A Cor Da Chuva
16 Capítulo 15 Dimitri Parte III
"O que você está fazendo?"
Eu continuei colocando minhas roupas na mala após escutar a voz do Diego, parado à porta. Meu quarto estava uma zona. Os armários, gavetas, criado-mudos, todos abertos. Roupas atiradas pela minha cama, malas de diferentes tamanhos espalhadas pelo chão.
Eu havia encontrado um apartamento semi-mobiliado ao meu gosto num prédio nem muito perto, nem muito afastado da casa e também a uma distância razoável da minha faculdade e do colégio do Diego. A localização era ideal, o bairro bonito, o preço extremamente salgado. Tive de usar boa parte da minha herança para comprá-lo, mas eu já vinha fazendo alguns investimentos pequenos para me sustentar ao longo da faculdade e, com o que sobrara, abriria um negócio assim que a concluísse.
"Arrumando minhas coisas." Disse, com certa vergonha de mim mesmo por ter escondido minha decisão de Diego ao longo daquele pouco mais de um mês, em que estive procurando lugar pra morar e organizando tudo. Lydia já sabia. Quando contei minha decisão a ela, pedi para que não falasse nada para o Diego. Teria sido um mês ainda mais desgastante caso ele soubesse desde o início.
Há um mês, Lydia pareceu triste, mas ao mesmo tempo aliviada. Abraçando o corpo e parecendo desconfortável, falou-me:
"Vou sentir saudades de ter você aqui, Dimitri... Mas acho que será bom para você sair de casa, tocar tua vida. Isso também vai ajudar o Diego a não ser tão dependente de ti. Vocês são... apegados demais." Ela disse tudo numa voz baixa, sem olhar para mim. Um arrepio gelado tomou-me a nuca frente aquelas palavras. Eu apenas assenti, sem coragem de negar nada.
Instinto de mãe.
Era melhor sair de casa antes que Lydia tivesse certeza do que se passava.
"Por quê?" A voz confusa de Diego me trouxe de volta ao presente. "Está indo viajar? Pra onde?" Ele entrou no quarto e intrometeu-se na minha frente, entre mim e o armário. Eu suspirei, culpado. Era hora da verdade, não podia mais escapar. Naquele mês eu havia agido naturalmente, fingindo que estava tudo bem. Diego ficara contente com aquilo, menos agressivo e magoado, e agora eu iria jogar outra bomba em sua cara.
"Estou me mudando."
Os lábios de Diego se entreabriram pela surpresa. Eram lábios nem grossos demais, nem finos demais, e o de cima tinha o desenho perfeito da borda superior de um coração. Eu quis beijar aqueles lábios só para mostrar que ainda o amava, que não ia embora por nenhum motivo fútil, ou por vontade própria.
Ia porque era necessário. Ia porque justamente queria beijá-lo.
"O-o quê?" Diego perguntou num fio de voz. "Pra onde? Por quê?"
"Pra um apartamento não muito longe daqui. Eu quero um pouco de independência, aprender a me virar sozinho." Falei mantendo a expressão neutra, mas a de Diego apenas piorou. "Diego... É algo normal, muita gente sai de casa em determinada idade."
Tentei tocar o braço dele, mas Diego me deu um tapa, afastando minha mão.
"Você não dá a mínima em sair daqui e se afastar, não é? Você já tem um apartamento, já está fazendo as malas... Não me falou nada até agora!" Me olhou com raiva e ressentimento que pareceram cortar meu peito. "Você é um desgraçado mesmo. Fez tudo pelas minhas costas!"
"Diego... Eu só não queria te estressar antes do tempo." Tentei. Os olhos dele queimavam com uma raiva que me deixou nervoso. Nunca o tinha visto me olhar daquela forma e tentei tocá-lo de novo, como se isso pudesse demonstrar melhor do que palavras que continuaríamos sendo irmãos. E apenas irmãos, dessa forma.
"Se fuder com isso!" Ele tentou empurrar meu peito, mas eu lhe segurei os pulsos. "Me solta, Dimitri!"
"Não enquanto você não se acalmar." Disse, tendo dificuldades em mantê-lo parado, já que se debatia e se empurrava para trás, tentando puxar as mãos. Parecia um animal selvagem em um acesso de raiva, como quando tinha oito anos e se revoltava com tudo, menos comigo. Mas agora... "Diego, para!"
"Então me SOLTA!" Exigiu, com os olhos se enchendo de lágrimas. "Por que vai me deixar? Somos tão próximos... Eu não consigo ficar longe de ti, Dimi. Não quero perder mais ninguém. Primeiro o pai, depois a Nanda, agora você...! Não vai..."
Eu fraquejei. Sabia que iria fraquejar no momento em que os olhos dele se enchessem de lágrimas e ele perdesse as forças. Eu parecia sustentá-lo pelos pulsos para que não escorregasse e caísse de joelhos no chão. Mas se eu o puxasse e o abraçasse, seria eu quem perderia as forças e cometeria um erro. Eu não podia me deixar levar. Teria de magoá-lo ainda mais se quisesse colocar um ponto final naquela história.
"Chega, Diego. Você não é mais criança para agir assim. Não é mais criança para dormir na minha cama, ou agir como se nunca mais fôssemos nos ver só porque estou me mudando. Eu vou estar quase aqui do lado, você pode me ligar sempre que quiser, pode me visitar, e eu também vou vir visitar vocês. Então chega de ser a criança mimada que só sabe exigir e que faz birra e escândalo se não tem o que quer." Falei em definitivo, em um tom duro. Diego parou e me encarou espantado, olhos arregalados e lábios trêmulos. Isso vai te ajudar a crescer também. O soltei.
Diego cambaleou alguns passos para trás, com a cabeça baixa. Os cabelos estavam um pouco compridos e lhe taparam parcialmente o rosto e as prováveis lágrimas que escorreriam abundantes depois daquilo. Eu nunca havia falado com Diego de forma tão áspera. A culpa era minha por ele ser tão apegado e dependente. E era hora disso mudar. Era hora de nós dois não vivermos apenas um para o outro. Por mais que doesse.
"Eu te odeio..." Diego murmurou, ainda de cabeça baixa, mas seus punhos estavam apertados ao lado do corpo. "Eu te odeio! Então se mude! Eu não vou mais me importar. Se você quer tanto ir, apenas vá. Já vi que minha opinião não significa nada pra ti! Sou apenas a criança mimada e inútil!" Quase gritou, mas os soluços atrapalhavam-lhe o timbre. Depois disso, correu do quarto, e eu pude ouvir os sons de seus pés descendo rapidamente as escadas.
Assim que ele saiu, peguei uma das malas em cima da cama e atirei contra o espelho de corpo inteiro do quarto. O som de vidro rachando, e os cacos espalhando-se pelo chão, eram um reflexo de como eu me sentia. Mas era melhor que Diego me odiasse por isso, do que pelo motivo pelo qual eu me odiava.
XxX
Três meses passaram voando depois disso. Minha relação com Diego estava difícil, principalmente pela parte dele. Não nos víamos direito, e isso me matava. Sabia que ele estava magoado, mas não podia ir me desculpar. Eu não estava errado e também sabia que a distância seria benéfica a longo prazo. Porque, a curto prazo, ela me causava insônia, irritação, mau-humor. Foi nessa época que comecei a ir em festas com o pessoal da faculdade, os amigos que eu havia feito Sabrina, Alexandre, Andréia, Gustavo, e outros que às vezes se juntavam conosco.
Alexandre era irritantemente parecido com Diego, muito mais que Afonso.
Eu transei com ele numa noite, após uma bebedeira em uma boate. Depois disso ele se tornou excessivamente grude, mas eu não repeti a dose, pois não queria nenhum caso sério; não havia como eu me relacionar com alguém enquanto não tirasse aquela obsessão que havia desenvolvido por Diego da minha cabeça. A todo instante me pegava pensando em como ele estava, o que estaria fazendo, como estaria indo no colégio, ou no judô. Tentava ligar para ele, mas raramente me atendia e, quando atendia, não me dava mais do que um minuto de conversa.
Me sentia solitário no apartamento grande que havia comprado, mas aos poucos me habituava com aquela nova rotina.
"Hei, Dimitri! Onde está indo?" Alexandre perguntou, quando me distanciei dele e do grupo.
"Indo pegar meu irmão na escola." Falei por cima do ombro, seguindo para o estacionamento da faculdade.
"Mas temos aula daqui a pouco!"
Eu dei de ombros. Não importava, de repente havia decidido que queria ver Diego naquele dia. Peguei o carro que eu havia comprado, uma caminhonete preta semi-nova, e segui para a escola dele. O largaria no treino e depois voltaria para a faculdade. Só queria vê-lo um pouco.
Quando cheguei, parei na frente do prédio antigo do colégio dele e, poucos minutos depois, os alunos começaram a sair, descendo os degraus da entrada principal. Não demorou muito para eu ver Diego saindo junto com duas garotas e três garotos. Tinha um sorriso no rosto e, depois de falar alguma coisa, seus amigos riram junto com ele. Meus lábios também se curvaram um pouco para cima, mesmo que eu não tivesse ideia do que conversavam.
Era bom vê-lo.
Eu desci do carro antes que ele subisse no skate e fosse pro ginásio. Diego não sabia que eu havia comprado um carro.
"Diego!" Chamei, e apenas uma vez foi o suficiente para que ele virasse o rosto na minha direção. A surpresa foi óbvia em seu rosto. Diego não era bom em esconder o que sentia como eu era. Nós éramos diferentes em quase tudo e, ainda assim, isso nunca havia atrapalhado em nada nossa relação. "Vou te dar carona." Falei quando ele se aproximou, desconfiado.
"O ginásio é aqui perto, não precisava ter vindo até aqui..." Ele disse, parando perto do carro e dando uma olhada nele. "É um carro grande, quando comprou?"
"Há umas duas semanas." Falei. "Eu queria te ver e estava sem nada pra fazer. A Lydia falou que não gosta também de você andando por aí sozinho com esse skate. Não me importo de te dar carona."
"É claro. E assim a criança mimada continua sendo mimada." Ele rebateu sem perder a chance, e entrou no carro, acomodando o skate entre os pés e a mochila no colo. Eu suspirei e entrei também no carro, dando a partida.
"Lydia se preocupa com você..."
"É, só ela, ao que parece." Diego disse, com descaso, abrindo o porta luvas para ver o que tinha dentro, e depois mexendo no rádio em busca de uma estação de seu gosto.
Diego sabia me exasperar quando queria.
"Você sabe que também me preocupo." Disse, com o olhar no trânsito, mantendo minha voz natural. "E não importa que não queira olhar pra minha cara por eu ter saído de casa. Não vou te deixar em paz tão fácil." Não consigo te deixar em paz.
Diego cruzou os braços sobre a barriga, virando o rosto para a rua, mas pelo retrovisor, vi que tentava suprimir um sorriso que queria nascer em seu rosto emburrado. Acabei sorrindo também. Ele não falou nada mais, e o passeio logo terminou. Quando parei na frente do ginásio, Diego fez menção de pegar a mochila e o skate, porém parou e se virou pra mim, meio constrangido.
"O que foi?" Perguntei, curioso com aquela mudança de comportamento. Diego mordeu o lábio e abriu a mochila, procurando algo ali dentro. Com o olhar um pouco baixo, ele estendeu uma caixinha de presente para mim.
"Desculpe por não ter ligado no teu aniversário, nem estado em casa quando você passou por lá... Toma, o teu já tá fora de moda." Diego pulou para fora do carro tão logo peguei o presente. Eu abri e me deparei com um relógio bonito, de marca, de extremo bom gosto.
Diego me dava relógios de aniversário há muitos anos, desde que descobrira que eles eram uma de minhas paixões. O primeiro que me dera, aos cinco anos, era de plástico preto, com o morcego do Batman. Eu o tinha guardado até hoje na minha coleção.
Apoiei meu cotovelo na direção do carro e minha testa na mão, olhando para o relógio. Acabei sorrindo junto com uma risada baixa para aquilo, de certa forma leve comigo mesmo.
Eu não havia perdido meu irmão.
XxX
"Então, como você está?" Perguntei para Fernanda.
O quarto dela na clínica era pequeno, mas agradável. Aliás, aquela clínica era bastante cara, mas da melhor qualidade, profissionais qualificados e vários tipos de distrações para os internados. Fernanda estava num dos raros dias de calmaria, segundo o médico responsável. Ela já havia arranjado muitas brigas nos grupos de apoio ali dentro.
"Estou ok. Na medida do possível, presa aqui dentro. Ela disse, com um quê irônico. Só você veio?"
"Hoje é aniversário do Diego. Mas eles vão vir amanhã..." Comentei, desconfortável. Ela ergueu uma sobrancelha.
"E por que diabos você não está no aniversário do caçulinha? Deveria ir lá e fazer o teu papel de estender o tapete vermelho para ele." Ela fez uma imitação de algum bobo se inclinando e estendendo um tapete no chão. Revirei os olhos. "A Lydia deve ter organizado uma festa. Quantos anos o peste tá fazendo mesmo? 14? 15? Ela adora reunir os parentes quando tem a chance."
Os aniversários do Diego sempre tinham festa pra família, pois Lydia fazia aniversário dali uma semana, e então eles comemoravam tudo junto, numa única data. Ser nas férias facilitava para que todos viessem, a não ser que estivessem viajando. Éramos uma família grande, apesar de não muito unida. Lydia tinha dois irmãos e três irmãs, e os três irmãos de Rogério apareciam nessas datas quando possível. Dos irmãos do meu falecido pai, Vladimir, apenas um dos quatro ainda mantinha algum contato.
"Eu estava lá antes de vir pra cá." Falei, meio amargo. Não queria falar sobre isso.
Diego havia aparecido com sua primeira namorada, uma garota bonita chamada Gisela. Todos adoraram a surpresa, claro, e quando Diego a apresentou para mim, tinha um sorriso enorme no rosto. Eu não consegui retribuir seu sorriso. Apenas a cumprimentei de maneira friamente educada. Se Diego percebeu, nada disse, nem demonstrou. Estava animado demais com o próprio aniversário, e só tinha olhos para Gisela para dar-se ao luxo de reparar na minha presença a um canto, isolado, com os olhos pregados nele enquanto não interagia com ninguém, nem mesmo com os que tentavam puxar conversa.
Quando Diego puxou a garota pela cintura e, com um sorriso, deu um selinho nela, eu não aguentei mais ficar lá. Saí de casa sem me despedir e fiquei não sei quanto tempo dando voltas de carro pela cidade, sem saber para onde ir. Até ter a ideia de visitar a Fernanda. Sentia como se o ácido houvesse escapado do estômago e agora corroesse meus órgãos internos. Eu sabia que Diego não demoraria a começar a se envolver com garotas, mas uma coisa era saber, outra era ver. Ele amadurecera bastante, de uma forma surpreendente, nos últimos sete meses. Parecia agora um adolescente feito, mais alto, mais garoto, menos criança.
Minha ausência faz bem para ele. Pensei, com amargor e ciúmes.
"É?" Fernanda não pareceu interessada em saber como andavam as coisas com a família. E ela tinha bons motivos. Todos a condenaram por anos pelo vício, mas ninguém estendera uma mão amiga. Ela se jogou na cama e colocou as mãos atrás da cabeça. "Ah, eu realmente faria bom uso de um cigarro agora."
"Você tem que parar com esse tipo de pensamento se quiser se curar." Eu comentei, sentando-me também. Fernanda abriu apenas um olho, o rosto numa careta. Mesmo que estivesse ali há apenas seis meses, tinha já um aspecto bem melhor, e ganhara uns quilos. Quando foi internada, seu aspecto era cadavérico.
"Estou aqui à força. Então, tecnicamente, mando à merda a ideia de me curar." Ela olhou pro teto, bufando.
"Você preferia...? Preferia voltar para aquela vida de antes? Roubando, se drogando, transando com quem nem sabia por droga, se matando aos poucos? Acha que isso é o melhor pra você?" Não aguentei perguntar, pois era o que ela sempre dava a entender, carregada de rancor pela internação.
Talvez tivesse sido meu tom, minha sinceridade em querer entendê-la, talvez o fato de que estivesse tranquila naquele dia. Mas depois de bufar de novo, falou:
"Olha, Dimitri, tem dias que tudo que eu quero é me drogar e esquecer essa porra de vida. Meu organismo parece implorar por isso, e minha mente só quer saber da droga. Eu sinto que vou enlouquecer. Eu só preciso, mesmo no fundo sabendo que fode comigo mais do que a porcaria do meu estado atual." Ela se sentou na cama e cruzou as pernas que nem índio. "Eu sou uma pessoa de bosta, sou uma filha de merda, uma péssima irmã, e vou continuar sendo por um tempo, porque eu guardo muita porcaria dentro de mim. Mas... Algum dia, eu espero que você, o Diego e a mãe possam contar comigo."
"Eu também espero..."
Eu passei a mão por seus cabelos quebradiços e a puxei para um abraço, do qual ela rapidamente fugiu após um tempo, com falso desgosto.
XxX
Diego ainda teve mais quatro namoradas.
Nos anos seguintes afundei-me ainda mais em festas, sexo esporádico, faculdade, amigos que evitava apresentar ao Diego, pois era como se eu mantivesse duas vidas separadas. A vida que compartilhava com meu irmão, e a vida em que ele não figurava como estrela principal, apesar de estar sempre em minha mente, uma sombra, uma inspiração, um desejo, um fantasma que me aquecia e me tirava as noites de sono, em pesadelos que eram puro júbilo e culpa.
Nós às vezes íamos ao cinema, noutra eu o levava em alguns barzinhos, ou apresentações interessantes. Havia dias em que ele dormia no meu apartamento e, aos poucos, eu criava certa imunidade ao meu vício. Eu ainda sentia todos os sintomas quando ele estava por perto, mas meu autocontrole melhorara e eu então conseguia agir como o irmão que ele merecia, mesmo que com alguns tropeções vez ou outra, como um beijo no pescoço quando seu cheiro me atingia, ou olhá-lo fixamente por tempo demais, sem perceber, analisando cada um de seus traços adolescentes até ele perguntar o que havia de errado comigo.
Durante a semana eu estudava muito, determinado a aprender tudo que a faculdade podia me ensinar, e comecei a trabalhar com um de meus pseudo-tios, que tinha uma pequena empresa, para aprender a ter mais tino nos negócios. Havia decidido abrir uma boate assim que me formasse, até porque nenhuma das boates que eu frequentava eram completamente do meu gosto, e não havia nenhuma exclusivamente gay na cidade.
Eu mantinha o contato com Afonso, era bom desabafar sobre tudo, ou nada e, especialmente, sobre Diego. Ele me ajudava como conseguia, tentando dar dicas de como superar meus sentimentos por meu irmão, já que Diego era hétero e, mesmo que aos poucos eu não me odiasse mais tanto por amá-lo de outra forma, eu nunca teria uma chance. Eu sabia que precisava superar, mas às vezes tinha certeza de que aquilo me perseguiria por toda a vida.
"Então... Você nunca me disse," Alexandre começou, sentando-se no meu colo sem permissão logo depois de eu ter enviado um email para Afonso enquanto ele estava no banho. Eu não sabia por que havia transado com ele depois de dois anos da noite em que havia me embebedado e acontecido, mas o problema era que ele continuava parecido demais com Diego, apenas mais alto, mais bronzeado e de uma personalidade terrível. "Se já ama alguém?"
"O que lhe interessa?" Perguntei, tirando-o do meu colo e me levantando. Também precisava de um banho.
"Se estou perguntando, é porque tenho interesse! Você nunca me dá uma chance..." Ele murmurou, abaixando um pouco a cabeça.
"Todos os caras gays da faculdade já te deram uma chance. Não é o suficiente pra você?" Perguntei irônico. Alexandre era o cara mais promíscuo que eu já conhecera, mesmo que dissesse me amar, no dia seguinte ia e transava com algum qualquer, ou dois, ou três ao mesmo tempo. Eu não o julgava por isso, eu também transava com desconhecidos vez ou outra, e ele fizesse da vida dele o que ele bem entendesse.
Eu não tinha paciência era para a insistência dele para cima de mim.
"Vai se ferrar, Dimitri." Ele disse, enquanto eu abria um sorriso de lado. "Só responde à pergunta."
Eu suspirei, cansado.
"Já há alguém. Satisfeito agora?" Perguntei, irritado, e fui para o banho. Ainda o ouvi gritar um "quem?!", mas não respondi. Só no final do banho lembrei que havia deixado meu email aberto. Saí apressado de banheiro, com a toalha na cintura, nervoso que ele houvesse futricado em alguma coisa das minhas conversas com Afonso.
Mas ele não estava mais no apartamento e meu notebook continuava no mesmo lugar.
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"Puta. Que. Pariu." Diego disse pausadamente quando entrou no apartamento em Roterdã.
Estávamos ali pelo mundial de judô. Lydia não pudera vir porque não queria deixar Fernanda sozinha, mesmo que Fernanda já houvesse saído da clínica há quase dois anos e se recuperasse aos poucos, ela ainda tinha seus momentos de rebeldia, apesar de afirmar que nunca mais se envolvera ou envolveria com drogas.
Por isso eu viera com Diego, ficar com ele durante os seis dias que duraria o mundial.
Diego poderia ter vindo sozinho, mas ele me convidara para vir já que poderíamos aproveitar para conhecer ao menos um pouco a cidade. De qualquer forma, Lydia jamais o deixaria vir só, ficando nos alojamentos com outros atletas. Nós estávamos em um hotel, dividindo um quarto com uma cama de casal, pois sairia mais barato. Eu gostava desse tipo de coisa apesar de sermos uma família bem abastada, não esbanjávamos à toa, de modo que eu e Diego havíamos crescido com bom-senso quanto ao valor do dinheiro.
"Esse quarto é demais!" Diego passou pelo ambiente inicial do cômodo, uma espécie de sala de estar, e jogou-se na cama, colocando as mãos atrás da cabeça. "Esse colchão parece que vai me engolir a qualquer momento. Estou tão cansado..."
"A vista é bonita." Falei me dirigindo até a sacada que oferecia uma visão generosa para a Roterdã. Depois me voltei para Diego, que fechara os olhos, relaxado na cama. Ele precisava mesmo descansar, as lutas eliminatórias já começariam no dia seguinte, pela manhã. Hoje à noite aconteceria um evento de abertura, e eu me perguntava se conseguiria tirar Diego da cama dali a menos de duas horas para que ele não perdesse o horário.
Eu fui até a cama e me sentei ao seu lado, observando-o. Diego perdera os traços infantis, apesar de seu rosto ainda ter algo de suave, linhas que não tinham nada de brutas. Sempre poderia ser chamado de anjo sem asas, ainda mais se colocasse roupas brancas. Não era frágil, se fosse, não teria vencido tantos campeonatos de judô até ali. Eu sentia orgulho de até aonde ele chegara, e algo me dizia que ele venceria essa também.
"Você não está com fome?" Perguntei apoiando uma mão ao lado de seu corpo e me inclinando um pouco para ele. "Posso pedir algo para comermos, se você quiser."
"Hum... Não estou com fome. Mas peça pra você se estiver. Eu acho que vou tirar um cochilo, não consegui dormir durante toda a viagem de avião." Resmungou com os olhos entreabertos. Eu assenti, já me levantando porque vê-lo deitado e vulnerável sempre despertava uma sensação forte de um predador frente a uma oportunidade fácil, mas Diego segurou meu pulso, impedindo-me. Sua expressão era um pouco nervosa. "Você acha que consigo ganhar?"
"Eu sempre acho, Diego." Baguncei seus cabelos, fazendo-o apertar os olhos para protegê-los. Estava com os cabelos mais compridos, cobrindo parte da nuca. "Mas é você quem tem de ter certeza disso."
"Eu tenho. Mas é chato ter certeza sozinho." Diego brincou com um sorriso no canto do lábio. Eu soltei um som de incredulidade e baguncei mais seus cabelos. Depois me levantei.
"Vou ir tomar um banho. Durma, depois eu te acordo pra abertura." Avisei e Diego concordou, chutando os tênis para longe e se acomodando na cama. Fui para o banheiro feito de mármore com uma banheira quadrangular ocupando boa parte dele. Parei na frente do espelho com as mãos apoiadas nas bordas da pia.
Continue sendo um bom irmão nesses dias. Bom não, exemplar.
Meus sentimentos por Diego haviam adormecido em algum ponto profundo em mim. Em cinco anos o querendo em silêncio, havia aprendido a fechá-los bem fundo, controlá-los com perfeição, mas isso quando estava em minha rotina natural. Eu esperava que nada acontecesse, pois a mínima faísca podia trazer tudo à tona. Quando algo está trancado há muito tempo algo indomável preso em uma cela, tornando-se a cada minuto mais faminto e inconformado e uma fuga ocorre, o ser bestial em que aquilo se transformou vem destruindo tudo que está à sua frente, sem razão, sem domínio, querendo apenas em um único dia recuperar todos aqueles anos perdidos. Tudo que poderia ter feito, se fosse diferente.
Apenas um pouco diferente.
XxX
Diego venceu todas as lutas como se houvesse nascido para aquilo, mostrando uma habilidade que impressionava por ser tão jovem e ainda bonito, para delírio generalizado. A mídia ia à loucura o promovendo ao longo daqueles dias, tentando torná-lo herói de várias garotinhas brasileiras. No dia anterior, uma representante da Adidas convidou-o para um comercial, querendo tornar-se patrocinadora dos treinos dele. Diego ficou extremamente empolgado e, quando achei que isso poderia influenciar sua próxima luta, ele venceu seu último adversário antes da final com uma velocidade impressionante, um ippon perfeito.
Achei que o feito não se repetiria na luta decisiva, mas estava errado.
"Nervoso?" Perguntei para Diego antes que ele fosse para o tatame.
"Um pouco." Ele respirou fundo, saltando de um pé para o outro, para não deixar os músculos perderem o efeito do aquecimento. "Mas vou acabar com aquele japonês. Ele ganhou o último mundial, agora é hora de gente mais nova tomar o posto."
"Está bastante confiante. Talvez até excessivamente..." Avisei e me aproximei dele. Diego de imediato me segurou pelos ombros e ficou na ponta dos pés. Por um momento meu coração saltou com a ideia de que iria me beijar, mas apenas encostou a testa na minha, eu não sabia se para minha alegria, ou infelicidade.
"Quero que fique orgulhoso de mim." Ele sorriu, divertido, me atordoando com aqueles olhos tão próximos. "Você é bom demais em tudo que faz, e eu não posso ficar tão pra trás... Sempre tenho a impressão de que seria você vencendo campeonatos e mundiais caso não houvesse largado o judô."
"Não é verdade." Rebati de imediato, segurando-o pela nuca. "Eu não tenho essa persistência e garra que você tem para o esporte. Esse tipo de coisa só se consegue quando se ama de verdade e eu não nunca gostei tanto assim de judô." Eu não mentia. Nunca chegaria perto do que ele atingira, porque minha única paixão era ele, e nada mais enchia meu peito da mesma maneira. "Eu te amo..." Sussurrei, sem aguentar, as palavras escapando de minha boca como um raio de luz encontrando frestas numa parede mal-construída.
Toquei com o polegar as bochechas do Diego, e elas estavam quentes, levemente avermelhadas, mas já estavam antes pelo aquecimento que fizera. Ele deslizou a testa na minha e então me abraçou, com o coração agitado. Fingia que não, mas estava obviamente nervoso com a luta final.
Que ele tirou de letra.
Quando entrou o tatame, parecia brilhar e seus olhos eram de uma seriedade única. A luta não demorou nem três minutos até que Diego fizesse um wazari. Por Deus, ele era perfeito lutando, era impossível desviar os olhos. Eu gravei a luta no meu celular e tive certeza de que a assistiria várias outras vezes, em qualquer momento do dia, apenas pelo prazer de vê-lo humilhar o atual campeão mundial.
Mais um wazari e ele ganharia o jogo e isso deixou o oponente nervoso, atacando com mais agressividade, porém Diego manteve a cabeça fria e, na primeira oportunidade, derrubou-o de novo, com um ippon que fez os brasileiros ali gritarem pela vitória.
Eu mal havia percebido que me levantara e também gritava.
Saí da arquibancada, pulando a divisória entre os espectadores e o centro do ginásio. Diego praticamente empurrou o técnico para longe, fugindo das câmeras que queriam captá-lo, e se jogou em cima de mim, literalmente pulando no meu colo, rodeando as pernas em minha cintura e erguendo a mão para o alto, com um berro de alegria que era puro júbilo, e delicioso de ouvir. Depois me abraçou com lágrimas nos olhos, chorando de emoção. A imprensa gravou a cena, começando especulações sobre quem era o rapaz que o abraçava tão apertado.
Ficou decepcionada em saber que eu era apenas o irmão.
Apenas o irmão.
XxX
"Então, acha que eu deveria me pendurar aqui na grade e gritar que sou o rei do mundo? Ou melhor, o campeão do mundo?" Diego perguntou, aproximando-se perigosamente das grades que o separavam da queda de 185m entre ele e o chão.
Estávamos na Euromast, uma torre de observação em Roterdã onde havia um restaurante e um local de exposições variadas. E aquela vista era ainda mais bonita do que tínhamos no hotel.
Me aproximei e puxei Diego para longe da grade que lhe alcançava a cintura. Não era seguro deixá-lo tão livre, leve e solto quando havia bebido mais que a cara para comemorar a vitória. Diego era tão tolamente fraco para álcool, que poucos copos de vinho já o deixaram com a cabeça flutuando. Se eu não o segurasse, talvez a deixasse voar até o Mar do Norte a alguns metros da torre e a perdesse para sempre.
Já eu estava longe de alcoolizado.
Desde os dezoito comecei a beber moderadamente, aos poucos ganhando resistência.
Diego se segurou a mim, bastante grogue.
"Devíamos visitar o resto do lugar antes de ir. Onde estamos mesmo? Ramsnterdãm? Era algo assim, tenho certeza. Dimi, você está com duas cabeças." Ele gargalhou, abaixando o rosto, o riso saindo mais pelo nariz. Eu revirei os olhos, sabendo que não deveria tê-lo deixado beber tanto. Era menor de idade, não deveria ficar bêbado daquela maneira. Lydia me mataria.
"Roterdã." O corrigi, ao que ele soltou um som qualquer de compreensão. "E não deveria ligar para a sua namorada? Você ganhou o mundial, afinal..." Comentei, não sei por que, mas estava curioso quanto àquilo. Diego era um garoto atencioso com as garotas com as quais se relacionava.
"Namorada? Gabriela? Deus, não... Terminei com ela há um mês." Ele disse, soltando-se de mim e se apoiando nas grades. Mesmo assim o segurei pelo quadril, com medo de que caísse mesmo. "Ela era tão chata. Ciumenta demais. Agora estou solteiro. Eu odeio ficar solteiro, me sinto sozinho... Eu gosto de namorar."
"Depois de cinco namoradas em menos de quatro anos, isso fica meio evidente." Torci os lábios, indo para o lado dele e me apoiando na grade também, mas mantendo-o perto de mim, com um braço ao redor de sua cintura. Diego não deu bola para isso, ele nunca se importava se eu estava perto demais, ou se minhas mãos queriam estar sempre sentindo o calor de sua pele.
Eu não ia além disso. Nunca mais havia ido, desde aquela noite em que ele tinha treze anos, e isso de certa forma me confortava e me deixava mais à vontade para esses pequenos gestos.
Os ombros de Diego começaram a sacudir, e eu notei que ele ria sem conseguir se controlar.
Acabei sorrindo, apesar de não entender o motivo da graça.
"O que foi?" Perguntei.
"Estou lembrando de você tomando meus remédios nos lugar dos seus." Ele riu mais alto, começando uma espécie de ataque de riso. Eu fiz uma careta. Não era nada legal ele lembrar daquilo e ainda rir da minha cara.
Diego sempre ficava incapaz de dormir em dias de competições, então tomava remédios para isso, que não tinham nenhum tipo de substância que pudessem atribuir como anabolizantes, ou algo do gênero. Já eu tinha um pouco de pressão alta, nada assustador, mas precisava controlá-la com medicação em alguns momentos.
"Você colocou as duas juntas!" Tentei me defender, rindo também da minha patetice. Diego riu ainda mais, nem de longe se considerando o culpado, já perdendo o ar de tanto rir.
"Eu te avisei! Coloquei a sua num compartimento, e a minha em outro!" Disse, e realmente havia dito, mas eu devia estar distraído com sua imagem, algo que acontecia com frequência, e por isso passara três dias caindo de sono, me queixando que só sentia vontade de dormir.
Diego notou a falta dos remédios dele e ligou os pontos. Já havíamos rido até cair daquilo quando ele descobriu, mas agora ríamos tudo de novo.
"Pare com isso." Pedi, fingindo estar emburrado. "Não tem graça."
"Tem sim! Diego, eu acho que estou com depressão, só sinto vontade de dormir." Diego imitou minha voz, na verdade, usou uma voz de criança quando fala pra mãe que está doente. Nós dois rimos ainda mais; eu realmente falara aquilo, quando estava estirado na cama do hotel e querendo hibernar pelo resto da semana. Havia me sentido mal por ter apenas sentido sono, mesmo quando Diego estava lutando.
Era como se dormir fosse mais interessante do que olhá-lo lutar, mas não era.
Diego se apoiava em mim para se sustentar, a testa encostada em meu peito, pois poderia cair ao chão se curvando de tanto rir caso não me tivesse como apoio. Sua risada era contagiante, como quase tudo nele. Eu me apoiei à grade e passei os braços pela cintura dele, sustentando o peso de seu corpo. Ainda falamos mais sobre aquilo, brincando com o que havia acontecido, troçando um do outro. Diego me imitava mais e me chamava de pateta.
Esses momentos descontraídos com ele, sem nenhuma preocupação, eram especiais, me aqueciam e eu faria mais idiotices se ele fosse rir dessa maneira para todas elas.
O clima estava assim, leve, mas quando nossas risadas escassearam, a respiração saindo a cada uma delas e formando fumaça branca no ar, Diego ergueu a cabeça e nossos olhares se encontraram, junto com a respiração quente. Nossos lábios estavam ridiculamente próximos, e por isso pensei que Diego afastaria de imediato o rosto, fugindo do contato que aconteceria se qualquer um de nós dois se movesse um milímetro para frente.
Mas Diego não fez isso. Não se moveu para trás.
Pelo contrário.
Com os olhos bem presos aos meus, suas pupilas ligeiramente dilatadas, ele ficou completamente sério, qualquer sinal de riso deixando seu rosto, e o meu encontrava-se da mesma forma. Meu coração começou abater descontrolado, fazendo pulsar a jugular, como se pudesse prever antes do tempo o que Diego faria.
E o que ele fez foi mover o rosto e roçar os lábios aos meus. Um roçar suave, que poderia passar-se por uma carícia do vento caso meus olhos estivessem fechados. Meu susto poderia ter levado minha pressão às alturas e esgotado meu coração. Eu sabia que Diego estava bêbado, mas não conseguia pensar se isso era desculpa para tocar minha boca na sua daquela forma, com os cílios claros estremecendo.
Eu, em realidade, não saberia dizer meu nome caso me perguntassem. Tudo que eu sabia era olhar para as íris azuis de Diego, vendo meus próprios olhos e a paixão que eu carregava refletidas nelas, enquanto me perdia naquele toque, como um humano que ganha da dádiva de respirar embaixo da água e não sabe aonde ir quando cai no oceano.
"Diego..." murmurei enlevado o nome do meu irmão e levei minhas mãos para sua nuca, sentindo seus fios macios nos meus dedos, e me inclinei para frente, determinado a tomar seus lábios para mim, senti-los pela primeira vez depois de idealizar tantos sabores e texturas diferentes.
Se todo sonho que é bom dura pouco, aquele foi tão ínfimo quanto um grão de pólen esvoaçando e fugindo quando assoprado de uma flor. Diego virou o rosto no mesmo momento e meus lábios experimentaram a textura de sua bochecha e, derrotado, eu os deixei deslizar até o pescoço dele, parcialmente tapado por um cachecol. Meus braços o apertaram com mais força, estreitando-o contra mim para que não fugisse de novo.
"Se não fôssemos irmãos..." Diego começou a falar, meio ausente, parecendo perder o olhar no céu sem estrelas, todas elas escondidas por trás das nuvens cinzentas, prenúncio de tempo ruim. Ventava e os cabelos de Diego ondulavam no mesmo ritmo, junto com o cachecol.
"Se nós não fôssemos irmãos...?" Ecoei em tom de pergunta, agitado com aquela frase.
Eu às vezes pensava que seria bom se não fôssemos irmãos, mas logo esse pensamento me abandonava. Era justamente porque éramos irmãos que tivemos a oportunidade de viver tantas coisas juntos, compartilhar tantos momentos bons e ruins, desenvolver uma intimidade que eu nunca encontraria em outra pessoa. Eu jamais mudaria isso, mesmo que às vezes me sentisse sem ter por onde ir, ou que meu coração não fosse mais capaz de carregar tanto peso, e eu não aguentasse mais aquela maneira como eu me enganava e enganava Diego, procrastinando todos os eventos que poderiam culminar no fim daquela ligação que nós tínhamos. Não era justo e não adiantava de nada eu me render e dizer que preferia que não dividíssemos o mesmo sangue. Não seria justo com o tanto de amor que eu há anos sentia.
Mas o que Diego disse, virando o rosto pra mim, com sua respiração quente batendo em meu rosto, foi:
"Se não fosse meu irmão, eu não deixava um partidão como você escapar." Ele disse e soltou uma risada aérea, de embriagado, agarrando minhas roupas e abaixando o rosto, encostando novamente a testa no meu peito. "Bonito, rico, inteligente, e a pessoa que eu mais amo no mundo... Eu me apaixonaria fácil por você."
"Não fala mais nada, Diego, por favor." Praticamente implorei, estreitando-o contra mim com força, os braços ao redor dos ombros dele, enquanto ele descansava agora todo o corpo contra o meu, as roupas pesadas atrapalhando um contato muito próximo. Já não bastava me iludir com a promessa de um beijo, agora isso. Diego queria me enlouquecer até a última fibra do corpo, até que mais nada em mim formasse vínculos, tão desorientadas estariam minhas ideias e pensamentos.
"Porque é impossível eu amar alguém mais que você, Dimi... Não senti isso por nenhuma das garotas com quem eu namorei, acho que por isso troquei de namorada tantas vezes. Por que nós temos que ser irmãos?" Diego murmurou encolhendo os ombros, o rosto ainda escondido no meu casaco grande.
"É o que somos, não tem como mudar isso. E você nem é gay, Diego, pare de falar asneiras." Disse, me sentindo transpirar apesar do frio. Suava gelado, os batimentos cardíacos reverberando nos ossos, sem entender completamente aquela declaração.
"Às vezes eu quero você só pra mim." Diego murmurou, e riu de novo, ignorando o que eu havia dito. "Que papo idiota. Mas eu fiquei com ciúmes quando você falou daquele cara que namorou por uns três meses quando ainda estava na faculdade."
"Ficou...?" Perguntei, e a maldita centelha de esperança quis nascer no meu peito. "Há ciúmes entre irmãos também, acontece bastante."
"É..." Diego concordou, como quem não queria continuar o assunto. "O irmão da Gabriela morria de ciúmes dela, vivia implicando comigo, o pivete."
Não fale da sua namorada agora, Diego. Pensei, apertando-o tão forte que achei que poderia sufocá-lo, mas Diego não reclamou.
"É..." Concordei também, e meus dedos afundaram ainda mais nas roupas dele.
"Eu não ia conseguir viver sem você como irmão, o que torna tudo isso que eu recém falei bastante contraditório." Diego resmungou e então ergueu o rosto, os olhos cansados. Uma garoa muito fina, quase imperceptível começou a cair e nos atingiu ali, abraçados, usando o calor um do outro para suportar a baixa temperatura.
Diego umedeceu os lábios levemente rachados.
"Acho que nosso amor é uma mistura de ágape e psiqué." Riu pelo nariz daquilo, mesmo que não houvesse nenhuma graça. Estava simplesmente afetado pelo álcool, as bochechas coradas de frio e pensamentos leves.
"Ágape?" Perguntei sem entender por um momento, mas me lembrei do que falava antes mesmo de ele responder.
"É, aquelas definições de amor dos filósofos. A Jady falou pra mim sobre isso um dia desses, não lembro quando foi. Dá pra explicar muitas coisas, sabe."
"É da natureza humana tentar sempre explicar tudo, entender o funcionamento das coisas, dar nomes, rótulos, sentidos, não é?" Perguntei, retórico, com um ar debochado e um gosto amargo na boca. O amor deveria tornar tudo mais simples, fazer com que toda a dor valesse à pena, mas nós apenas o complicávamos, até exauri-lo e esquecermos-nos de como nos sentíamos antes do coração se partir como cristal de encontro ao chão.
Diego fez uma careta que dava a entender que pensar naquele momento era difícil.
"Acho que sim." Ele deu de ombros. "Não importa, de qualquer forma."
Importava, porque meu amor era muito maior que ágape, psiqué, eros, mania, ou todos os outros. Era algo que envolvia todos os anteriores, em que eu sentia atração pelo corpo de Diego, por sua personalidade, por seus modos, por suas pequenas manias, por sua voz, e havia um controle tênue, muito delicado, por trás dessa uma tempestade de descontroles. Havia vontade de abdicar tudo, vencer tudo, ignorar conceitos, esgotar fantasias. E isso é algo que não ganha nome, ou descrições exatas, porque coisas assim não se prendem às pequenas manias terrenas de nós humanos.
Simplesmente era. Inatingível. Inenarrável. Extravagante.
E naquela noite eu me perguntei se Diego entendia do que estava falando, porque suas palavras martelavam na minha mente, palavras de bêbado, mas palavras sinceras. Ciúmes, amor, carinho, o desejo de que nunca nos separássemos. Diego tinha todos e, afinal, existia mesmo o abismo que até então eu imaginava que existia entre nossos sentimentos? Mesmo que ele ainda não houvesse percebido a intensidade do que não se podia explicar, e ainda achasse que podia dar nomes a tais sentimentos...
Aquela noite foi o início de uma nova espécie de tormento a dúvida.
A dúvida que me levaria a cometer outros erros impulsivos e ansiosos nos meses seguintes. Uma dúvida que corroia e minava a mente mais do que a certeza de não o ter.
"Vamos pro hotel. Você vai se gripar se continuar nessa garoa." Falei, levando-o comigo para dentro novamente, perturbado demais para continuar aquela conversa. Ainda olhei para o céu, franzindo a testa. Estranhamente, parecia-me que a chuva estava sempre ali para marcar os acontecimentos mais conflituosos entre Diego e eu.
XxX
Ao querido amigo, Afonso,
Acho que meus amigos desconfiam de mim. Eu estava com eles num barzinho e a propaganda do Diego apareceu. Para alguns, foi a primeira vez que viram meu irmão. Contei que a maioria dos meus amigos é homossexual, não é? E eu que achava que nunca seria desses gays cercados de amigos gays, apesar de que também tenho alguns amigos héteros, da época da faculdade... A questão é que eles ficaram falando o quanto Diego era gostoso, e eu acabei me irritando com isso. Alexandre insinuou existir algo entre Diego e eu, e todos brincaram que até eu estava enfeitiçado pelo Diego. Me pergunto se estavam mesmo brincando ou se falavam sério... Aquilo me assustou, não sei se estou deixando tudo muito óbvio. Eu briguei com eles e saí de lá, me sentindo estúpido por não ter levado na brincadeira. Alexandre foi atrás de mim e eu transei com ele de novo. O fato de ele ser parecido com Diego me vem fazendo sucumbir às investidas dele... E as palavras de Diego na viagem não param de martelar na minha cabeça...
[...]
Quase beijei Diego essa noite, no meio da boate. Fiz a mesma coisa que ele fez comigo antes. Ele ficou um pouco bêbado de novo, e começou a falar sobre experimentar com outro cara. Como eu poderia permitir isso? E ainda bem no dia do meu aniversário? Eu não merecia um presente desses, ou mereço? Já é insuportável pensar nas garotas que o tocam, ou que ele toca e beija... Sei que também me relaciono com outras pessoas, e que não tenho o direito de reclamar de nada, de impedi-lo de nada. Mas a ideia de que outro homem o toque, que não eu, parece ainda pior. Naquela noite, quase o levei para meu apartamento e mostrei a ele com quem ele queria realmente experimentar, talvez relembrá-lo de tudo que me falou na Euromast, já que ele parece não se lembrar de nada depois da terceira taça de vinho. Estou ficando louco, Afonso. Veja como estou pensando. Acho que minha obsessão está piorando, estou com medo do que posso acabar fazendo...
[...]
Eu jamais imaginaria que o encontraria saindo do hotel com outro garoto. Meu quarto está praticamente destruído no momento, assim como parte da minha cozinha. Não importa. Minhas mãos ainda estão tremendo e eu menti que não sentia ciúmes dele, quando queria gritar com ele, brigar, deixar claro que o que havia feito era um absurdo. Como ele foi capaz de algo assim? E como eu pude deixar chegar a esse ponto? Esse garoto faz judô com ele. Preciso descobrir quem ele é, preciso descobrir uma forma de afastá-lo do Diego. Droga, Afonso, eu poderia ter surrado o moleque caso o choque e a dor não fossem maiores. Fiquei estático feito um abobado, eu queria tanto que Diego... Eu nem sei mais o que queria. Por favor, me mande algum email com respostas, mesmo que sejam falsas. Eu preciso de uma distração que não esse inferno que parece arder ainda mais que o anterior.
Acho que o diabo me enviou para níveis mais baixos desse lugar maldito.
[...]
Por favor, não me condene. Ou faça-o, não sei se realmente importa. Não sei se vai fazer alguma diferença. Essa noite eu senti o gosto da boca do Diego. Como posso definir? Não há como. Eu sou tão culpado quanto fui aos dezoito anos. Parece que esses cinco anos não me ensinaram nada e eu não amadureci, apenas me tornei pior, mais obsessivo, mais descontrolado. E eu achava que poderia levar essa situação até o túmulo, numa morte precoce, achava que tinha tudo sobre controle. Puta merda, como sou prepotente!
Diego foi drogado e o Bernardo tentou estuprá-lo. Eu ainda vou causar um dano maior nesse filho da puta do que os socos que eu dei. Sinto tanta raiva quando penso nisso, que nesse momento prefiro pular essa parte. Não sei o que me enche mais a cabeça agora. Eu tinha certeza de que seria capaz de apenas dar banho no Diego, limpar seu corpo das marcas sujas daquele merda... De novo, prepotente.
Eu não queria abusar da fragilidade do Diego como já havia feito antes, eu juro... Mas ele me beijou e eu esqueci tudo. Foi como entrar em curto, acho que minha mente ficou em branco, e não havia mais nada de maduro, centrado, nada de irmão em mim. Virei um canalha como Bernardo e o beijei com toda a ânsia desses cinco anos, experimentei toda sua boca, provei de cada pedaço de língua e dentes, e do sabor da saliva. Foi muito superior a todos os meus devaneios diários. Foi melhor do que qualquer doce, ou fruta, ou mel.
Não vou te cansar com detalhes assim, palavras esdrúxulas de um apaixonado. Admito que durante cinco anos de confissões, suas opiniões se tornaram essenciais para me manter preso ao chão, consciente se ainda estou num patamar de normalidade, apesar de esse ser um termo de difícil definição, ou se já atingi níveis patológicos. Eu não iria até o fim. Na verdade, iria no início, tinha certeza de que era impossível parar uma vez que se experimentava do fruto proibido. A oportunidade não pode ser perdida, entende? Sou simplesmente humano, nunca me iludi a ser mais que isso...
Mas Diego chorou quando o deitei na cama, dizendo-me que não queria ter aqueles sentimentos por mim. Eu me perguntei que sentimentos eram esses. Os mesmos que eu tinha? De novo pensei em tudo que ele havia me dito em Roterdã, e dei mais certeza a mim mesmo de que era exatamente isso. Eu era correspondido. Era o momento de tê-lo enfim, selar essa avalanche, essa tempestade que nos molhava e afogava e que não podíamos evitar, ou fugir...
Diego ainda chorava e eu apenas me deitei e o abracei, querendo mantê-lo contra meu corpo, nós dois molhados e sem roupas, até que ele parasse e ficasse mais consciente do que fazia. Decidi que era tudo que eu faria, nada além, pararia por ali. Porém, como há cinco anos, ele gemeu e empurrou minha mão para baixo, para que o tocasse... É estranho como os acontecimentos tendem a se repetir, num ciclo vicioso e inquebrável, em nossas vidas, não? E nós cometemos os mesmos erros de novo e de novo, insaciáveis, mesmo garantindo para nós mesmos que não iremos mais errar, que a lição foi aprendida.
Diego está agora deitado na minha cama enquanto digito esse email, desmaiado, exausto, ressonando baixo e tranquilo sobre lençóis e edredons amassados... Tão parecido como da outra vez. Com a diferença que agora há sêmen seco entre suas nádegas, e eu estou entorpecido com o que senti ao unir nossos corpos. Ainda é difícil de acreditar, e eu nem sei se irei mandar esse email, se ele faz algum sentido, mal vejo a tela do computador. Diego irá lembrar-se disso amanhã? E então o que farei, como explicarei tudo?
Eu prometi a ele que não lembraria, mas essa promessa eu não sei se posso cumprir.
Acho que vou enviar isto, mas vou parar por aqui, há lágrimas borrando minha visão. Responda, ou não. Não sei estarei vivo para ler alguma resposta, talvez minhas energias me abandonem de vez caso eu deite e feche os olhos...
[...]
Não li sua resposta inteira, admito. A lerei com mais calma quando minha mente permitir isso, e essa maldita chuva parar. Ela parece um aviso de que estou errando de novo e de novo, tentando limpar meus pecados com sua água pesada, esse manto negro que me impede de ver o mundo com clareza, que esconde meus atos. Eu sinto culpa sim, Afonso, você não precisa me dizer que deveria ter me segurado, caramba! Eu sinto culpa e, ainda assim, eu queria nessa manhã jogar na cara de Diego o que havíamos feito, dizer que agora ele era apenas meu, até o final dos tempos. Ele fugiu antes que eu tivesse tempo. Era de se esperar, já que minha possessividade me fez agir como um animal idiota que sente orgulho das marcas roxas que deixou em sua presa.
Eu quase o fiz entender quando o trouxe de volta. Eu achei que o teria ali. De novo ele me beijou, e chame-me de clichê, mas aqueles sinos que as pessoas falam talvez tenham ecoado ao fundo de minha mente. Ou talvez tenham sido apenas os trovões lá de fora. Eu queria ter tempo para explicar tudo, acalmá-lo, protegê-lo de tudo que o transtornaria como foi comigo. Não queria que passasse por nada sozinho... É meu irmão caçula e ainda é meu dever protegê-lo, mesmo que não consiga protegê-lo de mim mesmo. Mas Fernanda fez isso por mim. Ela de alguma forma conseguiu subir no meu apartamento... E Diego sucumbiu ao medo e à duvida.
Não o culpo... Jamais o culparia. Mas isso não me impede de estar com medo. Sinto que aquele abismo voltou, e eu não sei como pulá-lo, ou contorná-lo. O que devo fazer? E se eu tiver causado um trauma nele como você comentou no email? Acho que por isso parei de lê-lo, estou muito assustado com isso. Acho que nunca me perdoaria por ter causado algo assim na pessoa que amo...
[...]
Cinco meses distantes. Nenhuma palavra, nenhum encontro, nenhum contato, nenhum toque. A vida num momento me iludiu me fazendo pensar que teria tudo, para então me arrancar esse tudo na velocidade de um raio de luz. Estou admirado por eu ainda conseguir escrever um email, ou parecer civilizado. Aliás, fiquei surpreso com minha capacidade de fingir que está tudo bem para os outros, quando por dentro estou destruído. Mas isso é bom, evita perguntas desnecessárias, e eu posso viver minha dor sozinho, em paz.
Se é que isso pode ser chamado de paz.
Obrigado por ter se preocupado durante esse tempo, mesmo que eu mal respondesse seus emails. Acho que nunca estive tão insuportável, irritado, depressivo. Dessa vez Diego não poderia rir da minha cara por eu achar estar em depressão.
Alexandre me atormentou ainda mais durante esse tempo e me acusou de incesto. Como eu suspeitava, ele leu os emails que trocamos naquela vez. Quando convidou Diego para transar, obviamente sabia quem ele era, o que me irritou muito, ainda mais por se fazer de vítima com lágrimas de crocodilo, mas a ideia dele era um ménage entre nós. Disse-me isso na cara, como se devesse agradecê-lo por tamanha asneira.
Estava tentando ajudá-lo a foder seu irmão, e você quase me bate! Foi o que disse, ou algo assim. Quase o espanquei quando o ouvi falar isso, e teria feito se ele não houvesse corrido quando o enxotei quase aos berros da boate.
[...]
Eu achei que tudo estava perdido, sim. Eu não me aguentei e deixei minha obsessão falar mais alto em alguns dias. Observei Diego de longe, quando saía da escola, ou do treino de judô. Conheço bem seus horários e rotina, há anos é praticamente o mesmo... O vi com aquele ruivo em quase todas as vezes e, através da Lydia e da Fernanda, que me visitou várias vezes, soube que ele e Viktor estavam bem próximos. Tive um medo esmagador de perder Diego para o moleque problemático.
Meu único consolo foram as conversas entre eu e minha irmã. Ela me contou algumas coisas sobre Diego, sobre as conversas que os dois tiveram. Diego sempre falava de mim, como se buscasse entender seus sentimentos. A fagulha de esperança permaneceu viva, eu talvez ainda pudesse, ao menos, tê-lo como irmão como antes. Isso era melhor do que nada. Ou não? Ou eu estarei apenas sendo mais masoquista do que nunca? É razoável fingir que tenho essa capacidade, de voltar a me controlar, de ser um bom irmão para ele. Faz com que eu consiga sair da cama pela manhã.
[...]
Você me aconselhou a ir pedir desculpas pessoalmente, ir com calma, ser sincero, ter com ele uma longa conversa e parar de forçá-lo a me aceitar, aceitar meu desespero, minha necessidade, esse amor desvairado e sem nome. Deixá-lo tomar iniciativa... E eu deixei. Por cinco meses, eu esperei que ele tomasse iniciativa. Realmente não sei quanto tempo mais esperaria, mas enfim tive uma resposta ao meu silêncio, à minha promessa de que não o incomodaria até que ele conseguisse processar tudo que acontecera, num espaço tão curto de tempo.
Inferno! Diego é só um adolescente, e olhe tudo pelo que fiz ele passar...
Ele me mandou uma mensagem. Quer que eu o veja na formatura dele, quer conversar. Ainda faltam cinco dias. O que são cinco dias para quem esperou cinco meses, você talvez pergunte. Acredite, é uma eternidade. Tudo que eu quero é abraçá-lo, me ajoelhar na frente dele e deixar todas as palavras saírem, todas aquelas que continuam me sufocando. Porque o que eu falei no dia em que o busquei numa livraria qualquer, em meio a um temporal, não foi nem a metade do que preciso dizer a ele.
XxX
A única vantagem de um coração quebrado é o momento em que todos os pequenos cacos do cristal estilhaçado são encaixados novamente, um a um.
O formato de antes talvez mude um pouco, talvez algumas rachaduras permaneçam e algumas coisas mudem, mas, eventualmente, parem de incomodar, ou se incorporem ao todo, tornando o agora ainda melhor que o antes.
Foi o que pensei quando Diego parou à minha frente, após seu discurso de formatura não me impressionava que ele fosse o escolhido como orador da turma, inteligente e carismático como era , e me disse, com os olhos transbordando.
Eu te amo... Seus lábios tremeram ao pronunciar aquelas palavras que tornavam tudo tão simples. Apenas me leva contigo...
Eu o levaria para onde ele quisesse, qualquer lugar do globo, para longe de todos. Para um lugar sem chuva, ensolarado enfim, onde houvesse apenas nós dois. Porque o resto não importava.
Foi o que pensei, enquanto eliminava o espaço que nos separava e então apoiava nossas testas por um instante, segurando com força seu rosto de anjo, de olhos fechados, sentindo que finalmente respirava depois de anos prendendo o ar nos pulmões...
E o beijei.
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