A Coroa - Interativa
16 Capítulo XV
Notas iniciais
Evageline simplesmente não parava de sorrir. Ainda com o pote de pipoca bem seguro pela mão direita, a garota saiu do cinema do palácio querendo poder continuar por lá. Havia sido uma bela surpresa ser convidada para uma sessão naquela noite, mas ela não podia negar que fora uma surpresa maravilhosa.
— Então, o que achou? – o príncipe sorriu para a selecionada de York que ainda parecia não ter superado a experiência.
— Maravilhoso! – Evy exclamou, feliz – Como vocês podem ter esse filme?? Ele ia lançar só na semana que vem!
— Bem... Acho que ser o príncipe herdeiro te dá alguns privilégios…
A garota assentiu, ainda com um sorriso estampado no rosto. A sessão tinha sido tranquila: um filme de ação estrelando um de seus atores favoritos – Trent Pittsburg –, um balde extra-grande de pipoca e poltronas mega confortáveis haviam feito de sua noite bem mais interessante do que planejara. Sem falar que isso havia lhe rendido uma descoberta bem interessante:
Elliot amava filmes.
— Você devia rir com mais frequência. – Evy brincou enquanto andava de costas, tentando não esbarrar nos pedestais nas paredes – É contagiante.
— Espero que esse “contagiante” seja um sinônimo de “hilário” no seu dicionário, Evangeline. – o príncipe revirou os olhos, mas continuou com um sorriso de canto. Evy achou graça do modo como ele se recusava a chama-la somente por seu apelido. Pelo menos tirar o “Senhorita” era um começo.
— Você nunca me ouviu gargalhar. – a garota cruzou os braços em tom de desafio – Pelo menos você não parece uma hiena morrendo.
— Meus pais já acharam que eu tinha asma por causa da minha risada.
— Okay, você venceu. – Evangeline riu enquanto voltava a andar olhando para frente – Deve ter sido bem engraçado.
— Na verdade não foi. Minha irmã não parou de me lembrar disso por uma semana. – o príncipe sorriu, ensaiando um revirar de olhos.
— Sei como é. Meus irmãos fazem a mesma coisa. – a garota parou por alguns segundos, sentindo o peito apertar – Acho que é um pouco normal.
— Você tem irmãos?
— Tenho três. – a morena assentiu enquanto pegava Barton no colo – Layla, Cameron e Dartanhã. Layla e Cameron tem doze e o Dart é três anos mais velho do que eu. Sinto bastante falta deles, sabe?
— Nunca ficou muito longe?
— Nunca.
Elliot mordeu o lábio, procurando algo para dizer. Evangeline, assim como Tracey e Katniss, estava em sua lista desde o começo. Ela era franca e divertida, sempre com um sorriso no rosto e uma resposta na ponta da língua. Não fora de modo algum uma surpresa que ela tivesse se mostrado uma boa companhia e o príncipe só podia agradecer a irmã por ter dado a dica para o encontro, mesmo que ele duvidasse que fosse fazer isso tão cedo.
— York é uma província pequena, sabe? Meus pais são professores na universidade local e meu irmão entrou para faculdade há pouco tempo. Acho que por causa dos estudos nunca tive muita oportunidade de viajar por aí. – Evy começou enquanto diminuía o passo – Acho que está foi uma das razões para que eu tenha gostado da ideia de vir para cá.
— Pensei que tivesse ficado surpresa. – o príncipe ergueu uma sobrancelha, se lembrando imediatamente da história do copo d’água. Evangeline estreitou os olhos com um ar brincalhão.
— Eu fiquei surpresa. – ela riu – Mas tive que olhar os prós em contras, não é mesmo? Vocês têm os melhores instrumentos de Illéa por aqui.
— Então a senhorita toca algum instrumento? – Elliot segurou o olhar da garota, que pareceu brilhar com a ideia de responder a pergunta.
— Obviamente. – Evangeline revirou os olhos, mas ainda com um sorriso nos lábios – Sou boa com quase qualquer instrumentos de corda, principalmente guitarra.
— Aposto que também é bem modesta.
— Isso foi ironia? – a selecionada de York ergueu uma sobrancelha.
— Eu sou um príncipe senhorita. Nunca cometeria a grosseria de utilizar ironia com uma dama. – Elliot deu de ombros enquanto observava Kira bufar ao seu lado. Aquilo não tinha sido um de seus melhores flertes, mas pelo menos parecia ter funcionado.
— Mas é claro, Alteza. Que besteira a minha.
***
Audrey respirou fundo enquanto recontava as selecionadas que agora povoavam o Salão das Mulheres. Vinte e duas. Em um final de semana quatro selecionadas haviam voltado para casa.
— Foram só dois dias... Será que um daqueles diplomatas do sábado tinha algo contra elas? – Frida comentou, o que fez com que Audrey suspirasse para a selecionada de Dominica.
— Não sei... Eles me pareceram bem cordiais. Não foi a Naomi que teve um encontro com o príncipe no domingo?
— Ela e a garota de York, por quê?
— Talvez o príncipe não tenha se interessado por ela.
— Se é o que você diz...
Audrey tentou manter-se calma. Fora um final de semana tranquilo, somente animado pela visita de alguns diplomatas dos países aliados de Illéa. Por ainda se tratar do começo da Seleção, Julienne fizera questão que as selecionadas tivessem pouco ou nenhum contato com os políticos para que nenhum “desentendimento” ocorresse.
A selecionada de Hansport procurou lembrar os nomes das meninas que faltavam: Naomi Stein, Jocelyn Terranova, Amber Priest... Por mais que se esforçasse não conseguia se lembrar da última. Esperava que o nome voltasse a sua mente logo.
— Lisa Folberker. – ela finalmente anunciou para si mesma, abrindo um sorriso. Em seu colo, Kit ronronou em consentimento.
— Não sei por que você se importa tanto com esses nomes. – Frida revirou os olhos enquanto acariciava seu dimon-cacatua – Elas estão fora. Não fazem diferença.
— Mas é claro que fazem. – Audrey riu, achando graça da falta de jeito da outra – Elas estiveram aqui em algum momento, minha cara Frida. Isso faz diferença. Acontece que elas saíram por algum motivo. Se quisermos continuar no palácio, temos de evitar repetir seus erros. Eu, sinceramente, gostaria de pelo menos conhecer o príncipe de verdade antes de ser chutada para fora.
— Você fala como se achasse que poderia ser chutada. – a selecionada de Dominica azedou o olhar – Vi sua entrevista.
— Só estou sendo realista. – Audrey deu de ombros – Todas temos chances. Ser otimista demais só leva a sentimentos desagradáveis. Estou tentando ser positiva de um modo não exagerado.
— Acha que sobrevive até a Elite?
— Espero que sim. Pelo que sei é só a partir daí é que as coisas ficam interessantes. – a loira deixou escapar um sorriso – É quando iremos conhecer o rei e a rainha da maneira correta e quando aprenderemos lições diferentes de como segurar um garfo.
— É é, imagino. Uma pena que eu não esteja muito animada para essa parte da história. – Frida suspirou, deixando que uma mecha de seus cabelos escuros lhe caísse no rosto – Enfim, eu vou indo. Julienne quer me dar aulas extras.
— Boa sorte. – Audrey fingiu trincar os dentes em uma expressão cômica – Você vai precisar.
***
Isabella deixou-se cair em uma poltrona assim que entrou no Salão das Mulheres. Por mais que a vida no palácio pudesse ser empolgante, àquelas horas extras estavam começando a entedia-la.
Ela mal contou cinco segundos de descanso merecido quando as portas se abriram.
— CAHAM. — a voz de Julienne se espalhou pelo aposento, lentamente calando as selecionadas que ainda conversavam – Gostaria de ter uma palavrinha com vocês.
Isabella se levantou o mais rápido que pode, ajeitando o vestido. Por mais que não gostasse da responsável, não queria ser alvo de suas criticas. Pelo menos não naquele momento. Felizmente Harvey pareceu concordar com ela.
— Certo...Trouxe boas notícias. As cartas de seus familiares chegaram. – Julienne ergueu a maleta que carregava – Irei chama-las uma a uma. Por favor, não se afobem. Temos de lembrar que isso se trata de um palácio e não de uma feira.
Aquilo pareceu calmar algumas meninas que até então haviam se mostrado especialmente entusiasmadas. Em um canto da sala, a selecionada de paloma parecia prestes a agarrar a maleta por ela mesma. Isabella imaginou que ela deveria ter mandado uma carta por dia para a família.
— Harper Cratees, Paloma.
Harper andou um pouco rápido demais, mas acabou por receber suas cartas: cinco no total.
— Koha Anderson, Denbeigh.
Duas cartas, uma delas coberta com palavras escritas com caneta roxa.
— Katniss Lewis, Allens.
Somente uma carta, mas em papel azul-turquesa.
A lista se seguiu até terminar com Rosemary Heen, que, para a grande surpresa de Izzie, recebera nove cartas. Até mesmo Julienne ficou um pouco confusa com a quantidade, o que vez com que Isabella se perguntasse de onde a garota viera.
— Bom, isso é tudo. – a responsável disse logo antes de se retirar – Espero vê-las no jantar daqui a duas horas. Nada de atrasos.
— Pelo jeito ela continua sendo uma flor de pessoa. – Harvey murmurou baixo o bastante para somente Isabella ouvir.
A selecionada balançou a cabeça lentamente enquanto passava os dedos sobre a caligrafia de seus pais que havia no envelope de uma das quatro cartas que recebera.
— Sempre.
***
Alice tentou esperar até o jantar, mas não deu muito certo. Mal conseguia acreditar que finalmente teria alguma notícias de sua família depois de uma semana de escuro.
Só haviam duas, como o esperado. A primeira era curta e vinha de sua irmã. Por mais que a carta só contivesse três linhas e contivesse diversos erros, a selecionada de Calgary não pode deixar de sorrir ao lê-la.
Para a Princesa Alice,
Estou com saudade. Mamãe fez ensopado. Te amo muuuito. Volte logo.
Assinado: Princesa Malu
Em algumas palavras – “assinado”, “princesa” e “ensopado” – Alice reconheceu a letra caprichosa da mãe, já as outras haviam sido escritas com a letra curva e infantil da irmã, o que fez com que a selecionada tentasse imaginar a situação na qual a carta fora redigida. Era fácil imaginar a mãe ajudando sua irmã a escrever do mesmo modo como ela fazia quando estava em casa, o que justificava os erros que haviam sido riscados aqui e ali.
Alice ficou quieta por alguns segundos, somente ouvindo a própria respiração e a de Flock, ao seu lado. O dimon-cão parecia carregar um brilho triste nos olhos, algo que ela logo percebeu que deveria estar transparecendo nela mesma.
— Espero que elas estejam bem. – Alice suspirou, observando o modo como o “A” de “Alice” parecia ligeiramente maior que as outras letras maiúsculas.
— Não se preocupe. Estar aqui faz bem a elas. – Flock comentou, ainda um pouco cabisbaixo – Imagino que devem ter comprado os ingredientes do ensopado com o dinheiro da Seleção.
— Verdade. – a selecionada apoiou a carta na escrivaninha de seu quarto – Só sinto saudade. Fico imaginando como elas devem ter me visto na televisão.
— Devem ter rido um pouco. – o dimon respondeu e Alice sentiu um pouco de alegria voltar – Deve ter sido engraçado.
— Com certeza. – a morena abriu um pequeno sorriso – Elas devem ter dançado na frente da televisão.
— E feito comentários sobre todo mundo.
— E falado uma para outra como eu parecia alta na tevê.
— Acho que eu fiquei um pouco achatado.
— Imagina! – Alice riu, afagando a cabeça do dimon – Você nunca pareceria achatado.
— Você só diz isso porque sou seu dimon.
E os dois gargalharam. Por mais que Alice sentisse falta de casa, tinha certeza que havia um lado positivo naquilo tudo. Era bom saber que ele de vez em quando aparecia.
Fale com o autor