A Coroa - Interativa
7 Capítulo VI
Notas iniciais
O jantar ocorreu como o esperado, sem muitas complicações. A maior parte das selecionadas escolhera vestidos elegantes para causar uma boa impressão, mas outras, como Evangeline, não se preocuparam muito com isso.
Logo depois do jantar, como Julienne pedira, todas foram direto para seus quartos, não deixando muito espaço para conversas. As duas selecionadas que haviam ficado ao lado de Evy, a de Allens e a de Labrador, foram as primeiras a se levantarem quando a responsável sinalizou que poderiam (a regra de só se levantar quando todos tivessem acabado parecia ser levada bem á sério no palácio).
Evangeline demorou um pouco mais. Preferiu seguir em um passo mais devagar, de modo a poder absorver o que pudesse das paredes bem decoradas e dos lustres luxuosos. Não fazia ideia de quanto tempo iria ficar ali, mas faria valer à pena.
Assim, acabou por chegar ao quarto vários minutos depois das outras e encontrou suas três criadas à beira de uma ataque. A mais velha delas, Laura, estava uma pilha de nervos e preparou o banho da selecionada tão rápido que mal deu tempo para Evy se localizar. Não demorou muito para ela já estar limpa e relaxada, vestida com a camisola roxa que lhe entregaram e tranquilamente deitada na cama de dossel.
Só então percebeu o quanto sentia falta de um pouco de música.
– Vanya? – a selecionada chamou a criada mais próxima, que veio logo para perto. Era ruiva e parecia especialmente animada – Você sabe se tem fones de ouvido aqui? Esqueci os meus em casa. Você não tem ideia de como estou pirando sem eles.
Vanya riu com o comentário, notando a nota de exagero na voz, e depois disse que veria o que poderia conseguir. Laura e Eglanshine, sentadas na mesinha do outro lado do quarto, se mantiveram atentas, mas não se manifestaram até que a outra já tivesse saído.
– A senhorita gosta de música? – perguntou Eglanshine, sem erguer muito os olhos.
– Gosto sim. – Evy sorriu – Adoro na verdade. Já ouviu o novo álbum dos Fighters? É simplesmente divino. Estou tentando aprender a chegar naquelas notas, mas está bem difícil.
Eglanshine não respondeu, torcendo os lábios e preferindo voltar ao que quer que estivesse fazendo. Foi Laura quem se manifestou:
– Acho que eu ouvi uma vez uma ou duas músicas. Você toca? – a criada pareceu interessada, se inclinando um pouco na cadeira.
– Toco guitarra. – Evy sorriu, se sentando. Barton se acomodou confortavelmente em seu colo – Gosto muito do estilo deles. É bem alternativo e original. Adoraria poder tocar algo do tipo um dia. Fazer shows... Esse tipo de coisa.
– Me desculpe perguntar, senhorita, – Eglenshine finalmente se virou completamente para a selecionada, parecendo tão impaciente quanto encabulada – mas pensei que fosse uma Três.
Evangeline não esperava por aquela afirmação, por isso só respirou fundo e massageou as orelhas de Barton, que ficara desconfortável de uma hora para a outra. Laura pareceu notar, de modo que lançou um olhar severo para a outra criada.
– E sou. É exatamente por isso que não posso seguir carreira. Mas que é meu sonho, é.
Pouco depois, Vanya voltou com os fones. Eram bem mais luxuosos do que Evy estava acostumada e pareciam especialmente desconexos quando acoplados ao celular incrivelmente gasto da selecionada. Evageline acabou pegando no sono minutos depois, de modo que mal notou quando as criadas foram embora, deixando somente Eglanshine como vigia.
***
A manhã seguinte amanheceu tão ensolarada que Isabella começou a duvidar que as estações do ano afetassem Angeles. Era o segundo dia do tipo e ainda estavam em pleno outono.
Como na noite anterior, o tropel de passos na escada deixou a selecionada um tanto nervosa, mas a ajudou e se localizar e não errar o caminho para o Grande Salão, para onde Julienne as guiava.
– Bom dia, meninas. Espero que tenham dormido bem. – a responsável sorriu assim que as portas foram abertas – Por favor, sentem-se. Tenho alguns tópicos a discutir antes do café.
Izzie suspirou e pôde ouvir algumas das outras selecionadas fazendo o mesmo.
– Que maravilha. Agora vamos ter de esperar para tomar café. – murmurou Harley, mal-humorado.
Diferente do salão de jantar, havia várias mesas dispostas no Grande Salão e os lugares eram livres. Demorou um tempo para escolher, mas por fim Isabella decidiu por uma mais no centro, onde duas outras garotas já estavam sentadas, uma com um dimon-lontra e outra com um golden retriver.
– Prazer, sou Tracey. – a garota do dimon-lontra sorriu. Tinha pele morena e olhos amendoados – Tracey Murray. Pode me chamar de Ray.
– Ou Ray Ray. – a outra selecionada deu um risinho. Era loira e sardenta e usava um lápis azul que parecia fazer seus olhos saltarem – TraCEY MurRAY. Não, espera... Bem, é parecido de qualquer maneira. Sou Melanie Keen, de Labrador.
– Isabella Mills. Sou de Midston.
– Midston! – Melanie exclamou alegre – Tenho uma prima em Midston. Eu soube que lá fez frio esse mês. Estranho, não?
– Um pouco. Mas acho que foi bom. Gosto de calor, mas é bom variar de vez em quando. – Izzie deu de ombros e Tracey assentiu.
– Em Georgia é mais ou menos assim. Menos a parte de ser calor. – a garota riu – Angeles é bem mais... Sutil.
– É bom que ache isso, senhorita Murray. – Tracey quase saltou para trás quando Julienne surgiu ao seu lado – Mas não acredito que esta seja a melhor hora para discutir sobre o clima.
A selecionada fechou os punhos e seu dimon-lontra escalou até seu pescoço, se acomodando como uma echarpe de pele. Julienne somente soltou um risinho de deboche e voltou a ladainha que Izzie nem notara que ela estivera discursando. Tracey pareceu bastante irritada com a atitude, mas respirou fundo e tentou voltar ao normal.
– CAHAM. Continuando... – a responsável fez uma pausa dramática, fuzilando Tracey com os olhos. Ao seu lado, seu dimon-ganso andava com o bico apontado para cima, rebolando ligeiramente. Isabella não pode deixar de achar a cena um pouco engraçada – Para que vocês possam se mostrar verdadeiras damas, precisam de instrução. Eu, como responsável, tenho o dever de lhes mostrar o modo correto de se comportar na presença de membros de alto calão. Por isso desde já começarei a ensinar a vocês etiqueta e comportamento. Não queremos gorilas na mesa com o príncipe, sim?
Julienne falava de modo pausado e enfático, como se estivesse em um teatro e as selecionadas fossem sua plateia. Andava de um lado para o outro com os olhos se cravando em uma por uma, procurando qualquer erro que fosse.
Isabella tomou um susto quando o dimon da mulher empurrou Harley para fora de seu caminho. Antes que Izzie pudesse contestar, a responsável já estava ao seu lado.
– Senhorita Mills. – Julienne a olhou por poucos segundos e depois se retirou, começando a falar sobre os talheres certos para cada prato e a posição que as mãos deveriam ficar em cada situação. Harley chiou indignado.
– Dimon idiota. Me mandou parar de ser espaçoso – o lince-do-deserto murmurou alguns nomes não muito próprios para a ocasião – e “me manter numa posição apresentável”. O que ele quer? Que eu seja o dimon de um daqueles mauricinhos lá da província?
– Só tente ficar com a cabeça erguida. – Isabella respondeu sem se virar para o lince – Aquela mulher já está me dando nos nervos.
Harley revirou os olhos de felino e agitou as orelhas à contragosto, mas fez o que a humana pedira. Izzie agradeceu pela responsável não se aproximar mais de sua mesa depois disso.
***
Demoraram quinze longos minutos para Julienne finalmente parar de falar e mais dez só para ela ir de mesa em mesa fazendo perguntas para saber a haviam ouvido. Evy ficou feliz por não ser uma de suas escolhidas.
Evangeline não prestara atenção em boa parte do discurso da mulher, preocupada demais vigiando uma figura que parecia observar a todos em um dos cantos da sala. Era um garoto, talvez um pouco mais velho que ela, com cabelos escuros e um pouco arrepiados. Por permanecer nas sombras de uma pilastra, a selecionada demorou a reconhecê-lo.
– Aurora... – Evy murmurou, se virando para uma das selecionadas em sua mesa – O príncipe...
– Príncipe? – Aurora encarou a colega, surpresa – O que tem ele?
– Ele meio que... – Evangeline soltou um risinho ao ver a expressão confusa da garota – Está ali.
– Mas o que...
– Bom dia, senhoritas. – antes que Aurora pudesse se virar, o príncipe saiu de seu canto, caminhando em direção ao meio do salão.
Algumas selecionadas, as mais seguras, retribuíram a saudação, outras se mantiveram estáticas. A maioria parecia surpresa com o fato de ninguém ter notado a presença do monarca. Depois de alguns poucos segundos, o suficiente para digerirem a situação, começou-se um alvoroço, cada uma tentando parecer o mais apresentável possível.
– Alteza... – Julienne fez uma reverência exagerada e Elliot sorriu educadamente.
– Bom dia para você também, Julienne.
A responsável ficou congelada no lugar por alguns segundos, mas depois, notando que não havia mais o que falar, se retirou, o dimon-ganso rebolando quase tanto quanto ela.
Evangeline riu da cena e acabou chamando mais atenção do que devia.
– Primeiramente, devo dar-lhes boas vindas ao palácio. – o príncipe começou e Evy o viu encará-la por alguns segundos – Mesmo tendo consciência que Julienne já deve ter feito isso. Tenho certeza de que devem estar bastante ansiosas para tomar o primeiro café-da-manhã, por isso procurarei ser o mais breve possível. Se não se importarem, gostaria de ter o prazer de uma conversa individual com cada uma de vocês separadamente.
Evangeline franziu as sobrancelhas e Aurora, ao seu lado, pareceu ter tomado três litros de café em menos de um minuto.
– Ele vai conversar com cada uma de nós? – perguntou a garota, parecendo um pouco preocupada.
– É o que parece. – Evy deu de ombros – Só espero que ele não demore muito. Estou morrendo de fome.
– Nem me diga. – a terceira garota em sua mesa, que não falara nada até então, suspirou e seu dimon-camaleão mudou de verde para azul em um segundo – Se eu não comer alguma coisa logo acho que vou desmaiar.
Evangeline sorriu. Do outro lado do salão, o príncipe levava a primeira selecionada para fora do cômodo.
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