A Cor Púrpura De Teus Cabelos
31 Encontro Repentino
O relógio na cabeceira do quarto de Dolores, marcava oito horas da manhã.
A blusa do pijama verde água, descia e subia conforme a respiração dela. Lola estampava um ar sereno no rosto e estava dormindo profundamente.
Quando de repente... TOC TOC. Alguém bateu na porta mas o barulho que fazia, foi reproduzido na mente da garota em outro plano, em um sonho bem distante da realidade.
TOC TOC. Fez Lúcio na porta, com a mão, mas isto só fez com que Lolatrocasse de posição na cama. Ela virou de lado, ajeitou o travesseiro e voltoua se perder nos sonhos profundos.
Lúcio não era um homem paciente, ainda mais depois do que havia ocorrido no dia anterior, então ele ficou por não conseguir acordá-lá e resolveu abrir a porta abruptamente.
Vamos acordar. Anda logo pois não tenho o dia todo!
Lúcio abriu a janela e a claridade invadiu o quarto enquanto ele batia palmas, produzindo um barulho para acordá-lá.
A filha dele apertou os olhos por causa da claridade da luz e tampo as orelhas com as mãos para abafar o barulho, mas Lúcio era persistente e pavio curto, então não pensou duas vezes e puxou a coberta da filha fazendo com que ela acordasse.
Mas que droga! Não se pode mais dormir nessa casa? Faz parte do castigo me acordar cedo? — Lola sentou na cama e soltou um longo e sonoro bocejo enquanto arrumava o cabelo em um coque alto.
Não faz parte, mas se continuar a me responder poderá fazer! — adverteu ele com os braços cruzados junto ao corpo.
Tá, está bem. Já entendi o recado, mas me diga, porquê eu tenho que acordar cedo logo no domingo?
Iremos ao mercado fazer compras .
Iremos? Como assim? — espantou-se a jovem.
Lola nunca acompanhava o pai ao mercado, pelo menos não agora, mas quando era pequena e sua mãe ainda era viva, os três iam ao mercado quinzenalmente. Eles iam felizes e animados pois adoravam fazer coisas juntos, até mesmo algo considerado bobo, como ir ao mercado, era uma deixa para ficarem felizes e o programa que antes seria chato, virava algo interessante pois fariam juntos.
Lúcio sempre cedia às vontades das mulheres em sua vida, comprava produtos integrais e saudáveis de sua esposa Mafra e até mesmo sua torta preferida sabor morango com merengue por cima. Para Lola comprava o sorvete de flocos que era o seu preferido e para ele mesmo, comprava um vinho do Porto importado que ficava ainda mais saboroso quando degustava na presença de sua esposa com direito à um jantar em casa à luz de velas, algo bem romântico.
Mal sabiam eles, naquela época, que iriam perder o bem mais precioso que tinham: Mayra.
E eles mal sabiam também que as idas ao mercado não seriam como antes, não depois de Lola completar 9 anos de idade e perder a mãe em um acidente de carro.
Mayra fora a base da família, ela sustentava a "casa" e sem sua presença, toda a estrutura estava comprometida, prestes a desmoronar.
Acabou seus dias de moleza, senhorita. Você vai comigo ao mercado e fim de papo.
Argh! — bufou e reclamou a garota.
Levante da cama, tome um banho e se arrume pois estarei te aguardando na sala, Dona Reclamona! — brincou Lúcio tentando quebrar o gelo.
Quando ele se retirou do quarto, Lola levantou da cama, abriu a gaveta da cômoda e retirou o seu celular que estava desligado. Ligou o aparelho e sua tela acendeu. Na lista de contato da menina havia o nome " Erick", então ela clicou e começou a escrever uma mensagem até que foi surpreendida pelas mãos do pai o tomando de suas mãos.
Nada de celular, se esqueceu? — lembrou Lúcio à filha que era rebelde. Guardou o celular no bolso da calça .
Mas eu arrumei tudo e estou obedecendo o Senhor direitinho. Por favor, deixe eu usar meu celular! Eu imploro! — Lola fez uma cena teatral se jogando de joelhos no chão do quarto enquanto juntava as mãos em forma de prece.
Não! E pare de implorar!
Por favor! — suplicou a menina — Eu prometo que vou me comportar. Não consigo viver sem internet. Eu prefiro morrer do que ficar sem meu celular!
Já disse que não! E pare de falar besteiras! — Lúcio pegou a filha pelo braço e a levantou do chão.
Lola cruzou os braços, olhou zangada para o pai e bufou com raiva.
Se arrume logo pois eu não tenho o dia todo!
Lola desistiu de implorar, pegou uma toalha nova no armário e foi em direção ao banheiro. Depois de tomar banho e se arrumar, foi de encontro com o pai que estava a sua espera sentado no sofá da sala.
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NARRAÇÃO DE MIRANDA
Era domingo de manhã e quando despertei percebi a ausência de meu marido ao meu lado na cama. Todas as manhãs de domingo Henrique saía para jogar tênis no clube com os amigos mas eu nunca ia pois não sou chegada à esportes.
Passei a mão na cama do lugar vazio, que anteriormente era ocupado por Henrique.
Levantei da cama e me espriguicei, quando ia para a direção da mesa onde ficava meu computador, me deparei com um papel branco com letras escritas, que obviamente pertenciam ao meu marido. Ao lado do bilhete havia uma linda rosa vermelha e ao vê-lá, meu coração disparou de felicidade.
Oque estava escrito era mais ou menos assim:
" Amor,
Ontem à noite foi maravilhoso, apesar de não termos terminado oque havíamos começado, mas espero que tenha gostado da noite anterior como eu gostei, pois para me fazer feliz só a dua presença me basta. Estou preocupado com a sua saúde, esses enjôos não são normais, quando eu voltar do clube marcaremos uma ida ao médico ainda está semana.
Espero que tenha gostado da singela roda que lhe deixei de presente ao lado deste recado, apesar de não ser algo tão especial quanto o colar que eu havia lhe dado.
Eu te amo muito e o meu amor por você só têm aumentado conforme o tempo, espero que tenha um bom dia,
Do seu marido e eterno admirador,
Henrique Garcia."
Quando acabei de ler esta mensagem linda, uma lágrima escorreu pela minha face e me coração se apertou. Como eu pude ser tão idiota ontem à noite? Ele fez de tudo para me agradar e o mínimo que eu poderia ter feito em troca era ter me entregado de corpo e alma para ele. No restaurante, eu estava realmente louca de desejo, talvez o álcool tenha agravado o caso mas eu o queria tanto quanto ele me desejava, mas estraguei tudo ao deixar que a minha mente comandasse no meu corpo e projetasse a imagem de Lola. Eu estava enlouquecendo, não havia outra explicação. Não posso deixar que sentimentos tão levianos tome conta de mim, ainda mais depois dessa prova de amor que tive de Henrique.
Meu marido além de lindo é atencioso, preocupado e carinhoso comigo. Nós éramos o casal perfeito, eu tinha o homem que toda mulher desejaria ao lado.
Ao pegar a rosa e levá-lá até ao meu nariz, para sentir o doce cheiro, tomei uma decisão; eu vou lutar para que meu casamento não acabe. Oque havia ocorrido entre mim e Lola estava acabado a partir de hoje. Provavelmente este desejo que eu sentia por ela, era algo reprimido na juventude, algo que por ser recatada não havia experimentado por curiosidade, ou talvez, seria apenas uma crise de meia idade, mas enfim oque quer que fosse, nada e ninguém estragaria o meu casamento que era um conto de fadas da vida real. Eu não abandonaria meu "príncipe azul", pelo contrário, faria de tudo para tê-lo ao meu lado; o respeitaria e o amaria como merecia e assim seguiria a minha vida ao lado dele. Ninguém e nenhuma "princesa", nem mesmo a dona dos cabelos cor de púrpura haveria de estragar e acabar com o meu final feliz.
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Apesar de ser domingo, Miranda teria que trabalhar e lançaria as notas obtidas pelos alunos na prova, no diário oficial. Para começar o serviço, somente abastecida por cafeína e biscoitos amanteigados para ter energia e disposição suficiente para começar o trabalho.
Ela sentou na cadeira e colocou a papelada em cima da mesa e começou a tarefa. Chegando na letra "D", ela se deparou com o nome de " Dolores" e isto a fez lembrar, automaticamente, do que havia ocorrido entre elas em uma tarde na casa de Lola. A professora chegou a se engasgar com o café. Recuperou o fôlego e aplicou a nota da menina que não tinha se saído bem na prova.
– TSC, TSC. A pior nota da turma... — disse Miranda estalando a língua.
Passou pela cabeça da professora, por um instante, que talvez a aluna não tenha se saído bem por ter sido prejudicada pela professora por terem se beijado. Mas logo Miranda tirou isto da mente e levou em consideração o fato de ser a primeira prova do ano e que Lola poderia se recuperar. Ainda mais agora que Miranda estava disposta a se afastar de Lola de uma vez por todas. Não iria ignorar ou tratar a aluna mal, seria a mesma pessoa que era para os outros alunos: doce, atencioso e ao mesmo tempo rígida com os alunos. Não trataria Lola com exclusividade, ela seria tratada como todos os outros.
Miranda acabou o serviço às oito da manhã, guardou a papelada e foi à cozinha para preparar o almoço. Estava em seus planos preparar strogonoff, que era o prato preferido de Henrique. Quando foi separar os ingredientes para começar a fazer a comida, percebeu que faltava algumas coisas como: creme de leite, milho e batata palha. Então decidiu que iria ao mercado mais próximo de sua casa para comprar tais itens faltosos. Como havia sido rude e estúpida com o marido, ela queria agradá-lo preparando o almoço, então foi para o mercado com pressa.
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NARRAÇÃO DE LOLA
Eu estava concentrada e ao mesmo tempo confusa, tentando achar a diferença de tais temperos que meu pai havia me encarregado de buscar.
– Oque seris noz moscada? — perguntei ao atendente que estava ao meu lado arrumando prateleiras.
– Você é cega? Está escrito na embalagem! — respondeu rispidamente.
– Nossa, obrigada mas não precisava ser tão mal educado assim! — disparei com raiva.
O homem deu de ombros e nem se deu ao trabalho de me pedir desculpas ou olhar para a minha cara, ele continuou fazendo o trabalho dele.
Quando me virei para ir de encontro com o meu pai em outro corredor, fui surpreendida pela presença do mesmo.
– Já pegou o tempero?
– Sim. Espero que eu tenha pego tudo certo pois não vejo a hors de voltar pra casa e dormir mais um pouco...
– Agora você descobriu que a sua comida não aparece magicamente dentro da geladeira, não é? — meu pai disse em tom de deboche e brincadeira.
– Tanto faz, eu só quero ir embora! — reclamei batendo o pé no chão.
Meu pai me lançou um olhar de reprovação e então eu levantei minhas mãos em forma de defesa e pedi desculpa.
Será que eu era tão grosseira como o homem que havia me atendido? Se eu eu era eu não conseguia perceber que era tão desagradável. Bom, posso até ser grosseira às vezes mas duvido que eu tenha sido tão insuportável quanto o atendente. Perdida em meus pensamentos, retomo os sentidos quando meu pai coloca as mãos em meu ombro para irmos de encontro com o nosso carrinho e seguimos em direção ao caixa.
– Agora vamos pagar as compras e você vai aprender mais um lição: o preço das coisas.
Eu revirei os olhos pois era a única coisa que eu poderia fazer ao ouvir tais comentários de meu pai.
Fomos de encontro ao caixa e eu estava entretida com a caixa de cereais matinais, tentando desvendar um jogo de sete erros que estava atrás da caixa de cereal. Até que uma voz familiar me chamou a atenção e eu desviei a minha atenção para a voz.
– Pode passar o cartão, por favor — disse a mulher.
Ela estava na minha frente da fila, e tinha cabelos dourados e ondulados nas pontas e a cor do loiro natural reluzia à luz solar. A voz era inconfundível e mexeu com os meus sentidos. Era a voz doce de Miranda, minha professora de português que dentro de sala era uma pessoa e fora era outra bem diferente pois estava sem os óculos e sem a roupa formal.
– Crédito ou débito? — perguntou a moça responsável pelo caixa que usava um coque e uma sombra nos olhos bem chamativa.
Quando Miranda iria responder à atendente, ela olhou para o lado e percebi, em seus olhos verdes que se surpreendeu ao me ver.
– Lola! — exclamou Miranda.
A caixa e meu pai olharam para nós duas.
– Você conhece ela? — perguntou meu pai perto do meu ouvido.
Em resposta à aquela pergunta eu a cumprimentei de bom grado.
– Professora! A senhora por aqui?
A presença dela era como o surgimento do sol depois de um lugar ter sofrido um rigoroso inverno. Ela era como as flores que se desabrochavam na primavera. Ela iluminava por onde andasse todos os lugares. Ela me iluminava por dentro e consiguia me deixar feliz pelo simples fato de estar por perto.
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