A Cor Da Chuva
9 Capítulo 8
Notas iniciais
E me perdoem a demora... Eu estava dando um up nas minhas outras histórias. ;x
Demorei a conseguir abrir os olhos. Minha cabeça pesava enormemente e eu me sentia desorientado como se um caminhão houvesse passado por cima de mim. Quando consegui focar a visão, só consegui perceber que não estava no meu quarto, mas no de hóspedes do apartamento do meu irmão. E eu me encontrava apenas de cueca.
Não lembrava de ter tirado minhas roupas. Aliás, forçando pela memória, percebi que havia um grande rombo entre eu e o Viktor dançando na festa, e eu estirado naquela cama. Bocejei e me espreguicei e de imediato me perguntei onde o Viktor estaria.
Aí lembrei de ter-me perdido dele na festa, visto meu irmão com o Alexandre e depois... Era bastante confuso, um apagão com alguns flashes que pouco revelavam. Mas havia um cara no bar, me oferecendo bebida. Só que não lembrava de ter bebido tanto para acabar nesse estado de morto-vivo. Suspirei.
Se eu estava no apartamento do Dimitri, então ele poderia me ajudar a recuperar algumas memórias. Chutei os lençóis para longe e procurei pelas minhas roupas, mas não as encontrei. Saí apenas de cueca do quarto, esfregando os olhos em busca do banheiro. Lavei o rosto completamente grogue, escovei os dentes com a cabeça abaixada contra a pia e, com um gemido de dor, fui até a cozinha em busca de alguma coisa, estava podre de fome.
Por um momento senti certo receio de encontrar o tal Alexandre no apartamento, mas tudo parecia vazio. Tirei então uma caixa de leite do gelo e a virei direto mesmo, sentando-me no banco alto da ilha no centro da cozinha, novamente me forçando a lembrar da noite anterior, agora que meu estômago não atrapalhava minha concentração. Eu realmente não conseguia lembrar de ter bebido tanto. Estranho.
Não demorou mais do que alguns minutos e eu escutei barulho de gente entrando no apartamento. Logo, Dimitri aparecia na cozinha. Estava perfeitamente arrumado, a barba feita e nenhum sinal de cansaço no rosto. Estranhamente, me senti desconfortável por estar apenas de cueca na cozinha dele (quantas vezes ele já não havia me visto apenas de cueca?), e desviei o olhar, bebendo um rápido gole de leite.
“Bom dia, Diego... Dormiu bem? Como se sente?” Ele perguntou, entrando na cozinha e colocando algumas sacolas sobre a ilha. A expressão dele denotava uma preocupação velada. Eu lembrei da nossa última discussão. Me arrependia daquilo. Não queria ter dito nem metade do que falei.
Era injusto colocar toda a culpa da minha própria confusão nas costas dele.
Porém a maneira com que meu irmão me olhava me acalmou. Não parecia irritado, e não jogava mágoa na minha cara. Já havíamos brigado outras vezes antes, afinal éramos irmãos, e irmãos brigam. Eu tinha sorte por Dimitri nunca ficar brabo comigo por muito tempo. O melhor era agir com naturalidade, decidi.
“Minha cabeça dói...” Murmurei. “Eu bebi tanto assim? Eu não me lembro de como acabei aqui.” Olhei para ele. Pude jurar ver uma expressão misto de alívio, culpa e agonia antes que ele se virasse para a geladeira, dando-me as costas.
“Você deve ter bebido demais. Quando te encontrei, estava quase caindo sem noção de nada. Aí te trouxe para cá.” Falou neutro, pegando rigidamente alguns frios na geladeira. Franzi as sobrancelhas, farejando algo de errado na postura corporal dele. O conhecia bem demais para não notar quando escondia algo sério.
“E o Viktor?” Estranhei.
“O que tem ele?” Me surpreendi com a expressão fúnebre de Dimitri ao se virar e perguntar.
“Ele... Foi na Elevação comigo. Você não viu ele por lá?” Perguntei.
“Não.” Dimi retrucou, seco. Colocou as coisas sobre o balcão e pegou uns talheres e pratos, puxou bruscamente um pão integral da sacola e começou a preparar um sanduíche. “Por mim, esse garoto poderia ir pro espaço.”
“Não sei por que tanto ódio dele. Nem o conhece! E foda-se que os pais dele eram problemáticos, isso não diz nada sobre alguém!” Falei rápido, quando Dimi abriu a boca para retrucar. Parecia que eu ainda não havia tido tempo para digerir toda aquela história sobre o Viktor. Era surpreendente, mas por algum motivo eu não conseguia verdadeiramente me chocar. Mas talvez quando a ficha caísse...
Dimitri se calou, terminando de preparar com impaciência o sanduíche a ponto de deixar o pão todo amassado. Colocou-o num prato e o empurrou para mim.
“Coma.”
“Valeu.” Devorei sem pestanejar. Poderia comer uns cinco tranquilamente, mas precisava cuidar da alimentação. Dei algumas mordidas, pensativo. Dimi fazia mais um sanduíche, calado e sério. “Sabe...” Resmunguei, ainda mastigando. “Estou me sentindo meio estranho.” Eu me remexi no banco, sentindo como se... na minha bunda...
Meus olhos se arregalaram.
Meus fundilhos estavam doloridos. Eu percebia agora que me sentava. Meu queixo caiu debilmente. Eu não podia acreditar que o Viktor havia me fodido por trás! E quando eu estava bêbado! E depois ele havia me largado na festa? Mas...
“O que quer dizer?” Dimitri perguntou, erguendo os olhos negros para mim e interrompendo meu fluxo de pensamento. Mastiguei mais um pouco, me acomodando melhor no banco. A dor aumentou. Ah, mas eu matava aquele moleque descarado!
“Eu... Eu acho que...” Me confundi com as palavras. “Acho que me comeram por trás ontem.”
Dimitri se engasgou com o pão e precisou encher um copo de água e virar tudo de uma vez. Eu desci do banco e corri até ele, dando-lhe tapinhas nas costas quando ele terminou de beber, mas continuou tossindo. Ele parou ofegante e respirou fundo, olhando-me de esguelha e descendo o olhar por meu corpo. Senti um calafrio forte e prendi a respiração.
“Talvez...” Ele murmurou. Eu olhei para baixo e reparei que havia manchas nas laterais na minha cintura. Arregalei de novo os olhos, perplexo, e corri para a sala. Estava tão grogue quando fui escovar os dentes, que nem me olhei direito no espelho. Dessa vez parei no espelho de corpo inteiro que havia na sala de estar.
Olhei todo meu corpo. Havia manchas roxas, variando de intensidade, nas minhas coxas, na minha cintura e no meu pescoço. Minha pele era bastante branca e sensível. Eu costumava ficar com roxos horríveis por conta do Judô. Mas aquelas manchas arroxeadas não tinham nada a ver com meus treinos. Virei de costas e afastei um pouco a cueca. Havia manchas até na minha bunda!
Voltei a me encarar de frente, de queixo caído.
“É um estrago e tanto.” Escutei a voz do Dimi e o vi apoiado contra a parede, com os braços cruzados. “Não acho que aquele pivete conseguiria causar tamanho estrago...” Ele começou a se aproximar, até parar atrás de mim. O olhei através do espelho, sentindo-me nervoso.
Ele se inclinou para sussurrar no meu ouvido.
“Tem certeza de que não se lembra quem fez isso?” Perguntou, extremamente próximo. Os pelinhos da minha nuca se arrepiaram. A cena do cara me oferecendo bebida me veio à mente, seguida de um novo arrepio que rememorava sensações que senti após tal cena.
Apertei os olhos, com dor de cabeça.
“Não...” Murmurei, com medo de ter transado com um estranho qualquer e com vergonha de admitir a existência dessa possibilidade. Paralisei ao sentir os dedos de Dimi roçarem no roxo na minha cintura.
“Está doendo muito?” Ele perguntou. Parecia preocupado, encarando-me diretamente através da imagem refletida. Ele apertou de leve e eu gemi baixo.
“Um pouco...”
“Onde mais você disse que dói?” Perguntou, roçando os lábios no meu ouvido. Quase fechei os olhos pela sensação, inclinando a cabeça um pouco para o lado. “Aqui...?”
Pulei quando ele tocou-me atrás, pressionando de leve entre meus glúteos, e dei-lhe um tapa na mão ao me virar para ele. Ele apenas me encarou, sério, e eu simplesmente não conseguia ler o que se passava por trás de suas irias negras. Mas qual a novidade? Ele estendeu a mão e tocou meu rosto, roçando os dedos em minha pele.
“Diego, eu-“
“Minhas roupas. Preciso das minhas roupas.” O interrompi, nervoso demais para perpetuar aquele contato. Me afastei um passo e o encarei como se não o reconhecesse. A expressão dele mudou, parecia arrependido, mas eu não podia ter certeza. Minha cabeça girava e eu sentia que poderia vomitar o sanduíche e o leite que recém havia comido.
“Estão no secador...” Ele disse. Ainda tentou se aproximar de novo, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu praticamente corri atrás das minhas roupas. Encontrei meu celular no quarto e vi que havia dezenas de chamadas não atendidas ali. O aparelho estava no silencioso. Também não lembrava de tê-lo silenciado.
As chamadas não eram da Lydia, como eu poderia esperar. Dimitri deveria ter avisado para nossa mãe que eu estava com ele, do contrário, eu já teria milhões de chamadas não atendidas dela. Mas não havia zilhões de ligações da Lydia, mas do Viktor, da casa dele.
E como se o ruivo pudesse me ver através da tela do celular, justo naquele momento ele me ligou de novo. Mal atendi e tiver de afastar o aparelho do ouvido, tal foi o grito que reverberou em meus tímpanos.
“EU TE ODEIO, DIEGO!” Fiz uma careta. “Como você pôde me abandonar naquela festa e sumir?? Eu te avisei que só ia ao banheiro rapidinho e que era para você me esperar no bar!! Onde você está? Com quem você dormiu?? Eu perdi meu celular lá na festa e não tive como te ligar, mas fiquei lá te procurando até as seis da manhã!! Aí eu te ligo durante toda a manhã e você não atende essa porra! Eu não acredito que você encontrou outro qualquer e foi comer ele sei lá aonde!!!”
“Não foi nada disso...” Comecei a explicar.
“Você é um idiota! Quero mais é que suma!” Desligou. Olhei indignado para o visor do celular. Desde quando ele se achava no direito de me xingar, fazer suposições absurdas e ainda surtar como se fôssemos namorados? ‘Tá que foi uma sacanagem abandoná-lo, mas... Caramba, será que eu havia mesmo o abandonado para transar com um qualquer?
Me senti mal. Eu não era tão canalha assim... Suspirei, decidindo tentar me explicar pessoalmente, mais tarde. Por celular seria em vão, ele nem iria me atender se eu ligasse.
Deixei o celular escorregar para o bolso da minha calça e me senti sem saída. Meu corpo estremeceu apenas por lembrar do toque do Dimi em minha cintura e... minha bunda. Dimitri estava tentando me enlouquecer? E, droga, por que eu me afetava tanto? E havia o momento entre ele e o Alexandre na noite anterior. No fundo eu sabia que havia sentido ciúmes, raiva, angústia.
“Não, não, não...” Murmurei consternado, me deitando na cama e me encolhendo. “Não deixa eu sentir esse tipo de coisa pelo meu irmão.” Apertei o travesseiro, sem saber para quem eu fazia aquele pedido. Eu me sentia perdido e com vontade de fugir para um lugar sem cores, onde ninguém veria meu rosto, ou me reconheceria, ninguém poderia ler em minha imagem o que se passava dentro de mim. Eu também não queria ler nada.
Então pulei da cama e me esgueirei para fora do apartamento. Ainda ouvi um “Diego?” quando entrei o elevador, mas as portas do mesmo se fecharam antes que Dimitri tivesse tempo de me interceptar. Soltei o ar aliviado, e chateado por estar fugindo dele. Justo o Dimi que sempre havia sido meu porto-seguro. Apoiei a testa contra o espelho do elevador enquanto descia todos aqueles andares.
Quando botei os pés para fora do prédio, notei que o dia estava nublado e carregado, e tanto o cheiro de chuva, quanto todas as marcas que ela havia deixado nas ruas e no céu me atingiram com uma lembrança que voltou como água escorrendo em vidro à minha mente.
E então notei que o vento forte e sussurrado de antes era um prelúdio de chuva, a qual agora enchia o ar com novos burburinhos, deixando cair os lençóis pesados de água que estavam molhando as cortinas da janela aberta.
– Eu te amo... – Murmurei embargado para Dimitri.
Levei a mão à testa e caminhei alguns passos sem muito equilíbrio. Não lembrava como, quando, por que havia dito que o amava, embora fosse apenas a verdade. Mas os roxos em meu corpo pareceram latejar e depois permanecer formigando durante todo o tempo que levei entre pegar um táxi e chegar à casa da Jady. Precisava de um refúgio, e esse refúgio teria de ser minha melhor amiga.
Toquei a companhia com o coração ainda acelerado e ansioso, e minha expressão poderia levá-la a supor que havia corrido até ali fugindo de algum ladrão que encontrara pelo caminho. Jady morava em uma pequena casa no subúrbio da cidade, junto com a mãe. Era um bairro residencial bastante agradável, repleto de praças e árvores. Liguei para ela assim que parei em frente ao portão.
“Di! Já te vi pela janela, estou indo aí.” Ela disse sem que eu precisasse explicar nada. Logo aparecia na porta da casa e corria o pátio pequeno até o portão.
“Oi, Jady.” Falei e, assim que ela abriu a grade, avancei a dei-lhe um abraço apertado, que carregava nele todo o meu tormento.
“Di, o que aconteceu?!” Perguntou surpresa, retribuindo ao abraço. Não falei nada, apenas continuei abraçado a ela por alguns minutos. Até ver outra garota na porta da casa. Me afastei da Jady.
“Desculpa, não sabia que estava com alguém.”
“É a Sabrina! É uma ótima chance de você a conhecer. Minha mãe foi viajar esse final de semana e eu a convidei para passar aqui comigo.” Disse, fechando o portão e então me arrastando pelo braço até a porta da casa. “Nós resolvemos fazer algo caseiro hoje. Ver um filme, comer umas pipocas, já que parece que vai cair outro temporal.” Paramos quando alcançamos a loira. “Sabrina, esse é o Diego, você sabe, irmão do Dimitri.”
“Oi, Diego.” Ela cumprimentou. Era uma mulher feita já. Se bem me lembrava, a Jady tinha dito que tinha 27 anos. Dez anos a mais do que a minha amiga. Ela era deslumbrante – alta, esguia mas com curvas bonitas e bem marcadas. “Finalmente tive a chance de te conhecer. Sou amiga do teu irmão, mas ele nunca quis apresentar você propriamente para ninguém.” Ela riu enquanto entrávamos na casa.
“Ela não tem uma voz linda?” Jady sussurrou para mim. Revirei os olhos, mas sorri. Ali estava uma garota apaixonada.
“Ela parece ótima.” Assenti.
“Sim! Mas tira o olho.” Jady me mostrou a língua e riu. Eu obviamente já não pensava em ficar muito, não queria atrapalhar a tarde delas, mas acabei sentando num dos sofás da sala. Jady disse que ia fazer as pipocas e aí poderíamos ver o filme.
“Parabéns pelo mundial. Vai participar de mais algum campeonato nesse ano?” Sabrina perguntou para quebrar o silêncio.
“Valeu. De campeonatos grandes, ano que vem tem o pan-americano. Falta tempo ainda para a Olimpíada, mas meu sonho é conseguir uma medalha de ouro nela.” Encolhi os ombros. Me sentia mal falando do judô quando não estava dando a atenção necessária a ele.
“Sabe, foi uma grande surpresa ver você na televisão. Eu assisti ao mundial, meu pai já foi judoca também e adora. E eu também treinei quando era mais nova, só que não era a minha praia. Mas não é por isso que foi uma surpresa. É só que nenhum dos amigos do Dimitri te conhecia, e como a gente é um grupo bem... alternativo, os garotos ficaram bem animadinhos em te ver na TV.” Ela riu. Por alternativos eu entendi que quase todos deviam ser gays, lésbicas ou simpatizantes. “A questão é que o Dimitri sempre falou bem de ti, mas parecia que te escondia da gente, e acho até que com razão, porque depois todos os amigos dele ficavam brincando dizendo que ele precisava te apresentar e essas coisas. O engraçado é que ficava mal-humorado nesses momentos. Parecia ficar com ciúmes.” Riu mais um pouco, e suas palavras obviamente ganharam meu interessante.
“Ciúmes?” Perguntei.
“É... Você viu o que ele fez lá com o Bernardo aquele dia. O Dimitri tem um forte complexo de irmão mais velho, não é?” Sabrina deu de ombros. “O Bernardo ficou furioso. O nariz dele entortou e não quer voltar pro lugar. Mas ele sempre foi um idiota e ninguém ficou do lado dele.”
De novo meus olhos piscaram e novos flashes da noite anterior atacaram minha visão.
– Não lembra de mim, não é? Acho que não esperaria me ver aqui depois do soco que recebi do teu irmão. Ele quebrou o meu nariz, sabia? Tive de me acostumar com a ideia de ter um nariz torto pelo resto da vida.
Meus lábios se entreabriram, secos como minha garganta, quando lembrei que o tal Bernardo havia me drogado. Devo ter ficado pálido, pois bem naquele momento a Jady apareceu com dois baldes de pipocas e, ao me ver, correu largando a pipoca no colo da Sabrina.
“Diego, você ‘tá passando mal?” Se inclinou para perto de mim. “Você parece prestes a desmaiar.”
“Não... Eu... Eu ‘to bem.” Falei aturdido. Teria sido o Bernardo que havia transado comigo depois de me drogar?
Tentei, mas nenhuma nova memória veio. Meus olhos umedeceram, mas eu pisquei rápido para disfarçar minha aflição. Mas isso ainda não explicava como eu havia parado na casa do Dimitri.
“Sobre o que vocês estava falando?” Jady se dirigiu à Sabrina, olhando-a com uma sobrancelha erguida.
“Sobre o Dimitri...” Sabrina franziu a testa. “Vocês dois estão brigados, ou algo assim?”
“Algo assim...” Soltei e aceitei o balde menor que a Jady me ofereceu. Ela se sentou na mesinha no centro da sala, de frente para mim.
“Sério? Ah, Diego, por isso você pareceu tão chateado quando chegou aqui! O que aconteceu?” Incentivou colocando uma mão sobre meu joelho. Seus olhos verdes eram pura preocupação e carinho. Eu poderia me abrir com ela... Eu precisava me abrir com alguém, ou então enlouqueceria. Mas mal conhecia a Sabrina e não me sentia confortável para falar.
Jady pareceu perceber isso.
“Não é nada. Briga boba entre irmãos, logo estamos de boa de novo.” Desconversei.
“Desculpa, Diego, não sabia que estava te chateando. Tenho mania de falar demais.” Sabrina soou arrependida. Jady se levantou, com a expressão de quem queria amenizar o clima triste.
“Diego e Dimitri são como unha e carne. Os dois se amam muito, logo está tudo bem.” Ela piscou para mim, mas suas palavras pareceram rasgar um tantinho mais a ferida no meu peito. Os dois se amam muito.
– Eu te amo, Diego... Te amo muito mais do que deveria.
Meu estômago revirou e a dor de cabeça aumentou.
“Sabrina,” Chamei e ela me olhou, ainda meio culpada. “E o que o Dimitri falava de mim? Ele dizia alguma... coisa?”
“Basicamente ele sempre te elogiou. Quando a gente começava a reclamar dos nossos próprios irmãos, ele nunca falava nada de ruim sobre ti. A gente perguntava e daí ele falava o quanto você era um bom garoto – obstinado, carinhoso, um pouco teimoso, mas obediente, cabeça-aberta. Alguns dos nossos amigos já sofreram muito preconceito dos próprios irmãos ou irmãs... Dimitri dizia que você nunca o condenou por ser homossexual, e que ainda o defendia com unhas de dentes. Falava com carinho, sabe? Dava para sentir, e tinha um brilho no olhar.” Sabrina sorriu. Parecia falar aquilo como uma forma de se desculpar também, e uma razão para eu ir fazer as pazes com o Dimi.
“E você conhece um tal de Alexandre?” Perguntei, sem resistir àquela oportunidade de arrancar algumas informações sobre o garoto. Por duas vezes eu já tinha flagrado ele e o Dimitri juntos... Talvez eles mantivessem alguma espécie de relacionamento.
“Você o conheceu? Foi colega de faculdade do Dimitri. Eu também fui. Costumávamos ser nós três, mais a Andréia. A Andréia é hétero, mas tem essa simpatia enorme por homossexuais. Já o Alexandre obcecou no teu irmão... Se apaixonou por ele e tentou por anos ficar com o Dimitri. Eu soube recentemente que eles andaram de rolo, mas não sei se deu muito certo, talvez porque o Alexandre no fundo seja um saidinho e adore pular a cerca com quase todo mundo.” Sabrina abriu um sorriso amarelo. Talvez tivesse percebido que estava falando demais de novo. “O Alexandre costumava sentir ciúmes de ti. Que bobagem, né?” Riu.
“Ela não é linda falando mais do que deve?” Jady perguntou, rindo e indo dar um beijinho na loira. “Sabe, o Diego também vive falando do Dimitri. Se esses dois acabassem casados só para passarem mais tempo um com o outro, eu não me surpreenderia!” Ela riu. Falava brincando, mas aquilo me fez sentir muito mal.
Me levantei.
“Acho melhor eu ir embora, não quero atrapalhar a tarde de vocês.” Falei e segui para a porta sem esperar por uma resposta. Jady arregalou os olhos e veio em meu encalço. Segurou meu braço quando eu já estava em frente ao portão.
“Diego, você sabe que eu falei aquilo brincando, né? Você ficou chateado? De jeito nenhum eu iria sugerir que tu e o teu irmão têm uma relação incestuosa.” Falou.
Minha cabeça palpitou como se meu cérebro houvesse roubado para si a função de bombear o sangue do meu corpo.
– Eu sei. – Ele disse, ligeiramente angustiado, mas não parou. – Eu sei que sou um doente por desejar meu próprio irmão... Também sei que você sente repulsa disso.
“Eu preciso ir, Jady, mesmo. Não estou chateado com o que tu disse.” Falei baixo, para acalmá-la. Jady, resignada, abriu o portão.
Desci a rua da casa dela e tirei o celular do bolso. Esperei pacientemente até que o Viktor atendesse.
“O que você quer?” Ele perguntou, azedo.
“Eu preciso te ver, por favor. Fica brabo comigo outro dia.” Minha voz deve ter transmitido o que eu sentia, transmitido no espaço entre as sílabas o que eu não poderia formar em palavras.
Viktor soltou um suspiro depois de alguns momentos de silêncio.
“Vem pra minha casa. Você sabe onde é.” Disse apenas, e desligou.
Eu peguei um ônibus na avenida mais próxima, um que eu sabia que passava perto da casa dele. Passei o trajeto inteiro esfregando os olhos, bagunçando meus cabelos, virando a cabeça para os lados como se sentisse olhares de censura sobre mim. Não entendia aquilo, as memórias ainda eram uma confusão, um borrão sem cores, um estrondo sem sons. Nada se encaixava perfeitamente.
Também recebi uma ligação do Dimitri assim que decidi do ônibus, mas a ignorei. Isso, no entanto, me lembrou de mandar uma mensagem para a Lydia, dizendo que eu estava bem, que estava na casa de um amigo. Não queria que o Dimitri ligasse para ela e a preocupasse. Alguns passos, e eu toquei a campainha. Viktor morava numa casa antiga, em um bairro pequeno perto do centro.
“Sua avó está em casa?” Perguntei assim que ele apareceu e abriu para mim.
“Sim, mas ela está dormindo. Sempre fica dormindo o dia inteiro nesses dias nublados.” Ele disse. Na verdade já caía uma chuva fraca, apenas uma garoa que mal molhava as roupas, mas uns raios silenciosos começavam a estalar no céu. “Vem, antes que você acabe molhado.”
“Eu não queria te abandonar, ontem.” Falei enquanto íamos para o quarto dele, onde já havíamos transado várias vezes. “Eu não escutei você dizendo que ia ao banheiro. Quando dei por mim, já tinha te perdido de vista...”
“Se você não quer que eu brigue com você, Diego, é melhor deixar as desculpas para depois. Você disse que queria me ver.” Ele retrucou, segurando a irritação que sentia. Fechou a porta do quarto, chaveando-a, e se virou para mim.
“Sim.” Foi tudo que disse antes de puxá-lo e beijá-lo. Me sentia absurdamente carente, necessitado de um lugar seguro, de uma fuga. E o Viktor era uma fuga. Era ruim usá-lo para aplacar, mesmo que por pouco tempo, toda aquela sensação de me afogar lentamente na chuva torrencial de um temporal. Mas Viktor não se negou, abriu os lábios para mim e passou os braços pelos meus ombros, soltando um gemido baixo.
Beijei o Viktor com mais força, ainda tentando fugir das lembranças. Mas quanto mais eu o despia, quando mais o tocava e deixava que ele me tocasse, quanto mais nossas línguas banqueteavam-se mutuamente em saliva e desejo, mais e mais as memórias retornavam. As mãos do Dimitri, os lábios dele, seu calor engolindo-me como a escuridão que abraça o firmamento.
Caí sobre Viktor na cama, beijando-o e mordendo-o, e ele apertava os lábios para não gemer alto demais e acordar a avó.
Ouvi meu próprio choro abafado em um travesseiro. Eu não quero sentir essas coisas por você, Dimitri. E mesmo que eu chorasse, o mundo continuava a girar e Dimitri não deixara de me abraçar. Tocara meu ventre quando exigi e beijara cada um dos meus pensamentos eróticos que envolviam nossos corpos juntos, unidos.
Eu já quase penetrava o Viktor, quando parei de súbito, as mãos espalmadas de cada lado da cabeça dele. Suas pernas rodeavam minha cintura, deixando seu quadril elevado e exposto para mim. E minhas lágrimas pingaram em suas bochechas. Viktor me encarou surpreso e levou as mãos até meu rosto, segurando-o gentilmente.
“Diego, o que foi?” Perguntou. Sua amabilidade era uma faca no meu peito. Eu não merecia.
“Eu...” Meu coração batia frenético. “Eu transei com meu irmão.”
A chuva caía pesada lá fora.
Notas finais
Obrigada aos amores que comentaram: Yuchan, Álefe, Sumie, Alera, Bruna Uzumaki, Nanda Chan, Taia, TheAnjoRaphael, Yuriloaj, Diana R Barros, RayUzu, Aiko, Alice, Hamano Chiaki, Dark Lace, Cavalliera, Maria Oliveira, Swoon, Yakisoba, Dakota Phantom e Nath! Adoro vocês, beijão! ♥
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