A Coroa e o Coração
19 A Coroa de Espinhos
O conselho de Vallon agiu como o último prego no caixão da liberdade de Analis. Robert, agora movido por uma lógica fria e uma necessidade desesperada de apagar a mancha da ilegitimidade, viu no casamento a única saída para garantir que seu sangue continuasse a linhagem dos Brooke sem contestação.
O silêncio no gabinete real era interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira. Robert caminhava de um lado para o outro, as mãos cruzadas nas costas, enquanto Lorde Vallon observava o rei com sua habitual expressão calculista.
— O povo comenta, Majestade — começou Vallon, a voz baixa e pragmática. — E a Igreja não aceitará um herdeiro nascido de uma viúva solitária na floresta. Se este filho deve governar os Países Baixos, ele precisa ser legítimo desde o primeiro suspiro.
Robert parou e olhou para o conselheiro.
— E o que você sugere? Que eu invente um milagre?
— Sugiro que o senhor tome a única decisão que restabelecerá a ordem. Case-se com ela, Majestade. Una o seu sangue ao dela oficialmente. Torne-a sua Rainha. Assim, a criança nascerá sob o manto do matrimônio real, e ninguém ousará questionar o direito do seu filho ao trono.
Robert sentiu um arrepio. A ideia de possuir Analis legalmente, de tê-la presa a ele por votos sagrados, era ao mesmo tempo seu maior desejo e seu maior medo.
— Ela nunca aceitará — sussurrou o Rei.
— Ela não precisa aceitar, senhor. Ela precisa obedecer. Pelo bem da criança.
Poucas horas depois, Analis foi conduzida à Sala do Grande Conselho. Ela vestia um traje de veludo escuro que disfarçava sua silhueta, mas seu rosto carregava a palidez de quem não via o sol há dias. O conselho estava reunido em peso; nobres e clérigos observavam a cena com uma curiosidade mórbida.
Robert estava sentado no trono, a expressão endurecida como pedra. Ele não se levantou quando ela entrou.
— Analis — disse ele, a voz ecoando pelas paredes altas. — Para garantir a segurança e a legitimidade do herdeiro que você carrega, tomei uma decisão irrevogável. Diante deste conselho e sob as leis deste reino, nós nos casaremos hoje.
O choque percorreu o corpo de Analis como uma descarga elétrica. Ela deu um passo à frente, as mãos trêmulas.
— Casar? Com você? — ela riu, uma risada seca e sem vida. — Depois de tudo o que aconteceu? Você quer me forçar a um sacrilégio? Eu sou a viúva do seu filho, Robert!
— Você é a mãe do futuro Rei — rebateu Robert, levantando-se e descendo os degraus do estrado até ficar diante dela. — E eu não permitirei que ele seja chamado de bastardo. Você se casará comigo, Analis. Se não por amor a mim, faça-o pela criança. Se você recusar, eu declararei que você é instável e tirarei o bebê de você assim que ele nascer. Você passará o resto dos seus dias trancada em uma torre, sem nunca sentir o cheiro do cabelo do seu filho.
As palavras dele foram como facas. Analis sentiu o ar sumir. Ela olhou para os rostos frios dos conselheiros e depois para o rosto implacável de Robert. Ela estava encurralada.
— Você é um monstro — sussurrou ela, as lágrimas transbordando.
— Eu sou um Rei protegendo o que é meu — respondeu ele, fazendo um sinal para o bispo se aproximar.
A cerimônia foi rápida, fria e desprovida de qualquer alegria. Não houve cânticos, apenas o som seco das palavras latinas que os uniam "até que a morte os separasse". Quando chegou o momento, Robert pegou a pesada coroa de ouro, adornada com safiras, e a colocou sobre a cabeça de Analis com uma firmeza que a fez baixar o pescoço.
— Eu vos apresento — declarou Robert, virando-se para o conselho enquanto segurava o braço de Analis com força — Analis Brooke, Rainha dos Países Baixos.
Os nobres curvaram-se em um silêncio opressor. Analis sentia o peso do ouro em sua cabeça como se fosse um círculo de chumbo. Ela era agora a mulher mais poderosa do reino, mas nunca se sentira tão pequena e escravizada. Robert olhou para ela, um brilho de posse absoluta em seus olhos, enquanto a levava para fora da sala. Ele vencera. Ele tinha o herdeiro, tinha o reino e, agora, tinha a mulher que o assombrava, presa a ele por uma coroa que ela nunca quis usar.
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