Lola roía as unhas de uma das mãos enquanto esperava a chegada de sua parceira do trabalho. Anna havia se atrasado e a menina ainda estava transtornada com o que havia acontecido no dia da pesquisa. Anna e Lola haviam se beijado, após isto Lola seguiu para atender o telefonema do pai e Anna permaneceu dentro do quarto ainda atordoada com aquilo tudo e nem se despediu da menina,a final não tinha coragem para isso. O diretor, pai de Anna, deixou a menina de carro na casa dela e Lola se revirou na cama e tardou a pegar no sono pois só conseguia pensar naquela cena.

Lola estava perdida em seus pensamentos, como sempre, quando se surpreendeu com a chegada da professora de português. Miranda usava um conjunto de terno e saia da cor coral e uma blusa branca e sapato cor de pele fechado e de salto alto. Ela se sentou na mesa e começou a escrever no quadro passando matéria nova.

– E aí, Lola. Como foi o trabalho com a Anna? — perguntou seu amigo de longa data.

– Foi... Bom, até que conseguimos concluir.

– Vocês não brigaram? — perguntou Erick incrédulo.

Quando Lola iria responder a pergunta do menino, a chegada de Anna a interrompeu. Anna usava calça jeans rasgada, uma blusa rosa com lacinhos estampados e no cabelo um rabo de cavalo alto e com sua franja presa ao lado. Quando ela adentrou a sala, sentou-se na cadeira ao lado de Lola e sorriu para a menina.

– Oi!

– Olá! — Lola respondeu sem jeito.

– Ela já pegou os trabalhos?

– Ainda não, ela acabou de chegar. — disse Lola.

– Ah, sim...

Lola desviou o olhar e se levantou, resolveu beber água e pediu licença para a professora e a mesma a deixou ir para o corredor ao bebedouro.

Em seu regresso, Lola se surpreendeu com o que havia acima de sua mesa. Era um pedaço de papel dobrado, uma folha de caderno comum. Lola olhou para os lados e viu Anna copiando a matéria e rindo com uma menina ao lado que era sua amiga. Olhou para Erick e o mesmo estava jogando algum jogo no celular ignorando a aula. Então ela resolveu abrir o bilhete e se surpreendeu com o que estava escrito.

'' Gostou do nosso beijo? Sei que gostou e saiba que eu não consigo parar de pensar em você.''

Lola leu e dobrou o bilhete e deixou em cima da mesa e ficou perplexa. Obviamente, o bilhete foi escrito por Anna. Quando a menina iria lançar um olhar fulminante para a loira, a voz de Miranda a interrompeu.

– Deixem o trabalho acima de minha mesa, por favor!

O trabalho estava com Lola, então ela se virou e pegou na mochila que estava presa nas costas da cadeira e colocou as folhas grampeadas acima da mesa. Erick estava recolhendo os trabalhos dos alunos que estavam ao seu redor e pegou as folhas acima da mesa de Lola, porém a menina só se deu conta que ele também havia levado o bilhete audacioso de Anna, depois que todos os trabalhos já estavam acima da mesa de Miranda.

– Obrigada, Erick!

– De nada, professora!

– Conforme forem acabando de copiar a matéria podem ir pro intervalo, na volta eu explicarei. — explicou Miranda à todos os alunos.

Passaram-se meia hora e conforme iam acabando de copiar, os alunos deixavam a sala, Erick foi um dos primeiros apesar de não ter copiado nem a metade pois estava mais interessado em mexer no celular. Anna foi para o intervalo e Lola largou o caderno sem acabar de copiar tudo e foi atrás dela.

– Quero falar com você! — disse Lola enquanto observava a loira conversando com uma amiga ao lado.

– Comigo? Ok, me espere na cantina. — declarou Anna para amiga.

Lola esperou a amiga de Anna ir embora e estar afastada o suficiente para não ouvir a conversa delas.

– Você que escreveu aquele bilhete, não foi?

– Não sei do que você está falando...

– Não sabe? Não se faça de desentendida! — Lola puxou o cotovelo de Anna quando ela iria deixá-la falando sozinha.

– Eu? Desentendida? A única que está se fazendo de desentendida aqui é você.

Lola arregalou os olhos e ficou sem reação.

Anna esboçou um sorrisinho debochado.

– Viu só, perdeu até as falas...

– Olha, aquilo que houve entre nós foi um erro. Vamos esquecer aquilo.

Ao ouvir tal frase o sorriso no rosto de Anna se desfez.

– Esquecer aquilo?

– Sim! Foi um erro que não pretendo cometer novamente.

Anna engoliu em seco e fechou o punho da mão.

– Eu me desabafo com você, conto do meu segredo, das coisas que me afligem e é assim que você me trata?

Lola ficou sem ação e sem saber o que responder então permaneceu calada.

Anna era mimada e isso todos já sabiam mas o que Lola não sabia é que a menina havia levado o que ocorreu entre elas a sério demais. Para Lola aquilo foi um deslize e sua vida já estava bastante bagunçada por ter se envolvido com Miranda, que era a professora de português do colégio e agora ter beijado a filha do diretor já tinha cedido a cota de erros para ela.

– Eu, sinceramente...

A presença de Erick a interrompeu.

– Meninas, então vocês viraram amigas? — perguntou ele se apoiando em um dos ombros de Lola.

– Erick, não é uma boa hora...

– Eita, estão brigando? Bom, vou nessa... E eu achando que vocês finalmente se entenderam...

– Pode ficar com seu amiguinho, Lola. — zombou Anna.

– Anna, eu...

Já era tarde pois Anna havia partido e deixou Lola e Erick no meio do corredor sozinhos.

– Vocês não estavam se dando bem? O que houve?

– Estávamos mas...

Erick ficou esperando a resposta da amiga mas ao invés disso ela simplesmente resolveu fugir do assunto.

– Ah, esquece. Anna e eu nunca vamos nos dar bem.

**********

Após voltarem do intervalo, os alunos tomaram seus lugares e Miranda deu início a sua aula e explicou a matéria do dia.

Os alunos prestaram atenção e ela explicou que chamaria cada dupla em sua mesa para entregar o trabalho que ela havia corrigido no intervalo. Após chamar cada dupla, Miranda iria dispensando os alunos para irem embora do colégio, e a última dupla a ser chamada foi Anna e Lola.

– Então, vocês podem me dizer o que significa isto? — Miranda perguntou segurando o bilhete atrevido escrito por Anna.

Lola e Anna se entreolharam sem saber o que dizer.

A tensão tomava conta do lugar e enquanto Lola roía a unha do dedão pintado de preto, Anna enrolava o rabo de cavalo com os dedos e fazia cachinhos e Miranda esperava uma explicação para aquilo. Não havia como mentirem e dizer que não era delas pois o bilhete havia ficado grudado atrás das folhas do trabalho sobre ''Romeu e Julieta''.

– Vão me dizer ou terei que começar a inquisição?

Miranda questionou mais uma vez enquanto arqueava uma de suas sobrancelhas.