NARRAÇÃO DE ANNA

Eu poderia ter desistido. Poderia ter deixado o meu plano de lado. Deixaria Lola intacta para seguir sua vida, pois após a celebração de encerramento do ensino médio eu, provavelmente, não a veria mesmo. Pelo menos não com tanta frequência que a via na escola.
Não sabia dizer ao certo em que momento eu comecei a implicar com ela. Estudávamos juntas neste mesmo colégio desde a sétima série. Na verdade nunca fomos próximas, nunca quis ser amiga dela, mas de um certo modo havíamos crescido juntas e talvez, por este motivo eu devesse deixar os ressentimentos de lado e deixá-la em paz. A verdade é que eu nunca senti raiva dela. Quer dizer, nunca a odiei para valer. Mas me incomoda a maneira como ela conseguia chamar atenção de todos sem fazer nenhum esforço. Era um conjunto: o cabelo roxo, as vestes e a personalidade marcante. Não havia uma pessoa naquele colégio, ou que passasse por ela na rua que não sentisse sua presença. Ela nunca passava despercebida e era isto que me incomodava. Eu tinha tudo que queria; uma vida confortável, roupas de marca, um cabelo bonito e um corpo estonteante. Mas para chamar a mesma atenção que ela eu tinha que me esforçar.
Somando isto e o fato da ausência de minha mãe na minha vida eu me tornei uma pessoa difícil de lidar. Com a vantagem de ser a filha do diretor do colégio eu tinha todas as cartas na mão, menos carisma. Eu sabia que as pessoas que se aproximavam de mim ou era por interesse ou por medo, no fundo eu nunca tive um amigo verdadeiro ao meu lado e isso me doía por dentro.
Naquele dia em que Lola veio a minha casa para fazermos o trabalho de português, eu pensei que poderíamos ter sido amigas. Quando nos aproximamos em meu quarto tudo em minha mente começou a fazer sentido. Quando senti meu coração se acelerar peça simples presença dela, percebi que toda a minha implicância não passava de um amor não correspondido. Depois do beijo que tivemos eu quis tocá-la, acariciá-la e tê-la em meus braços. Queria sentir o perfume de teus cabelos cor de púrpura. Mas quando percebi que ela não estava apaixonada por mim e sim por outra pessoa e que para piorar, esta pessoa era ninguém menos que Miranda, a nossa professora de português, senti meu chão se abrir diante de meus pés e meu mundo se desmoronou.
Do amor eu passei, subitamente ao ódio. Não poderia deixar que ficassem juntas. De maneira alguma. Pensei que se eu não poderia tê-la, ninguém mais haveria de ter.
Quando a vi entrar no salão do colégio, estremeci por dentro. Ela estava mais linda do que nunca naquele vestido branco. Cogitei, confesso, em abortar meu plano. Abdicar de minha vingança. Abandonar o barco e deixar de lado as desavenças que tínhamos, mas quando a vi feliz e radiante junto com o pai e com a madrasta voltei a realidade e decidi que não iria abandonar meu plano. Ela tinha tudo que eu não tinha; família, amigos e alguém que a amasse. E eu não tinha nada. Isto não era justo e eu faria com que ela tivesse o que merecia. Se eu não poderia ser feliz, ela também não poderia ser. Foi então que resolvi de uma vez por todas seguir com o meu plano. Coloquei o meu pen drive conectado ao computador que iria exibir no telão um vídeo em homenagem aos alunos. A surpresa no final ficaria por minha conta. Adicionei algo a mais no final do vídeo e salvei a nova versão. Aproveitei que o técnico e responsável pelo computador estava conversando com meu pai no outro lado do salão e coloquei meu plano em prática.
Se jogar Dolores em cima do próprio bolo de aniversário foi surpreendente e cruel, mal podia esperar pelo o que achariam do que eu estava prestes a fazer.

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NARRAÇÃO DE LOLA

Chegamos ao colégio e fomos em direção ao grande salão onde a cerimônia iria ser realizada.
Tentei despistar meu pai para poder colocar minha bolsa no carro de Miranda mas quando voltei ao estacionamento percebi que algo estava errado pois eu não achava o carro dela. Liguei para o celular dela mas só dava caixa postal, então resolvi mandar uma mensagem de texto, torcendo para que ela a lesse. Sem saber o que fazer com minha pequena bolsa, resolvi escondê-la embaixo do carro do meu pai pois assim que Miranda chegasse eu o pegaria e iria direto para o carro dela.
Chutei a bolsa para baixo do carro, não me abaixei pois não queria manchar meu vestido branco. No exato momento em que eu tinha acabado de esconder meus pertences, levei um susto com a voz de Erick por trás de meus ombros.
— Quem é está menina linda? Seria uma deusa do Olimpo ou apenas minha amiga Lola?
Virei-me e o abracei sorrindo. Ele estava com uma calça preta, sapatos pretos e uma blusa social na cor cinza. Ele estava realmente muito bonito.
— Você está lindo!
Ele me abraçou e vi que os pais dele estavam presentes. Dona Helena usava um vestido verde que realçava os cabelos ruivos e Seu Manoel estava de terno e gravata nas cores azul bebê e calça e paletó nas cores preta. Fui ao encontro deles e os cumprimentei.
— Meu Deus, como está bela! – Seu Manoel me elogiou.
— Nem parece que era aquela menininha que brincava com meu filho lá em casa. Sua mão ficaria orgulhosa.
As palavras de Helena me emocionaram mas não chorei. Agradeci aos elogios e nos encaminhamos para dentro do colégio pois a cerimônia iria começar logo.

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NARRAÇÃO DE MIRANDA

Só faltava eu passar o batom vermelho e pegar minha bolsa para finalmente ir à formatura.
Não conseguia acreditar que este dia tinha finalmente chegado. Todos os meus alunos se formaram com notas boas em minha matéria. Ter a sensação de dever cumprido é a melhor coisa do mundo. Eu estava radiante também pois logo iria fugir com minha amada. À princípio achei a ideia algo leviano. Um tanto quanto juvenil. Viver com Lola havia me dado uma visão diferente da vida. Ela me ensinou que nunca é tarde para sonhar e por mais louco que parecesse, um dos meus sonhos era fugir com ela e eu estava disposta a fazer qualquer coisa para realizar este desejo.
Estava arrumando o meu vestido longo de tomara-que-caia da cor verde água, quando fui surpreendida por alguém batendo na porta. Eu não estava esperando visitas e sabia que Henrique chegaria tarde em casa, mas claro, ele não iria me ver. Nunca mais me veria. Minha mala com meus pertences já estava no carro. Tudo estava planejado. Lola e eu fugiríamos naquela noite após a formatura.
A batida na porta não cessara, então peguei minha bolsa de mão e guardei meu batom dentro dela. Dei uma última arrumada no cabelo e fui abrir a porta. Meus olhos não acreditaram no que estavam vendo. Fiquei boquiaberta e sem ação.
— Oi, querida. Olha só quem veio jantar conosco esta noite.
Henrique segurava uma caixa na mão e ao seu lado estava acompanhado pelos pais. Não podia acreditar no que ele estava fazendo. Resolveu trazer os próprios pais em benefício próprio a fim de me reconquistar pois ele sabia que eu os adorava.
— Desculpa por não ter aberto a porta, pois estou com as mãos ocupadas. Trouxe torta de limão que você tanto gosta para a sobremesa.
Henrique percebeu minha incompreensão e falta de palavras.
— Não vai dizer nada? – ele me perguntou me sondando com aqueles olhos azuis.
— Querida, quanto tempo! – a mãe de meu ex marido me cumprimentou com um beijo no rosto.
— Olá, dona Mônica!
— Como está bonita e bem arrumada. Iria a algum lugar?
Seu Fernando, o pai de Henrique, me questionou. Lancei um olhar fugaz para o filho dele. Ele sabia que aquela noite era o dia da formatura, mas tinha jogado sujo ao trazer os próprios pais para jantar conosco e ele sabia que eu jamais recusaria e os deixaria sozinhos. Jamais faria tal desfeita, mas não deixei de ser franca com eles.
— Bom, hoje é a formatura de meus alunos. Por isso estou arrumada.
O olhar deles em compreensão acalentou meu coração, pois eu tinha esperança que eles me dispensassem.
— Mas isto não impede que jante com seu marido e os pais esta noite, não é?
Henrique me perguntou enquanto passava a mão pelos cabelos grisalhos e brilhosos.
— Claro que não. Posso jantar com vocês e depois ir ao colégio para participar da comemoração final.
Vi a alegria invadir os rostos de meus ex sogros e percebi algo sombrio no olhar de Henrique mas o ignorei e sentei na cadeira que Fernando havia puxado para mim.

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NARRAÇÃO DE LOLA

Assim que retornei ao salão, meu pai e Michele cumprimentaram e se sentaram perto dos pais de Erick. Em poucos minutos o salão ficou repleto de pais e alunos. Pais orgulhosos e filhos felizes mas apreensivos.
A decoração do lugar estava maravilhosa. Havia cadeiras acolchoadas dispostas para os pais e localizadas em direção ao grande telão na parede.
Em frente aos pais, nós, os alunos iríamos nos sentar em cadeiras confortáveis dispostas em um palanque que dava a possibilidade de visão para todos. Ao lado direito havia um outro telão para que os alunos pudessem ver. Um pano de tecido azul enfeitava amesa onde havia os canudos de formatura, com flores vermelhas enfeitando tudo. Balões prateados e cheios de gás hélio estavam enfeitando os quatro cantos da grande sala.
Um grande cartaz acima da cabeça dos alunos e logo abaixo do telão, estava escrito a frase ‘’Parabéns aos formandos de 2015’’. Os cartazes em cartolina que os alunos fizeram por conta própria, ficava no lado oposto da sala pendurados na parede. O meu, que eu havia feito com a ajuda de Miranda, também estava lá e abaixo havia uma grande mesa com sucos e canpés, salgadinhos e mini tortas para todos comerem no fim da celebração.
Puxei meu pai pelos braços e o mostrei o cartaz que havia feito.
— Que lindo, Lola. Você tirou da sua própria cabeça esta frase?
— Sim, mas Miranda me ajudou com tudo.
— Ficou lindo. Falando nela, onde ela está?
— Ela ainda não chegou.
Meu pai percebeu que eu estava aflita, então me abraçou e disse para eu ficar tranquila pois ela chegaria.
— Você realmente gosta dela, não é?
Quando ele me perguntou isto meu coração se disparou mas logo percebi que ele estava falando com outro sentido da palavra ‘’gostar’’.
— Sim. Ela é uma excelente profissional e uma grande amiga também.
Meu pai sorriu.
— As vezes eu conseguia as enxergar como mãe e filha devido a conexão grande que vocês tem.
Olhei para as minhas próprias mãos, tomei fôlego e decidi que iria contar que Miranda era mais que uma amiga. Era o amor da minha vida.
— Pai, eu...
Mas Roberta nos interrompeu quando me chamou aos berros para me juntar à eles e vestir a beca pois a cerimônia começaria logo.
— Vai lá, filha. Estão te chamando.
Antes de partir, lancei um olhar se súplica para ele, tentando indicar que eu queria dizer algo, mas foi em vão pois ele não havia percebido.

*****

NARRAÇÃO DE MIRANDA

— A comida está boa?
Henrique havia posto a mesa e nos servido com o prato que eu mais gostava: comida italiana. Ele realmente estava jogando baixo.
— Está ótima, meu filho – dona Mônica respondeu por mim.
— Como vão as coisas na empresa, Henrique? Tem trabalhado bastante?
— Sim, pai. Com os preparativos da cidade para as olimpíadas estamos correndo contra o tempo e dando uns ajustes finais nas obras.
Henrique era um engenheiro civil muito bem sucedido.
— E você, Miranda? Como vai o trabalho?
Mastiguei a garfada de minha lasanha ao molho branco e beberiquei o vinho antes de respondê-lo.
— O ano letivo foi maravilhoso. Esta nova escola foi algo especial para mim. Ensinei e aprendi muita coisa com os meus alunos. É uma troca, sabe?
— Sim, querida. Sei que você é uma professora dedicada – Mônica me elogiou.
— Dedicada até demais. Ela até deu aula de reforço de graça para uma de suas alunas. – Henrique observou.
Revirei os olhos e ri por dentro ao perceber que tinha aprendido este hábito convivendo com Lola.
— Isto é que é ser uma professora com grande coração, meu filho. Sempre achei que Miranda daria uma bela mãe.
Quase me engasguei com o vinho que estava bebendo. Henrique olhou para mim e engoliu em seco e resolveu mudar de assunto.
— Mas me digam, como vão a vida de vocês? Tem viajado bastante?
— Sim, filho. Pelo menos temos vantagem em sermos aposentados – meu ex sogro riu enquanto espetava um ravióli recheado.
— Ah,sim. Conhecemos o Brasil quase por inteiro. Neste final de ano queremos fazer um ‘’mochilão’‘pelo Nordeste e conhecer aquelas praias maravilhosas. Estava pensando que seria adorável que vocês dois fossem conosco neste viagem. O que acham?
Henrique me olhou e eu lhe lancei um olhar desafiador. Nem deu tempo dele gaguejar para tentar dizer algo. Se ele estivesse bebendo, com toda a certeza se engasgaria, mas acho que o macarrão que estava comendo desceu com dificuldade pela garganta quando ouviu minhas palavras ecoarem pelo nosso apartamento.
— Creio que isto seria impossível, pois o filho de vocês e eu estamos separados e nada me fará mudar de ideia.
Mal percebi as palavras saindo de minha boca. Com toda a certeza Henrique não esperava por isso. Arruinei co o jogo dele e exibi meu melhor sorriso para que percebessem que eu não estava abalada, pelo contrário, eu estava aliviada em dizer-lhes a verdade.

*****

NARRAÇÃO DE LOLA

Vestimos nossas becas e fizemos uma fila fora do salão. Fomos chamados para entrar por ordem alfabética e senti meu coração bater mais forte quando ouvi chamarem meu nome por completo.
— Dolores Fernandéz Alves.
Caminhei por cima de um tapete vermelho e acenei para meu pai e Michele enquanto eles assobiaram e balançavam os braços. Me sentei ao lado de uma menina de outra classe e percebi que Anna lançava um olhar penetrante para mim. Como a primeira letra do nome dela não se distanciava muito da minha, ficamos próximas. Quando Wanessa, a última aluna a ser chamada sentou-se em uma das cadeiras dispostas, o diretor Cézar indicou para que abaixassem a música e começou o seu discurso ao microfone.
Ele estava sentado com os demais professores na grande mesa com os canudos acima dela. Todos bem arrumados e sorridentes, bem diferentes do cotidiano.
— É um prazer darmos início à esta celebração de um final de um ciclo. Sei que foi difícil chegarem até aqui pois tiveram que se esforçar. Não pensem que este é o fim, pois é somente o começo de uma nova vida para todos. Independentemente do que desejam ser e seguir, espero que sigam o caminho do bem e que consigam pesar na balança as coisas difíceis a serem feitas e analisar se estão corretos e tomando as decisões certas. Consigo ver entre nós futuros engenheiros, médicos, arquitetos, geólogos, professores ou quem sabe um futuro ou futura presidente? — todos riram neste momento- Qualquer que sejam suas profissões quero que tenham em mente que o mais importante é seguirem o bem. Que vocês possam ser homens e mulheres de bem. Que sejam cidadãos éticos e responsáveis pois vocês são o futuro da nação. Vocês são a nossa esperança, por isso almejo que nos orgulhem. E acima de tudo desejo que sejam felizes.
Todos o aplaudiram e vibraram com suas belas palavras, mas era triste saber que sua própria filha não seguiria seu conselho com o que estava prestes a fazer. Me pergunto como eu não havia percebido antes as intenções macabras da diabólica loira. Enquanto outros professores discursavam, Anna exibia aquele sorriso dissimulado no rosto.

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O fim da cerimônia estava próxima. Iríamos pegar nossos canudos e depois fazer a típica jogada do chapéu para o alto enquanto um papel picado era jogado por cima de todos. Mas antes disto, um vídeo especial das turmas seria exibido no telão e a aluna escolhida para fazer um discurso breve em nome de todos os alunos era Roberta. Ela se aproximou do microfone e começou suas falas.
— Hoje estamos celebrando nossas vitórias de termos chegado até aqui e enfrentado obstáculos pelo caminho. Graças ao apoio dos professores e de nossos pais conseguimos dar o nosso melhor e finalmente concluirmos esta etapa de nossas vidas, mas infelizmente, pelo meio do percurso perdemos uma amiga e aluna muito especial.
A foto de Sofia foi exibida no telão. Ela estava exibindo seu melhor sorriso e suas sardinhas ficaram mais evidentes devido o sol. Ela estava linda com seus cabelos ruivos sob os ombros e era assim que eu queria me lembrar dela para sempre. Segurei meu colar que havia dado a ela em Setembro e o apertei com força entre os dedos enquanto deixava uma lágrima rolar pela minha face.
— Ela tinha o futuro brilhante pela frente, mas foi interrompido por um mal que aflige não só nossos jovens como à todos em nossa sociedade; perdemos Sofia para as drogas. Esta terrível substância química que desgraça famílias e lares levando pessoas queridas. Que aonde quer que ela esteja, saiba que esta comemoração também a pertence e que será lembrada por nós sempre.
Todos fizeram um minuto de silêncio e as lágrimas e soluços puderam ser ouvidas. Nem aquele momento triste conseguiu fazer com que amolecesse o coração de Anna e a impedisse de cometer aquele ato.
Assim que todos retomaram o fôlego deram ‘’play’’ no vídeo. Fotos de momentos variados dos alunos foram exibidas no telão com um fundo musical bastante triste. A música ‘’Photograph’’ do Ed Sheeran acompanhava as fotos que por vezes eram hilárias.
Alunos sorrindo em um passeio, Felipe , o nerd da turma, sorridente segurando uma prova que havia tirado a maior nota da turma, Anna se exibindo com seus cabelos na educação física, Sofia sorrindo enquanto fazia chifrinho na cabeça de outro aluno, meu coração disparou quando vi uma fotografia de Miranda com a turma naquela ida à exposição que acabei não indo. Quase me engasguei de rir quando vi uma foto de Erick ao meu lado na aula de história enquanto fazíamos caretas pelas costas da professora. Logo no fim da música algo pegou todos de surpresa. Estava escrito no telão algo como: ‘’mas nosso ano não foi marcado apenas por momentos felizes e emocionantes... também foi marcado por mentiras’’.
A palavra ‘’mentiras’’ estava diferente das outras letras brancas pois ela estava na cor vermelha.
Professores, pais e alunos se entreolharam sem saber o que estava acontecendo. Foi quando vi Anna levantar do lugar e ir em direção ao microfone e arrancá-lo das mãos de Roberta.
Consegui ouvir o sangue pulsando em minhas veias naquele momento. Meu estômago se contraiu e eu pensei que iria vomitar. A foto que foi exibida em seguida deixou todo mundo de boca aberta. A imagem que estava sendo exposta era uma foto tirada às escondidas de Miranda e eu mas nós não estávamos apenas próximas, estávamos nos beijando. Estávamos beijando na boca.
Fechei os olhos e pude ouvir o burburinho ao meu redor. Balancei a cabeça incrédula no que estava acontecendo. Abri os olhos na esperança de que aquilo fosse um pesadelo, mas não era.
— Senhoras e senhores, vocês mal imaginavam que um amor proibido estava acontecendo bem embaixo de vossos narizes, não é mesmo?
Anna perguntou em deboche e exibiu um sorriso branco naquele rosto maquiavélico. Como ela podia ser tão cruel?
— Pois é. Um amor proibido, mas é pior do que pensavam. Uma aluna e uma professora. Do mesmo sexo e com uma diferença enorme de idade se beijando às escondidas no estacionamento. Isso que eu chamo de flagra.
Não pensei no que estava prestes a fazer,apenas pulei as cadeiras em meu caminho e senti os olhares sendo dirigidos à mim. Eu não me importava pois o que eu queria era estrangular aquela garota.
Anna não percebeu quando voei por cima dela e lhe dei um belo tapa no rosto. O estalo do tapa fez um barulho forte e ouvi algumas pessoas soltarem um gritinho de espanto. Minhas mãos estavam na garganta fina dela enquanto eu sentia aquelas unhas postiças puxarem o meu cabelo. Rolamos pelo chão e fomos incentivadas por alguns alunos a continuarmos a briga física. Montei em cima de Anna e me preparei para lhe dar um soco bem dado naquele rosto.
— Isto é para aprender a ser uma vaca!
Antes de nos separarem, consegui agredi-la mas não no rosto como queria e sim no estômago. Sorri ao ver que ela estava chorando e segurando a barriga.
— Tira essa maluca de perto de mim! Ela quer me matar.
— Bem que você merecia apanhar, sua cobra!
Senti alguém me puxando para longe e percebi logo quem era.
— Lola, porquê isso? – perguntou Erick.
— Porquê ela merecia – respondi com raiva.
— Não... Porquê você fez isto com Miranda? – ele apontou para telão- Porquê a beijou? – perguntou ele com tristeza no olhar.
Não hesitei em dizer alto em plenos pulmões para todos ouvirem.
— Porque eu a amo! Eu amo Miranda e nada e ninguém vai nos impedir de sermos felizes – comecei a chorar desesperadamente.
Senti alguém me puxar com força pelos braços e percebi que era meu pai.
— Vamos para casa, agora!
— Mas, pai... eu...
— Não diga uma palavra! – ouvi meu pai gritar e espumar de raiva. Nunca o tinha visto tão bravo em toda a minha vida.
Vi Michele nos seguir e ao olhar para trás vi Cézar, o diretor, pegar Anna pelos braços e afastá-la da multidão como meu pai havia feito comigo.
Na saída, ouvi alguém me xingar na multidão e dizer palavras preconceituosas. Aquilo me fez chorar mais ainda.
Entramos no carro e a única coisa que consegui fazer foi chorar e meu coração se apertou mais ainda quando ouvi meu pai dizer algo terrível para mim.
— Você me decepcionou. Você é uma vergonha.
Ele dirigiu o carro com raiva e eu chorava com as mãos no rosto com vergonha, enquanto Michele colocava as mãos em meu ombro e tentava me amparar.

Notas finais
Esta história está na reta final, não deixe de curtir a fanpage no facebook ''A Cor Purpura de Teus Cabelos'' para ler os capítulos em primeira mão! ♥ Link: https://pt-br.facebook.com/acorpurpuradeteuscabelos/