A Cor Da Chuva

10 Capítulo 9


Notas iniciais
Agradeço imensamente à Lucca James, pela recomendação linda demais! ♥

“Eu transei com meu irmão.”

A chuva caía pesada lá fora. Um trovão ressoou no exato momento em que deixei as palavras escaparem em um sussurro pasmo, ao passo que sentia meu rosto embranquecer, meu sangue perdendo-se em algum lugar de mim junto com todas as minhas certezas e verdades. Eu ofeguei, perdendo o ar por um momento, e Viktor se ergueu um pouco, deixando as mãos descerem por meus ombros.

“Diego?” Ele chamou tentando atrair meus olhos desfocados para si, mas eu continuei estático, sentindo meu corpo congelar lentamente, numa hipotermia cuja causa não era um mero excesso de frio. Viktor girou um pouco para o lado e acendeu o abajur, obrigando meus olhos a piscarem repetidas vezes, fugindo do súbito excesso de luz.

O quarto estivera na escuridão, e o trovão me salvara de ter de dar explicações ao Viktor, ou simplesmente aguentar algum olhar de horror, nojo ou confusão. Eu caí para trás, sentando-me da cama, ainda inapto para controlar corretamente meus músculos; mas me assustei com a expressão chocada do Viktor ao olhar para mim. Demorei alguns instantes para me lembrar das marcas roxas por minha pele.

“Então você transou mesmo com outro, ontem de noite?” Ele perguntou, olhando com um nojo tremendo para as marcas no meu corpo, e eu me senti enjoado, porque algumas delas eu lembrava perfeitamente como Dimitri havia feito, e a expressão do Viktor era o reflexo da forma como a maioria das pessoas olharia para mim e meu irmão.

“Eu-“

“Você transou, não transou!? Eu achei que fosse coisa da minha cabeça, porque a droga do meu psiquiatra diz que a maioria das minhas desconfianças e suspeitas são coisa da minha cabeça, aí você liga com voz de cachorro carente, e eu caio nesse teu jeitinho arrependido! E depois você ainda vem aqui em casa para transar, sem nem deixar as marcas saírem do teu corpo!? Qual o teu problema?!” Gritou tudo agitado, perdendo completamente o controle da respiração, tornando-a pesada.

Minha cabeça latejou. Eu sabia que estava errado – e errado em todos os sentidos. Mas, que merda, eu não tinha tempo para lidar com ciúmes! Havia eras de preocupações à minha frente.

Havia Dimitri.

“Viktor, para de dar uma de namorado ciumento, por favor. A gente nunca firmou nenhum compromisso. É só sexo.” Levei uma mão à testa e, de olhos abaixados e com meus dedos tapando metade do meu campo visual, não percebi o ruivo pegar algo na gaveta do criado mudo até me sobressaltar com um movimento rápido e, então, sentir uma dor lancinante no braço que me arrancou uma exclamação de dor.

Instintivamente levei a mão ao corte que Viktor fez em meu braço, e meus olhos se arregalaram ao ver a pequena cascata de sangue que começou a descer por entre meus dedos. Volvi o olhar para o Viktor e o vi segurando um canivete com a mão trêmula.

Ele deixou o canivete cair sobre o colchão enquanto eu o encarava pasmo.

“Ai, meu deus, Diego, me desculpa...” Levou as mãos à boca e seus olhos molharam-se com lágrimas.

“Você é maluco.” Sussurrei e levantei da cama. Minha adrenalina devia estar em alta, o que deveria ser bem verdade pela maneira com que meu coração continuava batendo desde o fatídico segundo em que recuperei minhas memórias; eu mal sentia o corpo, e não me importei com o sangue quando recomecei a colocar minhas roupas.

Antes que eu conseguisse fechar o zíper da minha calça, Viktor pareceu recobrar a consciência e pulou da cama. Experimentei uma sensação horrível quando ele se jogou de joelhos na minha frente e abraçou as minhas pernas, deixando um mar de arrependimentos descer pelas bochechas.

“Me desculpe, Diego. Me desculpa. Não vai embora, por favor.” Pediu desesperado, apertando minha cintura e apoiando o queixo em meu ventre para olhar-me de baixo. Era terrível vê-lo se humilhando desse jeito, mas isso apenas me assustava mais. “Não me deixa sozinho de novo, Diego. Você NÃO PODE me deixar sozinho! Por favor...” Viktor gritou e depois sussurrou quase inaudível, e o som da chuva, que me lembrava tanto a noite anterior, não ajudava em nada a manter a calma e pensar racionalmente.

“Viktor...” Falei e coloquei as mãos nos ombros dele. Não sabia o que iria dizer, se alguém não houvesse batido na porta, do corredor.

“Viktor?” Era uma voz feminina, já calejada da idade. “Que gritaria é essa? Você não tomou teus calmantes? Viktor?!” Ela – que eu supus ser a avó do ruivo – bateu com mais força na porta. Seu tom de voz era impaciente, e tudo aquilo só serviu para deixar tanto eu, quanto o Viktor mais nervoso.

Ele se levantou rapidamente, com a respiração de quem estava prestes a sofrer um enfarto, o peito subia e descia rapidamente, e ele tremia inteiro.

“Viktor?” Me aproximei dele, segurando-o para que não desfalecesse. Comecei a ficar preocupado, de verdade. Ele havia me atacado com um canivete, mas agora estava branco e com um olhar de quem estava perto da morte, vendo-a dançando maldosamente perante os olhos. E a avó dele continuava batendo na porta, cada vez mais alto.

“ME DEIXA EM PAZ!” Viktor gritou, não sei se para mim, ou se para a avó. “Sai daqui, Diego...” Sussurrou, empurrando-me e cambaleando para trás até cair sentado no colchão. “Sai pela janela. SAI!”

Obedeci completamente aturdido.

Peguei minha camiseta e pulei a janela. A grade em frente da casa era baixa e eu acabei por pulá-la. Eu estava literalmente em meio a um dilúvio, mas o temporal parecia estar na verdade dentro da minha cabeça, borrando não só minha visão, como meus pensamentos.

Fiquei andando pela chuva sem saber o que fazer, ou para onde ir. Não queria ir para casa, dar de cara com a minha mãe. Tinha medo que ela lesse em meu rosto o que se passara entre eu e o Dimitri. Mas também não podia ir para o apartamento do Dimitri. Como iria encará-lo?

Minha lista de amigos passou pela minha mente, mas eu também não queria ver nenhum deles. Não sou um bom mentiroso, e sou péssimo em esconder meu humor por trás de sorrisos falsos. Todos iriam ficar preocupados, fariam perguntas... E, deus, eu não aguentaria nenhuma. E eu ainda tinha o Viktor para me preocupar agora. O que diabos havia sido aquilo? Ele parecia prestes a ter alguma espécie de ataque, e eu havia sido o culpado.

O lixo mais fedido em um terreno baldio seria ainda algo mais agradável do que o estado em que eu me sentia. Só parei de caminhar quando fiquei sob o toldo de um estabelecimento ainda aberto, a despeito da chuva. Era uma livraria, um sebo perto do centro. Havia milhares de sebos pelos arredores, e eu não pude deixar de comparar minha vida com um livro mal-escrito.

“Dimitri... Por quê?” Perguntei, apertando meu estômago e tremendo de frio, meus dentes estalavam um contra o outro. “Droga... Eu te amo tanto...” Abaixei o rosto e tentei dizer a mim mesmo que eu não queria meu irmão do meu lado, me abraçando e acalmando; apoiando a testa na minha e dizendo que também me amava, e portanto tudo ficaria bem.

“Menino... Você vai acabar gripando se continuar aí no vento, todo molhado.”

Virei o rosto para o lado e vi uma senhora que provavelmente era a dona da livraria; deveria ter uns setenta anos, com todos os cabelos brancos curtinhos e incríveis olhos azuis. Havia uma menina de uns dez anos meio atrás dela, espiando-me desconfiada, com um nariz igual ao da senhora.

“Vó, ele ‘tá chorando...” A menina falou, e eu imediatamente limpei minhas bochechas e funguei, virando o rosto.

“Eu estou bem. Só estou esperando o temporal passar.” Disse, e o vento ficava cada vez mais forte e a chuva chicoteava no corpo. Meu braço havia começado a doer e ainda sangrava, manchando minha camiseta. A senhora e a menina provavelmente iriam achar que eu era algum tipo de delinquente.

Era melhor do que saberem que eu tinha uma relação incestuosa com meu irmão. Ri amargo disso e chorei mais um pouco, coçando meus olhos para disfarçar.

“Você pode esperar aqui dentro.” Disse a senhora. “É perigoso caminhar por aí com esse tempo.”

Eu acabei entrando. Nesses momentos eu me surpreendia por ainda existirem pessoas tão gentis no mundo. A senhora enfaixou meu braço e me conseguiu uma toalha, enquanto a menina preparava um café. A livraria-sebo era pequena e aos fundos havia uma escada que levava para um apartamento onde a senhora morava com a neta.

Isso me fez pensar no Viktor de novo. Ele morava com a avó, mas eu nunca havia me preocupado em perguntar que tipo de relação eles tinham. Ele havia dito que eles se davam bem, mas isso não queria dizer que havia carinho, ou afeto na relação. Mesmo ela dando a ele aquele carrinho velho.

Eu não deveria ter me envolvido com o Viktor, pensei, e meus motivos eram completamente egoístas. Eu não queria me preocupar com ele, não queria me preocupar com nada. Queria poder apenas me concentrar no judô, no meu último ano da escola, e na faculdade pro ano que vem. Minha mãe exigia que eu fizesse faculdade, mesmo que eu só quisesse saber de judô.

“Não quer ligar para ninguém, querido?” Perguntou a senhora. “Tem um telefone aqui no balcão.”

“Não...” Peguei meu celular no bolso. Ele estava molhado, mas ainda funcionando, milagrosamente. O café que eu bebia ajudou a me aquecer e acalmar, e a livraria estava aquecida. Eu já não tremia, e meus dedos colaboraram para mandar uma mensagem para minha mãe, dizendo que eu voltaria assim que a chuva cedesse.

Eu não queria voltar, mas não tinha muita escolha. Dormir embaixo da ponte não estava entre meus hobbies.

Fiquei algum tempo conversando com a senhora e a neta, mas sem prestar real atenção tanto no que elas quanto no que eu dizia.

Até que terminei minha terceira xícara de café.

“Obrigado pelo café.” Falei, cabisbaixo, mas acabei quase deixando a xícara cair, porque alguém entrou na livraria naquele instante, atraindo a atenção de nós três. Era o Dimitri, e meus lábios se entreabriram enquanto eu pensava que deveria estar alucinando.

Dimitri fechou o guarda-chuva, deixando-o próximo da porta.

“O que você está fazendo aqui?” Nem perguntei como ele havia me encontrado, afinal, ele tinha meu celular no GPS. Decidi que precisava mudar de aparelho, ou dar um jeito de tornar meu celular irrastreável.

“Vim te buscar.” Dimitri disse. “Esse temporal não vai ceder tão cedo e eu estava preocupado. Você saiu de casa sem me dizer para onde estava indo.”

“Eu não pedi para que você me buscasse.” Repliquei. “Não quero voltar pro teu apartamento.”

Não quero te ver.

Eu levantei da cadeira e me afastei quando ele tentou segurar meu braço. Me sentia ridículo agindo assim, mas estava tão nervoso que poderia explodir a qualquer momento. Tinha medo do que seus toques poderiam me causar.

“Diego... Me desculpa por hoje mais cedo. Eu-“ Ele foi falando, com o canto dos olhos cuidando também a senhora e a menina agarrada a ela.

“Só por hoje mais cedo?” Perguntei, voltando a tremer mesmo parcialmente seco. “E pelo que você fez ontem de noite, não vai se desculpar?”

Dimitri parou e me encarou com evidente surpresa, parecendo esquecer completamente a presença das outras duas. Eu experimentei um prazer quase sádico ao vê-lo sem reação, pálido. Ele, que sempre era tão seguro de si e dono de respostas rápidas e soluções milagrosas. Não à toa ele sempre havia sido meu porto-seguro, uma pessoa que eu considerava extremamente forte e confiante.

E agora ele parecia tão perdido quanto eu.

“Você... Você lembra?” Ele perguntou, num sussurro, e tentou se aproximar novamente, mas eu me afastei até bater as costas contra o balcão.

“Achou que eu não iria lembrar? Lembrar que eu ‘tava drogado, traumatizado depois de quase ser violentado e você-“

Dimitri se aproximou rapidamente e me abraçou extremamente forte, praticamente me sufocando, e eu não pude concluir minha frase, que seria algo como ‘... e você resolveu me comer naquele estado, porque isso obviamente iria me ajudar a parar de chorar?’.

“Vamos conversar no meu apartamento. Não tem porque desconhecidos ficarem de plateia.” Sussurrou no meu ouvido, roçando a barba na orelha e causando-me um arrepio devastador. Eu queria empurrá-lo, mas no lugar disso fiquei ofegante e excitado. E era impossível não me envergonhar disso.

“Diego, está tudo bem mesmo?” Era Marta quem perguntava. Minha atitude e palavras para com Dimitri a deixaram apreensiva, e com razão. Eu afastei meu irmão e não consegui encará-la ao dizer:

“Está tudo bem. Obrigado pelo abrigo e ajuda.” Segui para fora, sendo imediatamente seguido pelo Dimitri. Ele pegou o guarda-chuva e segurou meu braço, mantendo-me próximo dele até que chegássemos em seu carro. Naquela situação de caos por causa da chuva, era uma vantagem ele ter uma picape esportiva.

Ele me soltou apenas para que eu entrasse no carro. Evitei olhá-lo e o silêncio foi o mais pesado de uma vida entre nós. Nunca havia me sentido tão deslocado e tenso perto do Dimitri, e a sensação era horrível, como me atirar naquele temporal e me afogar naqueles pingos pesados. Eu nem sabia como Dimitri conseguir enxergar as ruas, porque o oceano parecia estar sendo virado sobre a cidade.

A pior parte do trajeto foi quando chegamos ao prédio e nos encontramos sozinhos no elevador. Eu mantive meu olhar no chão ao meu lado, abraçando meu próprio corpo como se pudesse me proteger do olhar dele. Conseguia sentir com preciosismo a maneira com que me encarava, fixamente, esperando me atrair para seus orbes negros. Meu corpo queimava numa ascendência compatível à do próprio elevador, e eu me sentia claustrofóbico ali dentro, com ele.

Pulei para fora do elevador assim que ele se abriu e segui rápido, adentrando no apartamento.

“Vou ir tomar um banho.” Avisei e segui até o banheiro de hóspedes sem olhar para trás. Entrei no banheiro e chaveei a porta. Não que eu achasse que o Dimitri iria invadir, ou algo do gênero, mas me deixava mais confortável saber que ele não conseguiria entrar, mesmo se tentasse. E isso era ridículo; arranquei minhas roupas com força, jogando-as longe.

Quando fiquei embaixo do chuveiro, sentindo a água quente escorrer pelo meu corpo, foi impossível não relembrar o que havia acontecido entre eu e o Dimitri naquele exato lugar. E mais impossível ainda foi impedir meu corpo de sentir aquelas sensações de novo, mergulhar na cor cristalina da lembrança e ofegar de olhos apertados, com a água pingando entre meus cílios.

Minha mão desceu para meu pênis, e eu lembrei de como Dimitri havia me tocado ali. E, deus, era bom. Meu corpo estremecia e eu mordia os lábios para não gemer alto. Quase podia sentir Dimitri às minhas costas, sussurrando de novo em meu ouvido, antes de me beijar na nuca e tocar-me da exata maneira que me causaria delírios pecaminosos.

Quando gozei, abri os olhos com o coração aos pulos, acordando de um sonho que não parecia ter durado mais do que segundos, mas olhei para meu relógio de pulso e vi que havia me perdido no tempo. Terminei rapidamente o banho, ainda mais envergonhado do que antes; mais do que nunca, não sabia como iria encarar meu irmão. Talvez tivesse sido melhor se eu fingisse que não havia lembrado de nada, e nossa relação seguisse como antes.

Mas minha parte mais lúcida sabia que era uma ilusão, uma fuga sem saída. Eu nunca mais o veria apenas como o irmão mais velho. Eu nunca mais permaneceria sob a mira de seu olhar sem sentir meu corpo reagir feito o de um amante incauto. E enterrar a noite passada seria uma tarefa difícil, para não dizer impossível. E, além de tudo, eu sabia que eu jamais conseguiria passar muito tempo longe do Dimitri. Eu ansiava por cada minuto perto dele, e agora eu ansiava por muito mais, por coisas que eu não conseguiria admitir em voz alta, nem para mim mesmo.

Saí do banheiro e fui para o quarto de hóspedes. Dimitri havia feito o favor de deixar algumas roupas dele sobre a cama, e eu o agradeci por isso, mesmo que elas ficassem grandes e largas, e eu não parecesse nada além de ridículo com elas. Roupas eram o de menos naquele momento.

Ainda sentei na cama depois de arrumado e fiquei uns bons vinte minutos acumulando coragem para voltar para a sala.

Quando consegui obrigar minhas pernas a irem até lá, encontrei Dimitri sentado no sofá com a cabeça apoiada no encosto, voltada para cima de forma que seu maxilar quadrangular ficava em evidência, e eu podia ver perfeitamente o desenho de seu pomo de adão. Mas, dele, meu olhar desceu por todo seu corpo, e foi o meu pomo de adão que subiu e desceu, quando engoli em seco, já querendo voltar para o quarto.

Porém minha respiração deve ter me denunciado antes que eu continuasse a agir feito um covarde, pois Dimitri baixou a cabeça e seus olhos se fixaram novamente em mim. Meu estômago deu um giro tão grande que precisei apoiar uma mão na batente da porta e me encostar um pouco a ela.

“Diego...” A voz dele me causava calafrios piores do que a chuva. Dimitri se levantou e tentou se aproximar, mas minha resposta corporal – me afastar arregalando os olhos, o fez parar. Eu me sentia como um garotinho assustado, mas não conseguia agir diferente. Todas as minhas bases pareciam ter sido destruídas na volta rápida de um ponteiro de segundos. “Eu não sei como começar essa conversa.” Dimitri admitiu, justo quando eu mais queria que ele me desse todas as respostas.

“Você poderia começar a explicar...” Umedeci os lábios, sentindo-os secos. “Como pôde transar comigo naquele estado... Ou melhor, como pôde transar comigo. Sou teu irmão.” Enfatizei com um crescente mal-estar. Era como descer lentamente um poço de escadas escorregadias, infinitas, com o ar faltando pouco a pouco enquanto o calor da terra sufoca as narinas e o medo de escorregar e cair até perder os sentidos aumenta.

Descer ao fundo do poço. É, era bem isso.

As sobrancelhas do Dimitri estavam franzidas, todo o rosto era de alguém que também precisava de consolo e apoio, mas eu não podia dar nada daquilo. Apoiei minha cabeça na batente da porta quando volvi meu olhar para o chão.

“Somos irmãos...” Repeti debilmente.

“Eu sei que somos irmãos.” Dimitri disse. “Eu sei que eu não deveria ter feito nada daquilo, mas Diego...” Falava como num apelo, e eu o olhei, esperando. Dimitri suspirou, parecendo colocar as ideias no lugar. “Você sempre quis uma resposta concreta do porquê eu saí de casa justo quando as coisas estavam mais conturbadas... Porque eu te ‘deixei’. Bem, aí está a tua resposta.”

O encarei incrédulo.

“Mas que porra você está dizendo?” Perguntei me alterando e me desencostei da batente, avançando um passo na direção dele. “Que você saiu de casa porque tinha medo de me estuprar quando tivesse a menor das oportunidades?” Gritei.

A expressão dele se transfigurou para uma carranca séria e determinada.

“Eu não te estuprei.” Disse com uma certeza que chegava a rasgar na pele. Eu ri, irritado.

“Não me estuprou? Puta merda, Dimitri, eu ‘tava drogado sem nem entender direito o que estava acontecendo! Eu disse pra você que não queria! Eu disse!” Eu cheguei mais perto, arriscando-me a perder o controle, só porque poderia sentir as vibrações de seu corpo ondulando no ar perto de mim. Era doloroso como eu havia me tornado consciente de sua presença, olhares, calor... Era doloroso como eu mentia para mim mesmo, tentando me convencer de que não era tão culpado quanto ele.

“Não.” Dimitri agarrou subitamente meus ombros. “Você disse que não queria me amar daquela forma, o que queria dizer que você me ama além de um sentimento fraternal também! Cada vez que eu te toquei você correspondeu-“

“Para de falar merda!” O interrompi, tentando empurrá-lo, mas Dimitri agiu rápido e trocou meus ombros por meus pulsos, puxando-me contra ele. Talvez eu pudesse derrubá-lo por ser bem treinado no judô, mas apenas ofeguei ao ter meu corpo contra o dele, e olhei para cima, sentindo-me fraco sob a mira de seus orbes negros.

“Eu sei que sou errado, Diego. Sei disso desde o momento que comecei a te querer de uma maneira considerada proibida entre pessoas do mesmo sangue, e você não tinha mais do que treze anos. Mas já chega de esconder, não dá para voltar atrás... Não importa que você me olhe com essa cara, você já sabe, eu já te disse ontem como me sinto.” Determinou, e eu o olhava perplexo, querendo fugir daquelas palavras. Era assustador, e meu coração batia tão forte que minha garganta pulsava e me impedia de falar. “Eu errei ontem... Eu me deixei levar, mas você não imagina o tormento que foi não poder fazer nada durante todo esse tempo, Diego.”

Tentei me afastar, mas Dimitri voltou a me puxar e firmar.

“Você tem noção de como me senti quando você começou a se relacionar com outro garoto? Eu queria matar aquele Viktor, ao mesmo tempo em que me sentia assustado, porque você sendo gay ou bissexual, era como se minhas chances aumentassem...” Sussurrou a última parte, e eu balancei a cabeça.

“Não aumenta nada. Que merda, Dimitri, não dá. Não podemos.”

“Mas você quer?” Perguntou e meus olhos voltaram a se arregalar. Eu não conseguia responder. Eu não tinha resposta. Não concreta, não algo que coubesse na fala. “Diego...?”

“Me larga um pouco.” Pedi e me afastei. Dimitri soltou-me, mas não pareceu achar seguro se afastar, já que eu estava quase cambaleando. Eu caminhei até a janela, apoiei minhas mãos nela e olhei a rua por alguns instantes, sem conseguir pensar em nada além do que via. Até que as mãos do Dimitri se apoiaram sobre as minhas no vidro, uma de cada lado de meu rosto, e eu encostei também minha testa ali, deixando minha respiração embaçar o vidro e dar mais cor à chuva. Podia sentir a respiração do meu irmão contra minha nuca, e a minha só se agitava.

“Eu quis arrancar de você ontem-“ Dimitri recomeçou aquele quase monólogo. “Que você também queria... Você chorou porque queria também. Eu deveria ter parado ali, mas você levou minha mão para te tocar e... Eu quis tanto te ouvir dizer.” Sussurrou contra minha pele e roçou os lábios na minha nuca. Eu ofeguei de novo, pressionando mais a testa contra o vidro. “Eu fiquei cinco anos me segurando, Diego. Mas agora parece que não dá mais.”

Estranho como eu não conseguia me sentir verdadeiramente surpreso com as declarações dele. Era como se no fundo eu já soubesse de tudo, já imaginasse desde o início que toda a nossa proximidade não era natural. Que a maneira como eu não podia viver sem ele era absurda para dois simples irmãos, para algo meramente fraternal. Dimitri era tudo; meu ar, meu chão, e não importava que fosse brega. Eu me sentiria sem identidade se não fosse por ele. Quem eu era? Às vezes me perguntava. Eu era várias coisas, mas acima de tudo lá estava: irmão do Dimitri. Era tão simples, tão seguro.

E ainda tão errado.

Por que eu não podia continuar cego olhando a chuva?

“Eu enfrento qualquer coisa por você.” Dimitri murmurou agora beijando meu pescoço e eu inclinei minha cabeça para o lado, fechando os olhos. “Eu encaro a nossa mãe, a sociedade, qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa, se você também quiser, Diego. Eu te amo...”

Diabos, eu era fraco. Eu deveria gritar, xingar, bater nele por ter me levado pra cama quando eu não conseguia nem pensar... Mas meu estado drogado apenas me levara a beijá-lo e ir atrás do que eu queria. Era o que eu queria, desde aquela maldita festa de aniversário, eu queria tanto beijá-lo, sentir seu corpo, a pele, os toques; senti-lo inteiro, completo, único.

E havia sido tão bom...

Eu podia mesmo acusá-lo de fazer algo que eu queria a ponto de meu sangue inflamar nas veias?

Eu já não sabia se ele me arrastava, ou eu quem caminhava, corria na verdade, para as portas do inferno e me atirava às chamas.

Arderia menos que agora, provavelmente.

“Pelo amor de Deus, fala alguma coisa, Diego.” Dimitri pediu, agora um pouco desesperado, minha inércia e silêncio atormentando-o, e ele apertou minhas mãos contra a janela.

Eu me virei rápido e o derrubei no chão com um movimento de judô. Dimitri caiu de costas no chão com um gemido abafado e dolorido, mas tudo nele silenciou quando me sentei sobre sua cintura e me inclinei, apoiando as mãos nas laterais de seu rosto. O olhei profundamente, relembrando cada detalhe que sempre me havia feito achá-lo bonito: o maxilar forte, a barba grande o suficiente apenas para lançar uma sombra sobre seu rosto, as sobrancelhas negras como os olhos e cabelos curtos; o ar de modelo russo.

“Você é um bastardo sim. Um doido, desgraçado, e só não digo filho da puta porque temos a mesma mãe...” Eu exalei o ar lentamente, fechando os olhos para não deixar eles se tornarem molhados. “Se você enfrentaria tudo por mim, por que nunca falou nada? Por que deixou chegar a isso?”

“Eu não podia, Diego. Você nunca havia dado nenhum indício que se atraía por homens até um tempo atrás, o que dirá pelo teu irmão! Seria ridículo dizer qualquer coisa e estragar a nossa relação. Você sempre me viu apenas como um irmão mais velho, e eu não queria estragar essa imagem...” Dimitri tocou minha coxa e isso disparou um choque em mim.

Ele parecia ler todas as minhas reações, e as lia com perfeição.

“Por favor, me perdoa.” Dimitri sussurrou, submisso, mas eu ignorei isso.

“Mas você percebeu, não é?” Perguntei. “Percebeu e por isso começou a agir diferente também...”

“Percebi o quê?”

Eu sabia que ele estava se fingindo de desentendido, mas me irritei igual e soquei o chão o lado de seu rosto.

“Você sabe o quê!” Gritei.

“Me mostre o quê.” Sussurrou em resposta com a voz grave, esperando que eu decidisse.

Eu o encarei por menos de um segundo.

Até quem meus antebraços bateram contra o chão e meus lábios desceram contra os dele. Dimitri também ergueu o rosto e me puxou pela nuca, e nossas bocas se encontraram pelo meio do caminho.

Minha mente gritou para que eu parasse, mas minha língua apenas afundou na boca dele. Era uma libertação tão incrível, e tão terrivelmente assustadora ao mesmo tempo. Gemi quando Dimitri subiu a mão da minha coxa para minhas costas, entrando por dentro da camiseta larga que eu usava. Agarrei seus cabelos curtos quando ele inverteu as posições num giro rápido e prensou-me contra o chão.

Gemi de novo quando ele moveu o corpo e eu pude sentir sua ereção se pressionando entre minhas pernas; o simples fato de ele estar excitado me deixava fora de mim. A adrenalina que senti foi tão grande, que eu já nem sabia o que fazia com as mãos, se tocava suas costas, os braços fortes, ou os cabelos e nuca, ou tudo; o prazer me afogava, e quando eu era tocado nos meus roxos, mal conseguia me importar com a dor mínima.

Dimitri desceu a boca para meu pescoço e eu virei o rosto, para a janela. Continuava escuro e chuvoso lá fora, e a língua dele brincava na minha pele de uma maneira que deveria ser proibida — e era –, mas pude ver claramente todos os raios que estalavam entre as nuvens negras.

Um celular tocou antes que Dimitri voltasse para meus lábios.

Notas finais
Gente, estou sem tempo aqui, mil coisas para fazer, gastei três horas respondendo reviews, terminando o cap. e revisando o texto. Agradeço por cada review, são lindas, me animam muito, e também peço desculpas pela demora com atualização, mas durante o semestre é difícil. :B (e meus bloqueios criativos não ajudam, esse cap. saiu aos trancos e barrancos, espero que não tenha ficado muito "bleh" ahahah). Beijão!