A Coroa e o Coração
5 O Rugido da Fronteira
O horizonte, que antes era composto pelas planícies verdes e tranquilas dos Países Baixos, agora estava manchado pela fumaça negra de vilas distantes e pelo rastro de destruição deixado pelo avanço francês. Após dias de marcha forçada, o exército liderado pelo Rei Robert e pelo Príncipe Drake finalmente alcançou a linha de frente. O som dos pássaros fora substituído pelo trovão distante dos canhões e pelo bater incessante de martelos contra o ferro.
O acampamento militar era uma cidade de lona que se estendia por quilômetros. Milhares de tendas brancas e cinzas brotavam da terra batida como cogumelos após uma tempestade. O cheiro de guisado barato cozinhando em caldeirões de ferro misturava-se ao odor acre de pólvora e cavalos cansados.
Drake desmontou de seu garanhão negro, sentindo o peso da armadura e a poeira da estrada impregnada em sua pele. Seus olhos, antes acostumados ao luxo dos salões de baile, agora escaneavam as fileiras de homens feridos que eram carregados para as tendas médicas.
— Montem o posto de comando aqui! — ordenou o Rei Robert, apontando para uma pequena elevação que oferecia visão estratégica do vale. — Quero os batedores de volta antes do anoitecer. Precisamos saber onde Luís posicionou sua artilharia.
Drake aproximou-se do pai, ajustando o cinto da espada.
— Os homens estão exaustos, pai. Precisamos garantir que eles comam e descansem pelo menos algumas horas antes de qualquer movimentação.
O rei olhou para o filho, notando as olheiras profundas e a seriedade em seu rosto.
— Você tem razão, Drake. Um soldado faminto não segura uma lança com firmeza. Mas lembre-se: o inimigo não nos dará o luxo do sono.
Enquanto os sargentos gritavam ordens para organizar as patrulhas, Drake caminhou entre as tendas dos soldados comuns. Ele não se isolou na tenda real; fez questão de ver as condições de seus homens. Viu jovens, pouco mais velhos que meninos, afiando baionetas com mãos trêmulas, e veteranos de cicatrizes profundas limpando seus mosquetes em silêncio absoluto.
Ao entrar em sua própria tenda, uma estrutura simples de lona reforçada com apenas um catre de campanha, uma mesa de madeira tosca e alguns mapas, Drake sentiu um vazio avassalador. Ele retirou o lenço que Analis lhe dera, o tecido de seda ainda guardando um rastro quase imperceptível do perfume de flores dela.
— Onde quer que você esteja, espero que esteja segura — sussurrou ele para o silêncio da tenda.
Acomodar-se na guerra não era sobre conforto, era sobre sobrevivência. Ele sentou-se à mesa, acendeu uma pequena vela e começou a estudar os mapas do território francês. O conforto do palácio parecia uma memória de outra vida. Ali, entre o frio da noite e o som dos sentinelas marchando do lado de fora, Drake Brooke compreendeu que a coroa que ele herdaria um dia estava sendo forjada naquele exato momento, no barro e no sangue da fronteira.
A noite caiu pesada sobre o acampamento, e o brilho de milhares de fogueiras era o único sinal de que a esperança ainda ardia, mesmo sob a sombra iminente da batalha.
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