A Corrida Universal
5 Cap. V / Autômato Orgânico
A alguns metros de minha casa eu já conseguia ver minha cama através das paredes, de tão cansado que estava. Há alguma exageração nisto mas, a narrativa humana não é outra coisa se não um composto de partes exageradas e diminutas que ajustam-se. A verdade é que eu estava ansioso pelo conforto de minha cama. Entrei em casa e logo fui recebido de forma calorenta pelo sono, que abraçou-me como uma criança que espera pelo pai durante toda uma tarde, dependurou-se em meu colo me fazendo arquear o corpo para frente, fazendo com que minha bolça deslizasse de meu ombro para o braço, do braço para o chão e ali mesmo ela ficou. Como todo meu corpo estava que eu não aguentava mais, minhas pernas assumiram o controle e foram conduzindo-me até meu leito. Senti segurança para fechar os olhos, e o fiz, me deixando levar pelo corredor sem oferecer nenhuma resistência, como o vento leva a folha seca que desgarrou-se de sua mãe. Meio minuto depois eu pude sentir e ouvir o baque surdo de meu corpo chocando-se contra a cama, e mesmo assim não abri os olhos. As pernas já tinham contribuído bastante com seus serviços, agora era a vez dos braços, com auxílio das mãos, que logo compreenderam e prontificaram-se a executar seu serviço; o direito foi ao encalço do interruptor que ficava logo ali ao lado da cama e tratou de apagar a luz e ligar o ventilador de teto, enquanto o esquerdo tateava á procura do cobertor, e também cumpriu com o seu dever. De certo esta narrativa é um tanto quixotesca, mas é exatamente assim que me sinto quando não se pode mais resistir ao sono de nenhuma forma; um autômato orgânico multi funcional.
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