A Cor Púrpura De Teus Cabelos
3 Provocações
Depois da escola, Lola chegou em casa e ficou na internet e assistindo televisão até de noite. Quando anoiteceu seu pai chegou do trabalho e foi cumprimentá-la.
– Boa noite, filha. Como foi a escola hoje?
– Como sempre pai: chata e tediosa. — bufou a adolescente.
– É esse comportamento que você tem que mudar. Falando nisso, precisamos conversar sobre ontem e sobre a sua ida à festa sem a minha permissão.
– Isso de novo, pai? — reclamou.
– Sim, senhora! Eu me preocupo com você, com quem anda e oque faz pela noite à fora.
– Você fala como se realmente se importasse!Depois que mamãe morreu nada foi como antes...
– Falando em sua mãe, tenho algo para lhe contar...
– Fala logo. — Lola ergueu uma sobrancelha.
– Você sabe que sou reservado com relação a minha vida amorosa mas preciso que conheça a minha namorada. Estou com ela há uns cinco meses e acho que está na hora de vocês se conhecerem...
– O quê? Você quer substituir a minha mãe? De maneira alguma!Mulher nenhuma tomará o lugar dela! — exasperou a jovem.
– Minha filha, ninguém vai tomar o lugar de ninguém...
Lúcio foi cortado pois a filha correu para o quarto, bateu a porta e não quis mais assunto com o pai.
Lola apagou a luz do quarto, se jogou na cama, colocou seus fones de ouvido e começou a ouvir sua banda de rock favorita. Sempre fazia isso quando estava om raiva. Se cobria com o edredom e fica na posição fetal, chorando e sentindo um vazio enorme no peito. Falta da mãe, que sempre a entendia e a afagava em todos os momentos mas agora , Lola não a tinha mais e os problemas só aumentaram.
– Isto não é justo! — a menina reclamou aos prantos, socando o travesseiro.
Pegou no sono depois de tanto chorar, como de costume. Sonhou com uma mulher loira, alta e com um sorriso acolhedor. A mulher era sua mãe, com os braços estendidos para receber sua filha com um abraço.
Amanheceu e a menina tomou seu banho e se arrumou para um novo dia.
Chegou na cozinha mas seu pai já não estava mais lá, tinha ido trabalhar mais cedo. Pegou um pacote de biscoitos e um suco de uva pronto e foi para o colégio.
No caminho do colégio , Lola não quis esperar seu amigo Erick pois não estava com vontade de ser questionada sobre seu humor logo de manhã.
Quando estava prestes a subir às escadas do colégio, Lola ouviu alguém gritar o seu nome, olhou para trás mas continuou subindo as escadas. Era Erick. Quando a menina ia responder seu amigo percebeu que tinha esbarrado em alguém. O suco de uva que estava com a tampa aberta voou para o alto e derramou todinho encima dela e da menina em que tinha esbarrado, mas não era qualquer menina. Era Anna Mazzochi, filha do diretor do colégio.
– Menina, olha oque você fez! — gritou a loira.
– Desculpa! Foi sem querer! — respondeu Lola.
– Você é cega por acaso? Aposto que fez de propósito! Sua idiota! Olha por onde anda!
– Idiota é a mãe! — esbravejou Lola.
Na hora em que Lola iria para cima de Anna para brigar, o inspetor Alberto chegou na entrada do colégio e levou as duas para a secretária.
Na sala, o diretor Cezar Mazzochi recebeu as duas garotas.
– Segundo dia de aula e já estão se metendo em confusão?
– Pai, ela que começou! Jogou a porcaria do suco encima de mim de propósito, essa anta!
– Anna, olha como fala com sua colega de classe! E já lhe disse que no meu trabalho é para você me chamar de Senhor diretor! Venha aqui no fundo da sala que quero conversar com você à sós. E você senhorita Dolores Alves... — o diretor foi cortado por uma professora.
– Deixe ela comigo, diretor. — disse a nova professora.
– Ok, professora Miranda. — concordou Mazzochi.
Depois que pai e filha se retiraram da sala, Miranda e Lola ficaram sozinhas na sala de visitas do diretor.
– Ora, ora ,ora... Olha quem está aprontando novamente em menos de 48 horas...
– Mas foi sem querer, professora! — esbravejou Lola com as mãos estendidas.
– Eu sei, querida. Dessa vez você não teve culpa. Só entre nós mas eu já percebi que essa tal de Anna não é flor que se cheire. O inspetor me contou tudo que aconteceu. Fique tranquila.
– Até que enfim alguém me entendi! — suspirou de alívio.
– Bom, você não vem para aula?
– Sim mas... olha a minha blusa. Está toda melada de suco.
– Verdade. Eu tenho uma blusa extra na minha bolsa. Você quer emprestada?
– Sim ,claro!
A professora foi buscar a blusa que era branca com botões pequenos e de manga curta.
– Aqui está. — estendeu a blusa para a aluna.
Lola pegou a blusa, colocou em cima da mesa. Levantou da cadeira, tirou a blusa que estava suja e ficou só de sutiã sem se importar com a presença de Miranda. Lola percebeu o olhar da professora. Miranda desviou o olhar.
– Me desculpe. Vou deixar você sozinha para se trocar.
– Oquê que tem? Somos mulheres... não há nada que você não tenha visto antes. — rindo, Lola colocou a blusa emprestada da professora.
– Sim mas em todo caso, foi indelicado de minha parte...
– Ih, professora sem neura, por favor! — brincou a aluna.
As duas foram para a sala de aula e Miranda deu sua aula e passou diversos exercícios para casa. No fim da aula, Lola deixou todos os alunos irem embora e disse para Erick esperá-la na entrada da escola. Lola foi até a mesa da professora e perguntou:
– Posso te devolver amanhã?
A professora ergueu os olhos e percebeu a presença da aluna. Parou de mexer nas folhas que estavam em cima da mesa, tirou o óculos e olhou para Lola.
– Devolver oquê?
– A blusa. — apontou para a blusa branca que estava usando.
Miranda ficou admirando a aluna e balançou a cabeça para sair de seu devaneio momentâneo.
– Ah, claro! Pode me devolver quando puder. Não tenha pressa. — sorriu a professora e mexeu nos próprios cabelos, um pouco desconcertada.
– Então está bem. Obrigada pela ajuda.
– De nada, querida.
– Vou indo nessa... — acenou para Miranda e foi embora.
Na entrada do colégio , Erick perguntou para a amiga:
– Você está estranha hoje. Oque houve?
– Bom... eu briguei com o meu pai e depois teve esse incidente com a metida da Anna. Definitivamente, não tive um bom dia.
– Poxa , que chato... — estendeu a mão e abraçou sua amiga. — Eu vi quando vocês se esbarraram. Aquela menina se estressa à toa. Ela acha que o mundo gira em torno dela só porque o pai dela é o diretor. Fala sério!
– Pois é. E eu tinha que esbarrar logo nela! Que sorte que eu tenho.
– Falando em sorte, na hora o inspetor estava lá né? E aí, você foi pra direção? Legou advertência ou algo parecido? — questionou o amigo.
– Não. Quando cheguei lá o diretor percebeu quem estava errada e a professora nova me aparou. — explicou a amiga.
– A professora Miranda? A que brigou com você ontem? — o menino arregalou os olhos.
– Sim. Até me emprestou uma blusa pois a minha tinha sujado de suco. Ela é bem legal...
– Ih, eu nunca te vi elogiar um professor antes. Então ela deve ser bem gente boa mesmo para você gostar dela. Por que, você geralmente detesta todo mundo... — riu o menino.
– Idiota! — rindo e deu um leve empurrão no amigo.
Ás 20:00 da noite, Lúcio chegou do trabalho, se arrumou e fez janta para ele e sua filha. Na mesa do jantar o pai chamou sua filha e pediu desculpas por ter dado tal notícia.
– Meu anjo, eu só queria te contar que estou tendo um relacionamento firme com alguém e queria muito te apresentá-la. Eu jamais colocaria outra pessoa no lugar de sua mãe. Como você mesma pensa: ela é insubstituível. Mas seu pai não quer viver sozinho pro resto da vida... Você me entende? — o pai pegou na mãe da filha.
– Entendo pai, mas acho difícil com o passar do tempo, o senhor não querer colocar essa sua namorada aqui dentro de casa...
– Filha, se você não quiser eu não colocarei contra a sua vontade. Eu prometo. Só queria que você a conhecesse.
– Fico feliz em saber que se não for de minha vontade ter outra mulher aqui em casa o senhor não colocará mas , sendo sincera... eu ,por enquanto , não quero conhecer nenhuma namorada sua. Prefiro nem ver o rosto. Nada pessoal pai, mas não quero ter contato. Poderia respeitar a minha escolha? — larga o garfo que antes estava tentando espetar uma ervilha.
– Respeitar eu respeito mas entender... Isso eu já não consigo. Ela é tão legal, e eu falei tanto de você para ela que se animou de conhecê-la. — sorriu sem graça o pai.
– Entendo... mas só me dê um tempo.
– Tudo bem minha filha. E eu não quero brigar mais com você. Quero que voltemos a sermos unidos como quando era pequena. Sinto sua falta...
– Eu também, pai... — deu um sorriso sincero.
– E como foi no colégio hoje? — perguntou animado o pai.
Os dois conversaram até depois de acabarem a janta. Lola contou sobre como foi conturbado o seu dia e os dois foram dormir um pouco tarde como de costume.
Lola se retirou da mesa, deu um beijo no seu pai, escovou os dentes no seu banheiro e colocou seu pijama com caveirinhas estampadas.
Apagou a luz do quarto e ficou de baixo das cobertas conectada no celular vendo suas redes sociais. De repente, lembrou da professora e pesquisou seu nome no espaço de buscas no facebook e achou o perfil dela. Ficou fuxicando a vida da professora mas ficou em dúvida em mandar um pedido de solicitação de amizade. Preferiu não fazê-lo mas continuou pesquisando mais sobre a vida de Miranda. Descobriu que era casada com um homem chamado Henrique, que tinha feito várias viagens para o exterior, que curtia bandas de rock em comum com a menina. Bocejando de sono , Lola desligou o celular, colocou debaixo do travesseiro , virou de lado e dormiu. Demorou para pegar no sono pois os olhos verdes de Miranda não saiam de sua cabeça.
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