A Coroa - Interativa
2 Capítulo I
Notas iniciais
~ Sabrina Launter– Sumner~
Sabrina Launter chegou a casa naquela noite com a cabeça à mil. Adentrou a sala de estar sem sequer se preocupar em tirar o avental sujo de molho ou soltar o cabelo, avançando direto para o envelope que estava nas mãos de sua avó, que o analisava com atenção.
– A Seleção? – questionou a garota, animada, e a velha mulher assentiu, o dimon-gato balançando a cauda lentamente.
– Isso mesmo. Chegou hoje de manhã.
– Onde está a Eddy? – perguntou Sabrina, ainda sem palavras. Claro, ela tinha idade o suficiente para ser convocada, mas ela jamais havia realmente imaginado que aquilo aconteceria.
– Dormindo. Chegou bem cansada da escola. E seu pai?
– Ficou até tarde no restaurante para resolver alguns problemas com a nova ajudante. – suspirou Bina – Eu ainda não consigo acreditar...
– Querida, você já tem dezoito anos. Não é surpresa que tenha sido chamada.
– Eu sei é só... – Sabrina se jogou no sofá, o dimon-camaleão confortavelmente agarrado a seu ombro – Isso não interromperia meus estudos? Ou o trabalho no restaurante? Bem agora que estamos quase abrindo uma filial nova!
– Não se preocupe, querida. A escola vai entender. Qualquer coisa podemos colocar você em aulas particulares para poder terminar o último ano e se formar sem problemas mais tarde. – a avó disse com a voz mansa de sempre – E o restaurante vai indo bem, podem aguentar sem você por alguns meses e quando voltar... Tenho certeza que terá várias receitas novas para mostrar.
Sabrina soltou uma risada fraca, ainda sem uma opinião formada. Liz, seu dimon, encarou o papel com curiosidade.
– Pode ser algo bom. Novos ares, novos sabores... Tenho certeza que o chef do castelo poderia nos dar uma dica ou duas... – comentou em expectativa.
– Você não é obrigada a ir, Sasa. A escolha é sua.
– Bem então... – a Launter ficou em silêncio por alguns segundos – O que tenho a perder? Se eu for escolhida pode ser muito bom para nós e... Acho que conhecer a Família Real não é algo tão ruim assim.
– Nem se apaixonar por um príncipe. – comentou a avó da garota, divertida.
– É, nem me apaixonar por um príncipe.
Dito isso, a loira sorriu e segurou a primeira caneta que viu, já imaginando as respostas que daria. Assim que seu pai chegasse lhe contaria a notícia da chegada da carta e preencheria o formulário. Ela simplesmente mal poderia esperar.
~Tracey Murray– Georgia~
Tracey se sentia ao mesmo tempo cansada e impaciente. Já era a quinta vez que o pai retomava o mesmo assunto desde o anúncio do Príncipe, que ocorrera no dia anterior. Como um homem prático e pouco emocional, Marcus Murray queria acima de tudo que a filha seguisse seus passos, ou que, no mínimo, seguisse o caminho que ele achasse o correto.
Obviamente a garota não estava nada feliz com isso de modo que quando, pela terceira vez em uma mesma manhã, o pai abordou o assunto da Seleção, ela enterrou a cabeça entre as mãos e respirou o mais fundo que pode enquanto seu dimon-lontra tentava acalma-la.
– Pense nas possibilidades, Tracey. Você poderia se tornar uma grande advogada e honrar o nome da família. OU, é claro, se inscrever na Seleção e se tornar uma Um, sendo a primeira Murray na Família Real ao se casar com o príncipe.
– Isso seria injusto. – respondeu a garota, por entre as mãos – Eu estaria casando com ele por status e isso é errado.
– Então entre para a faculdade de Direito. Sabe que tenho dinheiro para...
– Já tivemos essa conversa.
– Tracey, deixe de ser infantil.
– Não estou sendo infantil. – a garota se ergueu, o sangue rugindo em seus ouvidos – Você mal passou um terço de sua vida comigo e agora espera que eu faça o que você quer. Eu quero ser uma mãe presente, pai. Não quero ser como você, que viaja a cada dois dias para um lugar diferente e nem se dá o trabalho de ligar.
– Não seja petulante.
– Eu posso ser o que eu quiser!
– Você é uma Murray, quer você queira ou não. – Marcus finalmente perdera a paciência. Com um murro, fez a mesa da cozinha tremer e o pratos vibrarem de leve – Pode escolher. Tem idade o suficiente para entrar numa boa faculdade de Direito ou se inscrever para a Seleção e se tornar influente o bastante para nem precisar disso. Não vou deixar minha filha ficar por aí escrevendo poesias e dizendo que isso é um emprego. O que vai fazer? Comprar sua comida com palavras?
A garota se calou, vencida. Odiava quando aquilo acontecia. Aquelas brigas com o pai obviamente acabavam com seu humor quase inabalável e faziam com que ela se sentisse mal, mesmo sabendo que estava apenas tentando fazer o que julgava certo.
Após mais alguns momentos de silêncio, Tracey voltou a erguer a voz, soando mais fria do que anteriormente:
– Que seja. Você quer que eu me escreva? A população de Georgia é enorme e seja quem for que seja sorteada vai querer muito mais do que eu. – e assim, inspirando fundo, deixou a sala em passos largos, o envelope da inscrição amassado em sua mão direita.
~Amelia Winter– Waverly~
Quando Amelia finalmente se jogou na cama, agradeceu por ter pelo menos um mísero momento de paz após mais um dia de trabalho exaustivo. Seu dimon, um grande lobo cinzento de nome Mavi, deitou-se ao seu lado, o pelo macio fazendo cócegas em seu rosto.
– Quanto ganhamos hoje? – o dimon perguntou, sem se mexer.
– Acho que uns dez dólares. – murmurou Amelia, enquanto contava as gorjetas – Podemos ganhar mais amanhã. Até o fim do mês acho que ainda vai dar para comprar alguma coisa para o aniversário da Zoe e da Jassy, só espero que elas não se importem com um presente só.
– Talvez possamos comprar algum papel bonito para embrulhar para compensar.
– É... talvez... – Melia suspirou, encarando o teto. Tanto ela quanto Mavi sabiam muito bem que aquilo estava fora de questão. Desde a morte do pai da garota, já era um desafio manter as irmãs mais novas de Amelia em uma boa escola, não havia como gastar um tostão à mais para comprar papel de presente, afinal, ainda precisariam fazer compras para ninguém morrer de fome...
Talvez pudessem pegar algo da geladeira da Heather escondido...
Amelia logo afastou o pensamento. A madrasta obviamente notaria e as coisas só iriam piorar. Precisava fazer aquilo sozinha. Não ia deixar uma mulher metida à rica estragar a vida de suas irmãs, pelo menos não mais do que já estragara.
A garota ia comentar mais alguma coisa com seu dimon, mas suas ideias logo foram afastadas pelo som familiar de passos descendo a frágil escada de madeira que levava ao porão da casa, onde Amelia e as irmãs moravam. Alguns segundos depois três vultos apareceram ao pé da cama da Winter e dois deles saltaram por cima da morena, gargalhando. O terceiro se manteve de pé, mas ria do mesmo jeito.
– Amelia! Amelia! Você não vai acreditar! – exclamou Zoe, se colocando de joelhos na cama e encarando a irmã mais velha, os olhos brilhando de ansiedade – Chegou uma...
– Zoe! – gritou Jassy, indignada – Eu que ia contar lembra?
– Mas é tão mais legal quando eu conto!
Amelia riu enquanto observava os dimons das meninas, sob a forma de duas andorinhas, voarem um atrás do outro, como se competissem. Mavi somente revirou os olhos, e se aconchegou mais perto de sua humana, longe da bagunça aérea que os dimons faziam.
– Zach? – Amelia encarou o terceiro vulto que entrara no quarto, o filho de sua madrasta e amigo próximo das três irmãs. Zchary encarou as duas, que finalmente se calaram, ambas com os braços cruzados e fazendo bico, irritadas por não poder dar a notícia.
– A carta da Seleção. – o garoto disse, simplesmente – Chegou hoje. Consegui pegar antes que minha mãe visse.
O rosto de Amelia imediatamente se iluminou. Com o dinheiro ela poderia finalmente sair daquele buraco escuro e poeirento onde viviam e, quem sabe, ir viver até em outra província. E o melhor: Longe dos olhos de sua madrasta
– Onde está? – a mais velha Winter pegou o envelope que Zach lhe estendeu e abriu um pequeno sorriso, ainda sem acreditar muito. Rapidamente leu o formulário e as regras e, quando se deu por satisfeita, pediu para que uma das meninas fosse buscar uma caneta.
Ela estava em um mar revolto e havia acabado de lhe lançar um salva-vidas.
~Rosemary Heen — Kent~
Rosemary mais uma vez releu o formulário, para ter certeza que não esquecera nenhum detalhe. Claro, não havia muito para se falar, não podia sair entregando tudo de bandeja. Ela iria conhecer o príncipe afinal, nunca é divertido saber tudo sobre alguém por conta de um pedaço de papel.
A garota chutou distraidamente uma lata que encontrou na calçada e Eden, seu dimon-coiote, a abocanhou, indo joga-la em um canto longe dos olhos dos outros pedestres. Não havia muita coisa para se fazer. A entrega dos formulários só ocorreria dali a três dias, como informara o Jornal Oficial naquela tarde, já que o príncipe se conformara em dizer somente “no final desta semana”. Rory pensou se aquilo era proposital. Talvez eles só estivessem tentando manter o mistério mesmo.
“Manter o mistério... Olha só quem fala.” pensou a garota, sorrindo. Do outro lado da rua, Lewis acenou com o braço recentemente enfaixado, o dimon-bem-te-vi voando calmamente à sua volta. Rory ergueu os olhos.
– Maxie preparou o jantar. Você não vem? – o garoto gritou, despreocupado com o fato que qualquer um poderia ouvir.
– É claro. Estou morrendo de fome. – Rosemary riu com gosto, atravessando a rua em passos largos, Eden logo atrás, atento.
Rory morava em uma casa simples e pouco chamativa em um dos bairros medianos de Kent, de modo que na mesma rua se podia ver diversas lojas, algumas mais caras, outras menos. Assim que passou pela soleira de porta, a garota logo sentiu o cheiro de carne assando no forno, e sorriu ao entrar na cozinha, onde seus companheiros de casa esperavam.
– Já terminou com o seu formulário, Rory? – perguntou Anya, sorrindo de lado para logo depois reclamar com Ivan sobre algo que o garoto fizera. Os dimons dos dois, um lagarto e lebre, cuidadosamente apoiados um no ombro e um no colo de seus humanos.
– É claro. – sorriu Rosemary, sem se preocupar com o fato de Anya sequer ter escutado sua resposta. Maxie, a tutora dos seis adolescentes da casa, pareceu rir ao entrar no recinto.
– Que bom, terminei o meu também. – a tutora sorriu. Por ter vinte e um anos, Maxie havia podido se inscrever, mesmo sendo dois anos mais velha que o príncipe – Espero não ter esquecido nada. Não quero que pensem que eu sou só um pedaço de papel.
Rose riu da piadinha, mas manteve-se quieta. Ficou imaginando o que aconteceria se as três representantes do sexo feminino da casa, ela, Maxie e Anya, fossem selecionadas. Com certeza ia ser algo interessante de se ver.
– Coloquei que gosto de tocar violão. Espero que o príncipe se contente com algumas notas. – Anya comentou enquanto ajudava Maxie a tirar a comida do forno.
– Ainda não acredito que vocês tiraram a semana de folga por causa de um maldito formulário. – Cyrus, o sexto adolescente da casa, bufou, o dimon, que possuia a forma de um cão vira-lata, encarava a tutora, os dentes à mostra– Lewis, Ivan e eu ainda tivemos que dar duro a semana inteira.
– Isso é por que não podemos parecer um bando de Oitos quando formos para as fotos. – Maxie respondeu entredentes – Não se preocupem, quem não for selecionada ainda fica para cuidar dos bebezões.
Cyrus se calou, contrariado. Do outro lado da mesa, Lewis observava os outros quieto, sem grande atenção na conversa, o dimon pousado tranquilamente em seu ombro.
– Isso por que você acha que vai, não é, Max? – Ivan ergueu a voz, o sorriso torto roubando-lhe a face como sempre. Maxie riu, porém seu dimon, uma ave de rapina negra com penas cinza em alguns pontos, encarava o garoto, os olhos brilhantes afiados como navalhas.
– Sou sortuda, Ivan. Mas isso não significa que seja-lá-quem-for vá tirar meu nome. Só espero que duas chances a mais sejam o suficiente. – a tutora se referiu a Rory e Anya, e a segunda abriu um sorriso presunçoso, como se tivesse certeza absoluta de sua vitória.
Rosemary somente sorriu docemente, como sempre, imaginando o que poderia ocorrer se o destino, ou quem quer que estivesse encarregado daquele sorteio, a escolhesse. Em sua cabeça milhares de pensamentos surgiram. Ela iria para a Seleção. Seria escolhida, tinha certeza. Porém ainda havia uma grande dúvida:
O que viria depois?
Fale com o autor