A Coroa e o Coração
15 O Intruso e o Regresso do Rei
Três meses haviam se passado desde que a poeira da carruagem de Robert baixara no horizonte. Nesse tempo, Analis Brooke floresceu sob a responsabilidade. Ela não era mais a princesa estrangeira assustada; comandava o Conselho com punho de ferro e recebia delegações com uma graça que silenciava qualquer crítico. O povo a chamava, em sussurros de reverência, de "A Rainha de Gelo".
Foi durante um baile de gala para a nobreza que o Duque de Suffolk, Mauricy, um homem de porte atlético e lábia refinada, cruzou o caminho de Analis. Encantado pela força e beleza da viúva, Mauricy não ocultou suas intenções.
— A senhora governa este castelo com uma maestria que poucos reis possuem — disse ele, curvando-se sobre a mão dela em um jardim iluminado por lanternas. — Seria uma honra imensa se me permitisse conhecê-la além dos tratados e protocolos. Permite-me cortejá-la, Alteza?
Analis sentiu um calafrio, não de desejo, mas de urgência. Naquela mesma noite, ela escreveu para Robert. A carta era curta e estratégica: informava que o Duque de Suffolk buscava sua mão e que, como soberano, ele deveria decidir sobre a conveniência política de tal união.
A resposta não veio em papel, mas em trovão.
Dois dias depois, o som de cavalos galopando furiosamente anunciou o retorno do Rei. Robert entrou no pátio coberto de lama, os olhos injetados de cansaço e fúria. Ele não perguntou por ninguém. Caminhou direto para o jardim leste, onde fora informado que a Princesa estava.
Lá, ele estancou. Analis e Mauricy conversavam perto das roseiras; o Duque ria de algo que ela dissera, inclinando-se um pouco mais perto do que Robert podia suportar.
— ANALIS! — o grito do Rei cortou o ar como um chicote, fazendo os pássaros voarem assustados.
O Duque e a Princesa sobressaltaram-se. Robert estava parado a poucos metros, a mão no punho da espada, a mandíbula travada.
— No meu gabinete. Agora! — ordenou ele, sem sequer reconhecer a presença de Mauricy.
Quando Analis entrou no gabinete, Robert já havia arremessado um peso de papel contra a parede. A porta bateu com estrondo.
— O que pensa que está fazendo? — rugiu ele, virando-se para ela. — Recebo uma carta sobre "intenções" e chego aqui para encontrá-la se exibindo nos jardins com aquele pavão inglês?
— Se exibindo? — Analis rebateu, a voz trêmula de indignação. — Eu fui honesta com o senhor! Mandei a carta porque não tomo decisões sem o meu Rei. O Duque é um aliado importante e...
— O Duque é um abutre! — interrompeu Robert, aproximando-se dela até que pudesse sentir o calor da fúria dele. — E você... você parece ter esquecido rápido demais o luto que carregava. Bastou eu virar as costas para que você buscasse consolo nos braços de qualquer um que usasse um título e um sorriso fácil?
O tapa invisível daquelas palavras fez Analis recuar, o rosto ardendo como se tivesse sido atingido fisicamente.
— Como o senhor ousa? — ela sussurrou, as lágrimas de mágoa começando a brotar. — Eu passei três meses cuidando deste reino sozinha, Robert! Eu esperei por você todos os dias!
— Talvez devesse ter voltado para a Inglaterra quando teve chance — cuspiu Robert, a crueldade da culpa e do ciúme falando mais alto que sua razão. — Você é apenas uma distração perigosa. Uma mulher que traz o caos por onde passa. Drake morreu e você... você é apenas um lembrete constante da minha própria fraqueza!
O silêncio que se seguiu foi cortante. Analis olhou para o homem que a salvara da ruína e viu apenas um estranho amargo.
— Se eu sou um fardo e um lembrete de sua fraqueza, Majestade... — ela disse, a voz subitamente gélida e firme — então não o assombrarei mais com a minha presença.
Ela saiu da sala antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. No quarto, o desespero deu lugar a uma determinação febril. Analis não chamou as aias. Juntou suas roupas mais simples, o lenço de Drake e algumas provisões em uma mala pequena.
Sob o manto da noite, ela desceu as escadarias laterais. Não pediu carruagem. Pegou um cavalo nos estábulos e partiu, cavalgando com o coração despedaçado em direção ao único lugar onde fora verdadeiramente feliz: a cabana de madeira escondida entre os pinheiros, o refúgio onde as promessas de Drake ainda pareciam flutuar no ar.
Fale com o autor