A Coroa e o Coração

9 A Sombra nos Aposentos Reais



​As cortinas de veludo pesado dos aposentos da princesa permaneciam fechadas, mergulhando o quarto em uma penumbra eterna. O perfume de rosas frescas que costumava embriagar o ar fora substituído por um cheiro de mofo e tristeza estagnada. Analis não saía da cama há dias; o vestido de seda preta, agora amassado, parecia fundir-se aos lençóis. Ela passava as horas encarando a parede, segurando contra o peito o lenço manchado de Drake, como se o tecido pudesse reter o último calor de sua pele.

​Duas batidas suaves ecoaram na porta, seguidas pelo ranger das dobradiças. Analis não se mexeu. Ela sabia que era o Rei Robert; ele era o único que ousava desafiar suas ordens de solidão.

​O rei entrou devagar. Seus passos, antes firmes e autoritários, agora carregavam o peso de um homem que envelhecera dez anos em poucas semanas. Ele não acendeu as luzes. Caminhou até a poltrona ao lado da cama e sentou-se, soltando um suspiro profundo.

​— Analis... — chamou ele, a voz baixa, quase um sussurro para não ferir o silêncio. — As tulipas do jardim leste começaram a florescer hoje. Elas são de um vermelho vivo, exatamente como as que você disse que gostava.

​A princesa não respondeu. Uma única lágrima escorreu por seu rosto pálido, sumindo no travesseiro.

​— Eu sei que o mundo lá fora parece um lugar estranho agora — continuou Robert, inclinando-se para frente. — Eu sinto como se estivesse caminhando em um deserto, mesmo estando cercado por ministros e súditos. A ausência de Drake é um grito que não para de ecoar nos corredores deste palácio.

​Analis finalmente virou o rosto, os olhos opacos encontrando os do sogro.

​— Então por que o senhor continua, Majestade? — a voz dela era rouca, sem vida. — Por que se levanta todas as manhãs e coloca essa coroa, se a pessoa que deveria herdá-la não está mais aqui?

​Robert estendeu a mão e tocou levemente a mão fria de Analis.

​— Porque eu sou o rei, e você é a princesa deste povo. Eles estão perdidos, Analis. Eles ganharam uma guerra, mas perderam o príncipe que amavam. Se nós nos entregarmos à escuridão, o reino inteiro cairá nela conosco.

​— Eu não tenho forças — soluçou ela, sentando-se com dificuldade, os cabelos loiros desgrenhados caindo sobre os ombros. — Cada vez que fecho os olhos, vejo o sorriso dele naquela manhã na cabana. Eu sinto que, se eu me levantar e seguir em frente, estarei deixando ele para trás. Estarei aceitando que ele realmente se foi.

​O rei apertou a mão dela com uma firmeza carinhosa.

​— Você nunca o deixará para trás. Drake vive em cada decisão que tomamos, em cada lembrança que guardamos. Mas ele não morreu para que você murchasse aqui dentro, Analis. Ele morreu protegendo este chão, protegendo a vida que ele queria que você tivesse. Ficar trancada neste quarto não honra o sacrifício dele; apenas torna a perda ainda mais absoluta.

​Robert levantou-se e caminhou até a janela, puxando apenas uma fresta da cortina. Um feixe de luz dourada cortou a escuridão, iluminando a poeira que dançava no ar.

​— O povo precisa ver que a esperança não morreu com o príncipe. Eu preciso de você ao meu lado, Analis. Não como uma rainha política, mas como a prova viva de que o amor de Drake valeu a pena. Por favor... tente se levantar. Nem que seja apenas para caminhar até o jardim e respirar o ar que ele tanto amava.

​Analis olhou para o feixe de luz. Por um breve momento, ela sentiu um aperto no peito que não era apenas dor, mas um chamado. Ela olhou para o Rei Robert, vendo nele não o monarca, mas um pai que, apesar de estar sangrando por dentro, ainda tentava ser o escudo de sua família.

​— Amanhã — sussurrou ela, limpando o rosto com as costas da mão. — Amanhã eu tentarei caminhar até o jardim, Majestade.

​Robert esboçou um sorriso triste, mas grato. Ele beijou a testa dela e saiu em silêncio, deixando a porta entreaberta, permitindo que um pouco da vida do palácio voltasse a entrar naquele santuário de dor.