A Coroa - Interativa
8 Capítulo VII
Notas iniciais
Elliot perdera a conta de quantas vezes xingara a si mesmo mentalmente naquele dia. Primeiro, entrara no Grande Salão no meio do discurso de Julienne e não depois dele, como era o combinado (o que nem fora tão ruim, mas que irritara seriamente a mulher). Depois, falara “conversa individual com cada uma de vocês separadamente”. Que tipo de pessoa estúpida teria uma conversa individual se ela não fosse separadamente?
E é claro, daí vieram os diálogos em si. Uma boa parte das selecionadas preferira não falar muito, respondendo suas perguntas variando entre a cordialidade excessiva e a timidez por nervosismo. Elliot preferira ser mais superficial com essas, procurando pensar três vezes antes de falar e parecer confortável.
O que provavelmente o fez parecer esnobe.
Boa, Elliot, agora elas devem te achar um riquinho metido a besta.
Elliot se considerava uma pessoa confiante e que normalmente conseguia lidar bem com qualquer situação, mas ficar frente-a-frente com trinta e cinco garotas diferentes e tentar conhecer cada uma delas sem ficar repetitivo era uma tarefa bastante difícil.
Felizmente, algumas se destacaram de modo bastante positivo ou, no mínimo, despertaram certo interesse, algo que deixou o príncipe bastante aliviado.
Assim que – finalmente – aqueles breves encontros acabaram, Elliot começou a repassar em sua cabeça as garotas que mais lhe chamaram atenção, gravando nomes e aparências, tentando ligar as fichas.
Alice era a meio misteriosa. No começo havia adotado um tom cordial, mas depois se mostrara bem mais enérgica ao falar da família e da vida como Cinco. Parecia ser uma garota doce.
Katniss se mostrou simpática e foi uma das que mais fez perguntas sobre o príncipe. Pareceu a todo o momento interessada em tudo o que ele falava, algo que chamou atenção.
Audrey e Aurora, as duas que Elliot tinha mais dificuldade em não confundir os nomes, se mostraram ambas educadas, mas de formas diferentes. Audrey era delicada e conseguia manter uma conversa fluindo sem dificuldade, já Aurora era mais ativa, sorrindo e sempre encarando tudo de um jeito leve, mas determinado.
Isabella fora amigável, mesmo que um tanto introvertida. Falara um pouco de sua vida de modo que Elliot acabou encontrando uma boa quantidade de pontos em comum. Aquilo não foi exatamente uma surpresa em vista do dimon da garota.
Evangeline tinha um estilo divertido e transparente, conversando confortavelmente e não mostrando muito nervosismo. Elliot não pode deixar de rir quando a selecionada se desculpou por rir alto demais e contou sobre sua reação ao saber que foi sorteada (“Eu estava bebendo água e eu cuspi tudo pra fora. Meus irmãos morreram de rir. Eu quase fiz a mesma coisa, mas estava ocupada demais ficando estática.”).
Cassandra – que o príncipe reconhecera da ficha que Stella mostrara já fazia um tempo – tinha um jeito espontâneo e risonho que se adequava a aparência alternativa. Elliot ficara um pouco curioso ao perceber que ela sempre desviava do assunto quando chegava a sua família, mas preferiu não perguntar muito, deixando que o assunto girasse em torno da seleção em si.
Eleven era inteligente e parecia ter suas opiniões bem formadas. Contou que era escritora, mas pareceu um pouco chateada quando Elliot contou que não lia muito. Era gentil e contou sobre seu encontro com Stella, algo que vez o príncipe se perguntar o que mais sua irmã não havia lhe contado.
Harper era a mais tímida de todas. Preferiu escutar muito mais do que falar durante a conversa, o dimon-camundongo congelado em seu ombro. Mesmo assim foi educada e simples, contando um pouco sobre a família. Elliot preferiu mantê-la na Seleção por acreditar que havia mais para saber sobre ela.
Juniper se mostrou bastante honesta. Tratou o príncipe como igual – algo que o agradou – e deixou clara que sempre seria assim. Era educada e interessante, de modo que a conversa acabou indo de um lado para o outro passando inclusive pelo seu momento preferido do dia (que era o pôr-do-sol, algo que Elliot guardou no fundo da memória junto com o fato dela odiar ser chamada de Juniper). Logo que entrou se mostrou elegante, tanto que o príncipe imediatamente pensou que seria uma das que chamariam a atenção do rei.
Tracey era descontraída. Como Eleven, tinha opiniões bem-formadas e não tinha o menor medo de defendê-las. Era do tipo que seria fácil de imaginar como política, mesmo que tivesse revelado seu interesse por poesia. Elliot não ficou nada surpreso quando ela revelou o nome do pai.
Katherine era um pouco desatenta. Foi a primeira das selecionadas a tropeçar no caminho para a sala onde estavam sendo feitas as conversas. Mesmo assim encarou a situação de maneira bem-humorada e rendeu cinco minutos bem interessantes.
Amelia era uma incógnita. Respondeu as perguntas de um jeito breve e sem muitos rodeios, não se mostrando nada confortável. A única coisa que não a colocou na lista de eliminadas (por mais que Elliot não gostasse de pensar nisso) foi que, pouco antes de terem de voltar para o Grande Salão, a garota riu de uma história que o príncipe contara. Era algo bobo que ele tirara de ninguém-sabe-onde para passar o tempo, mas o sorriso que ela deu fez parecer a coisa mais engraçada do mundo. Aquilo permitiu que o monarca quisesse permanecer em sua companhia a fim de tentar descobrir mais sobre a garota.
Sabrina era persistente. Parecia sonhar acordada quando comentava sobre o restaurante da família. Falou um pouco sobre si mesma e perguntou um pouco também, permitindo que Elliot tivesse uma boa imagem de sua personalidade.
Depois de Sabrina demorara a aparecer mais alguma que despertasse algum interesse, de modo que foi a última selecionada a ter a conversa, Rosemary, que fechou a lista. Ela falava baixo e era uma boa ouvinte. Seu dimon-coiote parecia sempre atento a tudo, algo que incomodou um pouco Kira. Não falou muito da família, só contou que morava com uma tutora ao Sul de Kent e que não havia conhecido seus pais.
Ao fim da lista mental, Elliot se sentiu um pouco melhor. Havia quinze garotas ali que lhe despertaram o interesse. Era um começo bastante aceitável.
***
Tracey já havia visto a Família Real diversas vezes pela televisão, mas vê-los ao vivo era uma sensação completamente diferente.
Primeiro, eles eram altos. A não ser pela rainha Adelaide, que era pelo menos uma cabeça mais baixa que o marido, todos os monarcas pareciam ter mais de um metro e setenta, algo que mandou a velha ideia de que “as pessoas parecem mais altas pela televisão” para o espaço.
O rei havia sido o primeiro a entrar, com o porte elegante combinando com uma expressão um tanto preocupada. Tinha os mesmos cabelos escuros que o filho, mas os olhos verdes eram um tanto mais claros. Como sempre, estava de braços dados com a rainha e esta parecia bem mais animada, entrando no salão sorrindo e se virando para cada uma das selecionadas, como se para tentar gravar seus rostos.
O príncipe e a princesa foram entraram logo antes das portas se fecharem.
A rainha foi a primeira a se pronunciar:
– Bem-vindas, meninas. Espero que tenham tido uma boa noite de sono. É um prazer conhece-las. – a mulher sorriu – Agora, por favor. Sentem-se. Devem estar com fome.
Tracey segurou seu alívio enquanto fazia uma reverência e se sentava como Julienne instruíra. Todas haviam se levantado ao comando da responsável pouco antes dos monarcas entrarem.
A mesa foi servida com agilidade e logo todas já estavam comendo. Tracey perdeu alguns momentos preciosos enquanto escolhia por onde começar e observou pelo canto dos olhos quando a princesa murmurou algo para o irmão, que riu discretamente.
– Como foi sua conversa? – perguntou uma das selecionadas ao lado de Tracey. Era loira com o cabelo cacheado e possuía um dimon-gato. O broche dizia em letras prateadas: Audrey Lively
– Foi ótima. – Tracey sorriu e Audrey pareceu vacilar – E a sua?
– Foi bem. Ele me pareceu um pouco calado no começo, mas conseguimos conversar bem... – a loira parou por alguns segundos, encarando um ponto do outro lado da mesa – ...satisfatoriamente.
– Imagino que sim. – Tracey ergueu uma sobrancelha – Sou Tracey...
– Murray. – Audrey a cortou, voltando a se virar para ela – Sou Audrey Lively. De Hansport. Você tem sotaque. St. George, talvez? Ottaro? Acho que não deve ser Whites...
– Sou da Georgia, na verdade. – Tracey respondeu um pouco incomodada. Em seu pescoço, seu dimon, Gart, se remexeu e trocou de posição para poder ver melhor a garota.
– Desculpa a confusão. Estou tentando gravar o nome de todo mundo. – Audrey riu enquanto bebericava de sua xícara – Não queria te cortar. Só estava tentando lembrar as coisas por mim mesma.
– É claro. – Tracey deu de ombros enquanto tentava, em vão, usar um pegador para apanhar um pedaço de bolo – Nossa, eu sou um desastre nisso.
– Ah, não se preocupe. – Audrey riu e Tracey não deixou de perceber que parecia fazer aquilo por educação – Você aprende.
– Só espero que não seja com a Cara de Ganso.
– Cara de Ganso? – Audrey estranhou, encarando a colega.
– Julienne.
– Ah, claro. – a loira riu novamente, escondendo o rosto com sua xícara – Ela é um pouco ranzinza, mas acho que dá pra contornar.
Tracey achou estranha a colocação da selecionada, mas preferiu ficar quieta. Pouco tempo depois, Audrey passou a conversar com a selecionada ao seu lado e pareceu esquecer a presença da Murray.
***
Alice nunca comera tanto em toda sua vida. Em sua cabeça, não parava de pensar em como queria poder mandar pelo menos metade daquele banquete para sua mãe e irmã e sinceramente perguntava se seria falta de educação faze-lo. Será que o príncipe se importaria?
A conversa fluíra bem. Ele parecia interessado no que ela dizia e Alice não pode deixar de achar graça quando ele perguntou que tipo de instrumento ela tocava. Ele realmente parecia interessado naquilo e ela se surpreendeu.
Depois de mais ou menos cinco minutos de diálogo, um guarda a escoltara para a sala de jantar, onde as outras estavam.
Pelo menos, a maior parte.
Nove selecionadas haviam ido para casa por conta daquela conversa. Alice se perguntou o que poderiam ter dito que fizera com que o príncipe as eliminasse depois da primeira conversa.
– É um pouco assustador. – Alice ouviu a garota ao seu lado, Harper, murmurar para ninguém em especial.
– Nem me fale. – Alice suspirou, se virando para a colega, Harper pareceu surpresa com as resposta.
– Errr... – a selecionada começou, se ajeitando na cadeira e ficando vermelha como um tomate – Sou Harper Cratees.
Alice sorriu. Harper tinha sotaque sulista, o que facilmente confirmou suas suspeitas quanto à província de onde vinha. O cabelo castanho-claro estava preso em um coque e ela usava um vestido rosa-claro com manguinhas.
– Alice Stewart.
– Como em Alice no País das Maravilhas? – Harper abriu um sorriso tímido enquanto ajeitava a franja que lhe caia nos olhos. Seu dimon-camundongo saiu de um de seus bolsos – Alice achou engraçado que seu vestido tivesse bolsos – e foi parar no ombro da selecionada.
– Gosto de pensar que sim. – Alice assentiu enquanto provava um pedaço da torta de morango que o pegara – E Harper como...
– Harper como Harper. – a garota deu de ombros, ainda parecendo um pouco nervosa – Mas eu tenho um sobrinho chamado Peter.
– Como Peter Pan. – Alice riu e se calou por alguns segundos, percebendo a garota relaxar – Minha irmã se chama Maria Lúcia. Também não é de lugar nenhum.
– Bem, acho que se a gente procurar pode ter uma Maria Lúcia perdida por aí. – Harper finalmente abriu um sorriso – Lúcia como em As Crônicas de Nárnia e Maria...
– Maria como Maria. – Alice imitou a expressão da garota, fazendo com que ela risse.
– Maria como Maria. – Harper repetiu, tomando um grande gole de seu chá – Você já leu “A Corona de Phalas”? Lançou uns meses atrás.
– Li sim. – Alice assentiu feliz por entrarem num assunto que gostasse – É maravilhoso. Eu adorei a parte quando a Phalas encontra a pedra do destino...
–... E abre o portal para Thregard! – Harper riu – Também é minha parte favorita!
As duas então passaram a conversar sobre os livros que gostavam. Alice ficou um tanto impressionada com o que Harper contou sobre sua biblioteca pessoal, mas ficou de certa forma feliz pela garota não parecia se gabar disso. Harper comentou várias vezes que poderia emprestar alguns dos livros que trouxera consigo, algo que Alice recusou, afirmando que poderia pegar da biblioteca do palácio. Por mais que Harper fosse tímida, parecia feliz por ter alguém ali aberta para fazer amigos.
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