecnológica; era também um exemplo de estilo de vida “solarpunk”. Seus habitantes abraçavam valores de sustentabilidade, compartilhamento de conhecimento e coexistência harmoniosa com o meio ambiente. Jardins urbanos exuberantes, telhados verdes e espaços públicos iluminados por energia solar eram comuns em toda a nação. O povo de Solaris não via a tecnologia como uma ameaça, mas como uma aliada na busca de um mundo mais limpo e próspero.

O Reino de Solaris, com sua visão futurista em um mundo medieval, era uma joia de inovação e progresso. Seu compromisso com a energia limpa, a ciência avançada e a colaboração com Razallath faziam dele um aliado valioso e um farol de esperança em um mundo em constante evolução.

Os Espantalhos-Robóticos concluíram com sucesso as entregas de alimentos por todo o reino de Zívia, garantindo que as mercadorias chegassem a todos os cantos da cidade. Após essa tarefa árdua e crucial, eles se reuniram em fileiras ordenadas na entrada da cidade, aguardando as próximas instruções.

O Rei Zarlek, com uma postura firme, anunciou com orgulho o término bem-sucedido do serviço. Ele fez questão de destacar a importância dessa aliança e cooperação entre os reinos, apesar da neutralidade da rainha com o gesto do monarca aliado.

— Estamos prontos, Rainha Zíria! — Disse o Espantalho, e o nobre alertou a mesma que prontamente começou os preparativos para cumprir sua parte do acordo.

Com uma expressão determinada, a Rainha Zíria ergueu seu cajado de mago e começou a entoar encantamentos místicos. O cajado irradiava uma aura mágica, e runas brilhantes começaram a girar ao seu redor, formando um portal no espaço-tempo. A energia mágica se concentrou e pulsou, criando uma abertura etérea na realidade.

O portal reluzia em um tom azul-cobalto profundo, como se fosse um pedaço do céu noturno estrelado. À medida que o portal se estendia e aprofundava, uma sensação de mistério e maravilha enchia o ar. Era como se estivesse olhando para o próprio tecido do universo sendo aberto diante de seus olhos.

A Rainha Zíria, com sua habilidade mágica avançada, controlava o portal com destreza. Ela redirecionou o caminho do portal para o reino do Rei Espantalho, estabelecendo uma conexão mágica entre os dois lugares distantes.

A passagem pelo espaço-tempo não apenas encurtou drasticamente a distância entre os reinos, mas também possuía uma aura maior de proteção e segurança sugerida pelo nobre. Era um caminho direto e rápido para reabastecer as carruagens com os suprimentos necessários para o comércio com o reino seguinte.

Sob o manto do pôr do sol, os espantalhos, com precisão e eficiência, entraram no portal mágico com suas carruagens e acompanhados pelos líderes: a Rainha Zíria, o nobre e o Rei Espantalho. O ambiente estava repleto de uma atmosfera leve e serena, à medida que os súditos de Zarlek começaram a reabastecer as carruagens com uma variedade de produtos frescos vindos das fazendas do reino.

Os produtos eram uma verdadeira festa para os sentidos. Os Espantalhos transportavam verduras recém-colhidas, com folhas verdes e vibrantes, legumes de todas as cores e tamanhos, e frutas que pareciam brilhar sob o crepúsculo. Maçãs vermelhas e suculentas, peras douradas, uvas roxas e maduras, e uma variedade de outras delícias da natureza eram colocadas nas carruagens com cuidado.

Além disso, carnes frescas de fazendas de pecuária eram preparadas para o transporte. Peças de carne bovina e suína, bem como aves de diferentes variedades, eram acomodadas em recipientes especiais. O cheiro tentador de carnes grelhadas pairava no ar, misturando-se com o aroma adocicado das frutas e vegetais frescos. Deixando inclusive a rainha estupefata com tamanha fartura, fazendo-a sentir fome com tamanha visão.

— Vossa Alteza deseja alguma coisa? — Zarlek percebeu o estômago da mesma roncar levemente com o cheiro dos mantimentos, mas a reação dela com a pergunta foi resumida no mais absoluto silêncio. — Não? — A expressão dela permanecia neutra.

— Mas eu aceito! — Disse o nobre com a mão erguida e intensidade na voz, e em seguida, um dos espantalhos menores se aproximou e lhe entregou uma cesta abastecida com frutas e carnes. — Obrigado! — O Rei Espantalho assentiu com a cabeça, e depois o nobre ofereceu a sua rainha que pegou algumas frutas sem olhar na cara de nenhum dos dois, eles sabiam que ela estava contendo seus instintos ao máximo.

O Rei Espantalho observava com satisfação enquanto seus servos realizavam o carregamento. A Rainha Zíria e o nobre compartilhavam um olhar de apreciação pela quantidade e a eficiência com que eram organizados sob o espetáculo de cores quentes no céu com o pôr do sol. Pouco depois, Zarlek ordenou que trouxessem o presente destinado à Astares, e depois vários grupos de espantalhos-robôs surgiram caminhando e carregando com eles uma fornalha gigantesca. Ela se erguia majestosamente, um monólito de metal reluzente, com chamas dançantes que queimavam exageradamente em seu interior, iluminando a área circundante com uma luminosidade alaranjada e quente. O nobre cuspiu o pedaço da maçã que estava comendo quando viu o objeto, e começou a se fazer uma pergunta repetidamente:

— COMO VOCÊ ESPERAVA LEVAR ISSO À SOLARIS SEM A AJUDA DA RAINHA?! — Berrou ele completamente atônito com a magnitude daquela mercadoria e o Rei Espantalho apenas respondeu com um sorriso sarcástico que se protagonizou em seu rosto de abóbora.

Enquanto isso, os espantalhos continuavam a caminhada pela estrada até onde o líder permanecia aguardando. O metal que compunha a fornalha era capaz de suprimir a intensidade do fogo internamente, não conduzindo o calor para as laterais e prejudicando quem estava carregando o material. No entanto, isso não impedia que os mesmos não fossem de certa forma prejudicados pelo peso excessivo da fornalha.

— Aaah! Aguentem... — Dizia um dos espantalhos menores rangendo os dentes com a força que fazia para erguer a fornalha. Eles tentaram usar carrinhos de transporte, mas foram rapidamente destroçados pela fornalha que tinha o tamanho de três carruagens juntas.

— E tu acha que a gente tá fazendo o quê?! — Eram vários carregadores, e nem isso parecia ser o suficiente, causando quase defeitos nos braços de metal. — Se fosse a sua mãe seria mais pesado!

— Acho que não vai dar! — Disse outro quase cedendo, e seus olhos pareciam que iriam pular para fora do rosto de tão esbugalhados que ficaram pela força exercida. — CHAMA O CARLÃO! — Ele berrou, e ao longe, o nobre e a rainha sentiram o chão estremecer com as pisadas de algo extremamente grande. Imediatamente, um Espantalho-robótico com cara de mal com mais de três metros de altura surgiu de uma das fazendas para ajudar seus companheiros. — Oh Carlão! Ajuda aqui! — Implorou o espantalho menor vendo o companheiro apenas observar de braços cruzados.

— Saiam, maricas! — E de novo, o nobre cuspiu outro pedaço da comida ao escutar a voz do espantalho gigante que era totalmente o inverso do que a aura dele inspirava. Se tratava de uma voz extremamente fina como a de uma menina com cinco anos de vida.

— Sério isso? — Questionou ele para o líder daquele reino.

— Ele foi feito há pouco menos de cinco anos, e sofreu de um crescimento precoce exagerado. E acabou ficando desse jeito, mas a voz não acompanhou a evolução física aparentemente... — Segurando a risada, ele próprio já riu muito dessa situação junto dos demais súditos ao interagirem com o Espantalho Carlão.

Por sua vez, ele ordenou que os demais se afastassem da fornalha e obedeceram sem pestanejar. O maior espantalho de todos com suas mãos e braços gigantes, segurou na lateral da fornalha, forçando ao máximo para erguê-la sozinho.

— Aaaaah! — Berrando ao máximo, e seus semelhantes menores começaram a torcer por ele.

— Bora, Carlão! É CINCO ANOS, CARALHO! — Disse um dos espantalhos trabalhadores em completa euforia juntamente da torcida dos demais.

— QUE MEUS MÚSCULOS ASCENDAM AOS CÉUS! — Forçando além dos próprios limites de seu corpo. — MOSTREM AO MEU REI, QUE ESSES CINCO ANOS FORAM FEITOS DE PURO ESFORÇO, BATATA DOCE E FRANGO PARA CARALHO!!!

— Pega porra! — Vibravam os espantalhos, e até o nobre de Zívia ficou empolgado assistindo aquela cena cômica.

Em instantes, Carlão forçou tanto que a fornalha foi erguida com sucesso e colocada sobre seus ombros. Os gritos de empolgação de seus companheiros ecoavam por todo o reino, e a Rainha Zíria permanecia vendo tudo aquilo com sua expressão de “Okay”.

Com seu efeito inacreditável, o gigante espantalho se esforçou ao máximo para caminhar sozinho com todo aquele peso sobre si, apoiado por seus irmãos e irmãs espantalhos que vociferavam palavras de suporte em prol do seu sucesso. No entanto, após alguns passos e esforço contínuo, os braços do bravo Carlão começaram a fraquejar e a fornalha caiu de seu ombro.

— Merda! — Segurando nas laterais para impedir que caísse no chão, mas seus irmãos rapidamente se posicionaram ao redor e conseguiram segurar juntos.

— ESTAMOS COM VOCÊ, IRMÃO! — Berravam os espantalhos em uníssono.

— Essa porra mesmo! — Respondeu o gigante Carlão recuperando seu ímpeto.

— Essa é a família mais unida que eu já vi! — Dizia o nobre aos berros enquanto Zarlek apenas assistia, mas por dentro chorava de emoção.

As caretas nas faces de abóboras eram tão intensas, que pareciam que iam se desfazer e virar sopa. Em poucos minutos, eles conseguiram levar a fornalha imensa até as carruagens onde os mantimentos foram armazenados; lá, eles soltaram o aparelho e todos caíram no chão exaustos pelo esforço inacreditável que fizeram até ali.

Esgotados no chão arenoso, eles escutaram as palmas calmas do Rei Espantalho, parabenizando-os pelo excelente trabalho.

— Quando terminarmos as demais entregas, a cachaça é por minha conta! — Anunciou o Rei e todos os súditos gratificaram ao mesmo com extrema empolgação.

— Sim, senhor! — Disseram eles em conjunto, já se preparando para a próxima entrega.

Entretanto, ainda deverão transportar a fornalha pelo portal manualmente se quiserem que ela chegue logo em Solaris, e as carruagens mesmo em conjunto não teriam resistência o suficiente para suportar tanto peso e os mantimentos dentro seriam esmagados.

O Rei Zarlek alertou ao nobre de Zívia que já estavam prontos novamente para o próximo destino, e desta vez o Carlão iria junto para ajudar a carregar a fornalha. Mas, a Rainha Zíria tinha outros planos quanto a isso. Com sua habilidade mágica avançada, entoou encantamentos para criar um novo destino através do portal, desta vez levando ao Reino de Solaris, lar do Rei Máquina. A abertura do espaço-tempo se alterou através da ação de uma força mágica inimaginável, e logo depois, todos puderam enxergar os portões de Solaris do outro lado da passagem.

Mas quando os espantalhos-súditos estavam prestes a continuar seu trabalho, suas cabeças de abóboras ficaram boquiabertas e quase girando de espanto. Com uma maestria impecável, a Rainha Zíria alterou a gravidade ao redor da imensa fornalha e a transportou sozinha através do portal com uma única mão. O objeto, que antes era uma carga pesada e quase impossível de ser carregada pelos espantalhos menores sem a ajuda de Carlão, agora praticamente parecia flutuar no ombro da rainha como se pesasse menos que uma pluma.

— Só pode estar de brincadeira comigo... — Comentou o Espantalho Carlão completamente inconformado, e se perguntava o motivo de ela não ter feito isso quando eles estavam se matando para carregar essa fornalha.

Logo, todos seguiram em direção ao portal. À medida que todos adentravam a passagem etérea, o ambiente ao redor parecia distorcer-se. A sensação era de estar sendo sugado por uma correnteza mágica que o transportava de um mundo para outro.

Primeiro, de repente, eles emergiram do portal e se encontraram em um local completamente diferente. Estavam diante dos imponentes portões do Reino de Solaris, que se erguiam como sentinelas de metal maciço. Os portões eram adornados com símbolos mecânicos intricados que cintilavam sob a luz brilhante das lâmpadas inglesas iluminavam a entrada.

E ali, aguardando-os com uma presença imponente, estava Astares, o Rei Máquina. Sua figura humanoide, vestida com um paletó elegante de cores ricas, destacava-se contra o cenário metálico de seu reino. Sua cabeça luminosa, como uma lâmpada inglesa brilhante, emitia uma luz constante que iluminava o ambiente à sua volta.

O guarda-chuva negro que ele carregava, na verdade, era uma espada disfarçada, revestida com o elemento fogo. Era uma arma tão intrigante quanto o próprio rei, uma mistura de elegância e potência.

— Rei Astares, como sabia que chegaríamos neste exato momento? — Questionava o Rei Espantalho com curiosidade, pois não havia mencionado nada ao mesmo quanto a essa visita.

— Eu ouvi por aí, velho amigo. — Mesmo sem uma boca, a voz do Rei Máquina ecoou num tom estático e abafado metálico por conta da lâmpada que era sua cabeça. — Rainha Zíria, é bom vê-la novamente... — Saudou ele cordialmente, mas a mulher apenas sorriu levemente em resposta à saudação. Essa reação deixou Zarlek descontente, ela quase o matou durante todo esse tempo em que estiveram perto um do outro, e agora reage de maneira amigável com outro ser não-humano. — Essa fornalha não está pesada, Milady? — Ela balançou a cabeça negativamente, e depois ele se aproximou do monarca espantalho. — E quanto a você! Fez uma rainha carregar esse peso todo sozinha numa viagem? Onde estão seus modos, Zarlek? — Os dois se cumprimentam com um aperto de mãos e começam a rir levemente.

— Tecnicamente era para o Carlão ali carregar essa fornalha, mas, Zíria quis tomar as rédeas disso... — Astares percebeu os braços de metal dos Espantalhos-robóticos com aparentes defeitos por conta de esforços além da conta, imaginando que precisariam de reparos para evitar danos à longo prazo.

— Ah! — Avistando o Espantalho precoce no meio da multidão dos cabeças de abóboras. — Há quanto tempo amigo, Espantalho Jr. Cresceu bastante! — Cumprimentou o gigante à distância que prontamente caminhou até ele entre os irmãos, se colocando de joelhos diante do kaiser tecnológico.

— Tudo graças aos seus avanços científicos com as próteses metálicas, foco e recursos que o meu rei depositou em mim para que eu me tornasse o que sou hoje, senhor! — Astares se divertia muito com esse jeito cômico do caçula.

— Isso é bom então, Hahaha! — Rindo descontraidamente junto do Rei Espantalho.

Astares e Zarlek, amigos de longa data, se cumprimentaram com uma efusão de cordialidade que refletia uma amizade genuína e duradoura. Sua conexão era palpável, e a descontração em sua conversa era contagiante.

Conversavam como velhos amigos que compartilhavam não apenas responsabilidades como líderes de seus reinos, mas também uma história rica em experiências compartilhadas em batalha e acordos comerciais entre ambos os impérios. Compartilhavam risadas e histórias, relembrando momentos de triunfo e desafio ao longo dos anos.

Logo, soldados cibernéticos saíram pelos portões e se posicionaram à retaguarda do rei:

— Meus servos ajudarão com as entregas! Discutiremos os seus termos de fornecimento durante o banquete, — Todos os recém-chegados observaram o rei, era um assunto que os interessava bastante. — Terminem seus trabalhos e depois juntem-se a mim no palácio central, meus mestres-cucas irão atendê-los em seguida.

— Obrigado pela hospitalidade, Astares. — Agradeceu Zarlek, seus súditos não tinham uma refeição decente desde antes de chegarem em Zívia e estavam famintos.

— Por nada, meu irmão. — Observando de longe a Rainha Zíria perdida em pensamentos, a convidando também para entrar, e ela novamente concordou balançando a cabeça positivamente. — Mil perdões pela audácia do Zarlek. Por favor, me permite? — Ele estava frente com a rainha e pediu permissão para levar a imensa fornalha em seu lugar, e os Espantalhos-robóticos se entreolharam, se perguntando se ele conseguiria carregar também aquele majestoso objeto.

— À vontade... — Zíria deixou a fornalha no chão e desfez a alteração na gravidade, devolvendo o peso normal do material metálico. Os Espantalhos começaram a cochichar sobre o assunto, não tinham noção do nível de força do Rei Astares e o próprio Carlão apenas cruzou os braços sem muita expectativa.

No entanto, mesmo com o peso avassalador do material, Astares simplesmente o ergueu com uma só mão e deixou todos os espectadores novamente boquiabertos e estarrecidos. O monarca de Solaris com extrema graciosidade, carregou o objeto e ainda fez o mesmo movimento acima do ombro que se faz quando alguém o exercita com a ajuda de halteres de treinamento físico.

— Hum... Até que é bem leve. — Disse ele repousando sua outra mão dentro do bolso da calça e seguiu caminhando em plena tranquilidade pelas ruas de Solaris, deixando o Espantalho Carlão com cara de tacho com aquela cena. Fazendo-o perceber que ainda precisaria de muito mais frango e batata doce para alcançar o nível de seus respeitáveis líderes. — Essa chama contida aqui dentro é bem reconfortante... — Astares tinha uma grande afinidade com o fogo, seus sentidos aguçados e receptores cibernéticos o possibilitaram captar particularidades muito além de apenas um simples calor como os espantalhos sentiram, fazendo o Rei Zarlek sorrir ao notar isso por parte dele.

Com os suprimentos cuidadosamente acomodados nas carruagens, a comitiva liderada por Astares adentrou os portões de Solaris, o Reino Tecnológico de arquitetura industrial. Embora tivessem uma relação estável e amigável, era a primeira vez que Zíria visitava os domínios do Rei Máquina e ficou impactada com o cenário que se desdobrava diante de si conforme adentrava o reino. As construções de metal e vidro, adornadas com engrenagens em constante movimento, criavam um espetáculo de engenhosidade e tecnologia que parecia até magia. Cidadãos locais transitavam pelas ruas, vestidos com roupas que combinavam funcionalidade e elegância, refletindo o estilo steampunk e solarpunk que dominava o reino.

Essa jornada estava recheada de expectativa e cooperação, os reinos submissos à Razallath atuavam numa aparente harmonia apesar das tensões pessoais que de certa forma não afetavam as relações. Logo, todas as carruagens e os visitantes adentraram no reino e os guardas cibernéticos em seguida selaram novamente os portões do reino do Rei Máquina.

Notas finais
Nos veremos em breve;