Notas iniciais
Olá, pessoas. Como vão?
Comecei a escrever esta história há uns dois anos, mas tive ideias novas e exclui os capítulos antigos diversas vezes. Decidi postar agora pois acredito que será a versão definitiva e, além disso, gostaria de ouvir (ler) a opinião de vocês sobre a história e os personagens.
Portanto, bem vindos ao meu mundo. Espero que vocês gostem.
Ps: eu não recomendaria que vocês passassem a gostar de alguns personagens, afinal, eles correm riscos e escondem segredos como qualquer um de nós.

PARTE I

Um fato: Toda família vive de aparências.

Não se pode negar isso. Toda família esconde segredos que, se viessem a público, poderiam acabar com elas em um piscar de olhos.

Mantenha as aparências e proteja sua família.

É simples.

É lógico.

Não é difícil de fazer.

E pode salvar sua vida.

***

DIA 182 DO ANO 1410

Os Lockwood pareciam estar bem naquela manhã.

Amos e seu irmão, Logan, tomavam café juntos, conversando sobre alguns assuntos aleatórios. Lena, a esposa de Amos, e Ellen, a esposa de Logan, observavam a pequena Alice correr de um lado para o outro pelo Pequeno Salão, animada demais com a festa que aconteceria naquele dia para ficar parada em uma só mesa.

Heron olhava a cena com admiração: era raro seu pai e sua mãe estarem em completa paz e harmonia, ainda mais em um dia tenso como aquele.

Na verdade, ele nunca vira os pais estarem bem.

— Ansioso?

A voz suave chamou a atenção de Heron, que virou sua cabeça para ver quem se sentava ao seu lado.

— Não sou eu quem deve ficar ansioso. — ele sorriu ao ver que Alexandra Scott falava com ele.

Alexandra era a melhor amiga da irmã de Heron. Ela convivia com os Lockwood desde que Heron podia se lembrar, apesar de, ultimamente, passar mais tempo no distrito que governava que na Capital, o distrito onde os Lockwood viviam desde os primórdios do Novo Mundo.

Repentinamente, Heron sentiu-se mal arrumado. Ela causava essa sensação nele: ele precisava estar na melhor aparência possível quando perto de Alexandra.

— Bem, um de seus irmãos será eleito o herdeiro do trono de seu pai. — ela passava manteiga em um pedaço de pão enquanto falava, observando fixamente a manteiga derreter no pão quente. — Ele governará o reino durante longos anos e você provavelmente será o Chanceler durante este período. — ela virou-se e sorriu para Heron. Imediatamente, ele sentiu-se perturbado e admirado por seus olhos. Alexandra fazia com que as pessoas sentissem-se desta maneira quando olhavam fixamente para as íris de cores diferentes. — Eu ficaria ansiosa.

Heron demorou a responder, ainda observando os olhos da Governadora de Strongfort. Um verde como uma das esmeraldas que enfeitavam a coroa de Amos e o outro castanho, tão comum entre as pessoas do reino.

— Pode falar ela em vez de ele. — respondeu. — Todos sabem quem será escolhido.

— As coisas podem mudar, meu príncipe. — ela sorriu novamente. Heron achava que ela tinha um sorriso muito bonito, mas também meio assustador. Ele sabia que, apesar de toda a simpatia e descontração de Alexandra, ela podia ser como Regina. Talvez menos imprevisível, mas ainda tão perigosa quanto a irmã de Heron. — Sua mãe conquistou alguns apoiadores para seu irmão. Alguns apoiadores poderosos, diga-se de passagem.

O príncipe preparou-se para responder, mas foi interrompido pelas portas do salão se abrindo.

— Sua Alteza Real, a Princesa Regina de Whitecastle e Sua Alteza Real, Príncipe Gael de Whitecastle. — o arauto anunciou, fazendo com que todos os criados na sala parassem imediatamente o que faziam e se ajoelhassem.

Regina e Gael entraram no salão de braços dados e sorrindo.

A presença da irmã de Heron enchia o salão, impactando todos ao redor. Regina andava de maneira orgulhosa, como apenas uma rainha poderia fazer. Ela era uma versão mais nova da mãe: os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos castanhos escuros, a pele branca, o nariz arrebitado, a boca cheia e o rosto em forma de coração, a mesma beleza doentia e incomoda. Até mesmo o sorriso era semelhante: Lena e Regina dividiam um sorriso felino e malicioso que impediam qualquer um de adivinhar o que elas pensavam.

Em contrapartida, Gael andava meio curvado, como se não quisesse estar naquele lugar. E ele não queria, como Heron bem sabia.

O filho do meio dos Lockwood era descompromissado e apático. Para Heron, isso se devia pelo fato de que a mãe deles havia mimado Gael como não fizera nenhum dos outros filhos. Ela era quem tomava as decisões por ele, era ela quem dizia o que ele devia ou não fazer, era ela quem deixava que ele faltasse a compromissos por que ele simplesmente não queria comparecer. Gael sempre tivera da mãe tudo o que queria, enquanto Regina e Heron precisavam mostrar para o pai que mereciam o que desejavam.

Porém, o jovem príncipe não via muitas diferenças entre as personalidades de Regina e de Gael. Ambos eram festeiros, sedutores, vaidosos e, por vezes, um tanto quanto rudes. Claro que estas características se mostravam mais frequentemente em um ou outro, mas, estavam lá, presentes e inevitáveis.

— Vossa Majestade. — eles ajoelharam-se à frente do local onde o Rei sentava-se, saudando-o. Gael abaixou a cabeça, como se temesse o pai, enquanto Regina sorria, parecendo animada.

— Podem se levantar. — Amos sorriu e fez um gesto com a mão. Gael levantou-se, dando a mão para Regina logo depois para ajuda-la a se erguer.

— Estão atrasados.

Todos os olhares se viraram para a Rainha. Era a primeira vez que ela falava em voz alta desde que haviam chegado no salão. Sua voz era fria como gelo, fazendo com que Heron estranhasse: ela nunca repreendia Gael, ainda mais em público.

— Peço perdão, mãe. — Gael respondeu, envergonhado.

Regina nada falou e sorriu para a mãe. Heron notou que aquele era o sorriso irônico da irmã. Ele pode sentir a tensão formando-se no local enquanto Regina e Lena se encaravam, como se olhassem para o espelho.

— Não lhe culpo, filho. — Lena finalmente respondeu. — Sei que sua irmã pode atrasar-se às vezes e você foi educado para esperá-la. Acredito que se atrasou devido àquele cavaleiro que anda com você para todos os lados, Regina. Estou certa?

A tensão aumentava. Heron sentiu que Alexandra se levantava lentamente de sua cadeira, pronta para ir até Regina. Ele sabia que ela sabia o quão imprevisível a princesa podia ser e não queria que uma cena acontecesse na frente de tantos criados. Os Lockwood precisavam manter as aparências de família feliz e unida, como estavam se portando minutos antes. Eles eram o exemplo familiar de todo um reino e uma simples briga durante o desjejum poderia estragar aquilo.

— Benedict saiu para caçar com meus primos ainda cedo, mãe. — Regina manteve sua expressão neutra enquanto falava. Todos sabiam que não deveriam falar sobre a relação de Benn e Regina em público, mas a Rainha quebrava esta regra com frequência. — Atrasei-me porque dormi demais. Peço desculpas.

Alexandra remexeu-se desconfortavelmente ao lado de Heron.

— Algo errado? — ele sussurrou para ela, preocupado.

— Nada demais. — ela respondeu com um sorriso envergonhado.

— Podemos nos sentar agora? Estou faminta. — Regina quebrou a tensão no salão dando um sorriso para o pai. — Hoje é o grande dia. Não queremos que o escolhido desmaie porque não comeu nada durante o desjejum, certo, pai?

Amos sorriu, meio sem graça com a atitude da esposa, e dispensou os filhos, que vieram na direção da mesa onde Alexandra e Heron estavam sentados.

— Essa foi por pouco. — Regina suspirou aliviada.

— Benn não foi caçar? — Heron perguntou e sentiu seu estomago revirar ao mencionar o nome do irmão do criação. Ainda assim, divertia-se com o alívio da irmã.

— Não tenho ideia de onde ele está. — ela deu de ombros enquanto escolhia uma maçã.

O resto da refeição passou sem nenhum acontecimento.

Alexandra e Regina conversavam animadamente sobre vestidos e as justas que disputariam no dia seguinte, enquanto Gael comia em silêncio. Heron notou que ele estava pálido e suava muito, fazendo com que seu cabelo negro ficasse empapado.

— Está bem, Gael? — perguntou disfarçadamente, enquanto o irmão passava a mão na testa como se aquilo fosse secá-la.

— Só ansioso, Ron. — ele sorriu, usando o apelido que dera para Heron quando eles eram crianças.

— Sabe que não vai ser escolhido, certo? — Heron sabia que o irmão não pretendia ocupar o trono de Whitecastle após o pai deles e só estava disputando com Regina por desejo da mãe. — Regina tem os votos de três dos quatro Duques. Priestly não manifestou seu apoio ainda, mas tenho certeza de que os Governadores de Hunteryard pediram para que ele votasse nela.

Gael assentiu cuidadosamente.

— Yves Gold votará nela?

— Regina serviu no exército de Acker e o tio avô de Yves era um dos guardiões dela. Aposto que sim.

— Mesmo depois do que aconteceu com Edward? — ele falou em um tom baixo.

Heron coçou o queixo, incomodado. As lembranças daquela noite voltaram em sua mente, não lhe dando tempo de se defender da reação.

Ele ainda lembrava-se como se fosse hoje. Ele odiava aquilo. Ele ainda sentia-se culpado.

— O que aconteceu com Edward não foi culpa de Regina. — Heron finalmente respondeu, depois de um momento de silêncio. Era uma mentira, mas era algo que ele deveria falar no momento, algo que ele precisava afirmar mais para si mesmo do que para o irmão.— E não devemos falar sobre isso aqui. — concluiu.

Gael assentiu, encerrando o assunto.

***

DIA 53 DO ANO 1407

Heron corria pelo pátio do castelo.

Ele amava sentir o vento batendo em seu rosto, o sol queimando sua pele e os sons tornando-se indistinguíveis devido à velocidade. Era como se o universo fosse só dele, submetido ao seu comando e suas vontades, mesmo que por só alguns momentos.

E então, uma voz gritou ao seu lado.

— Passei!

Heron só teve tempo de ver o vulto que passava a sua frente antes de correr para alcançá-lo.

Era raro que ele perdesse uma corrida, ainda mais quando alguma aposta estava em jogo.

Heron Lockwood nunca perdia uma aposta.

As pessoas ao seu redor gritavam, incentivando-o a alcançar seu oponente, e ele acelerou o passo, tornando-se ainda mais rápido e se aproximando da pessoa que corria à sua frente.

Sua visão estava borrada e gotas de suor caiam em seus olhos, incomodando-o.

— Vamos lá, Heron. — ele pode ouvir o pai gritando animadamente. Era tão raro ver o pai sair de seu escritório por um tempo para se misturar e se divertir com as outras pessoas comuns que viviam no castelo. — Você consegue, filho.

Heron sorriu com aquilo, genuinamente animado. Também era raro alguém o incentivar.

Então correu o mais rápido que pode, deixando de se importar se respirava corretamente ou não, se sentiria dor mais tarde ou se machucaria agora.

Ele só precisava ganhar.

Ele só precisava mostrar ao seu pai que ele conseguiria.

— Última volta! — alguém gritou.

Heron fechou os olhos, deixando seus pés guia-lo.

O vento voltou a bater em seu rosto, ele voltou a sentir o sol em sua pele, o cheiro da grama verde pela manhã, os sons confundindo-se. Tudo o que ele mais gostava. Um momento de despreocupação em meio a tantos problemas.

E então, ele parou.

O povo ao redor explodiu em palmas e gritos.

Heron abriu os olhos e sorriu ao ver seu pai aplaudindo-o, apoiado em um dos barris que demarcava os limites da corrida. Sua irmã estava lá também, brilhante em baixo do sol, sorridente e feliz, gritando seu nome e rindo de alguma coisa.

Então Heron virou-se e viu que seu oponente se arrastava pela pista, brincando com sua derrota.

— Pode tentar, mas nunca ganhará de mim. — Heron gritou, sorrindo.

Logo depois, o garoto que antes se arrastava pela pista estava ao seu lado, dando-lhe um tapa nas costas e parabenizando-o.

— Heron meu amigo, — ele deu de ombros. — não posso deixar um príncipe perder. Posso ser decapitado por isso. — ele riu e Heron acompanhou-o.

Então, Edward deixou-o onde estava e correu até Regina.

— Minha princesa, — ele começou, ajoelhando-se a frente de Regina e tomando-lhe a mão, fazendo com que todos ao redor se calassem. Regina e Edward eram tão belos juntos que hipnotizavam e causavam fascínio em todos. — jurei que dedicaria a vitória a você, portanto, peço-lhe perdão por ter perdido. Ganharei em uma próxima oportunidade, quando meu oponente não pertencer à realeza.

Regina sorriu para ele. Heron admirava aquilo. Sempre quisera ser como a irmã e conseguir conquistar multidões apenas com um sorriso.

— Perdoo-lhe, sir. — Regina respondeu. — Não é culpa sua se meu irmão corre como um guepardo.

Todos os que observavam a cena riram com o gracejo de Regina.

Edward beijou-lhe a mão e levantou-se, sorridente e suado, encantado com a Princesa pelo qual, como havia contado à Heron antes, apaixonara-se.

***

DIA 182 DO ANO 1410

As leis de sucessão em Whitecastle eram simples: caso o primogênito e o segundo filho de um rei fossem de gêneros diferentes, era necessário realizar uma assembleia para escolher quem seria o herdeiro do trono.

Porém, este era um caso raro. Em mil e quatrocentos anos, apenas duas assembleias haviam sido realizadas: para escolher entre os filhos de Alice I, Albert Arthur e Regina, e para escolher entre os filhos de Regina I, Alice e Patrick Edward. Estas assembleias foram a confirmação do reinado de Albert I e de Alice II. Enquanto isso, os irmãos deles tiveram destinos inesperados. A adorável Princesa Regina Edwina acabou morrendo misteriosamente durante uma expedição com a Marinha de Whitecastle. O Príncipe Patrick Edward acabou se casando com a herdeira do Reino de Campanelli e morreu alguns anos depois, vítima de um atentado ao Castelo de Grimaldi.

Regina nunca quisera ser a rainha e Patrick, que tanto cobiçava o título, nunca foi rei.

Agora, duzentos e quarenta e seis anos depois da última assembleia, os Duques e os governadores de distritos se reuniam novamente, prontos para escolher entre Regina e Gael.

A votação era simples: os Duques, após ouvirem as opiniões dos governadores dos distritos de seu estado, reuniam-se e votavam em quem parecia ter mais preparo para governar o reino. Quando um dos pretendentes tivesse três ou mais votos, ele seria declarado herdeiro do trono. Em caso de empate, algo que nunca acontecera antes, o Rei tinha a palavra final, afinal ele também era um Duque e governava um dos cinco estados de Whitecastle.

Não foi nenhuma surpresa para Heron ou qualquer um dos presentes na sala de votação quando Amos abriu os envelopes onde os votos dos Duques estavam escritos e revelou os resultados: Yves Gold, o Duque de Acker, votara em Regina, assim como Jacob Hart, o Duque de Berkley, e Richard Wolff, o Duque de Watercraft. O único voto para Gael fora de Lucian Priestly, o conservador Duque de Hunteryard, o que causou certo incomodo entre os presentes, que logo foi esquecido devido à comemoração de Regina.

Desta maneira, com um suspiro de alívio tanto do Rei quanto dos Duques e de Gael, Amos Lockwood II fez de Regina Lockwood a Princesa Herdeira de Whitecastle e Seus Domínios, Marquesa da Capital e Comandante das Forças Armadas do Reino.

***

O Grande Salão do Castelo de Longhill estava lotado.

Nobres e plebeus misturavam-se, dançando e dividindo comida como se fossem amigos próximos. Os músicos tocavam todo tipo de canções, desde músicas típicas de Whitecastle até músicas de antes da Grande Guerra, que haviam sido preservadas graças às partituras guardadas em um dos castelos do reino. A felicidade de todos inundava o salão como se fosse algo palpável.

Aquela era uma ocasião rara e, como todos sabiam, deveria ser aproveitada.

A decoração do local baseara-se nas cores usadas para identificar a Família Lockwood quando em guerra: branco, púrpura e dourado. Bandeiras e toalhas de mesa nessas cores espalhavam-se por todo o salão.

Regina, sentada entre o rei e a rainha, como era de costume entre os herdeiros de Whitecastle, admirava tudo com uma admiração que Heron achava divertida. Era tão raro ver a irmã se impressionar com algo que ele se esquecera da expressão animada em seu rosto, com o sorriso leve que em nada o lembrava de sua mãe.

Lena, por outro lado, observava tudo com apatia e desprezo, como se estivesse sendo obrigada a estar naquele banquete.

E, de certa maneira, ela estava.

Esperava que o filho fosse escolhido como herdeiro de Whitecastle. Mesmo após anos vivendo entre o povo do reino, ela ainda não se conformara com as leis de sucessão impostas e diferentes das leis de seu reino natal.

Gael sentara-se ao lado da mãe e parecia feliz como não aparentava ser a muitos anos. Ele finalmente tirara das costas o peso de possivelmente ser escolhido herdeiro do reino e, mesmo estragando os planos da mãe, havia comentado com Heron de que estava satisfeito com os acontecimentos.

Heron observava tudo ao lado de Amos.

Assim como Regina e a mãe, ele e o pai eram parecidos. Tinham a mesma cor de cabelo, um castanho claro que podia ser confundido com loiro escuro, e os mesmos olhos verdes, característica que compartilhavam com Gael. O nariz de ambos era reto, apesar do pai ter quebrado o seu quando mais jovem e possuir um leve inchaço na ponte de seu nariz, e tinham o maxilar quadrado que pertencia à maioria dos homens Lockwood. Naquele dia, até mesmo haviam se vestido de maneira igual, mesmo que não intencionalmente: usavam calça preta, camisa branca e uma faixa verde que era colocada transversalmente do ombro direito ao quadril esquerdo. A diferença entre os dois era que Amos usava sua coroa, como próprio de um rei, enquanto Heron dispensara o arco dourado que um príncipe normalmente usava.

Regina e Gael, em contrapartida, usavam suas coroas. Regina ganhara uma nova, a mesma que o pai, o avô e o bisavô usaram quando herdeiros do reino, e exibia-a orgulhosamente. De fato, Heron achara-a muito bonita: era feita de prata e tinha rubis vermelhos em sua extensão, e combinava com o vestido de Regina, também vermelho. Gael usava sua farda de gala, completamente preta, e a coroa dourada em sua cabeça dava um toque especial à roupa, como se completassem uma a outra.

— Gostaria de dançar?

Heron virou-se e deu de cara com Alexandra.

Ela estava estonteante. Usava um vestido branco com bordados em dourado que contrastava com sua pele cor de chocolate, e seu cabelo escuro caia em cachos pelos ombros. Até mesmo os olhos pareciam mais bonitos do que sempre haviam sido.

— Está muito bonita hoje, Alexandra. — Heron, distraído estudando cada detalhe da governadora, ouviu seu pai falar.

— Obrigada, Vossa Majestade. — ela lançou um sorriso fraternal para o Rei. Heron sabia que ele era como o pai que ela nunca tivera, afinal, o pai de Alexandra havia morrido quando a governadora ainda era um bebê. — Pelo jeito, não é o único que acha isso.

Amos riu e Heron percebeu que estava demorando demais para responder.

— Pode pedi-la em casamento se quiser, filho. — o Rei sorriu. — Scott é um ótimo sobrenome e acho que combinaria com seu nome.

Alexandra riu e Heron sentiu seu rosto esquentar. Sabia que estava ruborizando, então respirou profundamente, tentando se acalmar, e pegou a mão que a governadora oferecia para ele, seguindo-a até o meio do salão, onde os pares dançavam animadamente.

— Seu pai tem razão, sabe? — ela começou a falar enquanto Heron conduzia a dança. — Heron Scott é dez vezes melhor do que Heron Lockwood.

— Está me cortejando?

— Sim. — ela respondeu, dando um sorriso torto que o príncipe achou adorável. — Está funcionando?

Alexandra riu e Heron não viu motivo para não rir com ela.

A verdade era que ele sempre se sentira atraído por Alexandra. Ela era tudo o que ele sempre procurara em outra pessoa: bonita, divertida, animada e muito inteligente. O simples fato de ela desafiá-lo enquanto a maior parte das pessoas simplesmente concordava com ele já o deixara balançado. Porém, há anos, quando Regina percebera a atração de Heron por Alexandra, logo dissera para ele deixar de pensar naquilo, pois a governadora estava ocupada demais com todas as suas responsabilidades e obrigações e não tinha tempo para outra coisa como um namoro com um príncipe.

De qualquer maneira, pouco tempo depois da conversa que Regina tivera com ele, Alexandra se envolvera no episódio que perturbava Heron até hoje e fizera com que ele deixasse de pensar nela da maneira que pensava antes.

Mas, aparentemente, os sentimentos dele estavam retornando.

— Imagino que esteja se perguntando o porquê de eu ter te chamado para dançar. — Alexandra sussurrou, quebrando o silêncio entre eles.

— Sou o filho do rei. — Heron sorriu. Ele soava falso e envergonhado quando falava aquilo, mesmo que de brincadeira. Não era como seus irmãos, que persuadiam pessoas ao dizer aquela simples frase. — Todos querem dançar comigo.

Ela riu novamente. Heron percebeu que seu cheiro habitual de menta misturava-se ao da cerveja que estava sendo servida no banquete e concluiu que Alexandra bebera um pouco mais do que o necessário.

— De fato. Então, por que não dançou até agora, meu príncipe?

Heron deu de ombros e girou Alexandra, seguindo o ritmo da música.

— Não há nenhuma pessoa realmente interessante pelo salão, minha irmã está meio bêbada e distraída demais com toda a festa e minha mãe está irritada demais depois do resultado da Assembleia.

— Então, se você está dançando comigo, quer dizer que sou interessante o suficiente. Vou registrar isso como um elogio.

Eles riram novamente e continuaram a dançar em silêncio.

O príncipe tinha consciência de que a maioria dos olhos do salão estavam observando-os. Ele já dançara com Alexandra antes e sabia que os dois se moviam em uma sincronia que beirava à perfeição.

Quando dançava com Alexandra ou simplesmente estava próximo a ela, Heron sabia que eles atraiam todos os olhares, como se fossem um show extremamente interessante para o público. Ao observá-los, Heron sabia que o povo tinha a mesma reação que tivera antes, quando Regina e Edward apareciam juntos em público. A mesma fascinação, a mesma admiração, a mesma beleza. Tudo aquilo estava presente novamente.

Tudo o que Regina privara-se de ter com Edward, Heron teria a chance de ter com Alexandra.

E então, ao sorrir para as pessoas que assistiam a eles, notou que duas delas lançavam olhares apreensivos.

Regina e Benedict.

Era quase impossível ver Benn através da multidão, mas Heron conhecia-o bem. Sabia distinguir aquele par de olhos castanhos e o cabelo castanho bem penteado. Sentia-se desconfortável quando era observado por Benn, uma sensação que adquirira anos atrás, após anos e anos sendo criado junto a ele.

E Regina parecia prestes a gritar para que Alexandra e Heron parassem de dançar. Ela parecia mais nervosa que o comum e repentinamente alerta, como se todo o álcool consumido naquele dia tivesse se dissipado do organismo dela.

Primeiramente, ele estranhou os olhares da irmã e do irmão de criação, mas depois percebeu o que acontecia.

No mesmo instante, a banda começou a tocar uma música lenta, fazendo com que Alexandra aproximasse-se dele.

— Minha irmã mandou que você dançasse comigo, correto? — ele sussurrou ao ouvido dela, ainda sorrindo, tentando manter as aparências.

— Muitas vezes, sei o que devo fazer sem que alguém me dê ordens. Está subestimando minha autonomia e minha inteligência.

— Mas Regina queria que você fizesse isso.

— Sim. — ela confirmou. Heron podia sentir o hálito quente dela em sua orelha. — Sabe como é raro ver Regina nervosa com algo, afinal, ela é um poço de calma e compreensão.

— Sua ironia é adorável.

— Eu sei. — Alexandra riu e se aproximou ainda mais de Heron. Ele sentiu-se ameaçado com este gesto. — Não só ela está nervosa, Heron. Somos todos nós, até mesmo Gael. A data está se aproximando e sabemos como você se sente. Nós te compreendemos.

— Eu não precisaria me sentir assim se vocês não tivessem feito aquilo.

— Todos nós tínhamos motivos. Você sabe disso. Você também fez parte, não?

Heron assentiu. Ele havia ajudado. Ele havia mentido e escondia aquilo há anos, mesmo sentindo-se sufocado.

— Não vou contar a ninguém o que aconteceu, Alexandra. Não precisa se preocupar.

— Sabe o que está em jogo se alguém além de nós cinco souber o que aconteceu naquele dia, certo? — ela perguntou como se falasse com uma criança, ignorando o que Heron havia dito antes. — Tudo o que sua família construiu com o passar dos séculos destruído por que você não soube guardar um segredo. A imagem de sua irmã, a reputação dela, a popularidade da realeza, o apoio do Duque de Acker... Tudo irá desmoronar.

— Assim como tudo o que você teve nos últimos anos. — Heron sabia que esse era o medo de Alexandra. Ela podia ser extremamente fiel aos Lockwood e à Regina, mas, antes de tudo, ela era fiel a si mesma.

— Tudo o que eu conquistei? Sim. Posso perder isso também.

Heron conduzia Alexandra pela pista, ainda sorrindo, como se não estivessem tendo aquela conversa.

Benn ainda observava-os fixamente.

— Sei que você acha que ele deveria pagar pelo que fez, mas pense em sua irmã antes, ok?

Heron suspirou. De repente, não se sentia tão ameaçado por Alexandra. Sabia que ela só estava fazendo aquilo pelo bem dele e de sua família.

— Ok.

Ela sorriu.

— Preciso confiar em você, Heron. Posso fazer isso?

Ele podia ter dito não. Sabia que deveria fazer isso. Mas a promessa que ele fizera há alguns anos o mantinha fiel.

Havia uma regra que ele mais respeitava naquela bagunça que os Lockwood eram: não traia sua família. Dizer que Alexandra não podia confiar nele era uma espécie de traição.

Ele não quebraria aquela regra.

— Sim, Alexandra. — ele lançou-lhe o sorriso mais adorável que tinha. — Você pode.

Notas finais
Aceito críticas cruéis e críticas adoráveis.
Espero que tenham gostado.
Até a próxima o/