A Cor Púrpura De Teus Cabelos
90 Consequências
Deep Purple (Dean Martin)
When the deep purple falls
Over sleepy garden walls
And the stars begin to flicker in the sky
Through the mist of a memory
You wander back to me
Breathing my name with a sigh
In the still of the night
Once again I'll hold you tight
Though you're gone your love lives on
When moonlight beams
And as long as my heart will beat
Love we'll always meet
Here in my deep purple dreams
And as long as my heart will beat
Love we'll always meet
Here in my deep purple dreams
A chuva que caía do céu estava forte e as gotas, que tocavam o corpo de Miranda, eram testemunhas daquela cena triste. Lola gritava e chorava em cima do corpo da amada. Ela não conseguia raciocinar direito, não passou em sua cabeça a ideia de ligar para o médico e chamar uma ambulância, pois a garota só queria segurar o corpo da amada e impedi-la de partir.
Henrique assistia de longe o que havia feito. Seu verdadeiro intuito era impedir que sua esposa lhe deixasse, nem que para isso ele precisasse eliminar alguém usando as próprias armas. E infelizmente foi isso que ele fez; acabou atirando na pessoa que ele mais amou em toda a sua vida. Ele atirou em Miranda. Ao se dar conta da tamanha atrocidade que havia cometido, ele olhou para os lados, verificando se alguém o havia descoberto, e recobrou a lucidez; ou apenas o resquício para que fosse embora daquele lugar. Mas ele só deu os primeiros passos, para finalmente sair do lugar quando viu Lúcio indo em direção a filha que amparava Miranda desacordada em seus braços. Mas nenhuma cena como aquela conseguiu fazer com que Henrique se tocasse e percebesse o que havia feito. Nada o fez com que se entregasse. Ele deu as costas, entrou no próprio carro, girou a chave,deu partida cantando os pneus e assim assinou sua própria sentença. Deixou quem mais amou para trás sem pensar nas consequências. O que ele havia feito, agora, já não tinha mais volta e aquilo poderia assombrá-lo para o resto da vida. Como alguém era capaz de ferir uma pessoa que amava? Como o amor havia se transformado em ódio? Estas perguntas, Henrique era incapaz de responder, mas ele sabia que o sentimento de impedir que alguém tivesse o que era dele havia crescido e se transformado em ódio. E a sede de vingança o cegou por completo, colocando o amor de sua vida em um jogo cruel e talvez sem volta.
***
O pai de Lola correu de encontro a filha que estava em prantos no chão com o corpo de Miranda em seus braços. A mancha vermelha no vestido verde no ventre da professora ganhara volume a cada segundo. Quando Lúcio avistou o sangue e percebeu que ela havia sido atingida, os dedos rídios e firmes digitavam o número de emergência na tela do celular. Ele suplicou por atendimento e após dar o endereço do local ele aguardou a ambulância.
— Pai, ela não pode morrer...
Lola soluçava enquanto dizia aquelas palavras.
Lúcio, ao ver sua filha beijando a testa da professora e a abraçando, engoliu em seco, fechou os olhos e cerrou o punho enquanto respirava fundo antes de tirar sua filha daquela situação.
— Lola, eu quero que você levante desse chão agora! — ele vociferou enquanto tirava o excesso de água da chuva do próprio rosto.
A menina levantou o rosto lentamente -pois seus olhos não queriam deixar Miranda- e ela ergueu a cabeça para olhar para o próprio pai. Ela estava incrédula no que havia acabado de ouvir.
— Eu não vou deixá-la!
— Levante daí, agora! Eu estou mandando.
— Eu nunca irei deixá-la,pai. Eu a amo.
Lola abraçou o corpo dela e beijou a testa fria da professora. Chorava desesperadamente.
— Vá para o carro!
— Não posso deixá-la sozinha.
— Ela não ficará sozinha pois eu irei ampará-la enquanto a ambulância chega.
— Você não entende, não é? Eu amo Miranda e jamais irei abandoná-la. Daqui para frente ninguém vai me impedir de amá-la. Ninguém!
Lúcio não aguentou ouvir aquelas palavras pois o feria na alma. Felizmente a chegada da ambulância o impediu de cometer qualquer loucura com sua primogênita.
O barulho da sirene chamou atenção e Michele saiu do carro. A chuva ficou mais fraca e as gotículas que caíam do céu agora eram mais finas. Os enfermeiros e para-médicos saíram da ambulância e foram de encontro à Miranda. Então foi a deixa perfeita para que Lúcio afastasse Lola de sua amada ferida. Ele a pegou por trás e a puxou do chão enquanto a menina relutava ao ver os enfermeiros colocarem Miranda na maca e ampará-la dentro do carro da ambulância.
— Me solte! Eu quero ir com ela!
A menina gritava mas era em vão pois a força dos braços de seu pai eram maiores.
— Você não vai a lugar algum.
Os olhos castanhos de Dolores observavam quando a ambulância fechou as portas e partiu para longe. O pai tirou o paletó que vestia e colocou sob os ombros de sua filha que estava arrasada e desolada. Eles se encaminharam para dentro do carro e Michele abraçou sua enteada e a confortou com palavras bonitas, mas nada a fazia com que Lola parasse de chorar.
A sensação terrível que talvez pudesse perder mais uma pessoa que ela amava a deixava angustiada. Já havia perdido sua própria mãe e recentemente sua amiga Sofia para a morte. Não queria entregar Miranda, sua amante recém revelada à todos, para um destino terrível. Por mais triste que estivesse, algo dentro dela a dizia que aquele não era o fim e que a professora ficaria bem. Então naquela noite chuvosa, ela pegou no sono com o único fio de esperança que restava em seu interior.
***
NARRAÇÃO DE MIRANDA
O burburinho de vozes ao meu redor me ensurdecia. Sentia uma dor latente e ardente em meu abdome. Eu ansiava por abrir os olhos mas não conseguia. Queria mexer meus dedos da mão mas algo me impedia. Um barulho de tecido sendo rasgado me chamou a atenção. Senti meu corpo se arrepiar com o frio do local, então percebi que eles estavam me despindo. Alguém rasgou meu vestido e deixou meu ferimento exposto. Antes de deixar meu corpo, senti aparelhos metálicos e frios encostarem em minha pele. Dei um suspiro longo e de repente meu corpo ficou leve como uma pluma. Me elevei até o teto e quando olhei para baixo vi meu próprio corpo deitado na cama do hospital enquanto os médicos davam início a cirurgia de remoção da bala oriunda da arma de Henrique. Quando percebi o que estava acontecendo, almejei voltar para o meu corpo mas uma voz feminina e desconhecida me chamou e olhei em minha volta em busca de sua dona.
— Miranda, não se preocupe – a voz reverberou ao longe.
— Quem está falando? – eu perguntei,
Então algo extraordinário aconteceu. Uma mulher loira vestindo uma túnica branca surgiu no chão do hospital.
— Desça – ela me pediu.
Eu não sabendo como fiz, desci e fui de encontro àquela mulher.
— O que você quer de mim? Você é um anjo?
Ela me esboçou um sorriso bondoso e sua presença me pareceu ser familiar.
— Me siga.
Antes de obedecê-la, lancei um último olhar para meu corpo físico que estava sob os cuidados médicos e almejei poder voltar a hospedá-lo.
— Não se preocupe. Ainda não é a sua hora de partir deste mundo.
Eu não compreendi o que aquela mulher misteriosa me dizia mas a segui mesmo assim.
Estávamos no corredor do hospital, mas as pessoas ao nosso redor não conseguiam perceber nossa presença. Médicos, pacientes, acompanhantes, enfermeiros, assistentes, atendentes e crianças não perceberam quando seguimos um caminho estreito em um corredor vazio. Foi então que os piores pensamentos surgiram em minha cabeça. Se nenhum deles podia me ver, isto significava que eu estava morta?
— Eu... Eu sou um fantasma? – perguntei desesperada.
A mulher loira com vestido branco parou de andar e olhou para mim.
— Não. Você é um espírito. Sua matéria física está naquele quarto em cirurgia. Sua matéria espiritual está falando comigo agora neste exato momento.
Levei uma mão à boca, incrédula no que estava ouvindo. Lembrei do meu ferimento e quando fui em busca dele percebi que não estava mais lá. Não havia vestígios da bala. Eu estava completamente sadia.
— Como isto é possível?
Mas ao invés da mulher me responder, ela abriu uma porta e revelou um berçário. Diversos bebês envoltos a mantas estavam deitados em suas incubadoras. Porque ela havia me trazido para aquele local? Aquilo só poderia ser um sonho. Desejei ser acordada imediatamente. Queria despertar daquele sonho louco e acordar em minha cama e em meu apartamento. Desejei que nada daquilo fosse real. Aquele dia da fuga era algo de minha cabeça. Eu acordaria e veria que tudo não passara de um pesadelo e que o dia mais glorioso de minha vida estava só começando, mas não foi isso que aconteceu. A mulher revelou um bebê coberto por um manto azul celeste e ele tinha olhos verdes, tão profundos e bonitos quanto os meus. Foi então que percebi quem ele era.
— Ele estava a sua espera.
Não precisei que ela confirmasse minhas suspeitas. Eu sabia que aquele bebê era meu filho. Tinha certeza que ele era o filho que eu não tivera a chance de conhecer devido ao aborto espontâneo que eu sofrera.
Meus olhos ficaram marejados e quando ela pegou meu filho nos braços e me entregou, tive certeza de que ele era meu.
— Meu bebê. Meu anjo...
Beijei sua testa e ouvi um gemido agradável do neném. Ele deu uma risada brincalhona. Segurei em sua mãozinha e beijei seus dedinhos. Alisei o pouco cabelo que tinha e com o dorso da mão acariciei suas bochechas rosadas.
A mulher desconhecida nos observava a distâncias e exibia um sorriso bondoso e satisfeito no rosto. Não sei por quanto tempo fiquei com meu filho em meus braços, mas sei que não foram o suficiente para suprir a ausência dele em minha vida.
— Esta é a hora de partimos.
— Não quero deixá-lo. Quero ficar aqui com ele para sempre – eu disse enquanto o beijava na testa e o aninhava em meu peito.
— Não. Ele ainda não está pronto para retornar.
Franzi o cenho em incompreensão.
— Devemos partir agora. Sua matéria física espera pelo seu espírito.
Olhei para meu filho e o beijei pela última vez. Ela o tirou de meus braços e o recolocou no berço. O choro de alguns bebês na sala ecoaram pelo local.
— Chegou a hora de voltar.
Ela se dirigiu à frente e eu a segui. Voltamos ao corredor onde ninguém prestava atenção em nossa presença. Algumas pessoas nos atravessavam e eu confirmei a tese de que eu era realmente um espírito, mas ainda tinha em mente que aquela mulher era um anjo pois a luz que emanava se seu ser era diferente e exalava bondade.
Voltamos ao quarto onde os médicos estavam em volta de meu corpo. Percebi que eles estavam desesperados e afoitos pois meu físico não respondia aos estímulos. Quando um dos médicos pegou o aparelho de choque e os friccionou pedindo para que todos à sua volta se afastassem, meu anjo se apressou e me pediu para que eu fosse de encontro ao meu corpo.
Me encaminhei a beirada da cama, mas antes de me unir ao corpo, olhei novamente para a mulher que havia sido meu guia e fiz um última pergunta.
— Você é um anjo? Como se chama?
Antes de me responder, ela sorriu e abriu a boca para me dizer:
— Meu nome é Mayra.
Então ela desapareceu aos poucos e soube que era a hora de voltar ao plano dos vivos. Estiquei um braço e quando meu espírito se encontrou com meu corpo uma força me sugou de volta ao mundo dos vivos.
Minutos ou horas depois, não sei ao certo dizer, um clarão me incomodava. Então minhas pálpebras piscaram lentamente e finalmente abri meus olhos. Uma mulher negra de cabelos cacheados percebeu que eu havia acordado e então se animou. Percebi que ela era a enfermeira pela vestimenta que usava e por deixar o medicamento que estava segurando, na bancada e depois foi em busca do médico. Ela retonou a poucos minutos na companhia de um senhor com um bigode espesso.
— Ela acordou.
Eles ficaram felizes pois eu havia retornado à vida. Não lembrava do que tinha acontecido, mas a imagem de uma mulher loira e bondosa não saía de minha cabeça.
***
NARRAÇÃO DE LOLA
Minha cabeça doía. Meu corpo todo doía. Quando abri os olhos e levantei da cama, lembrei de tudo o que havia acontecido. A cena de Miranda sangrando em meus braços e a chuva caindo sob nossas cabeças, retornou em minha mente e fez meu peito doer. Foi quando ouvi meu pai falando ao celular na sala. Fui na direção da voz dele e o ouvi quando ele confirmou o estado de Miranda e para meu alívio ela estava bem e lúcida. Ele conversava com o médico e ficou satisfeito ao saber que a bala havia sido retirada e que por sorte nenhum órgão foi atingido. Respirei de alívio enquanto ouvia a conversa mais clara ao meu aproximar mais dele. Vi quando Michele o entregou uma xícara de café e sentou ao seu lado, curiosa por querer saber como Miranda estava. Meu pai fazia um sinal com a mão para que ela esperasse ele acabar de falar ao celular.
— Não, doutor. Não faço ideia de quem poderia ter atingido Miranda com a arma.
Foi então que eu resolvi revelar minha presença e gritar o nome da única pessoa que eu achava capaz de cometer aquele ato.
— Foi Henrique! Foi ele quem atirou em Miranda.
Michele largou a xícara de café que bebia e me olhou surpresa. Meu pai me olhou assustado.
— Tem certeza do que está falando, Dolores? – ele me perguntou enquanto tampava o bocal do telefone com uma mão em forma de concha.
— Tenho certeza absoluta. Ele era a única pessoa que seria capaz de cometer esta atrocidade por ciúmes. E uma vez eu vi a suposta arma no apartamento deles.
Meu pai trocou olhares com Michele e então olhou novamente para mim.
— Doutor, depois retorno a ligação – ele se despediu e desligou o aparelho- Então mandarei policiais revistarem o apartamento deles.
Antes dele pegar o celular e ligar para alguém, eu o questionei sobre Miranda.
— E ela? Como está?
— Eu iria vê-la no hospital e enquanto isso mando uma viatura da polícia ir em busca do suspeito. Ligarei para um amigo que é delegado. Ele me ajudará com tudo.
Suspirei de alívio ao lembre que meu pai era advogado.
— Mas eu quero ir com você ao hospital. Preciso vê-la.
Lúcio me lançou um olhar severo e eu já sabia o que estava por vir.
— Você não irá a parte alguma. Você não vai vê-la. Nunca mais.
Ele disse estas palavras e trancou a porta e a bateu em minha cara quando eu tentei o seguir. Comecei a chorar e senti as mãos de Michele em meus ombros para me consolar. Caí no chão e fiquei de costas na porta. Chorei desesperadamente enquanto aguardava o retorno de meu pai.
***
Passaram-se seis horas e vi meu pai retornar e adentrar pela mesma porta que havia saído.
Michele e eu estávamos deitadas no sofá assistindo televisão. No meu caso eu não estava prestando atenção em nada que passava, apenas resolvi matar as horas esperando por ele.
— Como ela está? Prenderam Henrique?
Michele viu eu pai se sentar exausto no sofá e foi para cozinha e retornou com um copo d’água nas mãos. Ele bebeu todo o líquido antes de começar a falar.
— Os policiais encontraram o apartamento de Miranda revirado. Móveis derrubados e gavetas escancaradas. Ele havia furtado as joias da ex esposa e tudo o que tinha de valor no local. Segui seu conselho, Lola e pedi para que revistassem a gaveta em busca de uma caixa verde água. Os policiais a guardaram e vendo que Henrique não estava em casa, deram início a busca. Por sorte dos policiais e para a infelicidade do suspeito, o pegaram na esquina em um bar. Ele estava completamente bêbado. Estava acabado em todos os sentidos. Quando falaram para que ele entrasse no carro da polícia para depor na delegacia ele sacou a arma na cintura e mirou para eles. No mesmo momento os policias deram voz de prisão e o levaram na viatura. O carro dele com os pertences também foi apreendido. Agora estão analisando se aquela é realmente a arma onde o tiro que atingiu Mirando foi disparado. Caso seja, ele será preso e farei o possível para que cumpra a pena por tentativa de homicídio e desacato à autoridade. Entramos em contato com os pais dele que estavam arrasados e vão depor contra o próprio filho na delegacia. Eles delatam que na mesma hora em que Miranda saiu de casa, Henrique foi atrás dela. Com isso, me disseram que foram passar a noite no hotel pois sabia que o casal estava em crise e não queriam se meter.
Michele e eu ouvíamos tudo em apreensão.
— E Miranda? Ela está bem? – perguntou Michele poupando-me as palavras.
Lúcio suspirou e me olhou dizendo com mal humor.
— Ela está bem. Fora de perigo e já acordou.
— Graças à Deus! – disse Michele aliviada.
— Pai, eu quero vê-la! – supliquei.
Ele me lançou aquele olhar severo.
— Eu não direi onde ela está. Não posso permitir que volte a vê-la, Dolores. Isso iria contra os meus princípios.
— Mas, Lúcio. Ela...
Michele tentou interver mas se calou ao ver que era impossível discutir com meu pai.
— Você é cruel, pai.
— Sou justo e correto. Vá para o seu quarto! – ele vociferou- E não saia de lá até eu mandar.
Antes de me retirar da sala eu disse:
— Miranda é o amor da minha vida e nada e ninguém nos afastará. De algum modo eu sei que irei tê-la novamente em meus braços e você nãos era capaz de me impedir.
Ele não disse nada, apenas balançou a cabeça. Eu fui para meu quarto e me tranquei. Então tive uma brilhante ideia. Como meu pai havia telefonado para o médico usando o celular, eu iria anotar o número e ligar perguntando o endereço do hospital. O médico não saberia que ele não iria querer que ele falasse o endereço. Mas para colocar meu plano em prática eu precisaria da ajuda de alguém e esta pessoa era meu amigo fiel. Pediria a Erick que me levasse ao hospital em sua moto. Eu sabia que por mais que ele não fosse a favor do meu amor pela Miranda, ele jamais me negaria um favor. Ainda mais algo como aquele. Eu iria ver novamente Miranda, nem que isso foi a última coisa que eu fizesse em vida.
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