Outro caso original; um capítulo sem título, ao passo que o capítulo anterior tem dois. Isto me lembra um ditado popular que faz jus a denominação: '' um dia do caçador, outro da caça ''

A cada minuto que passava eu ficava ainda mais confuso. Quem seriam aquelas pessoas que chegaram? Que diabos faziam ali aquelas moedas gigantes? E oque era afinal essa tal corrida Corrida Universal? Eu não tinha mais ninguém além de Mariana para me responder a estas perguntas, mas eu a tinha perdido de vista, novamente. Tentei falar com alguns rostos conhecidos ali no meio da multidão mas estes me ignoravam, foi quando explodi de cólera e gritei:

— Alguém por favor poderia me dar um minuto de atenção?

Não obtive resposta. Ouvi apenas uma risadinha debochada. Voltei-me e me deparei com um senhor, esguio, cabelos grisalhos e uma longa barba filosófica. Aparentemente tinha uns quinze a vinte anos a mais do que eu. Lhe perguntei:

— Qual o motivo da graça?

Este me respondeu:

— Você, querendo a atenção dos cegos e surdos.

Surpreendi-me e repliquei:

— Cegos e surdos? Mas não o-são, veja, conversam uns com os outros.

O homem riu a larga, aumentando minha raiva.

— Se não os vê cegos é porque também está.

Supus estar na presença de um insano então então fiz pouco caso e voltei a procurar Mariana.

— Rapaz, — disse o homem — sugiro que saia dai pois a corrida está prestes a começar. Sente-se aqui do meu lado e prestigie o espetáculo.

Acreditando que conseguiria encontrar minha amada tendo uma visão mais ampla do local, saí da beira da pista e fui sentar-me ao lado do homem até então desconhecido.

— Prazer, me chamo Agnaldo. Agnaldo Parabelum.

— Heitor Sipriani.

Sorri cordialmente e apertei-lhe a mão. Escutei um chiado alto de microfonia e olhei para o palanque, avistando o senhor da cartola engraçada e as damas que o acompanhavam, sentados em cadeiras luxuosas que pareciam ser de ouro. Voltei-me para Agnaldo e perguntei:

— Senhor, quem são aquelas figuras?

Este sorrindo me respondeu:

— Primeiro assista. Teremos bastante tempo para suas dúvidas.

Acomodei-me na cadeira e fiquei a observar, ao mesmo tempo que ia procurando Mariana em meio a multidão. Reparei que ao lado do palanque tinha um enorme telão do tamanho de um outdoor que transmitia imagens do palco. Por intermédio deste eu ia observando as damas que conversavam umas com as outras, gesticulando de um modo gracioso meio afrancesado, quando subitamente a câmera deu um close no rosto do da cartola engraçada. Este esboçava um largo sorriso amarelo, diabólico. Tremi de medo. Parecia que usava uma espécie de mascara emborrachada, era realmente pavoroso. De novo ouviu-se o chiado de microfonia e o ''monstro'' em fim falou:

— Que comecem os preparativos.

A multidão gritou enlouquecida. Alguns pulavam, outros assobiavam e batiam palmas, e eu observava a todo aquele fanatismo boquiaberto, petrificado. Cortinas se abriram na parte inferior do palanque e revelaram um enorme letreiro escrito ''Zona de Conforto''. Em baixo do letreiro tinham duas portas; a da direita tinha em cima uma pequena placa escrito ''entrada'', e a da esquerda... Dizer-lhe que estava escrito ''saída'' seria insultar-lhe a inteligência , não, leitor? Receba as minhas mais humildes desculpas.

— Então, — disse Agnaldo chamando me a atenção — tinha me perguntado algo?

— Sim... quem são aquelas pessoas fantasiadas?

— Primeiramente; não estão fantasiadas, são suas vestes normais. Amanhã verás, estarão com as mesmas roupas.

— Amanhã terá outra corrida?

Agnaldo riu-se.

— Provavelmente teremos corrida todos os dias, até o fim dos tempos. Respondendo a sua pergunta: aqueles em cima do palco são os organizadores da Corrida Universal. A figura espalhafatosa de cartola é Sir Capital, uma espécie de duque, presidente, rei ou algum título do tipo, não sei, só sei que ele é muito amado e respeitado por aqui. Vamos as damas: a que aparenta ser mais avançada em idade entre as três, de vestido preto e amarelo, é Mme Ganância, duquesa ou rainha de Sir Capital. A de vestido dourado, ao seu lado direito, é Luxúria, irmã de Ganância. E por ultimo, mas não menos importante, trajando e jóias negras; a jovem Avareza, fruto do amor entre Sir Capital e Mme Ganância.

Grande foi meu espanto ao ouvir os nomes.

— Nossa, mas que nomes artísticos, em?

— Não são nomes artísticos. Veja, será dada a largada. Disse Agnaldo apontando para frente.