Notas iniciais
Oi gente, eu detesto colocar meus pensamentos nas palavras, acho que é porque me machuca. Então me chamem de masoquista, porque eu amo ser machucada.

“A revolução mental causada pelo período iluminista ocorrido no século...”

Ah, foda-se.

Emma desistiu de seu trabalho de escola, que valia com certeza mais de 1/3 da sua nota. Não se importava com o que aconteceu com aqueles filósofos asquerosos durante a revolta, afinal, que diferença lhe fazia?

Toda a diferença sua bocó, você mesma apoia as causas iluministas.

Bufou, recordando-se das pessoas em sua sala de aula. Grandes imbecis. Emma lembrava-se com detalhes de como as pessoas a olharam quando ela disse convicta “O dogmatismo cega o homem”, a olharam como se a idiota fosse ela e não eles. Bem, estavam errados.

Quando aquilo aconteceu, Emma sentiu-se tentada a levantar de sua carteira e dar uma aula de filosofia para aqueles babacas, queria pedir a palavra para explicar-lhes, um por um, o porquê do dogmatismo cegar as pessoas. Começando a explicação pôr o que era dogmatismo, já que aqueles preguiçosos não tinham coragem de aprender sozinho.

– Você vai entender um dia, emma. É que a ciência está te cegando. – Rolei os olhos ao ouvir a minha “melhor amiga” falar. Discutíamos religião, ela me atacava fervorosamente, certa que apenas a sua religião protestante tinha razão. Eu respeitava e admirava o protestantismo, afinal o grande Lutero era um astro da filosofia, pelo menos para mim, mas de qualquer forma eu defendia meus pensamentos agnósticos, que se mesclavam ao cristianismo de forma esquisitamente harmoniosa.

– Creio que não é a ciência que cega me cega. E sim que o dogmatismo cega o homem. – Defendi a ciência, que era a minha fonte segura de certeza. Como de costume, a atenção de toda a sala se focava em nós, o centro da discussão de religião, já que na minha sala levavam esses debates agressivos à sério.

– O que? – Beatrice se pronunciou pela primeira vez, sua voz soando molhada do outro lado da sala. Desviei minha atenção de Betty, e ao virar-me para ver a cara confusa de Beatrice me lembrei que eu não estava num chá filosófico, certamente eu disse palavras complicadas demais para aqueles pobres ignorantes.

– O dogmatismo cega as pessoas. – Falei com exagerada calma, como se explicasse à uma criança a razão de tão poder andar descalça no quintal.

Emma retornou-se de suas lembranças assim que ouviu o ronronar leve de sua nova gata, que estava deitada na sua maleta de viagem, de uma forma que podia quebrar o pescoço.

Era claro que seus colegas de classe não entendia o contexto da frase, não imaginavam o que era dogmatismo. Emma suspirou, sentindo seu corpo decepcionado com a lembrança de seus amigos ignorantes. Ela havia usado uma frase tão simples, sem necessidade de grande interpretação ou de reflexão para desvendar o conceito.

Era tão fácil que chegava a lhe causar desgosto. Queria ter tido a inteligência de usar as palavras complicadas dos textos que ela lia escondido da mãe, os textos que guardavam pensamento de filósofos que sabiam usar as palavras.

Agora olha o que ela dissera: “O dogmatismo cega os homens”.

Isso é obvio animal. Volte aqui quando saber ser inteligente de verdade.

Se xingou em pensamento, martirizando seus neurônios por ter formado uma frase tão tosca e pouco esperta.

Então riu. Riu um riso triste e nervoso. Gargalhou, jorrando junto com as lufadas de ar a pouca esperança que tinha.

Se nem algo tão simplório e carente de requinte mental, os meus queridos colegas de classe conseguiram entender, por que ainda estou em meio a eles?

Porque é necessário. Pelo simples fato de não haver outra saída.

Estou com fome.

Pensou, distraindo sua cabeça de sua falta de esperteza mental castigando-se por ser tão burra, enquanto tentava vagamente, encontrar a frase certa.

O indivíduo que segue as ordens dogmáticas de qualquer religião, sente-se obrigado a acreditar apenas naquilo, encarando como despeito à Deus, procurar outras respostas se não aquelas ditadas pelo seu dogma.

Devia ter dito aquilo. Mesmo que soasse ainda mais ridículo e confuso para seus colegas de classe, aquilo a faria sentir-se melhor.

Hey, Emma, você não pensou naquele momento de descuido, mas você pensou agora.

Sua própria consciência tentou fazer o papel de consoladora, sendo barrada pelo orgulho enorme e severo da garota.

Você só tem 14 anos, menina, pare de loucuras! Você não é o Sócrates, não precisa ser brilhante.

Emma realmente nunca seria o Sócrates, até por que se lhe dessem a oportunidade de escolha entre os pais atenienses da filosofia, ela não hesitaria em escolher Aristóteles. Outro grande ídolo para ela.

Sentiu-se confusa por um momento, depois de ter formulado aquela frase tão pobre, notou que não era brilhante, e aquilo a fez sentir-se triste.

Afinal, se eu não sou brilhante, quem eu sou?

Sentia uma crise de personalidade chegar até si, aproximando-se lentamente montada num cavalo de fúria. Sim, Emma se sentia furiosa, totalmente furiosa quando não encontrava resposta para satisfaze-la. Quando não achava o que queria, se sentia tão pequena e burra.

Talvez, algum amigo saiba quem eu sou. Já que sou burra, terei de perguntar para descobrir.

Os nomes de seus amigos mais próximos passaram sobre sua mente, esperando para serem selecionados.

Betty. Não, mesmo sendo minha atual “melhor amiga” não acredito que ela me conheça, Betty é puramente superficial, nunca deve ter prestado atenção para o que tinha debaixo da minha epiderme.

Colin. Não, iria parecer estupida, mesmo já tendo lhe confessado muitas das suas crises depressivas, tentar aquilo de novo seria em vão, ele provavelmente encheria seu saco e se afastaria um pouco de mim, já que nossa relação era divertida e nossas conversas descontraídas. Falar com ele me deixaria confusa.

Tracy. Oh, de jeito nenhum. Ela me conhece, de verdade, mas já me deixou explicito o quão se senti incomodada ao falar de sentimentos e ter conversas profundas, ela é muito evasiva e não posso contar quantas vezes já me disse que abomina demonstrações de afeto. Isso definitivamente não era o que eu carecia.

Então, mesmo que tentasse evitar, seus pensamentos voltaram-se para sua amiga, se é que ainda podia chama-la assim. Será que Savannah ainda era sua amiga?

Nos conhecemos quando me mudei para a capital, ela morava no sobrado da frente, e tinha uma vizinha bastante peculiar. Não me lembro bem, mas acho que era uma cigana.

Um ou dois anos depois, eu mudei de casa, e de companhias, não falava mais com a garota gordinha, e nem tinha mais contato com os gêmeos ruivos que eu confundia sempre.

Anos depois, nos últimos 365 dias que me vi morando na capital, ela simplesmente reaparece.

Estudando na mesma sala que eu, com um jeito tímido, totalmente diferente da minha postura arrogante. E então eu simplesmente acreditei que ela sempre iria voltar, que assim como fez agora faria todas as vezes.

Eu simplesmente arranquei um pedaço do meu próprio coração para que ela pendurasse no pescoço.

E ela perdeu.

Sim, quando me mudei, ela perdeu o maldito colar que se encaixava ao meu formando a merda de um órgão vital que representava o amor.

Senti como se meu próprio coração tivesse perdido uma metade... ela simplesmente não se importou o bastante para guardar. Ela perdeu meu coração, perdeu o colar, perdeu o amor.

Meramente respondi um “Tudo bem” quando ela me contou de ter perdido a gargantilha, “Acho que também perdi o meu”. Na verdade, eu o guardo num potinho terrivelmente ornamentado, o relevo chega a incomodar os dedos. Talvez eu devesse queimar aquela droga.

Savannah era uma garota de cores, totalmente diferente de Tallulah, minha gata, que era branca e pronta para ser tingida de qualquer cor.

Savannah tinha cor própria e usava para tingir o fio de nossa amizade. Eu podia contar exatamente 4 cores, que definiam os períodos cruciais da nossa relação.

E lá estava Emma, que a pouco fugia do período iluminista, agora entrando num período muito mais complexo que o proposto pela professora, entrará nos períodos Savannah. Ela devia ter lido a placa de não entre antes de embarcar nessa estação.

A primeira era o laranja, feliz e o mais vivido das cores, mesmo me soando irritante por parecer sempre tão alegre.

Afinal todas as cores podiam ser frias, triste e sem graça, o vermelho podia ser diminuído a rosa bebê e dar um tom calmo e quase sem graça, o verde podia se tornar aquele verde claro sem estimulo ou alegria, apenas sem sal. Até o azul se fazia de chato às vezes.

Mas o laranja não, não importava o quanto ficasse claro ou escuro, ainda seria feliz. Tanta felicidade me incomodava, mas era assim.

Sempre bem e feliz.

Foi quando éramos vizinhas e eu brincava com ela bagunçando delicadamente a cozinha de sua mãe, ou quando pulávamos na cama do meu pai, imaginando ser personal de academia.

A segunda cor era roxa, nada a ver com “amor roxo” da expressão popular. Era quase lilás. Uma mistura do antigo laranja com o futuro azul. Era um roxo frio, calmo e singelo. Foi a nossa segunda amizade.

Começou quando estudamos junta pela primeira vez, já que antes éramos colegas de bairro. Passávamos as horas na escola sempre juntas, dividíamos o lanche e os segredos, ela me contou de quem ela gostava, e eu estraguei tudo. Não me conte segredos, sou muito espalhafatosa e vou bagunçar tudo, mas acredito é sem querer.

Eu me sentia bem, como se naquele momento minha vida estivesse tomando o rumo que seguiria apara sempre, colégios particulares, amigos aos montes, e uma melhor amiga que eu levaria pela vida toda. Maktub.

E então eu fui embora. Por causa dele. Maldito.

Então veio a terceira amizade. Fria. Azul.

Trocávamos palavras por telefone, muitas vezes repetindo as histórias por não ter assunto, lembro que o celular ficava quente de tanto tempo com o meu rosto encostado nele. Depois as ligações cessaram, vieram os sms. Sempre tão... distantes.

Eu me sentia sozinha.

– Azul... – Emma murmurou. Simples, seca. Num fio de voz, tão fraco, mas igualmente inabalável.

Eu me sinto sozinha.

Então a ultima e quarta cor, ou fase, não importa. É cinza. Nada de cinza escuro, é um cinza claro como a nevoa, que podia ser confundido com um branco sujo. Era um cinza que me lembrava a cor da luz da lua quando atingiam a areia de uma praia de maré baixa. Cinza luto, cinza areia branca ofuscada pela lua. Cinza eu.

No fim da fase azul, eu estorei, pois cada vez que ela me respondia eu sentia que só dava retorno ao meu SMS por obrigação, educação ou depois de checar se não havia nada melhor do que gastar seus segundos comigo.

Isso doía baby.

Falei como me sentia, e ela ouviu. Tentou responder, me convencer que tinha muitas outras pessoas com quem conversava.

Aquilo não foi uma desculpa tão boa assim, baby. Foi pior do que me ignorar.

Eu me senti só mais uma em sua lista de contatos, só mais um na multidão. Me senti desimportante e desinteressante.

Também converso com outras pessoas, vivo a trocar mensagens com meus amigos, mas quando me interesso na conversa com alguém, automaticamente os outros diálogos perdem a importância, e fico conversando apenas com ela, visualizando imediatamente e respondendo na hora, como se conversássemos cara a cara.

É isso que as pessoas normais fazem, e não só aquelas que estão separadas pela distância. Afinal passo horas a fio conversando com Tracy, não que tivéssemos algo muito importante a ser dito, na verdade ela me dá spoiler sobre as fanfics que me indicou e eu brigo com ela por me contar o final.

É isso que amigos fazem, baby. Falam de amenidades como se nada pudesse ter mais importância.

Amigos fazendo de você sua prioridade.

Não diga que é bobagem, que não importa, por que, Sherlock, é exatamente isso que importa. Quando se gosta, as amenidades são as coisas mais importantes do mundo.

Sei que para você tudo está normal entre nós, mas baby, não se pode transmitir emoções pelas mensagens.

E é por isso que eu escrevo. Essa é a minha mensagem que traz emoção.

Acabou a graça das nossas conversas, tudo está tão mais neutro. Eu não sorrio quando converso com você, pode parecer estar tudo bem, mas eu acho que acabou.

Acabou o sentimento, me sinto conversando com uma estranha, fingindo que me importo com cada palavra dita.

Eu não me importo mais.

Eu precisei dizer pra você o que sentir, para que você sentisse. E isso não é como deve ser, não é natural, é forjado. E doí.

Me sinto te forçando a me considerar sua amiga. Sinto a amizade que eu julguei a mais verdadeira da minha vida, se tornando um risco de sal no chão, até o vento destrói, totalmente insignificante e fraco. Mas não se fazem riscos de sal no chão, não há um por que de fazê-los. Então é uma mentira.

Você acredita que é verdade, mas eu me sinto mal e desconfortável a conversar contigo, já não tem sentido pra mim. É cinza como a neblina, uma neblina que me tapa os olhos e me deixa confusa de que caminho seguir, por que nenhum deles tem sentido.

É cinza claro, porque o branco representa o nada. O branco é o nada.

É um cinza quase branco. Mas como eu disse, Savannah tem suas próprias cores, talvez para ela seja rosa, amarelo, verde, qualquer cor feliz, mas pra mim é tudo falso, uma mentira. É cinza.

Notas finais
Pessoal, então...
a maioria não vai entender essa fanfic, por que ela é muito pessoal minha, envolvi coisas que aconteceram comigo, e eu só postei poque estou cansada de ter milhares dessas shortfics que eu faço e tento esquecer. cansei de ter sempre o icon do microsoft word me dizendo que eu pus meus sentimentos em palavras, mas sou muito lúcida para não expor minhas loucuras.
Então, que venha o cinza.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!