A Cor Da Chuva
4 Capítulo 3
Não houve beijo.
No instante seguinte, eu abria os olhos e deparava-me com a expressão perplexa de meu irmão, que deveria ser um espelho da minha. Num espaço de tempo que poderia conter todas as histórias do mundo, nós nos encaramos, com as respirações ofegantes – saindo pelos lábios entreabertos – e inaudíveis pela música agitada.
Minha cabeça pesava e eu não conseguia pensar com clareza, não conseguia desvendar o significado do que havia acontecido ali. Se é que havia acontecido algo, pois a expressão do Dimitri mudou, voltando a ficar séria enquanto a minha continuava a mesma, e ele segurou meu braço para começar a abrir espaço pela multidão.
“Vamos.” Achei tê-lo ouvido dizer e tropecei nos meus próprios pés ao tentar acompanhá-lo. O que havia sido aquilo? Um castigo por eu ficar falando asneiras? Uma brincadeira de péssimo gosto? Dimitri conseguia ser estranho às vezes e talvez tudo parecesse amplificado pelo álcool.
Atravessamos a boate, com seu corpo alto e musculoso abrindo caminho na multidão sem nenhuma dificuldade, até que o vento fresco da noite atingisse nossos rostos quando chegamos ao lado de fora, no estacionamento.
“Vou te levar para casa.” Ele falou, sem me olhar. Seu tom e expressão corporal pareceram-me normais, era como se nada houvesse acontecido. E, afinal, havia?
“E... E a tua festa?” Perguntei, aliviado por conseguir recuperar minha voz.
“Eu vou te levar e depois voltar.” Ele seguiu até o carro dele, no estacionamento da boate, largando-me no processo. O chão ainda se movia como se vibrasse com o som lá de dentro, mas consegui acompanhá-lo sem dar de boca no chão.
“A Jady...”
“‘Tá de amasso com a Sabrina, uma amiga minha. Não se preocupa que qualquer coisa eu levo ela em casa depois também. Mas acho que a Sabrina toma conta dela direitinho.” Ele sorriu fraco para mim antes de entrar no carro. Eu assenti sem emitir nenhum som e entrei no banco da frente, ao lado dele. Eu sempre me sentia desconfortável naquele carro dele. Era do tipo enorme, caminhonete mesmo, de última geração. Mas combinava com ele.
“Dimi?” Chamei quando o carro já estava em movimento, e meu olhar se perdia nas ruas a cada minuto mais desertas.
“Sim...?”
Eu me virei para olhá-lo, notando que havia receio em seu tom. Seus ombros e mãos pareciam rígidos enquanto dirigia, o que me deixou com vontade de esticar o braço e tocá-los, massageá-los, quem sabe. Porém não dei vida à minha vontade.
“‘To pensando em me mudar assim que eu fizer dezoito.”
“Quer morar sozinho?” Eu balancei a cabeça freneticamente, em concordância, o que não muito esperto da minha parte, pois acabei tonto. “Não acho uma boa, Diego. A Lydia vai ficar muito deprimida.”
“Vai você morar com ela então!” Cruzei os braços sobre o peito, emburrado. Meu irmão soltou um suspiro baixo, deixando claro que achara minha resposta infantil. Me segurei para não mostrar a língua para ele, mas acho que isso apenas confirmaria seus pensamentos. “Eu e a Fernando só brigamos, talvez fosse melhor assim...”
“Tu sabe que a Lydia é muito apegada a você, Diego. Tu é o caçula dela, o protegidinho. Se você sair de casa tão cedo, ela vai entrar em depressão. E você é novo demais para se virar sozinho, sabe que se não fosse pela Lydia, tua vida ia virar uma desordem completa.” O jeito que ele falou, como se eu fosse um inútil incompetente que não sabe cuidar da própria vida me tirou do sério. “E é bom que você fique lá com um olho mais atento sobre a Nanda, mesmo que vocês acabem brigando...”
“Você também saiu de casa aos dezoito!” Exclamei irritado, ignorando a última parte. Lá estava eu jogando aquilo na cara dele de novo. Eu tinha esse problema. O assunto havia surgido aquela tarde, e agora seria difícil eu ‘deixar para lá’ de novo e fingir que estava tudo bem, como eu havia feito por três anos.
“Nós somos muito diferentes.” Disse, ignorando minha raiva.
“E o que você sugere, então? Que eu fique embaixo das saias da mãe para sempre?” Ironizei.
“Não. Só que você fique lá por mais um tempo. Por que sair tão cedo? Não gosta de viver ali? Você sempre foi muito apegado à Lydia e nós dois sabemos disso, então por que sair com apenas dezoito anos?” Ele virou o rosto para me olhar quando parou em um sinal vermelho. Já era de madrugada e não havia carros na rua, ele poderia avançar direto, mas claro que ele precisava arrancar de mim a verdade.
Abaixei a cabeça e olhei para minhas mãos, com vergonha de admitir o porquê.
“É porque... Tu saiu de casa com essa idade, foi morar sozinho, se virou, criou tua própria casa noturna. Você sempre foi mais independente do que eu...” Mais independente de mim, corrigi-me, mas mantive isso para mim. O Dimi ficou me encarando por alguns segundos, até colocar a mão sobre minha cabeça e bagunçar meus cabelos, depois me puxando para ele e fazendo nossas testas se encostarem.
“Você não precisa fazer as coisas como eu fiz. Não precisa seguir os mesmos caminhos. Faça do seu jeito que eu sei que fará muito melhor do que eu.” Ele me soltou e voltou a dirigir. “Afinal, é você e não eu o medalhista de ouro do mundial de judô até 73kg desse ano.”
Eu sorri de leve, relembrando o momento em que derrubei com um ippon o meu adversário na final. Eu fazia judô desde meus oito anos. Havia me ajudado a superar a morte do meu pai, era o que me diziam, pois eu gastava minha energia e raiva na luta. Aos dez comecei a competir. Aos quinze era uma das maiores promessas na minha modalidade. E hoje sou ‘o prodígio’ medalha de ouro mundial. Era uma sensação e tanto. Mas naquele momento não senti nada.
“Morar com a Lydia te dá estabilidade para se concentrar nos treinos. E eu sei que é ela que cuida da tua alimentação, ou senão você iria se entupir só de porcarias.” Ele finalizou, para acabar com meus argumentos. Resmunguei qualquer coisa, já estávamos perto de casa e o silêncio acabou imperando entre nós até que ele parasse em frente ao pátio da residência.
“Valeu pena carona.” Falei, pronto para descer do carro, só que quando fui abrir a porta, ela emperrou. Fiquei tentando puxar o trinco, mas não adiantava. “Dimi, isso não ‘tá querendo abrir!”
“Ah, essa porta ‘tá com um probleminha mesmo, tenho que levar no conserto.” Ele inclinou o corpo para o meu lado do carro para alcançar o trinco e abrir ele mesmo. Eu paralisei com as costas bem pressionadas contra o encosto do banco. O rosto dele ficou bem próximo do meu e seu perfume amadeirado atingiu minhas narinas. Todos os estados do nervosismo se abateram sobre mim e eu precisei prender a respiração para que ele não percebesse minha agitação.
Ele conseguiu abrir a porta e se afastou um pouco, encarando-me com uma sobrancelha erguida ao ver-me corado. Eu quis pular para fora do carro o mais rápido possível, agoniado com as reações bizarras do meu corpo, mas Dimi me segurou pelo pulso.
“Tudo bem com você?”
“Tudo bem, sim, só estou com sono.” Dei a desculpa mais idiota do mundo. Desde quando sono deixava alguém trêmulo e ansioso? Eu tentei sair de novo, mas a mão dele continuava fechada fortemente ao redor do meu pulso. “O que foi?” Perguntei, olhando para a mão dele.
Dimitri abriu os lábios, mas nada saiu, então ele me soltou e endireitou-se no banco.
“Obrigado por ir lá hoje... E pelo relógio.”
“Não tem que agradecer por isso, idiota...” Falei, estranhamente sentindo um aperto na garganta e uma vontade enorme de ficar sozinho e chorar. Eu saí do carro sem me despedir e atravessei o gramado a passos rápidos, com a cabeça baixa e os olhos ardendo. Quando me joguei na cama, arrancando todas as minhas roupas pelo caminho, fiquei olhando para o teto escuro, deixando lágrimas vazias escorrerem pelo canto de meus olhos.
“Dimitri...” Sussurrei o nome que eu tanto gostava e toquei meus lábios.
XxX
Os dias passaram e o Dimi não deu muitos sinais de vida. O que não era nada fora do comum, já que não morávamos juntos e tanto os meus dias quantos os deles eram bem cheios. Ao menos eu acho que os dias dele eram bem cheios...
“Diego, qual o teu problema?!” Meu treinador gritou assim que fui derrubado pela terceira vez durante os treinos. “Essa semana inteira você treinou como um amador distraído!”
“Desculpe, Nils.” Falei, levantando e colocando meu quimono desalinhado no lugar. Rogério Nils Santana, meu treinador, veio até mim e colocou uma mão sobre meu ombro. Eu simpatizava com ele, tinha o nome do meu falecido pai.
“Diego, eu não sei o que você tem. Sou teu treinador há muitos anos e nunca te vi tão aéreo. Vá resolver qualquer problema que você tenha e então volte para esse tatame. Não vou perder meu tempo com quem não quer treinar.” Ele falou rudemente, como era do seu feitio, mas seus olhos mostravam preocupação. Competições se aproximavam e sem dúvidas ele não queria perder o ouro.
“Mas...!” Tentei retrucar.
“Mas nada! Saia daqui antes que eu te leve de arrasto.”
Bufei inconformado e saí do tatame de treinamento do ginásio o mais dignamente que consegui, evitando os olhares que me lançavam. Comecei a culpar meu irmão. Eu estava assim desde aquela noite do aniversário. Entrei embaixo do chuveiro e o amaldiçoei por estar atrapalhando meus treinos. A ideia de ficar para trás me apavorava. Eu não podia decepcionar todos que esperavam mais uma medalha de ouro de mim.
Quando saí do banho, um dos meus colegas de treino estava no vestiário.
“O que aconteceu lá, cara? Algum problema com você?”
Que metido! Nós mal éramos amigos e ele tinha que vir me infernizar querendo meter o nariz na minha vida. Na verdade o Viktor está sempre tentando puxar papo comigo, querendo saber da minha vida, mantendo-se perto, empurrando os outros para ser ele a fazer dupla comigo nos treinos... Analisando friamente, ele era um grude! Às vezes eu tinha vontade de mandá-lo pastar. Mas como minha mãe me educou bem – até demais! – eu apenas resmunguei:
“Não é nada. Uns problemas me distraindo.” Mas óbvio que eu não entraria em detalhes, né?
“Oh...” Ele ficou quieto, me olhando enquanto eu me secava. Comecei a ficar desconfortável com seu olhar vidrado.
“O que foi?” Perguntei com a testa franzida. Ele arregalou os olhos e abaixou a cabeça, parecia vermelho como uma pimenta, o que combinava com seus cabelos ruivo-alaranjados, mas me deixou ainda mais ressabiado.
“Nada. Desculpe. É só que... Você tem um corpo muito bonito.” Ele falou isso e correu para fora do vestiário. Eu me engasguei com minha própria saliva e demorei uns bons minutos para me recuperar da cena bizarra. Balancei a cabeça, começando a me vestir.
“Sujeito estranho.”
Assim que pronto, joguei minha mochila sobre o ombro e peguei meu skate para ir para casa. Eu era bom nisso também, teve uma época que acreditava que me daria bem em competições de skate, mas minha verdadeira paixão era o judô, então deixei skate apenas como hobbie e meio de locomoção. Minha casa não era muito longe nem do ginásio, nem da escola, dava para eu me virar.
No meio do caminho, resolvi passar no apartamento do Dimi. Eu nem sabia se ele estaria lá, mas uma urgência de vê-lo me dominou. Nem nas aulas eu estava mais conseguindo me concentrar, e a semana de provas era a próxima. Era melhor essa visita me mostrar que nada de estranho havia acontecido e tudo havia sido apenas efeito do álcool, pois do contrário eu estaria ferrado.
Como sempre, apenas cumprimentei o porteiro e segui para o elevador, usando a senha que sabia de cor para colocá-lo em movimento em direção ao andar do meu irmão.
Depois de vários andares, entrei olhando ao redor, me perguntando onde ele estaria, quando ele apareceu vindo do corredor, usando apenas uma calça jeans. Eu prendi a respiração ao ver o corpo forte dele, os bíceps o dobro dos meus, os músculos bem mais definidos. A maldita genética de novo. Eu posso até ser definido, por causa dos treinos de judô e da musculação que faço para complementar, mas nunca chegaria à definição dele.
“Diego.” Ele me olhou de cima abaixo como que para verificar se eu estava bem. “Você poderia ter deixado esse skate sujo lá embaixo.”
Revirei os olhos.
“Deixa de ser fresco.” Apoiei meu skate na parede, para desgosto do Dimi.
“O que você veio fazer aqui?” Ele caminhou até o sofá de couro e se sentou, dando a entender que eu deveria fazer o mesmo. O segui e cuidei para manter uma distância razoável entre nós. Não queria que a mesma coisa esquisita da outra vez acontecesse...
“Dimi, eu...” Eu me calei, encarando-o. Ele franziu a testa, estranhando minha atitude. É que de repente eu não sabia o que dizer. O que eu iria perguntar? Se ele havia mesmo quase me beijado àquela noite e eu não estava ficando maluco? Maldição. Por que tudo parecia tão diferente de uma hora para a outra?
Felizmente, ou não, mais alguém apareceu na sala. Era outro homem e usava apenas uma bermuda protegendo seu corpo de uma constituição parecida com a minha. Era loiro e tinha os olhos claros idênticos aos meus, mas sua pele era meio bronzeada destoando do resto. Se eu fosse gay, o consideraria extremamente bonito.
Corei quando minha ficha caiu: meu irmão e ele estavam transando antes de eu aparecer. Olhei para o Dimi e vi que sua pele brilhava com um pouco de suor, e ele não usava o relógio que eu havia lhe dado. Tive vontade de me jogar pela janela de tanto constrangimento.
“Eu acho melhor eu voltar outra hora...” Falei levantando.
“Uau! Você é o judoca que está aparecendo naquela propaganda da Adidas!” O loiro exclamou vindo até mim e me olhando com admiração. “Prazer, meu nome é Alexandre, mas pode me chamar de Alex. Quer me dar um autógrafo? Eu assisti à tua luta no mundial, você foi incrível!”
“Obrigado...” Murmurei, tentando sorrir. Ele passou um braço pelos meus ombros e nos virou para o Dimi, sentado encarando a cena com cara de poucos amigos.
“O que ele é teu, hein, Dimi? Mais um dos teus amantes? Nós bem que poderíamos fazer uma festinha a três.” Sugeriu com certa malícia. Eu arregalei os olhos e teria me afastado se o Dimi não tivesse feito isso por mim, levantando de supetão do sofá e me puxando pelo braço para longe do loiro.
“Ele é meu irmão, seu idiota!” Falou com os olhos escuros queimando. “Agora dá o fora daqui. Não quero mais olhar pra tua cara.”
“Mas, Dimitri...” Os olhos do tal se encheram de lágrimas, fazendo com que eu sentisse pena dele e quisesse chutar meu irmão por ser tão rude.
“Fora! Pega tuas roupas e vaza!” Meu irmão gritou então, sem um pingo de paciência.
“Dimi, calma, ele não tinha como saber...” Tentei interceder, não o reconhecendo como naquele dia na festa, mas me calei sob o olhar mortal que recebi. O loiro se virou e foi atrás das roupas dele. Pouco depois voltou totalmente vestido em direção ao elevador.
“Você é um porco, Dimitri! Bem que me falaram que transar com você era uma perda de tempo, que depois que come, vira um idiota completo.” Ele se virou nos encarando profundamente enquanto esperava o elevador chegar. “Tanto ciúmes do próprio irmão chega a ser doentio.”
O Dimitri ficou tão furioso ao ouvir aquilo, que me soltou e avançou na direção do outro. E acho que teria quebrado a cara dele se o elevador não chegasse bem a tempo e ele pulasse para dentro, fugindo com uma expressão assustada. O Dimitri deu um soco na porta metálica assim que ela fechou e ficou tentando se acalmar com a testa apoiada nela por vários minutos.
“Você realmente vira um canalha depois que come?” Provoquei forçando o humor, para quebrar o silêncio pesado.
“Esqueça isso.” Ele se voltou para mim. “Esse cara é um grude insuportável, ficava me seguindo e incomodando, espero que agora que eu fiz o que ele queria, não me incomode mais.”
Isso me fez pensar no Viktor, e arregalei os olhos. Esperava que o meu colega grude não quisesse isso de mim para me deixar em paz. Meu irmão caminhou até mim e parou quando estava perto o suficiente para me obrigar a erguer a cabeça para encará-lo. Eu às vezes achava que ele adorava esfregar na minha cara como era mais alto.
“Eu nunca te vi tão descontrolado, Dimi.” Murmurei, e ele suspirou, olhando por cima da minha cabeça.
“É um lado meu que você não conhece...” De certa forma, isso me deixou triste. Eu queria conhecê-lo por completo. “Então, por que veio aqui? Aconteceu alguma coisa? Tudo bem com a Fernanda e a Lydia?” Perguntou preocupado e estendeu a mão para acariciar meus cabelos. Meu corpo inteiro reagiu de novo, arrepiando-se de leve. Lembrei que ele costumava fazer isso quando éramos mais novos, e eu não tinha essas reações. Apenas me aninhava contra seu corpo e fechava os olhos, permitindo que continuasse o carinho.
“’Tá tudo bem com elas. A Fernanda se matriculou no supletivo e diz que depois vai tentar vestibular para administração, ou enfermagem. De certo se sente íntima de agulhas.” Usei do meu humor negro e ignorei a expressão de repreensão do Dimitri. “Só vim... Ver como você estava.”
Ele me olhou com cara de quem sabia que eu estava mentindo, mas não insistiu no assunto.
“Você quer ficar por aqui? Jantar e ver um filme antes que eu tenha que ir para a Elevação?” Perguntou. Era sexta-feira, provavelmente o lugar estaria bombando hoje.
“Tudo bem! Estou com fome mesmo.” Corri para o banheiro antes, para me acalmar. Ainda estava sob os efeitos estranhos da proximidade dele. Me olhei no espelho, percebendo meu rosto ruborizado, e fiz uma careta. Mas que merda estava acontecendo comigo? Era meu irmão, porra!
Joguei uma água no rosto e consegui me acalmar. Quando voltei à sala, o encontrei jogado no sofá felizmente usando uma camiseta.
“Encomendei uma pizza e coloquei um filme. Senta aí.”
Eu peguei a capinha do filme e torci o nariz.
“Já vi esse filme. Não tem outro?”
“Ter até tem, mas os outros eu já vi.” Desconsiderou. Eu fui até a estante com filmes embaixo da televisão de tela plana enorme dele e vi vários que eu ainda não tinha visto e sentia vontade de assistir.
“Aqui, vamos ver esse.” Troquei sem o consentimento dele. Ele sempre acabava fazendo o que eu queria, hoje em dia eu nem precisava mais insistir. Dimi resmungou qualquer coisa, mas não reclamou. Fui sentar ao seu lado, tirando os tênis e cruzando as pernas sobre o sofá.
“Como vão os teus treinos?” Ele perguntou, enquanto esperávamos os trailers passarem. Fiz uma careta emburrada à menção dos meus treinos, lembrando do chute para fora do tatame que havia recebido do meu treinador. Isso nunca havia acontecido antes. O judô sempre me ajudou a esquecer todos os meus problemas e entrar num mundo só meu. Era frustrante ver que ele não estava ajudando dessa vez.
“Ah, vão indo... Mas hoje o Nils me tirou do tatame, disse que eu ando muito distraído e amador.” Tentei não soar muito desanimado e obviamente não deu certo.
“O que aconteceu? Brigou com a namorada da vez?” Ele sorriu torto e eu revirei os olhos.
“Terminei meu último namoro faz dois meses... Sabe disso.”
“Não sei de nada. Você não me conta mais sobre a tua vida como antes.” Ele fingiu-se de chateado, apesar de esconder bem isso por trás de seu sorriso irônico. Torci os lábios para ele, era uma mentira deslavada, já que ele deveria saber até quantos fios de cabelo eu tinha na cabeça.
“Você até pareceu a mãe falando agora.” Desdenhei. Ele me deu uma almofadada. E depois eu era o infantil. Nós conversamos por um tempo e a pizza veio. Ele mandou subir e logo jantávamos uma ótima pizza de calabresa e seis queijos enquanto assistíamos ao filme. Me senti melhor, tudo parecia normal e não havia rolado nada de estranho.
Até ele ficar em silêncio e depois fazer um ultimato.
“‘Tá, fala de uma vez o que está te incomodando a ponto de atrapalhar teu treinamento. Sei que veio até aqui para falar sobre isso.” Demandou, encarando-me com atenção. Gelei sob sua análise e respirei fundo. Tentei encontrar uma desculpa, mas não encontrei. O momento na pista de dança voltou com tudo à minha mente e cheguei à conclusão de que precisava perguntar ou do contrário nunca teria paz.
“Eu vim aqui perguntar...” Parei quando o celular dele tocou. Dimi o pegou sobre a mesinha da sala e olhou o visor.
“Desculpa, Diego, mas eu vou ter de atender essa.” Levantou e foi para o quarto. Bufei frustrado e apoiei meu queixo nas mãos, o filme estava na metade, numa parte de ação e ao menos isso me distraiu pelos minutos que o Dimi ficou no celular lá no quarto.
Deu para ver que ele estava brigando com quem quer que fosse do outro lado da linha. Em seguida ele apareceu arrumado, com o semblante irritado.
“A polícia bateu lá na Elevação. Não deve dar em nada, mas estou indo para lá. Pode terminar de ver o filme e se quiser, fica e dorme aqui em casa, só avisa a Lydia senão ela tem um ataque.” Ele veio e deu um beijo na minha testa, como se eu ainda fosse um garotinho, depois bagunçou meus cabelos e saiu intempestivamente.
Me joguei contra o sofá e peguei mais um pedaço de pizza. Sair da dieta era comum quando eu vinha para o apartamento dele. Até quando eu era criança, quando nossa mãe me proibia de comer mais doces, ele levava uns escondidos para o meu quarto. Naquela época eu achava que ele era uma máquina de doces, sempre com um no bolso pronto para me dar quando eu estivesse desanimado.
Com um sorriso bobo no rosto, acabei seguindo a ideia dele: liguei para a mãe, avisei que estava no apartamento dele e que iria ficar por lá mesmo. Ela reclamou, disse que eu não deveria ficar me enfurnando no apartamento dele porque o Dimitri era muito compromissado, mas acabou terminando a ligação com um ‘eu te amo’ e eu suspirei aliviado. Acabei revirando toda a estante dos filmes do Dimi e assisti a uns três em sequência. Quando já passava da meia-noite, peguei no sono, jogado no sofá mesmo.
Acordei meio grogue ao sentir que alguém me despia. Estava escuro e eu ainda me sentia naquele limbo entre a consciência e o mundo dos sonhos, só que mesmo assim consegui divisar os contornos do rosto do meu irmão próximo ao meu. Prendi a respiração e fechei os olhos, deixando que ele tirasse minha calça depois de ter tirado minha camiseta. Eu acho que estava na cama do quarto de hóspedes, e ele me fez deitar assim que fiquei apenas de cuecas.
Cheguei a achar que – é loucura, eu sei! – ele fosse aproveitar que eu estava supostamente dormindo para me beijar, e meu coração acelerou com a ideia, enquanto eu silenciosamente esperava por isso. Só que ele não fez nada. Saiu do quarto e fechou a porta assim que se certificou que eu estava tapado e confortável. Abri os olhos, encarando o teto escuro, e me senti frustrado. Que ideia mais idiota havia passado pela minha cabeça! Quase dei uma de bela adormecida esperando um beijo do meu irmão! Grunhi e me estapeei por estar pensando em coisas tão estranhas. Tentei, mas não voltei a dormir aquela noite.
Saí logo cedo do apartamento do Dimi. Ele havia chegado tarde e ainda estava dormindo o sono dos justos no próprio quarto. É, eu fui dar uma espiada, ver se ele estava mesmo dormindo e o vi estendido de bruços na cama, apenas com uma calça larga de pijama. O olhei e senti um arrepio estranho na boca do estômago, como se estivesse numa montanha-russa daquelas bem radicais. Corri para ir embora depois disso, batendo na minha cabeça para tirar da mente a imagem dele dormindo daquele jeito.
Não era possível. Eu estava me sentindo atraído por um homem? E pior, pelo meu irmão? Achei que não. Deveria apenas ser reflexo daquela noite. Eu estava perturbado e minha mente confundia isso me fazendo agir como um lunático. Talvez fosse falta de sexo. Fazia mais de dois meses que eu estava na seca. Só que aí a ideia brilhante – sinta a ironia – me veio à cabeça. E se eu tentasse descobrir se não sentia mesmo nenhuma atração por garotos?
Notas finais
Ah, o "terceiro elemento" apareceu nesse capítulo! Quem será ele? rs
Obrigada a todo mundo que comentou: Taia, Bia Yuuji, Álefe, Pandora Beaumont, KassiaKarolayne, FeerHaner, Dan Cassey, Alera, Alice, Bruna Uzumaki e Sumie! Fico muito emocionada com o retorno de vocês, obrigada!
Até o próximo! Que não deve demorar, já que já está escrito e só preciso reescrever umas partes. :)
Beijos!
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