A Cor Púrpura De Teus Cabelos

75 Uma Família Nada Convencional


Ao voltarem à mesa para comerem junto com os demais convidados, Michele e Miranda foram questionadas sobre a ausência de Lola na companhia delas.

— Onde está minha filha? — perguntou Lúcio aflito.

As duas se entreolharam em busca de respostas mas antes de qualquer uma tentar responder, a menina surgiu andando em direção a mesa com uma taça de sorvete de morango com calda de chocolate nas mãos.

— Estava perguntando por você, minha filha. Onde esteve?

— Fui dar uma volta e respirar um pouco fora dessa mesa. — respondeu ela, dando uma olhada brava para a senhora com a flor na cabeça.

— E voltou com um sorvete na mão? — perguntou Michele.

— Qual é o problema nisso? — Lola sentou-se na mesa enquanto Miranda e Michele também se sentaram.

— A mocinha não aprendeu que a sobremesa só deve vir depois do prato principal? — perguntou dona Marta.

Lola revirou os olhos e pegou uma porção grande de sorvete e enfiou na boca com gosto para provocar a mulher.

— Eu também quero um sorvete desses! Parece estar gostoso! — comentou Matheus.

— Olha o exemplo que a sua filha está dando, Lúcio! — reclamou Henrique.

— Deixa a menina, querido. Não vai matar se ela pular a refeição e comer a sobremesa antes. Vai me dizer que nunca fizeram isto? — defendeu Miranda.

— Tá bom, tá bom. Chega! Cada um coma o que bem lhe entender, só gostaria de ter uma refeição nesse momento especial, em paz com todos vocês que amo! — declarou Michele.

Neste momento, os garçons chegaram na mesa com garrafas de vinho e duas latas de refrigerante. A mesa já estava posta com porções de carne, batatas ingleses com recheio de queijo, salada de aspargos, raviolli e uma lasanha foram os pedidos de todos na mesa.

Após terem suas taças preenchidas por um vinho caríssimo de uma safra antiga, Michele ergueu sua taça de vidro no ar dando início a uma comemoração. Todos seguiram seu exemplo, levantando suas taças. Matheus levantou sua taça contendo refrigerante, pois sua mãe não gostava que o jovem tomasse bebida alcoólica, por mais que ele já fosse maior de idade, e Lola, por estar tomando sorvete, levantou sua taça de sorvete de morango no ar junto com todos.

Antes de começar seu discurso, Michele pigarreou e deu uma batidinha com um garfo na taça em que estava segurando para que todos prestassem atenção.

— Gostaria de agradecer a presença de todos e dizer que sou uma pessoa muito feliz por ter todos vocês ao meu redor e poder comunicar que daria luz ao meu primeiro filho que junto com o homem que amo poderei realizar este grande sonho de ser mãe.

Os olhos de Michele ficaram marejados pois estava emocionada.

— Amor — Michele olhou para Lúcio — Sou a mulher mais sortuda do mundo por te ter ao meu lado e saber que em poucas semanas me casarei com você e darei início a um novo ciclo em minha vida. Obrigada por sempre me amar e aceitar apesar de erros cometidos. — Michele olhou para Lola — Apesar de não ter sido a melhor madrasta no início, Lola, eu te peço perdão por qualquer coisa mas agradeço por ter um bom convívio com você hoje em dia e sei que você será uma excelente irmãzinha para o meu pequeno.

Michele olhou para a sua barriga e alisou enquanto sorria. Lola, surpresa, sorriu para Michele e se sentiu feliz ao ser citada pois não estava esperando por aquilo.

— Mamãe, gostaria de lhe agradecer por tudo que fez para mim em toda a minha vida e almejo conseguir ser pelo menos a metade da mulher que você é. — Michele conseguiu emocionar a mãe e a senhora deixou uma lágrima cair e a amparou em um dos dedos — E gostaria de agradecer ao apoio ao meu querido pai, irmão, primo e à sua estimada esposa Miranda.

Todos bateram palmas e deram um gole em suas bebidas.

— E você meu genro, não vai dizer algo? — perguntou Seu Zé.

Lúcio olhou para sua filha em busca de apoio e Lola sacudiu a cabeça para que ele dissesse algo então assim o fez.

— Bom, nesta noite tão especial, eu gostaria de agradecer à todos pela presença. Se me perguntassem há alguns meses, eu jamais pensaria que estaria prestes a casar com uma mulher tão linda e especial como a Michele. Muito menos passaria em minha mente que seria pai pela segunda vez em minha vida. Como vocês sabem, perdi minha esposa quando minha filha era apenas uma criança, e partir daí, voltei minha atenção ao trabalho e aos cuidados de Lola. Os anos passaram e percebi que sentia falta de um amor verdeiro ao meu lado. Alguém que me amasse de verdade e que eu sentisse que valia à pena e me fizesse tão bem quanto Mayra fazia me sentir ao lado dela. Então a vida colocou Michele em meu caminho e me senti amado novamente como nunca pensei que pudesse ser como antes.

Lúcio engoliu em seco e os outros convidados também ficaram emocionados e mexidos pelo fato de tocar no nome da antiga esposa de Lúcio; Mayra, que havia falecido em um acidente de carro.

— Sou extremamente grato por ter pessoas tão maravilhosas ao meu lado como a minha filha Lola que amo muito e que tem se mostrado mais madura. Obrigada filha, por me compreender e dar uma chance para a minha felicidade e saiba que pode contar comigo para o que der e vier pois o amor que sinto por você é incondicional e maior que tudo. Eu te amo! Sua mãe ficaria orgulhosa de vê-la como está hoje.

Lola engoliu em seco e largou o sorvete na mesa. Sorriu e deixou uma lágrima rolar pelo olho de emoção. Seu pai a abraçou e todos bateram palmas, até mesmo dona Marta que batia palma contra sua vontade e com nariz torcido.

— Enfim, queria agradecer aos meus sogros, ao meu cunhado, ao primo de minha esposa e à Miranda, que para a minha grande surpresa e felicidade faz parte da família agora. Bom, antes que eu me derreta por inteiro, vamos comer! Bom apetite!

Todos bateram de leve suas taças uma nas outras em comemoração e gritaram ''viva'' e deu-se início ao grande banquete.

*****

Ao meio do burburinho de vozes e barulho dos talheres nos pratos, todos na mesa se deliciavam com a comida. Lola havia comido todo o sorvete e por incentivo do pai resolveu experimentar uma fatia de lasanha.

Michele sorria ao lado de seu futuro marido Lúcio. Mateus comia feito um louco a carne com batatas assadas. Dona Marta reclamava com José sobre a escolha do prato do marido e criticava-o por ter escolhido raviolli ao invés de uma carne que ela achava que era suculenta.

— Mulher, coma o seu e me deixe em paz! — resmungou Zé.

— Você é bobo demais. Aproveita que estão pagando e pede uma carne. Uma picanha, algo bem caro. — sussurrou dona Marta.

— Que absurdo, querida. Já disse, coma o seu e me deixe em paz e afinal, estamos aqui para comemorar o casamento de nossa filha e não para comer.

A senhora balançou a cabeça e deixou seu marido de lado falando sozinho.

Henrique comia educadamente seu prato e Miranda se deliciava com sua salada de aspargos. Quando estava cortando com a faca um tomate cereja, levou um susto quando sentiu algo por baixo da mesa. Era a perna de Lola alisando a perna da professora. Miranda olhou para a menina e a mesa exibia um sorriso brincalhão e a professora sorriu de volta para ela e balançou a cabeça.

Lola resolveu ir mais longe então sem que ninguém percebe-se tirou a bota e ficou de meia por baixo da mesa. Foi devagarinho se aproximando da perna de Miranda e subindo aos poucos foi levantando o vestido verde dela e a alisando. Chegando no joelho, Miranda fez ''não'' com os olhos para que a menina parasse de ir subindo mas foi em vão pois Lola foi a alisando até a coxa deixando os pelos da perna de Miranda arrepiados. A professora mordeu o lábio inferior e se segurou com força na toalha da mesa. Lola soltou uma risada abafada.

— Está rindo de quê, minha filha?

Ao perceber que seu pai a estava vigiando, ela logo parou de alisar a professora com o pé.

— Nada não, pai. Estou feliz por você.

— Que bom, minha filha. Você não sabe o quanto estou feliz em tê-la me apoiando neste momento especial.

Lola sorriu e colocou seu sapato de volta.

O jantar continuou. Tudo ia muito bem até que Henrique teve um ataque de ciúmes na mesa, pois a professora estava trocando mensagens com Lola pelo celular e as duas sorriam se divertindo em segredo.

'' Lola Fernandéz enviou: Olha como esse menino come feito um louco! HAHA

Miranda Dias enviou: Meu Deus! Ele vai engasgar desse jeito! hahaha

Lola Fernandéz enviou: Me perguntou para onde vai tanta comida nesse corpinho tão magro...

Miranda Dias enviou: Lola. você não existe! hahahaha ''

As duas trocavam mensagens e se divertiam comentando sobre o jantar que compartilhavam até que Henrique perguntou para a sua mulher:

— Posso saber com quem está falando?

Miranda se surpreendeu e guardou o celular.

— Enviando uma mensagem para uma amiga.

— No meio do jantar?

— Sim. Qual é o problema?

— Sorrindo desse jeito? Me deixe ver com quem você está falando!

— Não! De jeito nenhum.

Quando Miranda alterou a voz, as pessoas da mesa prestaram atenção no casal.

— Não vai me deixar olhar a mensagem?

— Não! E pare de desconfiar de mim.

— Quando você for sincera comigo, podemos conversar.

Henrique levantou da mesa e deixou todos pasmos com sua ação.

— O que houve? — perguntou a fofoqueira Marta.

— Não se intrometa, mamãe. É assunto de casal.

— Como não me intrometer? Esta mulher fez um escândalo! — disse Marta enquanto apontava para Miranda.

— Henrique, volte aqui! — gritou ela mas em vão pois ele já estava bem longe- Com licença. Irei atrás de meu marido e agradeço ao jantar.

— Miranda, quer que eu te acompanhe? — perguntou Lúcio.

— Não será preciso, mas obrigada.

— Quanta falta de educação do seu primo e dessa esposa dele à mesa. E ainda por cima a mulher usando celular. Isso é um absurdo! Um ultraje!

Miranda já estava em pé, se retirando da mesa mas quando ouviu tais palavras, voltou-se e respondeu a senhora:

— Cuide da sua vida, sua insolente! E deixe de ser fofoqueira pois isso é muito feio! E ao invés de tentar educar outras pessoas, eduque seu filho Mateus que mal sabe comer feito gente!

A mulher arregalou os olhos e ficou boquiaberta sem fala.

Mateus que estava se lambuzando com um pedaço de carne com as mãos, deixou um pedaço de batata cair no prato surpreso ao ser criticado.

Lúcio arregalou os olhos e Michele ficou sem jeito.

— Bem feito! Mereceu ouvir isso e muito mais. — disse Lola.

Lola começou a rir e caçoar da velha senhora e não percebeu quando ela levantou da mesa e esticou o braço dando um tapa na face da menina.

Michele se alarmou surpresa. Lúcio ficou roxo de raiva e Mateus se engasgou com um pedaço de carne que comia ferozmente.

— Como você se atreve?

Lola levantou da mesa, colocou a mão na travessa que continha a lasanha com molho e com uma mão farta jogou no rosto de Marta sem pensar duas vezes.

Marta ficou furiosa e tentou dar o troco mas a comida caiu no rosto de Lúcio. Mateus achou engraçado e depois de se recuperar do engasgo, pegou uma porção de batata, amassou na mão fazendo uma bola e jogou na cara da irmã Michele. Seu José entrou na guerra de comida e acertou a própria mulher de propósito, fazendo com que ela gritasse de ódio e para surpresa de todos começou a chorar.

— Até você, meu marido?

Lola e Mateus começaram a rir da situação. Lúcio resolveu dar um basta e gritou:

— Já chegaaa!

E chamou a atenção das outras pessoas de outras mesas que também jantavam no restaurante.

— Já chega mesmo. Quero todos vocês para fora do meu restaurante — o gerente do local os expulsou.

— De novo não! — reclamou Michele toda suja de comida, relembrando a última vez que tinha saído com Lola e que a menina havia lhe sujado de comida.

— Lola, estou decepcionado com você!

— Mas pai, ela que começou! — suplicou ela.

— Não quero saber! Em casa conversaremos.

Todos saíram do restaurante de cabeças baixas e sujos de comida.