A Coroa - Interativa
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
– Okay, okay... Vamos do começo... – Stella revirou os olhos e apoiou a cabeça nas mãos – Quem você vai chamar para um encontro primeiro?
Elliot e a irmã estavam no jardim. Como era de se esperar, o tempo esfriara um pouco, mas o céu continuava limpo sobre a cabeça dos dois de modo que a princesa trocara seu vestido de alcinha por um de mangas justas que lhe fazia parecer mais nova.
– Eu já disse que não sei. – Elliot revirou os olhos e Kira murmurou algo em apoio.
– Sabe, você é muito indeciso. – Stella começou impaciente – Você elimina nove garotas com quem você mal conversou e agora não consegue decidir entre as vinte e seis que sobraram. Sei lá, escolha na sorte, qualquer coisa. Isso não pode durar para sempre.
– Eliminar nove garotas não me faz indeciso. – o príncipe encarou a irmã.
– Mas você ainda não se decidiu entre vinte e seis delas, não é? Vamos lá, El. Escolha a que o nome vier primeiro à cabeça. Não é tão difícil.
Dando algum tempo para o irmão pensar, Stella bebericou seu chá sem muito entusiasmo. Yang pousou em seu ombro, cansado de ficar voando ao seu redor.
Mal fazia um dia que as selecionadas estavam no palácio e a princesa já estava começando a ficar impaciente. Claro, ela sabia que era bem do feitio do irmão fazer tudo “no seu tempo” – que, para Stella, era o mesmo que “mais devagar impossível” –, mas aquilo já estava lhe dando nos nervos. Não que Elliot fosse preguiçoso, muito longe disso, era a garota que era ansiosa demais.
Enquanto Stella puxara o lado hiperativo e enérgico da mãe, Elliot ficara com a calma e a atenção do pai, sempre calculando as consequências, sempre falando tudo com cautela. A princesa se lembrava de o irmão irritá-la dizendo que era adotada. Sua mãe tivera de lhe mostrar o vídeo de seu nascimento para convencê-la que era mentira, mas se não fosse, a surpresa não seria tanta.
Stella era loira, Elliot, moreno. Stella mais familiar, Elliot, independente. A princesa costumava pensar que a autoconfiança e os olhos claros fossem a única semelhança entre os dois.
– Você vai ficar parado aí o dia todo ou me dar uma resposta? – Stella perguntou por fim e Elliot deu de ombros.
– Okay, vou pensar em alguém. Só pare de ser tão ansiosa– Elliot massageou as têmporas – Isso não é um programa de TV.
– Bem, tecnicamente... – Stella começou, rindo.
Elliot não respondeu, absorto demais nos próprios pensamentos para se irritar com a irmã. No fundo, ele tinha consciência que havia certo sentido em começar logo a planejar tudo. A competição havia começado, por mais que o príncipe não gostasse disso.
***
O Salão de Mulheres estava lotado. Com a chegada das trinta e cinco selecionadas, não era surpresa que tanto a princesa quanto a rainha estivessem evitando o local de modo que Rosemary se perguntou pela quinta vez o que estava fazendo ali.
Naquela tarde, depois de sua segunda – e maravilhosa – noite no palácio, a garota estava começando a ficar com medo de entrar em estado de tédio completo. Claro, havia coisas para fazer, mas até então ela não encontrara nada que lhe agradasse.
Por fim, decidiu assistir a televisão, lembrando que Julienne avisara sobre um programa voltado para a Seleção que passaria dali a pouco na rede pública. Pelo menos era uma desculpa para ocupar o lugar entre Naomi e Cassandra sem parecer tão entediada.
O programa foi bastante satisfatório. Como esperado, a maior parte das selecionadas se amontoaram em volta da TV assim que as primeiras imagens mostrando um aeroporto surgiram.
Rory tinha ido bem. Como Maxie sugerira, andara mais lentamente que as outras garotas, dando autógrafos e tirando fotos de vez em quando. Aquilo havia parecido ainda melhor quando comparado à postura das selecionadas com quem dividira o avião.
– Fomos bem. Não precisa se preocupar. – sussurrou Éden assim que o programa acabou e todas voltaram as atividades anteriores.
– Só espero que seja o suficiente. – Rosemary suspirou enquanto brincava com a barra de seu vestido – Temos muito trabalho a fazer. Ainda não acredito que isso pode durar meses. Se a Max tivesse contado...
– Você teria acabado por se inscrever assim mesmo. – Éden a encarou, pensativo – Mas não importa agora. Temos uma competição para participar.
– Só espero que não demore muito para vê-lo de novo. – Rose torceu os lábios – Tenho a impressão que nossa conversa não foi lá das melhores.
– Teremos outras chances. – Éden subiu para o sofá, ocupando o lugar que Naomi deixara vago depois do programa – Você vai ver.
– Só espero que algumas chances sejam suficientes.
A garota se virou para a janela tentando parecer mais confiante. Éden estava certo. Ela ainda tinha tempo, não se deixaria abalar por uma conversa de cinco minutos que talvez não tenha sido tão boa quanto planejara.
– Alguém aqui sabe jogar pôquer? – uma selecionada que estava em um canto lhe tirou de seus pensamentos. Tinha cabelo castanho com as pontas descoloridas de modo a ficarem brancas. Seu dimon, um gato ruivo de pelo lustroso, descansava preguiçosamente em seu colo.
– Eu sei. – uma loira respondeu parecendo um pouco ansiosa – Não sou lá das melhores mas...
– Serve. – a primeira selecionada abriu um pequeno sorriso. Rory notou que usava fones de ouvido, o que explicava por que estava falando um tom mais alto que o normal.
– Também estou dentro. – essa Rory lembrava quem era. Era morena com rosto determinado. Tinha um nome de árvore.
Rosemary decidiu se incluir e pediu para entrar quando Evangeline – era o nome selecionada – já estava embaralhando as cartas que trouxera consigo. Audrey – a loira – se mostrou bem melhor do que deixara transparecer e Juniper era no mínimo mediana. Rosemary nunca perdeu uma partida com tanta facilidade em toda sua vida.
– Não fique assim. – Juniper sorriu, já pegando as cartas para embaralhar novamente – Você pega o jeito. Eu costumo jogar com meu irmão. É tudo uma questão de prática.
– Mas é claro que é. – Evangeline riu e fingiu beijar as cartas que pegara da mesa.
Rosemary jogou mais duas partidas com as outras, sendo que na segunda Naomi e Aurora pediram para entrar, o que proporcionou a Rory a possiblidade de não parecer tão mal assim (Aurora toda hora esquecia as regras). No final, boa parte das selecionadas acabara ou assistindo as partidas ou jogando, sendo que havia uma parcela bem significativa que nem fazia ideia das regras. Felizmente, Evangeline e Juniper se mostraram bastante satisfeitas em ensinar, a primeira inclusive era uma das mais animadas do grupo, fazendo todas rirem quando baixava algo e gritava coisas como “aha!” ou “tome essa!” não importando quais cartas fossem.
***
Mal elas sabiam o que acontecia a somente alguns corredores de distância.
– Podemos começar com a Sta. Naomi. – Kira sugeriu, com a voz mansa de sempre , enquanto ela e seu humano desciam as escadas que davam para o segundo andar – Ela me pareceu um pouco esnobe, mas pode ser que estejamos enganados. Talvez seja melhor começarmos com alguém fácil de lidar.
– Concordo. – Elliot suspirou, tentando manter a postura enquanto observava uma serie de criadas passarem – Posso leva-la para uma caçada. Acho que será...
– Uma caçada? – Kira riu de leve, como se fosse uma ideia boba – Elliot, se ela for tão esnobe quanto eu acho que seja talvez seja melhor algo que possa gerar... Comentários interessantes. Temos de lembrar que vai ser o primeiro encontro da Seleção. A garota com certeza vai querer se gabar um pouquinho que seja.
Os dois viraram o corredor e, um pouco surpresos, se depararam com três selecionadas que conversavam animadamente. A mais baixa e a mais alta eram ambas morenas, já a do meio era ruiva. Os três dimons, um caracal, uma lontra e uma arara respectivamente, pareciam tão interessados na conversa quanto as humanas.
– Senhoritas... – Elliot murmurou, parando. As reações foram bastante diferentes.
O dimon-arara piou alto com o susto e a ruiva – que Elliot reconheceu como Katherine –empalideceu. Já a morena mais alta – Tracey – mostrou uma expressão mais descrente, nem um pouco encabulada. A mais baixinha – obviamente Isabella – manteve-se estática, o dimon sentado sobre as patas traseiras com os olhos dourados atentos a tudo.
– Alteza. – as três disseram em uníssono e ensaiaram uma reverência.
– É bom ver que encontraram companhia. – Elliot começou, tentando ser o mais simpático possível ao mesmo tempo em que media suas palavras – O palácio pode ser um pouco solitário às vezes.
– Solitário? – Tracey pareceu segurar o riso – Com vinte de cinco garotas ao meu redor? Acho que não é exatamente a definição de “solidão” que eu conheço...
Elliot sorriu. Tracey já havia se mostrado uma garota descontraída, era bom ver que não passava de encenação para as conversas individuais. A expressão das outras duas pareceu relaxar um pouco.
– Espero que esteja passando bem, Alteza. – Katherine sorriu de leve, como se ainda tivesse algum receio. Aquilo fez Elliot imaginar que estiveram conversando sobre ele.
– Estou sim. – o príncipe respondeu, tentando manter um ar causal, e procurou um assunto que fosse fácil de puxar – E então, o que estão achando do palácio?
As três pareceram parar para pensar e Katherine deixou que seu sorriso se alargasse.
– É maravilhoso. – a selecionada de Sota colocou os braços para trás, como se tivesse se esquecido do que se devia fazer com as mãos – Todos esses corredores, a arte... Bem diferente de onde venho.
– Digo o mesmo. – Tracey emendou, parecendo querer entrar no assunto, Isabella permaneceu quieta com um pequeno sorriso brotando nos lábios – Lá em casa as coisas são... Menos alegres. Mais cinza. Menos quadros. Acho que eu poderia escrever um texto só falando do que mais gosto por aqui. – a garota deu de ombros – Não que isso seja lá muito interessante.
– Você gosta de poesia, certo? – perguntou Elliot e Tracey assentiu, mesmo que pela sua expressão parecia haver algo por trás daquilo. Vendo que Katherine parecia uma pouco chateada por ter saído do assunto, o príncipe se virou para a ruiva – Me desculpe, mas não acredito que tenha me dito o que fazia.
Elliot olhou para Katherine e a pele da garota pareceu quer roubar um pouco da cor de seu cabelo.
– Ah... É... – a selecionada escondeu o rosto com as mãos. Isabella deu-lhe uma cotovelada de leve para que ela respondesse – Planejo me tornar jornalista.
– Jornalista? – Elliot se lembrou de todos os cinegrafistas que deviam estar perambulando pelo palácio naquele momento.
– Cobrir grandes notícias. Acontecimentos. – a garota tirou as mãos do rosto, sendo tomada por uma súbita injeção de confiança – Saber o que todos precisam saber. Viajar. Esse tipo de coisa.
– Parece interessante.
– E é. – a ruiva sorriu – Saber pode ser bem legal às vezes. Principalmente quando isso inclui coisas que te interessem.
– E você, Isabella? – Elliot se virou para a terceira selecionada, que pareceu um pouco atordoada por ser incluída de uma hora para a outra.
– Eu o quê? – Isabella franziu o cenho e começou a mexer na saia do vestido – Ah... Estou cursando Advocacia.
Tracey pareceu ter acabado de engolir uma limonada especialmente sem açúcar.
– A-Ad-Advocacia? – a morena perguntou um pouco embasbacada.
– Sim. – Isabella sorriu, percebendo o desconforto da outra e escolhendo não seguir muito com o assunto – Comecei o curso faz um tempo.
– Bem, – Elliot olhou o relógio: já estava dez minutos atrasado para a reunião com os conselheiros – por mais que eu gostasse de ficar mais alguns minutos, tenho de ir agora. Foi um prazer conversar com vocês.
– O prazer é nosso. – foi Tracey quem respondeu, fazendo uma reverência um pouco menos rígida do que a primeira. Katherine a imitou, o dimon-arara se esforçando para manter-se estável em seu ombro mesmo durante o movimento. Isabella foi a última a realizar o comprimento.
– Espero vê-lo em breve.
– Não se preocupe. – Elliot abriu um sorriso fraco – Vai ver.
E assim se precipitou pelo corredor. Pouco antes de virar a curva, o burburinho entre as três já recomeçara.
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