A Cor Púrpura De Teus Cabelos
67 Morangos e Desejos

Após aceitar seu convite, vi que se alegrou dos pés à cabeça, por mas que estivesse triste. No momento em que resolvi aceitar em dormir em sua casa, me veio logo a visão de meu amigo Erick em minha cabeça, mas juntei o útil ao agradável e resolvi que não contaria ao meu pai que ao invés de ter dormido na casa do Erick, passei a noite no apartamento de Miranda. E quanto ao meu amigo, eu iria ignorá-lo e fingir que havia esquecido de nosso encontro e em seguida desliguei meu celular e guardei-o em um dos bolsos de minha mochila. Ninguém atrapalharia aquele momento. Nem mesmo o meu pai e mentir, ou melhor, omitir para ele seria como pagar pela própria moeda. Uma leve vingança particular entre mim e ele por ter mentido sobre a viagem que fez com a namorada Michele. De qualquer maneira, as chances dele descobrir que eu havia passado a noite com minha professora seria mínima. *** Após ela ter tomado banho e eu ter me oferecido para ajudar a preparar a nossa janta, ela retornou à cozinha, vestindo um conjuntinho branco para dormir e eu estava no fogão experimentando se a massa do macarrão estava ao dente, foi quando ela me surpreendeu com sua voz sedosa:— Como estamos indo, aí? – perguntou enquanto sorria. Me surpreendi com sua chegada e sorri ao vê-la.— Bom, eu acho que está no ponto. Prove! –pesquei um fio de macarrão e o enrolei no garfo, levei à pia e molhei a massa para esfriá-la. Me virei para ela e segurando o garfo levei em direção em sua boca e ela por sua vez provou. — Está exatamente no ponto. – disse ainda mastigando. Retirei o garfo e nossas mãos se tocaram e senti meu corpo tremer por dentro. A sensação que Miranda despertava em mim era algo incrível que eu nunca tinha sentido antes por alguém. Percebi que Miranda também sentiu o mesmo e antes de desviar o rosto, sorriu para mim. Ela se encaminhou para a geladeira e a abriu em busca de algo, enquanto me indagou com sua pergunta:— Você ligou para seu pai e disse que vai dormir aqui esta noite? Eu estava escorrendo o macarrão na pia e o molhando quando me surpreendi com sua pergunta e sem gaguejar ou titubear, menti para ela dizendo que ‘’sim’’ e disse que havia comunicado meu pai que dormiria em sua casa naquela noite. — E ele aceitou de bom grado sem brigar com você? – perguntou ela, enquanto fechava a geladeira e segurava, com uma das mãos, uma garrafa de suco de uva oriunda de uma safra da região Sul do Brasil.— Por incrível que pareça, sim. – reafirmei minha mentira.— Nossa, isso é realmente incrível. Bom, se você quiser, posso telefonar para ele para assentir que está segura em minha casa.— Não! Não precisa, sério.— Tem certeza? – insistiu ela levantando uma sobrancelha.— Sim. Digamos que ele não se importou tanto e não quis ligar para você para confirmar pois ele está meio ocupado...— Ocupado? Em que sentido? – ela me olhou sem entender nada.— ‘’Ocupado’’ com a namorada dele... – levantei uma das sobrancelhas e a balencei em brincadeira e ela soltou uma risada estridente e tampo aboca com uma das mãos ao entender o que eu realmente queria dizer. Aquilo foi muito fofo da parte dela.— Só você mesmo, Lola! – disse ela ainda sorrindo. *** Só faltava prepararmos o molho vermelho de tomate e manjericões frescos oriundos de sua pequena horta para comermos nossa macarronada, então ela sugeriu que eu fosse tomar banho enquanto ela terminava de preparar nossa comida. Concordei com ela e me encaminhei para o banheiro, pois já sabia onde ficava, pois já estava familiarizada com o local, mas antes de tomar banho, peguei minha mochila na sala e por sorte havia roupa íntima, roupa de dormir e meus pertences de higiene. Tinha Tudo isto em minha mochila pois ela estava pronta para que eu fosse dormir na casa de Erick. Sabia que Miranda estranharia o fato de que eu já estava preparada para aquilo, mas como sempre fazia, eu contornaria a situação com alguma desculpa esfarrapada. Era a minha especialidade. **** Agora, completamente com banho tomado e usando uma camisola de seda na cor preta com uma renda na região acima dos seios, saí do banheiro e me deparei com Miranda em minha frente, segurando uma muda de roupas e uma toalha. Quando me viu vestida e seca, percebeu que a incompreensão tomou conta de sua face.
— Eu esqueci de lhe dar uma toalha e oferecer uma roupa para dormir, mas pelo que vejo já está preparada... Olhei para o chão, evitando contato visual pois assim era mais fácil de mentir, e mirei meus dedos do pé enquanto concentrava minha visão para minhas unhas pintadas de azul escuro.— Eu estava preparada pois usei esta mochila para dormir na casa de uma amiga em outro dia, mas esqueci de retirar tudo da mochila. Miranda arqueou uma das sobrancelhas e pelo que percebi, fingiu que acreditava na minha desculpa e logo agi para que ela não tivesse tempo de me interrogar sobre aquilo.— Que cheiro bom! A janta está pronta? Estou morrendo de fome. – disse animada.— Está pronta sim.— Então vamos logo comer. – a puxei pelo braço e fomos em direção à cozinha e ela sorriu ao ver o quanto animada eu estava. **** Nos deliciamos com nossa janta e de sobremesa ela sugeriu um brigadeiro com morangos e eu me ofereci para fazer. O cheiro do achocolatado em pó se misturando ao leite condensado me deixava com água na boca. Quando vi que o doce desgrudava do fundo da panela desliguei o fogo e coloquei em um prato. A nossa pressa de comer era tanta que colocamos dentro do freezer para esfriar. Miranda abriu a geladeira e lavou os morangos para comermos junto com a sobremesa. A atmosfera do lugar e tudo o que estávamos fazendo me deixou tão feliz que eu desejei que esse momento se congelasse e tudo parasse no tempo. Eu queria viver para sempre como agora. Ao lado da pessoa que me fazia ver a vida de um outro jeito. ***** O brigadeiro estava pronto mas ainda não estávamos com sono então sugeri que víssemos algum filme que estava passando na televisão e ela concordou. Então fomos para o quarto do casal e deitamos na cama. Confesso que fiquei um pouco sem jeito pois o lugar onde Henrique dormia estava desocupado e meus pensamentos me levavam à ele mas logo fiz questão de esquecê-lo ao lembrar o quanto ele tinha sido cruel e incompreensivo com Miranda. Miranda já havia se acomodado em seu lugar, encostada na cabeceira da cama com duas almofadas grandes em suas costas enquanto segurava o prato de brigadeiro em uma mão e com a outra duas colheres para comermos. Eu estava acanhada, sentada na beirada da cama segurando o pote com morangos recém lavados quando ela me convidou para que eu sentasse ao seu lado e eu fui sem pestanejar.— Quer escolher algum canal? – perguntou ela.— Pode ser qualquer um. Tanto faz.— ‘’Tanto faz’’ não existe. – disse sorrindo. Eu sorri e respondi:— Você pode escolher.— Então, vejamos... **** No fim das contas, escolhemos um filme qualquer que estava passando no canal Telecine. O filme contava a história de um casal que se amava mas as pessoas ao redor não aprovavam e logo me lembrou do que eu sentia por Miranda. Não sabia ao certo se ela realmente gostava de mim como eu gostava mas mesmo que ela me amasse, nosso amor não seria bem aceito pelas pessoas próximas e só de pensar nisso meu estômago se embrulhava e a ansiedade tomava conta de meu ser. Era um mundo cruel querer amar e não poder, simplesmente pelo preconceito alheio e pessoas com cabeças fechadas e guiadas por religião em pleno século XXI. Mas, felizmente, há pessoas corajosas que dão a cara a tapa e não tem medo de amar e não liga para o que os outros pensam. E se o que eu sentisse por Miranda fosse totalmente correspondido, eu seria como aquelas pessoas, que lutam para serem felizes. ********* Miranda foi a primeira a pegar um morango do pote e mergulhar no prato com brigadeiro. Ela fez um sinal com a cabeça para que eu fizesse o mesmo e assim o fiz. O gosto doce se misturava com o azedinho do morango e a mistura era deliciosa.— Está delicioso!— Que bom! Eu também amei mas da próxima vez que fizermos isto, farei uma sobremesa verdadeira como uma torta de limão, o que acha? – ela sorriu enquanto mordia um morango. Meu coração acelerou ao ouvir que poderia haver uma próxima vez.— Eu topo! Daí você me ensina a fazer essa torta pois eu adoro sobremesas! – confessei. Acabamos de comer todo o doce e escovamos nossos dentes. O filme estava quase no fim mas Miranda estava caindo de sono ao meu lado. Então tomei coragem e fiz algo que nem mesmo eu esperava que eu fizesse: falei para ela descansar a cabeça em meu colo e para a minha surpresa, ela aceitou. Aquele momento foi mágico. Foi simples mas inesquecível. Eu fiquei sentada sentindo a cabeça loira de Miranda deitada em meu colo e estiquei os dedos para fazer carinho em seu cabelo brilhoso e ondulado. Seu cabelo era lindo. Ela era inteiramente linda. Sorri e fechei os olhos para lembrar daquele momento para sempre. Era ali mesmo que eu queria estar não somente naquela noite como para sempre. De repente percebi o que realmente desejava; que era estar ao lado dela até o fim de minha vida. Ela adormeceu em meu colo e eu a admirei até depois que o filme terminou e a luz da televisão nos iluminava no escuro. Aquela havia sido a noite mais feliz de minha vida e eu queria que se repetisse muitas vezes.
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