A Cor Da Chuva

22 Capítulo 21


Notas iniciais
Esse cap. tem uns pulos no tempo.

XxX

"O sol que agora se esconde atrás do céu/ Triste ameaça de chorar/ Sinto que passo os dias cheios/ De rotina e me sinto tão vazia.

Na escuridão com a solidão.../ Aquelas noites eram tão amargas/ Mas não posso apagar o tempo que passou e não voltará jamais...

Nem este dejà vu de não estar junto a você/ Os dias foram apenas uma ilusão/ Logo entendi que se você não está aqui/ O relógio parará para sempre/ Fale comigo...

Não quero estar sem você/ Se você vai embora amor, não vá sem dizer adeus/ E ainda que nesta vida tudo acabará.../ Quero acreditar que a união de nós dois/ Seguirá..."

XxX

Acordei sentindo um peso sobre meu abdômen.

Por um breve instante pensei em Dimitri e em todas as vezes em que havia acordado com ele na mesma cama. Meus olhos abriram rápido, com uma batida acelerada no peito. Porém logo a claridade encheu minhas retinas e percebi que a pessoa que envolvia meu abdômen com o bracinho magro era pequena e leve demais para ser meu irmão.

Resmunguei baixinho e me espreguicei, cuidando para não esmagar minha irmãzinha no processo. Ela é loira como eu, mas seus cabelos são cacheados e seus olhos de um azul mais escuro. Na pouca luz, eles parecem negros. Ninguém duvidava que fôssemos irmãos de sangue caso eu contasse essa mentirinha. Na verdade, ela era apenas a filha mais nova do novo marido da minha mãe. E tinha a péssima mania de querer dormir na mesma cama que eu.

Pelo que me ela contara, tinha medo do escuro por conta de todas as histórias de terror que seu irmão mais velho lhe contava, porém tinha vergonha de admitir para o pai, ou para madrasta, logo, sobrava pra mim ajudá-la a dormir. Olhei para Isadora, que resmungava de olhos fechados por eu ter me mexido, e sorri, acariciando seus cabelos. Era bom ter uma irmãzinha.

Era uma nova chance de ser um bom irmão, depois de ter perdido a Fernanda.

Há três meses eu tinha uma nova irmã e dois outros irmãos. Isadora tinha cinco anos, Túlio tinha oito e Breno dez. Depois que Lydia casou-se com Francisco, um grande amigo de tia Rebeca que chamávamos de Chico, nós nos mudamos para a casa dele. Ele e minha mãe namoraram por um ano antes de decidirem se casar. Eles eram duas almas solitárias, cada um com suas perdas. Chico perdera a esposa há três anos, vítima de um assalto.

Minha mãe rejuvenescera ao se apaixonar novamente depois de dez anos sozinha, e as crianças num geral a adoravam. Isadora ainda tinha vergonha dela e, por algum motivo, se afeiçoara mais a mim – talvez porque eu também fosse loiro, vai entender.

“Mano...” Isa resmungou quando eu levantei cuidadosamente. Ela tinha o sono muito leve. “Por que você acorda tão cedo num sábado?” Perguntou, esfregando os olhos. As janelas não tinham cortinas, pois eu não me importava com claridade e ela gostava da luz que vinha da rua e impedia uma escuridão completa no quarto.

“Eu tenho que treinar, Isa.” Sussurrei para ela e baguncei um pouco mais seus cabelos. “Volta a dormir, loirinha, não tem por que você acordar agora. Não se preocupa que o escuro já se foi.”

Isa não protestou e capotou novamente na cama. Havíamos ido dormir tarde por termos ficado todos na sala vendo um filme até altas horas. Todo aquele clima família ainda me causava certa estranheza. Eu não ficaria assistindo TV com eles não fosse pela insistência da Isa e felicidade da Lydia ao nos ver todos juntos. Francisco era um cara legal, eu não tinha nada contra ele. Fazia bem para minha mãe e vinha sinceramente tentando se aproximar de mim, mas ainda assim era esquisita a ideia de ter novamente um pai.

Eu saí cedo, pegando minha moto. Ir até o ginásio de treinos de skate é um costume que ficou para trás, agora a cidade é maior e eu levaria muito tempo para chegar até lá. Assim que me mudei para cá, providenciei carteira de carro e moto. Isso há um ano e meio mais ou menos. É incrível como o tempo voa, parecia ontem que eu havia me despedido do Dimitri.

Várias vezes senti vontade de ir visitá-lo, principalmente nos últimos meses, já que minha mãe estava bem melhor e minha tia parecia estar melhorando da doença. Os médicos haviam mudado o discurso, agora diziam que ela com certeza não morreria tão cedo. Afirmavam tratar-se de um milagre. Bem, ao menos alguém da família ganhara um milagre e não uma tragédia. Foi um alívio para todos nós, eu adorava minha tia e não queria ver meus primos sofrendo pela morte dela.

Apesar de toda a melhora em nossas vidas, não cheguei a ir visitar meu irmão. Nós nos falávamos algumas vezes por celular, outras pela internet. Dimitri raramente tinha tempo para conversas longas e era vago na maioria delas. Eu sentia uma vontade fenomenal de xingá-lo por isso, xingá-lo também por não ter vindo visitar uma única vez. Ele não havia aparecido nem para o casamento da nossa mãe! É verdade que fora apenas um jantar em que eles assinaram os documentos do casório, mas ainda assim, ele poderia ter vindo para o Natal, ano novo, meu aniversário, qualquer coisa. Ele não vinha, não explicava nada e não comentava sobre o Alexandre, ou sobre o HIV. Fugia do assunto, inventava desculpas e pedia para que eu não me preocupasse.

Como eu não iria me preocupar? Perguntava-me constantemente o que fazia, se estaria tudo bem com o trabalho, com ele, se vinha mantendo o HIV controlado, se estava se alimentando direito, se vinha conseguindo lidar com o Alexandre. Mil dúvidas me esmagavam todos os dias, e por isso eu treinava feito um louco, até não aguentar nem andar e nem pensar. De noite, eu caía na cama, extenuado demais até para sonhar, ou ter pesadelos de nós dois definitivamente separados.

Afinal... Era impossível não pensar que ele havia mudado de ideia sobre tudo – que estava tendo uma vida feliz com o Alexandre e nunca viria atrás do meu ‘perdão’. Por que outra razão ele ficaria tão distante, mais distante que os vários quilômetros que nos separavam, e ainda evitaria dar explicações? Eu temia isso, temia tanto que evitava descobrir a verdade. Eu preferia ficar na dúvida e desconfiança a receber a confirmação de que estava certo.

Era tanta covardia da minha parte que eu me envergonhava.

Passei na casa da minha tia e encontrei um de meus primos já na porta da frente. Ele caminhou até a calçada com uma cara enfadada pela minha demora. Outra surpresa da mudança foi conhecer melhor meus primos, ou melhor, parte deles, já que os outros moravam lá na outra cidade. Leandro tinha vinte anos, um a mais que eu, e treinava natação no mesmo complexo esportivo onde eu treinava judô. Ele competia, mas jamais iria para grandes campeonatos. Era mais hobbie do que qualquer coisa, mesmo que ele já houvesse ganhado umas competições amadoras.

“Porra, como você demora, Diego. Parece mulher que não sabe ser pontual.” Reclamou, colocando o capacete que tinha em mãos. Ele tinha uma moto até seis meses atrás, aí o idiota resolveu passar num sinal vermelho e acabou sendo atropelado. Aquele lado da família devia ter sorte. Segundo ele relatou – e havia altas chances de ser tudo uma mentira deslavada –, ele voou por cima do carro e caiu no chão, mas não quebrou nada, apenas tendo uma torção no pulso.

Já a moto foi outra história. Acabou destroçada e tia Rebeca o proibiu de dirigir uma novamente até aprender a ser responsável. Agora eu tinha de dar carona para ele quase todas as manhãs. Leandro treinava umas quatro vezes por semana pela manhã e estudava de tarde, não era sempre que treinava nos sábados. Ele fazia engenharia elétrica, e eu me perguntava como alguém poderia gostar de um curso desses, mas ele adorava. Imagine o perfeito nerd esquisito. Agora imagine o contrário. Esse é o Leandro, um cara alto com corpo de nadador, que adora um palavrão e entende tudo, ou quase tudo, de eletricidade.

“Cala a boca e sobe logo, que eu já ‘tô atrasado.” Falei, com descaso.

“Ah é, e a culpa é de quem?” Ele perguntou debochado, mas obedeceu.

Leandro é uma espécie de novo melhor amigo, já que agora eu e a Jady só nos falamos por Skype e Facebook. Por mais que eu não sentisse lá muita vontade de ficar festiando por aí, até porque os treinos eram tudo que importava na minha rotina e eu sempre ficava exausto por culpa deles, ele ainda assim me carregava para alguns lugares, me convidava para ir pra praia e me apresentava para novas pessoas. Eu já de antes sabia que ele era legal, das vezes em que nos visitava na outra cidade, principalmente nas datas comemorativas, ou nós viajávamos para cá. Era bom ter um amigo, mesmo que fosse um amigo com quem eu não dividia nenhuma das minhas preocupações.

Depois das chantagens do Alexandre, não era seguro deixar mais ninguém saber sobre o que acontecera entre eu e o Dimitri. Acontecera. No passado. Me pergunto se haverá algo no presente e no futuro, ou se restarão apenas memórias daqueles dias. Eu queria ir atrás do Dimitri, mas ele não me dava nenhum indício, nenhum incentivo para isso, e em um mês eu iria para Londres, competir na Olimpíada. Meu novo treinador parecia querer comer meus rins nos treinos e ninguém permitiria que eu perdesse o foco justo agora. Minha vaga já estava garantida, e agora eu tinha de tentar garantir uma medalha.

Não havia sido esse um dos motivos pelos quais eu me mudara?

“’Tá, desembucha aí, qual o problema agora?” Leandro perguntou quando entrávamos no clube. Eu o olhei confuso, para só então perceber que meus ombros pesavam e eu estava com a expressão carregada. Suspirei e me espreguicei rapidamente, tentando relaxar.

“Estou ficando ansioso pra Olimpíada.” Menti, mas era uma boa mentira. Quem não ficaria ansioso para algo assim? Leandro me analisou profundamente com seus olhos cinzentos, me deixando desconfortável, e eu me apressei para passar pelas roletas na entrada do complexo antes que ele criasse um furo no meu rosto.

“Você geralmente fica assim... Desde que veio pra cá, e antes a Olimpíada estava bem longe. Mas tudo bem, se não quer compartilhar, quem sou eu, senão um mísero primo que te mostrou tudo que há de legal na cidade e te apresentou pra todo mundo que você conhece por aqui?” Ele se fingiu de ofendido, o que me arrancou uma risada rápida de descrença.

“Quanto drama. Não é melhor não ter de se preocupar com a minha vida e simplesmente aproveitar da minha adorável companhia?” Sugeri debochado, tentando fugir do assunto com um tom de brincadeira. Leandro soltou um som de desprezo e passou por mim com um tapinha na minha nuca, uma de suas manias irritantes. Apenas acenou de costas e seguiu em direção às piscinas fechadas.

Eu balancei a cabeça, um pouco culpado por me manter distante dele, por mais que ele tentasse se aproximar e aprofundar nossa amizade. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, se eu contasse qualquer coisa, mais facilmente acabaria com nossa amizade num piscar de olhos. Leandro não era o tipo preconceituoso, um de seus amigos inclusive era gay, mas nenhum deles era incestuoso. Estou sempre me preocupando com a reação das pessoas, pensei, desgostoso, e segui para os ginásios de luta.

XxX

Eu suspirei entediado, tamborilando os dedos sobre o balcão. Não entendia por que havia me deixado convencer a vir naquele lugar. Era uma boate famosinha, com música boa e gente interessante, mas eu não estava interessado em ninguém e muito menos com vontade de dançar. Olhei para o relógio, notando que era cedo, cerca de onze horas. Havíamos entrado bem antes do normal porque os amigos do Leandro queriam aproveitar a bebida liberada que seria servida até meia-noite.

“Que merda, Diego, você é assexuado?” Ouvi a voz do Leandro perto do meu ouvido e me virei, notando que ele estava já meio alto. Eu não colocava mais nenhum pingo de álcool na boca, não só por causa do judô, mas por causa da noite na Elevação em que fui drogado por aceitar álcool de um estranho. Aquilo me deixou traumatizado e eu achava que nunca mais conseguiria beber nada alcoólico.

Franzi as sobrancelhas em indagação.

“Você recebe cantadas o tempo todo de garotas e até de garotos, mas não demonstra o mínimo interesse por ninguém.” Leandro me analisou por um momento, segurando pouco firme o copo que tinha em mãos. “Já sei! Você deixou alguém pra trás na outra cidade e por isso que às vezes fica com cara de cachorro desnutrido. Por causa do seu coração quebrado não consegue ficar com ninguém! Ah, eu sou mesmo um gênio.” Ele se vangloriou, o que me fez revirar os olhos.

“Eu vou indo pra casa, não estou a fim disso daqui. Desculpe, Leandro, mas é melhor eu descansar nessas duas semanas antes da viagem.” Falei passando por ele, dando uns tapinhas em seu ombro.

“Judô, judô, judô! É só nisso que você pensa!?! Sexo é importante pra saúde, sabia?! Diego, seu filho da mãe, não espere que te convide pra alguma coisa de novo, seu ingrato!” Leandro gritou enquanto eu seguia caminhando para fora da boate, ignorando-o. Ele era obviamente um bêbado chato.

Pouco depois eu estava em casa, sentindo-me gelado por ter andado de noite de moto, naquele clima frio. Não me surpreendi por encontrar todo mundo acordado, afinal, ninguém ali ia dormir cedo numa sexta, nem mesmo as crianças. A casa era grande e, sendo inverno, eles gostavam de ficar na sala com lareira, conversando e vendo televisão enquanto tomavam um chocolate quente.

“Diego!” Túlio chamou e correu na minha direção quando eu apareci. Eu o segurei quando ele pulou em cima de mim, pegando-o no colo. Eu nunca achei que teria jeito com pirralhos, já que não era a mais paciente das pessoas, mas aqueles três eram especiais. “Quando eu crescer, quero ter um bíceps que nem o seu!” Túlio falou, apertando meu braço. Minha mãe e o Chico soltaram uma risada, e eu sorri também, me lembrando de uma vez que havia dito algo parecido pro Dimitri.

Eu havia crescido mais uns dois centímetros e ganhado um pouco mais de musculatura, já que vinha malhando e treinando mais, mas nada exagerado, porém meu eu de dez anos sentiria orgulho do meu corpo atual. Quando me olhava no espelho, já não me sentia mais um pirralho, apesar de ainda não parecer tão homem quanto meu irmão. Deus, será que pra tudo eu tenho que pensar no Dimitri? Pensei, exasperado.

“Com certeza você vai ser muito mais alto e forte do que eu.” Garanti pro Túlio. Era um garoto também loiro, uma perfeita versão masculina da Isadora. Não fosse pela diferença de idade, eles poderiam ser considerados gêmeos. Túlio era bem mais delicado que Breno, e bulinado pelo irmão mais velho e mais forte, mesmo que esse irmão fosse outro pirralho magricela.

“Você acha?!” Os olhos azul-noturnos do Túlio brilharam.

“Fala sério! Você nunca vai ser forte! Sempre vai ser confundido com a Isa!” Breno implicou, com um sorrisinho maldoso de pivete e seus olhos azul-violeta brilhando. Os olhos dele eram incríveis, mas também eram a única coisa bonitinha sobre ele, pois de resto era um demônio implicante de cabelos loiro-escurecidos.

“Eca! Eu não sou confundida com o Túlio! Sou bem mais bonita.” Isadora torceu o nariz.

A partir daí seguiu-se uma discussão interminável sobre quem era mais forte, mais bonito, mais inteligente, mais esperto, e mais todos os adjetivos da face da Terra. Eu fui para cozinha, com um sorrisinho leve para aquilo. No entanto uma tristeza forte me atingiu de repente, conforme me lembrava de outra época – uma época perdida e distante, em que eu era o pirralho loiro e frágil, e tinha dois irmãos mais velhos, um pai brincalhão e uma mãe carinhosa. Parecia que apenas a mãe restava daquele tempo, e foi justamente ela quem apareceu na cozinha.

“Pode deixar que eu esquento a comida pra você, Diego.” Ela disse, sendo mãe, já que eu poderia facilmente esquentar algo pra mim. Não neguei, pois sabia que ela insistiria e qualquer coisa que eu dissesse seria usada contra mim. “Como foi seu dia? Veio mais cedo, achei que ia virar a noite com o Lê.”

“Eu ia, acho... Mas perdi a vontade. Estou cansado e fico pensando na Olimpíada.” Disse, usando minha desculpa de sempre, já no modo mecânico. Quando Lydia colocou o prato de comida saudável à minha frente, um prato com peito de frango e salada, ela acariciou meus cabelos e me beijou a testa.

“Sente saudades do Dimitri, não é?” Ela perguntou, sentando-se à mesa comigo. Eu a olhei, surpreso, mas então voltei a atenção pro meu prato, remexendo um pouco a comida com o garfo.

“Bem... É claro que sim. Você não sente?” Perguntei, desanimado.

“Obviamente sinto. Eu gostaria muito que ele viesse pra cá e ficasse perto da gente de novo...” Ela murmurou, com um ar estranho, como se a ideia ao mesmo tempo que a confortasse, também a preocupasse. “Eu liguei várias vezes pra ele nesses últimos meses, convidando-o para vir para cá, mas ele sempre foi evasivo. Também tentei nos convidar a ir visitá-lo, mas ele pareceu negar. Realmente, não entendo o que aconteceu com seu irmão. Mas tenho certeza que se ele está mantendo distância, tem os motivos dele e virá ter conosco quando estiver pronto.” Ela disse e acariciou meu rosto.

“Eu sinto falta dele, falta da Nanda... Queria que os dois estivessem aqui.” Murmurei, com um olhar em branco para a mesa. “É bom ter novos irmãos, mas ainda assim...”

“Eu sei.” Lydia falou, e segurei sua mão ao perceber que tremia e seus olhos se enchiam de lágrimas. Me senti idiota por trazer aquela dor à superfície. Ela voltou a assentir com a cabeça. “Eu sei. Ainda dói, todos os dias.”

“Desculpa, mãe. Eu não devia ter tocado nesse assunto.” Falei e me levantei, abraçando-a e deixando que envolvesse minha cintura com os braços, ainda sentada, escondendo o rosto no meu abdômen como uma menina assustada. Acariciei seus cabelos negros, pensando no quanto ela era importante para mim. Que mãe não é importante pro seu filho?

Lydia logo se recompôs quando mais alguém entrou na cozinha.

“Está tudo bem por aqui?” Chico perguntou, aproximando-se com um olhar preocupado. Lydia se levantou, secando os olhos e forçando um sorriso.

“Está sim, querido.” Disse e se aproximou dele para um beijo rápido. “Eu e o Diego estávamos apenas conversando, coisas de mãe e filho.” Ela assegurou.

“Está bem, não quero me meter. Mas depois me conte tudo.” Ele sussurrou brincando, com a mão tapando a boca como se eu não conseguisse escutar. Minha mãe riu, mas foi interrompida por um pequeno furacão que entrou na cozinha.

“Diiiiiiiiiii!” Isadora entrou correndo na cozinha. “Vem rápido! Você ‘tá na TV!!! Vem ver!” Ela me arrastou para a sala, para mostrar a propaganda que eu havia feito recentemente para a coca-cola. “Di, você tem que ir na minha escola, ninguém acredita que você é meu novo irmão!”

“Vou sim, Isa.” Falei, sentando no sofá e a deixando subir no meu colo, esmagando meu estômago com o joelho e me tirando o ar ao praticamente me escalar até achar uma posição confortável. Túlio quis subir também, reclamando que eu teria de ir à escola dele também.

“Nós estudamos todos no mesmo colégio, pateta. Se ele vai pra Isa, serve pra nós dois também!” Breno deu um peteleco na nuca do irmão, conseguindo com isso que Túlio se atirasse em cima dele querendo briga. Reparei no quanto a relação deles era diferente da que eu tivera com o Dimi quando mais novo, não me lembrava de cair no tapa com Dimitri daquela forma. Os dois se engalfinharam no sofá aos chutes e socos até que Lydia e Chico corressem para separá-los. Eu apenas ria, não iria separar briga de moleques.

“Meus irmãos são uns brutos.” Isa bufou.

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“Devíamos ir com você.” Lydia lamentou com um abraço apertado. “Eu bem que queria visitar Londres de novo.”

“É impossível pro Chico tirar férias, ainda mais com os três pivetes.” Falei. “E você não fica para trás, abrindo mais uma loja...”

“Agora tenho quatro filhos pra sustentar.” Ela lembrou segurando meu rosto carinhosamente. “Meu instinto de mãe está me dizendo que você vai voltar com uma medalha de ouro.”

“E todas as mães dos outros competidores estão dizendo a mesma coisa para eles nesse exato momento.” Revirei os olhos, sorrindo debochado e recebendo uma careta feia da Lydia. Ela me deu mais um beijo de despedida antes que eu embarcasse com o resto da comitiva do judô.

“Boa sorte lá, campeão. Estaremos aqui torcendo por você. Me desculpe por não ter conseguido umas férias para assistir ao menos uma das suas lutas.” Ele disse, verdadeiramente envergonhado e chateado. Eu balancei a cabeça e lhe apertei o ombro.

“Não se preocupa, Chico. Eu sei como é a rotina de um médico cirurgião. Vidas estão dependendo de você por aqui.” Disse, querendo tranquilizá-lo. Era só por uns dias e, de qualquer forma, quem eu queria que realmente fosse comigo, a pessoa por quem eu havia começado a treinar e a competir, era alguém que eu não via há mais de um ano e meio.

“Di! Por que eu não posso ir com você?!” Isa perguntou, puxando minha calça com um biquinho chateado. Me abaixei e a segurei pelos bracinhos magros.

“Porque eu vou estar ocupado e não conseguiria tomar conta de você, pestinha.” Falei-lhe, deixando-a com o queixo caído.

“Não sou pestinha!”

“Eu prometo te trazer uma medalha de presente.” Garanti. Se eu não ganhasse, teria de dar um jeito de comprar uma medalha falsa, mas isso seria uma motivação para ganhar, já que minha outra motivação parecia ter sumido da minha vida.

“Vai trazer pra mim também?” Túlio perguntou, mordendo o lábio e segurando os braços atrás das costas, carente de atenção. Breno se aproximou abraçando-o por trás com força, tirando o equilíbrio do menor.

“Deixa de ser pidão! Garotos trazem presentes pra garotas, não pra garotos! Como você é frutinha.” Breno implicou, apertando uma das bochechas do irmão, fazendo Túlio abrir uma careta de dor.

“Não fale assim, Breno. Não há problema algum em um garoto gostar de outro garoto. Não seja preconceituoso com seu irmão.” Tentei amenizar o clima, mas isso só deixou Túlio com o rosto corado. Breno soltou a bochecha do irmão, envergonhado pela minha repreensão.

“Não gosto de garotos!” Túlio garantiu numa exclamação encabulada.

“Você é muito novo para gostar de qualquer coisa.” Dei de ombros e, dando um beijo na testa de cada um, me levantei e coloquei minha mochila nas costas. “Então, vejo vocês em algumas semanas.”

A viagem foi tranquila e tediosa, me fazendo lembrar de como eram mais divertidas e emocionantes quando Dimitri estava sentado do meu lado no avião, ouvindo minhas palavras nervosas e ansiosas. Peguei meu celular e, sem me aguentar, mandei uma mensagem para ele.

Sinto sua falta.

Sua resposta veio até mesmo mais rápida do que eu imaginei.

Eu também. Boa sorte na Olimpíada, vou estar torcendo muito junto com você, como em todas as outras vezes.

“Mentiroso...” Sussurrei para o visor do celular. Para ser como todas as outras vezes, você tinha de estar aqui do meu lado. Pensei, antes de apoiar a cabeça no encosto da poltrona e acabar cochilando.

XxX

Londres era tão incrível quanto eu lembrava. Havíamos chegado dois dias antes da abertura da Olimpíada e agora, um dia antes, eu estava no parque mais famoso da cidade, o Hyde Park. Eu tinha boas lembranças do lugar. Quando meu pai ainda era vivo, todos nós havíamos feito uma viagem para cá e passeado juntos nesse parque, feito piquenique, andado por boa parte da extensão do lugar – eu de roller, Nanda de bicicleta, Dimitri a pé atrás de nós.

Sentei num dos bancos, numa área mais vazia do parque, sentindo um aperto em ardência no peito ao ver fantasmas de nós três correndo e rindo ao percorrer o caminho que seguia o rio, as risadas parecendo ecoar na minha mente. Vi Dimitri indo me socorrer e me abraçar quando caí de bunda com o roller, fazendo uma careta sofrida e mordendo forte o lábio para não chorar. Fernanda dava a volta na bicicleta e debochava de minha expressão de choro, exatamente como Breno faria com Túlio. Logo depois Rogério aparecia e me pegava no colo, enquanto Lydia repreendia Nanda por implicar comigo.

Me curvei para frente, com a mesma expressão de choro de quando havia caído do roller.

“Não faz sentido estar aqui sozinho, Dimi.” Murmurei para mim mesmo, como se ele pudesse me escutar do outro lado do oceano.

Não faz sentido estar aqui sem ter você para me abraçar se eu cair e me machucar.

Uma lágrima caiu sobre meu joelho e eu fechei os olhos, respirando fundo, sem nenhum ânimo para retornar para os alojamentos e me preparar mentalmente para os próximos dias. Não havia vontade de competir porque, e só agora minha ficha parecia cair, isso não era minimamente importante perto da saudade que me corroía em cada mover dos ponteiros no relógio.

“Não faz sentido competir sem receber o teu sorriso se eu ganhar.” Voltei a murmurar debilmente.

“Que bom que eu vim para cá então. Vou poder te dar todos os meus sorrisos quando você ganhar a medalha de ouro.”

Notas finais
VIRAM COMO SOU BOAZINHA?!?!?! Poisé, não foi o último capítulo, e eu não respondi os reviews ainda. Estou doente, acho que amigdalite, e com uma puta dor de cabeça. Irei responder os reviews ao longo da semana, ok? Perdão por isso. Queria postar logo, pra deixar pro final de semana o cap. final e o epílogo. :D Obrigada a todos amores que comentaram, adoro vocês. Desculpe também aos que eu estou devendo resposta nas MPs, irei respondê-las também assim que melhorar!
Beijos, gente linda! ;*
(Os pirralhos não são uns amores? Só eu que vi um futuro incesto entre Breno e Túlio?) ♥ *Mila vendo coisas que não existem na própria história* -q