— Teshigawara, você está pronto?

- Sim treinador.

- E você Sakakibara?

- Também treinador.

- Ótimo. Agora temos que esperar as líderes de torcida nos dar licença.

Ao ouvir as palavras “líderes de torcida” Teshigawara sentiu um aperto no coração. Sabia quem encontraria lá. Todo o time se caminhou lentamente até a quadra e logo avistaram as meninas. Umas dando piruetas, outras treinando saltos, algumas bebendo água e mais umas sentadas.

Todas estavam ali, exceto Izumi.

- Eu te disse. – Começou Kouichi. – Ela simplesmente desapareceu e olha que este era um dos momentos pelos quais ela aguardava ansiosamente.

- Besteira Sakaki! Logo, logo ela está de volta. – Tentou usar o tom costumeiro, mas aos seus ouvidos este não lhe saiu muito bem.

- Ela está fora há tempos! Todo o colégio está comentando.

- E porque está preocupado com isso? Afinal de contas você queria distância, não é?! – Indagou Teshigawara, olhando o amigo com uma sobrancelha erguida.

- É claro, mas com certeza algo aconteceu com ela. Amanhã terminam oficialmente as aulas, nós estamos próximos ao final do campeonato, do baile de formatura e da formatura. Ela esperou por isso durante muito tempo.

Naoya não quis continuar o assunto. Sabia por que ela havia desaparecido, e sabia que também era por sua causa. Desde o dia em que ele lhe disse que não a queria, ela havia desaparecido completamente. Não o havia ligado, nem mandando cartas. Muito menos o cercado em qualquer lugar que fosse.

Ele não queria demonstrar, mas estava terrivelmente preocupado. Tinha esperanças de que pelo menos ela conseguiria seguir em frente, de que poderia observá-la de longe, mas ela sumiu sem deixar qualquer pista.

Balançou a cabeça para que seus pensamentos desaparecessem. As coisas estavam muito boas agora. Seu relacionamento com Mayumi estava perfeito. Ele não podia estragar tudo isso.

*

O treino havia sido árduo. Seu desenvolvimento e trabalho em equipe haviam crescido bastante e ele estava feliz por ter feito várias cestas junto a Teshigawara, mas não podia negar que estava terrivelmente cansado.

Chegou em casa e sentiu um cheiro maravilhoso de comida. Estava morando na casa de Mei enquanto ainda não havia comprado sua própria casa. Não podia negar que não gostava daquilo, afinal de contas, na maioria do dia, ele estava sozinho com sua amada.

- Tadaima. – Cumprimentou ele.

- Okaeri Kouichi-kun. – Respondeu sua morena.

- Nossa, que cheiro maravilhoso. Estou morrendo de fome, vou tomar um banho e já volto.

- Está bem. – Ela disse simplesmente e recebeu um beijo em resposta.

Passou longos minutos no banho sentindo seus ombros relaxarem pela água quente que saía da ducha. Ele adorava aquele momento de chegar em casa e saber que poderia descansar e aproveitar a noite com sua namorada.

Sorriu ao pensar aquilo. Mei era sua esposa, apenas não o era civilmente. Moravam juntos, dormiam juntos e ela estava grávida. Mesmo não sabendo estava até tentando cozinhar e pelo cheiro que estava vindo da cozinha, ela havia se saído muito bem.

Até que poucos minutos depois, um cheiro de queimado tomou o banheiro. Ele desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. A fumaça preta continuava subindo e ele não esperou. Saiu correndo totalmente molhado pela casa.

- Mei! – Ele chamou enquanto ela chegava junto a ele.

- Queimou totalmente. – Ela disse com pesar. Havia se esforçado muito para preparar aquele jantar.

-Talvez ainda dê para... – Não terminou de falar porque ao abrir a panela, uma fumaça ainda mais escura pôde ser liberada. – É... Acho que não dá.

Ela suspirou. Queria mostrar que podia ser uma boa mãe, que podia cuidar da casa e que podia cuidar dele, mas sua falta de habilidade na cozinha não estava ajudando. Encostou-se ao balcão e cruzou os braços. Ela havia se chateado.

Kouichi olhou para ela nesse exato momento. Sabia o quanto ela estava se esforçando e que aquilo a havia frustrado. Largou a panela e caminhou em sua direção.

- Ei... – Ele a envolveu em um abraço. – Não fique assim, está bem?

- Mas eu tinha preparado tudo corretamente e você está com fome! – Ela tentou questionar.

- Não há problema amor, isso acontece.

- Sim, mas... – Ela baixou a cabeça desistindo de continuar.

- Prometa-me que amanhã você irá tentar?

- Não sei se quero. – Ela olhou para o lado. Kouichi seguro seu queixo e a fez se virar para ele.

- Prometa. – Disse em seu tom mais sedutor.

- Está bem... – Ele a olhou ainda não convencido. – Eu prometo.

- Agora sim. – Ele sorriu e beijou os lábios de sua doce Mei.

Ele acreditava que seu sentimento por ela já não podia mais ser definido como amor, porque esta seria uma definição muito pequena comparada ao sentimento que ocupava seu peito.

- Vou me trocar e comprar algo para gente comer. – Ela apenas concordou e foi limpar a panela com comida queimada.

O rapaz vestiu a roupa rapidamente e entrou no carro para ir até onde queria. Foi a um restaurante que havia freqüentado várias vezes com sua namorada e pediu a comida favorita dela, torcendo para que ela não vomitasse ou enjoasse em função da gravidez. Ao pensar nesta possibilidade, pediu outro prato que também era do gosto dela.

Ao se dirigir até seu carro e colocar a comida no banco do carona, percebeu uma aglomeração logo à frente. Tentou sair do estacionamento com o carro, mas as pessoas a sua frente não deixavam. Resolveu sair do veículo para ver o que estava acontecendo.

Caminhou um pouco entre a multidão e depois de uns empurrões para chegar até o local, seus olhos arregalaram e o queixo caiu.

Deitada e desacordada em pela calçada, com a bolsa de um lado e uma sacola de farmácia do outro, estava Izumi. Ele demorou a entender o que acontecia e quando entendeu imediatamente a pegou no colo e a colocou no carro.

Misaki viu o carro de seu namorado estacionar de qualquer jeito em frente a casa. Depois o observou abrir a porta do carona e carregar alguém de lá. Identificou como Izumi. Imediatamente correu eu direção a porta para ajudá-lo.

- O que aconteceu com ela? – Perguntou a jovem preocupada.

- Eu não sei! Tentei sair daquele restaurante, mas a multidão não deixava. Quando me aproximei para ver o que estava acontecendo a vi desacordada. Por favor, amor, pegue a bolsa e a sacola dela no carro. A comida também está lá.

- Claro. – A morena correu em direção ao carro e pegou tudo o que Kouichi havia pedido. Ao certificar-se de que havia fechado o veículo entrou em casa e fechou a porta. Logo depois estava próxima a ele.

- Ela está com o pulso muito fraco. – Analisou o rapaz.

- E parece-me muito pálida também, talvez até mais magra. – Analisou Mei.

- O que nós faremos?

- Vamos esperá-la acordar e depois, se ela concordar a levamos para o hospital.

Poucos minutos depois, a ruiva abriu os olhos lentamente. Viu duas silhuetas, mas não conseguia identificá-las. Forçou um pouco mais a vista e então percebeu que estava vendo Kouichi e Mei e que estava na casa deles. No mesmo instante se apavorou.

- Ah meu Deus! – Ela levantou correndo. Mei se afastou um pouco. – Eu fiz alguma coisa a você, Mei?! Ao seu bebê? Como eu vim parar a... – Sentiu uma tontura tomar-lhe o ser.

- Acalme-se e sente-se, por favor. – Pediu Kouichi enquanto a auxiliava. Ela se sentou.

- O que eu estou fazendo aqui? Aconteceu algo? – Ela perguntou confusa.

- Sim, eu fui até um restaurante e a vi desacordada. Você estava caída próxima ao estacionamento e não deixava ninguém sair. – Ele disse divertido. Ela colocou a mão sobre a cabeça, relembrando o que havia acontecido.

- Então você me viu e trouxe para cá?

- É.

- Ufa. – Ela respirou aliviada. – Pensei que houvesse a atacado novamente. – Ela olhou sorrindo discretamente para Mei.

- Akazawa, o que está acontecendo? – Perguntei Mei. – Você desapareceu do colégio.

A ruiva baixou a cabeça e lembrou-se do que mais queria esquecer. Pensar naquele assunto a fazia ficar muito mal e era por isso que não havia ido ao colégio. Ela quis morrer, que sumir, mas o sentimento em seu peito fazia totalmente o contrário.

- Eu... Eu... Eu tive alguns problemas, passei mal algumas vezes e... – No mesmo instante se lembrou de algo. – Eu havia ido até a farmácia. Onde está minha sacola, eu preciso dela.

Kouichi e Mei se entreolharam. Izumi estava muito diferente e algo de muito estranho aconteceu a ela. Os dois sabiam que com os acontecimentos que estavam por vir, ela não sumiria daquele jeito.

- Você está com problemas de saúde? – Perguntou Kouichi.

- Não eu... Quer dizer... O que está acontecendo nesse momento afeta minha saúde, mas eu vou ficar bem. – Ela tentou sorrir, mas a dor estava estampada em seus olhos.

- Nós estávamos esperando que você acordasse para irmos ao hospital, tudo bem?! – Indagou Sakakibara.

- Não preciso, eu estou bem. Foi só... Foi só... Uma queda brusca de pressão ou algo do tipo. Por isso não tenho ido ao colégio. Mas mesmo assim, obrigada por ter me trazido até aqui. – Ela olhou para o ex-namorado com sinceridade. – Mesmo depois de tudo o que eu fiz você ainda é bom comigo.

- Não precisa agradecer...

- Claro que eu preciso e preciso me desculpar também. – Ela se levantou para fitar melhor os dois. – Eu fui uma louca e inconseqüente. Fui egoísta, mesquinha e mimada. Fui psicótica e possessiva. Vocês não mereciam nada disso. Eu sinto muito pelo que aconteceu e sinto também pelas conseqüências que isso nos trouxe. – Os olhos dela se encheram de lágrimas. –Acabei machucando todo mundo e no final das contas eu fui quem saiu mais machucada. Perdoem-me por tudo, mas se não puderem fazer isto eu entenderei.

Mais uma vez Mei e Kouichi se entreolharam. Ficaram estáticos com o que acabaram de presenciar. Sakakibara ficou meio desconfiado e preferiu não falar nada, mas o instinto materno de Mei lhe dizia que aquilo era verdadeiro.

- Você não merecia isso Mei, nem você Kouichi. Eu fui tola em fingir não ver a verdade que estava a minha frente. Vocês sempre se amaram e mesmo que eu tentasse não teria seu coração. – Ela se virou para o rapaz. – Nada do que eu diga ou faça vai mudar o passado, mas para que eu siga em frente preciso que vocês me perdoem.

Um longo silêncio se estendeu. Um silêncio que consumia a ruiva, até que alguém decidiu se pronunciar.

- Claro que nós te perdoamos Akazawa. – Disse Mei. – Todos nós merecemos uma segunda chance.

A ruiva olhou para a morena a sua frente. Com certeza ela não merecia seu perdão, muito menos era digna de sua preocupação, mas ela estava ali disposta a recomeçar e isto mexeu ainda mais com seu coração.

As lágrimas escorreram pelo rosto da jovem e Mei a abraçou. Kouichi continuou olhando a cena e depois de alguns minutos levantou-se e se uniu aquele abraço. Mesmo que ela não o merecesse se preocupava e não podia negar que estava muito feliz por ela ter finalmente enxergado que algumas coisas não valiam à pena.

Separaram-se do abraço e ele pôde ver que as duas choravam. Elas o olharam um pouco sem graça e ele resolveu fazer graça para descontrair o ambiente.

- Ótimo! Agora eu tenho duas garotas emotivas e meu chocolate acabou. – Elas começaram a rir e realmente o ambiente ficou descontraído.

Quando assumiu seu amor por Teshigawara, Izumi compreendeu muitas coisas, inclusive seu relacionamento com Kouichi. A ruiva não era mais a garota de antes, a perda que sofreu a havia feito mudar. As conseqüências de suas próprias atitudes lhe deram uma lição.

Ela ficou ali por algum tempo, até que Sakakibara e Misaki tiveram certeza de que ela estava bem e podia ir para casa. Eles jantaram, conversaram e se distraíram com algumas coisas, até que o táxi chegou e ela se despediu do casal.

- Obrigada por tudo. – Ela disse sincera.

- Cuide-se. – Disse Mei.

- Volte para o colégio. As pessoas não param de comentar à seu respeito. – Disse Kouichi enquanto ela se afastava.

A garota se virou para trás e depois de olhá-los por alguns momentos sorriu de um jeito que ele não a via sorrir fazia anos.

- Sério. Vocês ficam lindos juntos. – Ela alargou ainda mais o sorriso e entrou no táxi. Ao se aconchegar no banco percebeu que havia tirado um peso de suas costas, mas estava feliz. Pelo menos aquela questão estava resolvida.

Depois de lavarem a louça e guardá-la, Mei e Kouichi se preparam para dormir. Ao deitaram sobre a cama que agora era de casal, ela se aconchegou em seu peito e ele a envolveu em um abraço. Depois começou a alisar seus cabelos.

- Que noite, não?! – Começou o assunto.

- Pois é... – Ela comentou.

- Quem diria! Akazawa Izumi reconhecendo seus erros e pedindo desculpas.

- É realmente algo difícil de acreditar, mas acho que ela já encontrou seu caminho. – Kouichi arqueou uma sobrancelha.

- Como assim? – Questionou.

- Para ela, você era tudo. Akazawa nunca se imaginaria sem você. Ela não via seu futuro de outra forma, porque estava totalmente apegada ao passado e a idéia de que os dois se pertenciam. Algo a fez se desapegar e ver que ela tem várias opções, que pode escolher seu próprio caminho.

- Verdade, mas que “algo” seria esse? – Ele disse curioso.

- Também gostaria de saber. – Ela disse sentindo também uma pontada de curiosidade.

Depois de alguns minutos de silêncio ele resolveu continuar.

- Você me pareceu bem confortável na presença dela.

- No princípio não, mas depois eu realmente me preocupei. Akazawa sempre me pareceu forte demais para se preocupar com alguém, ou mesmo desmaiar. – Ela disse com um meio sorriso.

- Você realmente a perdoou? – Ele indagou não muito certo da reposta.

- Sim. – Ela disse e suspirou aliviada. – Não queria que continuássemos com esta situação, não me sentia bem e o fato de não me sentir bem, não faz bem ao bebê.

Sakakibara apertou o abraço.

- Você é uma mulher incrível. – Ela sorriu e também apertou o abraço. Rapidamente eles dormiram. Sentiam-se em paz.

Notas finais
O que será que aconteceu com Izumi?

Beijo e até a próxima.