A Coroa - Interativa
4 Capítulo III
Notas iniciais
Harper não pode deixar de abrir um sorriso quando finalmente fechou o livro. Mais um final feliz. Stille, seu dimon-camundongo, remexeu os bigodes, em aprovação.
– Tem certeza que esse é o último? – o dimon a encarou com seus pequenos olhos negros, a garota torceu o nariz.
– É sim. Por quê? Pensei que tivesse gostado do final. – Harper franziu as sobrancelhas enquanto guardava cautelosamente o livro em sua prateleira de favoritos. Stille rapidamente saltou para o pulso da humana, escalando seu braço com facilidade.
– Eu gostei é só... É sempre um pouco frustrante quando acaba. Há quanto tempo a gente acompanha esse aí?
– Há uns dois anos, eu acho. O primeiro lançou pouco depois do Greg se formar, não foi? – Harper perguntou, enquanto fuçava algumas gavetas à procura de sua lista de livros.
– Acho que sim, não lembro. – Stille coçou os bigodes – Está procurando o quê?
– Aquela lista de livros que eu fiz semana passada. Aquela pra me manter na ordem e não sair lendo três ao mesmo tempo.
– Ahhh... – o dimon guinchou – Você deu pro Greg, lembra? Antes dele ir para a Noruécia.
Harper bateu na própria testa.
– Tinha esquecido. – a garota bufou, cruzando os braços enquanto despencava em sua cadeira de escritório. Stille saltou para a escrivaninha – O que a gente faz então?
O dimon parou um momento para pensar, com os olhos no teto.
– Já terminamos todos os livros do quarto, não é?
– É.
– Revistas?
– Tudinho.
– Não estamos desesperados a ponto de pedir um emprestado pra Debbie, né?
– Nós já fizemos isso.
Stille ficou quieto por dois segundos, depois abriu uma gaveta com as patas e se enfiou ali dentro.
– Stille? O que está fazendo? – Harper abriu a gaveta um pouco mais, porém antes que pudesse espiar, o dimon-camundongo pulou para fora, uma carta bem segura entre seus dentes – Stille...
– Vamos lá, Harpee. Eu sei que o Greg não concorda, mas seria tãããão legal... Príncipes, castelos... Como nos livros!
Harper suspirou. Era óbvio que era como nos livros. O problema era só o fato de sair. A última vez que estivera fora de casa sozinha acabara presa por mais de oito horas numa padaria sob a mira de duas pistolas. Não era uma lembrança muito boa, de modo que seu irmão, Gregory, passara a ser bem mais protetor a partir dali.
– Tá bem. Vou ver se a Debbie vai comigo entregar a inscrição. Se o Gregory perguntar eu vou dizer que a culpa é sua.
Isabella encarou a pilha de livros, ainda sem saber por onde começar. Pegou o primeiro que lhe chamou atenção, um que sua tia lhe dera quando entrara na faculdade, e analisou o indicie. Em seguida passou a marcar os assuntos importantes com a canetinha verde de sempre.
– Ainda não sei se isso é uma boa ideia. – suspirou a garota para seu dimon, Harvey, que assentiu compreensivo, enquanto saltava para a escrivaninha e se deitava, o grande corpo de lince-do-deserto mal cabendo na mesa estreita.
– Não vamos perder nada. Vamos trancar a faculdade por um tempo e depois voltamos. – o dimon comentou, com a cabeça baixa e os olhos fechados – Sem falar que a gente nem sabe se seu nome vai sair naquele sorteio.
Izzie suspirou, concordando. A garota se sentia alegre com a perspectiva de uma seleção e fora uma das primeiras pessoas que conhecia que preenchera o formulário, revisando-o diversas vezes e imaginando se o príncipe um dia o veria.
– E se a gente for, vamos poder levar um ou dois livros para revisar a matéria de vez em quando. – Isabella abriu um sorriso, abaixando o livro que segurava e acariciando a cabeça do dimon, que remexeu as orelhas – Espero que tenha chocolate no Palácio.
– Bell – Harvey abriu os olhos, encarando a humana com um quê de ironia na voz – é o Palácio. Não um acampamento de baixa-caloria.
A garota gargalhou e o dimon fez o mesmo, ao seu modo.
Foi quando ela olhou para o relógio.
– Ah não! – Izzie exclamou – Que droga! Já passaram das nove!
– Eu falei pra você ficar de olho no horário.
– Harley, você que é o lince aqui e pediu pra eu ficar de olho nas horas?
– Isso não vem ao caso.
– Não vem mesmo!
A garota meneou com a cabeça, novamente checando as horas pra ver se não se enganara.
– Acho que é melhor nós irmos logo então.
– Mas é claro – Harley se espreguiçou, mostrando as garras e curvando seu corpo esguio – Já estou cheio de ficar dentro desse quarto olhando livros de matéria. Foi até bom nos atrasarmos, assim temos uma pitada de energia extra para encarar aquela fila.
– Eu não poderia estar mais de acordo. – Bell suspirou, enquanto se levantava, logo colocando o casaco que havia largado sobre a cama e pegando o envelope com o formulário em sua mesa de cabeceira – A não ser pela parte de se atrasar. Eu devia ter deixado um alarme.
– E ter ficado que nem as malucas que chegaram às três da manhã? Acho que estou bem com nossa escolha.
– Harley, deixar um alarme não é o mesmo que acordar às três da manhã. – Bell respondeu enquanto arrumava as mangas do casaco, observando a manhã fria que fazia em Midston.
– O barulho é tão irritante quanto.
E assim os dois saíram do quarto, as botas que a futura selecionada usava fazendo seus passos ecoarem na rica casa dos Mills.
~ Cassandra Rose Headey – Ottaro~
Cassandra cruzou os braços e suspirou, seu dimon-macaco se apoiando-se em seus ombros na tentativa de enxergar o fim da fila. Como seu relógio informava, já fazia mais de duas horas que ela e a mãe, Marie, se encontravam na espera da vez de Cass para entregar o formulário para a seleção, algo que já estava dando nos nervos da garota. Primeiro, a escolha não tinha sido dela, o que já era bem ruim, depois, as duas ainda tinham de aturar o Sol de rachar que estava fazendo naquela tarde em Ottaro.
Uma verdadeira maravilha.
– Quanto tempo mais a gente vai ter que ficar aqui até você entender que eu não estou interessada? – Cassandra não olhou para a mãe, mantendo os olhos em algum lugar vários metros à frente – Isso tudo não passa de uma perda de...
– Não me venha com essa de novo, Cassandra. Se casar com um príncipe não é perda de tempo. Muito menos se tornar rainha. Agora pare de reclamar. – Marie respondeu sem muita emoção na voz – Imagina só que orgulho... Minha filha se tornar rainha.
“Imagina só... Mas um troféu para eu exibir.” pensou Cassandra, mas manteve-se calada.
A garota devia desconfiar que a mãe tentaria algo do tipo assim que o príncipe fez o anúncio no Jornal Oficial. É claro que Marie ia querer ter um membro da Família Real na família, não bastava ser madrasta de dois “gênios” , como gostava de nomeá-los.
Cass bufou e tentou pensar positivo. Aquilo podia ser um grande desperdício de energia, mas ela teria que se manter confiante. Quanto maior a fila, mais concorrentes. Quanto mais concorrentes, menos chances de uma maldita inscrição acabar nas mãos do príncipe.
Cassandra quase agradeceu por ter ficado tantas horas naquele calor.
– Acho que nossa vez deve ser daqui a cerca de meia hora. Talvez quarenta minutos. – Hermes, seu dimon, sussurrou – A fila acaba pouco depois daquela curva lá na frente.
– Que ótimo. – Cass respondeu, no mesmo tom, enquanto enrolava distraidamente o cabelo multi-colorido, só esperando que aquilo acabasse logo.
– Ah, e outra coisa. – o macaco abriu algo próximo a um sorriso – O Ethan tá vindo pra cá.
Cassandra imediatamente se sentiu revigorada.
Pelo menos ela agora teria alguma companhia naquela manhã nada promissora.
Evangeline teve de tirar os fones das orelhas para poder escutar o que o funcionário falara, algo que não a agradou muito. Aquela era simplesmente uma das melhores músicas do álbum da Fighters, sem falar que parar uma música no meio significava ter que conviver com ela pelo resto do dia.
– Senhorita? – ela finalmente ouviu a voz grave e cordial do homem – Pode me acompanhar?
Evy assentiu tranquilamente e Barton, seu dimon-gato, saltou para seu colo para evitar ter de ficar frente á frente com o dimon do funcionário, uma cadela Pincher que parecia um tanto agitada.
O homem guiou Evangeline por uma porta simples de madeira e ela entregou seu formulário para ele ao passar, como foi pedido. Não havia muita coisa interessante ali. Se a garota bem se lembrava, só citara o indispensável, como tocar guitarra e cantar, mas nada que pudesse fazer com que o príncipe se apaixonasse perdidamente por ela.
– Por favor, sente-se ali para podermos tirar a foto. Não vai demorar. – o funcionário indicou um sofá estampado em um canto e Evy caminhou até ali sem muita hesitação, deixando que Barton se acomodasse primeiro para depois sentar ao lado do dimon. O homem saiu por uma das portas da sala sem dizer nada mais.
– Coitado. Você viu quantas pessoas tinha naquela fila? – o gato rolou no sofá, confortável, o pelo alaranjado parecendo chamar ainda mais atenção em contraste com a cor do sofá – Aquele cara deve estar cansado de pedir para as garotas sentarem aqui.
– Com certeza. – Evy abriu um sorrisinho enquanto observava o fotografo, ou pelo menos o homem que julgava ser o fotografo, entrar pela mesma porta por onde o outro funcionário havia saído, parecendo alarmado e com a boca suja de restos de farinha.
Pelo menos alguém havia almoçado no meio daquela confusão toda.
– Ah, bom tarde. – o fotografo se precipitou para a cadeira atrás de uma série de câmeras que se encontravam na frente do sofá. Imediatamente uma série de luzes se acendeu – Me desculpe pelo atraso.
– Tudo bem. – Evy ergueu as maçãs do rosto, sem sorrir de fato. Barton se deitou com a cabeça encostada no joelho da humana.
– Só me dê um minutinho... – o homem pareceu arrumar algo na câmera que estava diretamente focada no rosto de Evangeline. O dimon do fotografo, surgindo provavelmente do lugar onde acendera as luzes, saltou para o ombro deste em sua forma de furão, se desequilibrando um pouco antes que seu humano se pronunciasse novamente – Pronto.
Reconhecendo sua deixa, Evy sorriu de leve, sem mostrar os dentes, e logo o clique familiar da câmera foi ouvido. Ela só esperava que aquilo não significasse tanto quanto parecia.
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