A Cor Da Chuva
3 Capítulo 2
Eu já havia ido antes à casa noturna do Dimitri, mas mesmo assim experimentei a mesma sensação da primeira vez que entrei lá. Algo como orgulho do Dimitri e presunção porque eu era o irmão do dono do lugar, tanto que passei com o peito ridiculamente estufado pelo guarda da entrada, como se ele fosse dar a mínima para isso. Mas seria a primeira vez que eu passaria parte da noite ali. Era uma boate gay, aberta recentemente, logo após o Dimi ter-se formado em administração.
Vladimir, o pai de Dimitri e Fernanda, era um homem rico, ou eu assim supunha, já que havia deixado uma herança tanto para minha mãe, que pôde se sustentar bem após a morte dele por câncer, quanto para os filhos. Dimitri usou essa herança para abrir a Elevação. Já Fernanda... Torrou tudo em cocaína e craque. Lembrar disso me irrita, porque ela havia acabado com o dinheiro que o pai lhe deixara, pensando em seu bem-estar quando se fosse, e transformado essa preocupação em cinzas.
“Pode pegar algo para beber no bar.” Dimitri avisou, enquanto caminhávamos pela pista de dança negra e vazia àquela hora da noite. “Só não exagere, você sabe que a Lydia surta se descobre que você andou bebendo.”
“Sério que posso beber?” Meus olhos brilharam. Nossa mãe nunca deixava eu beber, além de regular toda a minha dieta. Eu precisava disso, na verdade. Se eu queria ser medalhista de ouro no próximo campeonato mundial de judô, ou quem sabe nas Olimpíadas, eu precisava cuidar ao máximo do meu corpo. E admito que adoro uma pizza. Se não fosse pela minha mãe, eu seria tipo aqueles loirinhos barrocos, com a barriga proeminente.
“Só não exagera...” Dimitri reforçou, e eu assenti distraidamente. Era bem nisso que eu acreditava: irmãos mais velhos têm a obrigação de ajudar os mais novos a curtir a vida longe das asas da mãe. Aliás, minha mãe tem um medo quase absurdo de perder os filhos, assim como perdeu os maridos. Porém a neura maior parecia ser comigo, de modo que às vezes eu me sentia até mesmo sufocado pelos mimos e preocupações dela. Eu estranhava às vezes, porque pensava que essa super-proteção deveria ser maior com a Fernanda, mas talvez ela agisse assim por eu ser o caçula.
Eu fiz umas misturas, sacudindo o copo comprido de metal onde os barmen fazem os drinques como se eu fosse um profissional naquilo. É claro que eu não tinha a mínima noção do que estava combinando ali, mas essa é a graça, eu acho. Quando fui beber, o gosto não era nada perto do que a variedade de bebidas poderia oferecer, mas estava razoável, e eu fui tomando enquanto ia atrás do Dimi.
Subi até o camarote onde ocorreria a festa, uma espécie de área vip que tinha uma sacada com vista para toda a boate, uns sofás de couro e outro bar menor, mas também cheio de bebidas. Dali podia-se chegar a um corredor que terminava na porta do escritório do Dimitri. Quanto entrei, com a bebida já pela metade de uma quantidade muito maior do que a recomendada para alguém de barriga vazia, encontrei Dimitri falando ao telefone enquanto analisava alguns papéis sobre a mesa.
Não prestei muita atenção na conversa, ele falava algo sobre a entrega de cervejas para aquela noite, então me joguei na cadeira em frente à mesa do escritório dele e o fiquei o observando apenas. Nesses momentos, eu percebia que ele já era um adulto, enquanto eu seguia como um adolescente mimado que se governa através das regras da mãe. E nesses momentos, eu também o invejava. Mas não era uma inveja ácida, desgastante, que almejava pelo insucesso dele, mas uma urgência de alcançar a mesma independência que ele conquistara; uma inveja que sempre surgia com o leve ressentimento de que houvesse me abandonado na casa de nossa mãe tão cedo.
Assim que ele desligou, eu falei:
“Alguém já disse que você fica sexy falando feito um executivo importante ao celular?” Sorri com o canto dos lábios erguidos, escorrendo uma malícia debochada. Dimitri me encarou com uma careta de escárnio.
“Claro. Todos os caras com quem eu já transei nessa sala.” Ele rebateu com um esgar sugestivo, ao que eu engasguei com o gole de bebida que recém havia entornado.
“Você já t-transou com alguém aqui?” Perguntei após recuperado do pequeno acesso de tosse. Me levantei da mesa. “Nessa cadeira?” Apontei para onde eu estivera sentado, meus olhos arregalados em pavor.
“Talvez, não sei dizer com certeza.”
“Credo.” Passei a mão pela minha bunda, limpando-a de alguma sujeira invisível, e tomei mais um longo gole da bebida, até terminar com ela. Descia queimando, mesmo que não houvesse ficado tão forte. Eu não estava acostumado a beber, mas gostava da sensação de quando bebia.
“Sente nojo?” Dimi perguntou, o tom neutro como um papel branco.
“Não, idiota. Eu não sinto nojo de você.” Revirei os olhos. “Eu só não gosto da ideia de sentar em lugares onde meu irmão já transou, fosse com homem ou mulher.”
Dimitri abriu o sorriso que me parecia o culpado por tudo que eu era, por tudo que eu sou; porque se sou um judoca famoso, é por culpa do sorriso que ele abriu na primeira vez em que participei de um campeonato juvenil, aos dez anos, e ganhei. Se sou a aberração mistura de nerd com esportista, que tira dez em praticamente todas as matérias da escola mais conceituada do Estado, é por culpa dos sorrisos que sempre abria quando eu corria para mostrar a ele meus boletins, até meus treze anos. Se eu tentava ser compreensivo e sociável com as pessoas, era por culpa do sorriso que Dimitri me dera quando, aos meus dez anos, eu aturei minha tia chata apertando minhas bochechas e tagarelando nos meus ouvidos durante toda a noite de Natal, mesmo quando minha vontade era chutar suas canelas gordas e me trancar no quarto para jogar vídeo-game.
Eu podia enumerar todos. Cada sorriso que recebi dele ao longo dos anos, que motivaram a conseguir outros, numa repetição incansável de atitudes que os despertariam. Meu estômago se contraiu com essa ideia, enquanto Dimi se aproximava e encostava sua testa na minha. Eu seria tão diferente assim se ele não existisse? Quem eu seria sem meu irmão? Quem é essa outra parte de mim que seguiria outros caminhos, se não fosse por ele? Uma angústia me atingiu quando olhei bem dentro dos olhos dele, tentando ver-me através das íris escuras.
“Você não imagina o quanto é bom ouvir isso.” Ele falou, e sua mão pesava em minha nuca. Eu pisquei, por um momento sem entender do que ele falava, tão absorto havia ficado dentro de minha própria mente. Me afastei, fugindo daquela sensação estranha e soquei de leve seu braço.
“Eu sei disso. Não é só porque está de aniversário, que precisa dar uma de velho sentimental para cima de mim.” Sorri sem-jeito e dei mais um passo para trás. A tontura pelo álcool me atingiu como um chicote enrolando-se em minhas pernas, e eu tropecei sem equilíbrio. Teria caído, não fosse Dimi ter-me segurado pelo braço.
“É melhor você não beber mais hoje.” Ele avisou. “Devia ter comido alguma coisa antes de sair de casa, além daquela barra de proteína.”
“Eu estou bem.” Resmunguei e olhei pro relógio. Eram dez e pouco da noite e a boate abria às onze. “Só preciso ir ao banheiro.”
“Não me diga que já vai vomitar!” Me olhou preocupado. Há um bom tempo eu já havia chegado à conclusão de que o senso de super-proteção da mãe havia passado para o Dimitri feito um vírus.
“É claro que não, Dimitri. Também não tenho estômago tão fraco assim.” Revirei os olhos.
Quando cheguei ao banheiro que ficava ali em cima mesmo, no camarote, me apoiei na pia e me olhei no espelho. Eu havia arrumado meus cabelos em um penteado que os fazia parecer mais curtos, deixando minhas orelhas à mostra. Não sabia por que havia feito isso, não gostava delas, pois me pareciam maiores do que deveriam ser para meu rosto de queixo afilado.
Fiquei um bom tempo me encarando e perguntando por que meu irmão reinava em minha vida de uma maneira tão absoluta. Não era a primeira vez que eu me indagava esse tipo de coisa, já houve noites nas quais madruguei pensando nele, nos seus porquês, suas razões, se também gastaria tanto tempo pensando em mim como eu pensava nele, e se nosso laço era forte apenas do meu lado, se apenas eu deixaria que arrancassem meus braços antes de permitir que esse laço se soltasse.
Às vezes esses pensamentos me assustavam, e nessas horas eu ia até minha mãe e conversava com ela. Gastava horas falando sobre meu irmão, como se escutar em palavras pronunciadas tudo que eu podia lembrar sobre ele, fosse descortinar a razão daquela dependência, e só me acalmava com os beijos na testa que recebia da Lydia. Eu observava em silêncio como eram as relações entre irmãos, dos meus amigos e amigas, e a nossa parecia tão diferente, tão única. Nenhum deles havia tecido estratégias em um tabuleiro com base em um único sorriso e todas suas variações.
“Você está bêbado.” Falei para minha imagem no espelho, com um meio-sorriso seco em humor, antes de lavar o rosto e sair do banheiro. Sentada em um dos sofás, estava minha melhor amiga, Jady. Fiquei surpreso de vê-la ali tão cedo.
“Não avisou que ia chegar mais cedo.” Falei abrindo um sorriso e esquecendo meus pensamentos prévios. Ela se levantou e eu a capturei em um abraço apertado, fazendo-a soltar uma exclamação abafada pela falta de ar.
“Não queria chegar quando já estivesse cheio de gente aqui. Você sabe que sou tímida demais para essas festas em que não conheço ninguém, não acredito que deixei você me convencer a vir.” Ela resmungou, rabugenta como sempre.
“Você quem quis vir! E você conhece eu e o Dimitri.” Eu ri, passando o braço pelos ombros dela e a levando até o bar. “Sente-se aí, vou resolver sua timidez antes que as portas abram.” Contornei o bar e fui tentar preparar outro drinque.
“Eu só comentei que seria interessante, porque então eu teria a chance de conhecer alguma garota... Aí você lança um decreto de que eu deveria vir também e eu que me virasse para convencer minha mãe a deixar eu vir numa festa para pessoas com mais de dezoito anos. Você poderia ter usado um pouco da tua fama e me ajudado.” Jady reclamou, apoiando os braços no balcão.
“Que fama o que, as pessoas mal me conhecem! A maioria nem dá bola pra judô.” Disse enquanto tentava escolher que garrafas pegar. “E sua mãe me odeia desde que eu falei para ela que não tinha nenhuma intenção de te namorar.”
“Não lembra disso, foi o pior mico da minha vida. Não dá para acreditar no que as nossas mães falam quando não estamos por perto...” Jady levou uma mão à testa, tapando o rosto pela vergonha, mas depois ergueu a cabeça e me olhou com um brilho esperto nas íris verdes. “E nem vem, quase todo mundo te reconhece, ainda mais depois do comercial de tênis que você fez, aparecendo sem camisa e virando a garrafinha de água no rosto... a câmara acompanhando os pingos descendo pelo teu peito e abdômen...” Ela sorriu maliciosa, enquanto eu sentia minhas bochechas pinicarem. Não era algo que eu faria por vontade própria, mas eu precisava agradar aos patrocinadores. Além disso, os prêmios no judô não eram muito altos, eu havia ganhado apenas 7,5 mil vencendo o mundial na minha categoria, de modo que era bom eu ir juntando o máximo de grana que podia agora, para quando me aposentasse. Algo que eu não faria tão cedo, claro.
“Não me lembre disso. Eu me sinto em um filme pornô sempre que assisto àquilo.” Nós rimos e eu comecei a misturar as bebidas. “Você viu o Dimi?”
“Ah, ele estava lá embaixo, conversando com uns seguranças e com mais alguns funcionários que acabaram de chegar. Esse lugar é fantástico! Não é à toa que abriu há pouco tempo e já faz tanto sucesso entre o público GLS. Ainda bem que, mesmo depois do que aconteceu aqui perto, o movimento não diminuiu.” Jady disse, tamborilando os dedos sobre o balcão e umedecendo os lábios grossos tingidos de carmim. “Dá uma raiva enorme só de lembrar.”
“Sim, é absurdo. E era pai e filho, mas os filhos da puta acharam que era um casal gay vindo aqui para boate. Mas o Dimitri aumentou a segurança, inclusive pagou alguns guardas para darem umas voltas pela quadra de momento em momento. Ele ficou furioso quando a notícia saiu... E não tem como não ficar, não é? Não dá para entender qual o prazer desses merdas de mente fechada em espancar alguém porque acham que tem algum direito de julgar a vida pessoal dos outros. A sexualidade é algo que se encontra na esfera da intimidade e não diz respeito a ninguém! Parece que caminhamos a passos largos para o buraco por culpa desse modelo de educação de merda que a sociedade apregoa há décadas, que deveria educar no sentido de respeitar o próximo e ponto, mas só desestrutura culturalmente e intelectualmente as pessoas, padronizando as massas com pensamentos conformistas e cheios de preconceito-”
“Calma, Diego!” Jady colocou a mão sobre meu braço, interrompendo-me. Eu já havia discutido tantas vezes com a Fernanda sobre isso, que já tinha um discurso pronto na ponta da língua sempre que o tema vinha à toa e me deixava furioso. “Se exaltar aqui não vai mudar nada, você já está quase tremendo de raiva...” Ela acariciou meu braço. “Eu concordo com tudo que você disse, droga, eu gosto de mulher e acho que isso é assunto meu e de mais ninguém! Mas não vamos nos estressar essa noite, certo? A gente veio aqui para nos divertir e não começar um manifesto.”
“Sim.” Respirei fundo e sorri. “Desculpe, eu sempre acabo me exaltando com esse assunto.”
“Eu acho muito fofa a maneira como você defende os homossexuais. No fundo eu sei que você faz isso pelo Dimitri.” Ela sorriu, enquanto eu fazia uma careta.
“A palavra fofa não combina com o contexto. E eu não faço isso só pelo Dimitri, mas porque acredito de verdade nisso...” Falei e de novo a ideia de que meu irmão era culpado por cada opinião, atitude e pensamento que teciam minha vida e personalidade agitou meu estômago, deixando-o sedento por mais álcool. “Jady... Quem sou eu?”
Ela me olhou como se eu houvesse endoidado. É, eu já estava meio bêbado.
“Que pergunta é essa? Você é Diego Herrera Niehus, meu melhor amigo desde a terceira série, que ficou famoso e felizmente não esqueceu os amigos. Por isso eu estou aqui essa noite. E agora, vai terminar essa bebida ou não?”
Não insisti no assunto. Terminei o drinque e entreguei a ela. Jady fez uma careta terrível e mandou eu me aposentar. O barman do camarote apareceu logo depois e me cantou, algo que me deixou terrivelmente constrangido, porque eu não lembrava de ter recebido flerte de homem. Jady ficou rindo da minha expressão de quem não sabe onde meter a cara e, enquanto conversávamos jogados num sofá, Dimitri apareceu novamente.
“Tudo resolvido.” Ele se sentou ao meu lado, deixando-me entre os dois. “Daqui a pouco a boate abre. Já tem fila lá fora.”
“Deve ser bom ser bem sucedido, hein?” Jady brincou. “Ainda mais com festa quase toda a noite.”
“Tem seu lado divertido. Eu sempre gostei bastante de uma noite agitada. Na primeira vez em que fui numa boate, decidi que queria ter uma, e minha ideia ao cursar administração era justamente aprender como levar esse negócio.” Dimitri explicou. Estava sentado de lado no sofá, com o braço direito esticado sobre o encosto.
“É, mais uns meses e eu vou poder vir sempre aqui, de graça.” Comentei.
“Mas qual vai ser a graça? Nenhuma garota vai querer ficar com você aqui, Diego.” Jady replicou, sorrindo de lado. “Mas se você vier, me traga sempre.”
“Não se pode ter tudo...” Suspirei. “Mas quem sabe eu não experimente? Vai que sou gay também e não sei.” Falei na brincadeira. Jady riu, mas quando olhei para o Dimi, franzi a testa ao vê-lo com a expressão séria e obscura. Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido.
“Nem pense nisso. Você está proibido de dar em cima de qualquer um nessa boate.” O tom de voz dele fez um arrepio descer pela minha coluna e eu virei o rosto para olhá-lo, um pouco confuso, mas mantendo o bom-humor no rosto.
“Fala sério, né? E se eu quiser experimentar ser gay, o que você vai fazer?” Retruquei. Jady nos olhava em silêncio, provavelmente não conseguira escutar o que Dimitri falara.
“Eu daria um jeito de tirar essa ideia imbecil da tua cabeça. A Lydia surta se mais um filho dela for viado.” Ele se levantou e seguiu para descer as escadas, deixando-me completamente atarantado para trás. Nossa mãe surtaria? Ela havia surtado com ele? Não era isso que ele havia me contado!
“O que foi isso agora?” Jady perguntou. “Diego, você tem vontade de experimentar mesmo?” A voz dela escorria em curiosidade, e meu olhar se estreitava em direção às escadas. De repente, eu queria experimentar só para provar que podia e ninguém tinha nada a ver com isso, nem mesmo o Dimitri. Como assim ele achava que podia me proibir? Eu podia, sim, fazer algo por mim mesmo, sem o consentimento dele, sem seu sorriso.
“E se eu tiver? Não tem gente por aí que diz que todos somos bissexuais e só não exploramos isso pela repressão social e cultural? Olhe os presos na cadeia, eles se acham os machões mas, na falta de mulher, se excitam e transam com outros homens. Isso deve provar alguma coisa, não é?” Me levantei.
“Ai, Diego! Que exemplo nojento, ficar pensando nos caras estuprados na cadeia!” Jady se levantou também e seguiu até o bar, onde eu pedi dois drinques com um meio sorriso charmoso para o bartender. Tentei não me sentir desconfortável com seu olhar cheio de sétimas intenções e entornei mais um copo inteiro.
E a partir daí, minha cabeça tornou-se mais leve do que uma folha ao vento.
XxX
“Diego!”
Ouvi a voz do meu irmão e minha cabeça girou do rapaz com quem eu conversava, para a figura insatisfeita do Dimi. Seus olhos haviam seguido cada um dos meus passos, cada mover dos lábios e piscar de olhos desde que a festa enchera com desconhecidos, e o camarote com amigos seus.
“O que você quer?” Perguntei quando ele puxou meu braço e me afastou do homem que viera puxar assunto comigo. Ele deve ter achado que o cara estava me flertando.
“Guto, ele é meu irmão e não é gay, vai dar em cima de outro!” Dimitri falou num tom frio, encarando o rapaz de pele morena de uma forma assustadora. Esse olhar dá medo. Quando eu era menor e via o Dimi irritado, sentia calafrios correrem por todo meu corpo, e até hoje em dia sinto. Mas dessa vez o encarei com tédio.
“Pelo amor de Deus, Dimi, o cara só estava tentando ser simpático e elogiando minha conquista no mundial.” Falei, enquanto o outro se afastava rapidamente. “Por que você está agindo como se os seus amigos fossem pular em cima de mim e me estuprar, hein? É a terceira vez que você interrompe uma conversa!”
“Ele estava te segurando pela cintura e quase te beijando. Ninguém precisa segurar alguém pela cintura para elogiar uma conquista esportiva. Vê se não fica dando trela para esses caras, ou eles vão acabar querendo te levar para um canto e abusar de você sim!” Falou carrancudo. Era incrível como estava mal-humorado e desconfiado dos próprios amigos.
“E se eu quisesse que ele me arrastasse para um canto?” Sugeri, sorrindo torto pela falta de sensibilidade em meus lábios, efeito do álcool.
“Nós já conversamos sobre isso.” Dimitri sussurrou, mas pude escutá-lo mesmo com o barulho de conversa e música ao redor. Eu estreitei os olhos.
“Não mesmo, você me deu um ordem e acha que vou cumprir feito um cachorrinho? E que história é aquela que a mãe vai surtar?” Perguntei com a voz bem mais alta que a dele.
“Não é hora de discutir esse tipo de coisa.” Ele replicou, fugindo do meu olhar. Ainda segurava meu braço e eu dei um jeito de me soltar.
“Então eu vou descer e dançar, já que não dá para conversar com nenhum dos seus amigos.” Ainda dei dois passos, mas ele voltou a me impedir.
“Não vai não. Vão te comer vivo lá embaixo! Ou você acha que os tarados não ficam tudo de olho em um loirinho bonito que nem tu?” Eu não soube por que, mas o comentário dele me constrangeu. Não por imaginar um bando de tarados passando a mão em mim, mas porque ele nunca havia dito nada sobre minha aparência, mesmo que eu vivesse falando, em momentos de descontração, que ele era bonitão e sexy.
“Mas que merda, Dimi, eu sei me defender muito bem sozinho. Vá bancar o guarda-costas de outro.” Falei irritado e embaraçado, afastando-me e indo atrás da Jady. A encontrei num canto do camarote conversando intimamente com outra garota. Ela me viu e fez sinal para que eu desse o fora dali e não a atrapalhasse.
Torci os lábios. Sozinho outra vez. Se havia algo que eu odiava, era ficar sozinho. Sentia um vazio terrível quando não tinha alguém para interagir, e acho que por isso sempre fui bastante namorador. Não no sentido de ser galinha, mas de sempre estar com alguma namorada. Depois da Gisela tive outras quatro. Nenhuma dava certo por muito tempo, mas era bom enquanto durava. Ao menos assim eu tinha alguém com quem passar parte das noites, já que o Dimi havia saído de casa e ir até o quarto dele para encontrá-lo vazio sempre me deixava com um aperto no peito.
Me joguei no sofá de couro preto mais próximo, perguntando-me por que eu estava lembrando desse fato outra vez. Eu parecia um masoquista por ficar remoendo isso de novo e de novo. Eu sentia que estava deixando alguma coisa passar, como se eu fosse o único cego em todo um mistério bem guardado. Ah, maldito álcool e suas teorias da conspiração, pensei, massageando minha testa com a cabeça apoiada contra o couro macio do sofá.
“Você não quer beber nada, lindo?”
Virei o rosto ao ouvir a voz próxima. Devia ser mais um dos amigos do Dimi. Não grilei com a forma como ele me chamou e aceitei o coquetel em sua mão. Tinha um gosto doce misturado ao álcool. Se a mãe soubesse que eu estava bebendo ela ia ter mesmo um treco, e eu já havia passado da linha, bebendo bem mais do que deveria. Olhei ao redor e vi que o Dimitri havia sido pego e era mantido preso por seu grupo de amigos. Ele é bastante popular, e como fazia o tipo discreto, até quem não vai muito com a cara de gays acaba socializando com ele. Aposto que muitos dos antigos amigos dele só descobriram que ele é homossexual depois que ele abriu a Elevação.
“Você é o irmão do Dimitri?” Ele perguntou, inclinando-se mais para perto de mim em busca do meu olhar. Não fugi de sua aproximação, me sentia mole demais para me preocupar em fazê-lo.
“Sou sim.”
“Mas vocês não têm nada a ver um com o outro! Tem certeza que você não é adotado?” O rapaz riu, começando a me analisar de uma forma descarada, e eu fiquei um pouco surpreso com o formigamento que seu olhar intenso causou nas minhas orelhas e pescoço.
“Não. É que ele é filho do primeiro casamento da minha mãe.”
“Ah, então vocês são só meio-irmãos! ‘Tá explicado. Alguém já te disse que você é muito lindinho?” Ele tentou alcançar meu rosto para me tocar e, quem sabe, me beijar já que seu rosto ficou bem perto, mas antes que conseguisse, uma mão enorme já se fechava em seu pulso e o impedia. O cara olhou para cima e sorriu, pulando do sofá. “Poxa, Dimitri, como você esconde teu irmão da gente durante todo esse tempo? Ele é um pecado de tão bonito...” Me olhou como se eu estivesse nu e pronto para o abate.
Mas o tal nem conseguiu terminar direito a frase antes de receber um soco nas fuças. Eu olhei em choque para o que o meu irmão havia feito e me levantei, impedindo com dificuldade que ele caísse sobre o sujeito e terminasse o serviço.
“Calma, Dimi, ficou doido? Ele nem falou nada de mais!” Eu estava estarrecido com a atitude do meu irmão. Ele sempre era tão maduro e centrado, que nunca imaginei que o veria agredir alguém sem ótimos motivos. E um flerte bobo não era nem de longe um ótimo motivo.
O rapaz se levantou segurando o nariz que sangrava profusamente e o fuzilou irritado.
“Qual é a tua, Dimitri? Endoidou? Eu não te fiz nada!” Gritou. Nem preciso dizer que todo mundo no camarote olhava a cena como se meu irmão houvesse enlouquecido.
“Fica longe do meu irmão.” Dimitri falou ríspido e, empurrando o outro, passou direto por ele em direção às escadas que levavam ao piso inferior, caindo na multidão de corpos se balançando freneticamente no ritmo da música. Vendo que todos os olhares recaíam sobre mim, corri para fora dali atrás do meu irmão.
“Dimi!” Gritei, odiando o som tão alto que nem mesmo eu conseguia me escutar direito. “Dimi!”
O segurei pelo braço quando o alcancei. Ele me encarou primeiro irritado, mas ao ver que era eu, sua expressão gelada suavizou. A área de dança estava insuportavelmente lotada e nós estávamos no meio dela. Fomos empurrados até que nossos corpos estivessem colados, e o Dimi me abraçou pela cintura, escondendo o rosto em meu pescoço.
“Me desculpa, Diego.” Ele falou bem perto do meu ouvido, de um modo consternado, após alguns segundos. Seu tom me comoveu assim como a vastidão do universo comove uma estrela, e eu acabei relaxando em seus braços, perdendo por completo a vontade de discutir e permitindo-me apreciar o abraço, mesmo que estivesse tremendamente calor naquele conglomerado confuso de gente.
“Dimi, não entendo essa tua atitude. O cara não ‘tava fazendo nada de mais.” Falei mesmo assim, deixando meus dedos acariciaram preguiçosamente seus cabelos curtos e pretos.
“Você não conhece o Bernardo, Diego. Ele é um pervertido da pior estirpe. Sem chance que eu deixaria ele perto de você...” Sussurrou com a boca colada ao meu ouvido, e eu experimentei aquela idiotice de mil borboletas dando voo no meu estômago. De repente me senti respirar com dificuldade, puxando um ar muito mais espesso do que realmente era e se aranhava em meus pulmões.
“Se quer experimentar ser gay, experimente comigo...” Ele voltou a sussurrar em meu ouvido.
“O-o quê...?” Minha voz saiu baixa e duvido que ele tenha escutado. Quando ele ergueu o rosto, nossas testas se encostaram e nossos olhares se fixaram um no outro, e não havia espaço em minha visão para nada além de seu rosto, seus orbes escuros. Eu achei que teria um ataque cardíaco de tão forte que meu coração bateu, exaurindo-se no peito como se tentasse escapar de uma armadilha.
Com os lábios entreabertos, nossas respirações se misturaram no pequeno espaço entre nossas bocas, e eu comecei a achar que estava em algum sonho, flutuando em um universo difuso onde pensamentos e ações se misturam e culminam em um único instante. A mão dele deslizou pelo meu pescoço, alcançando e segurando a minha nuca, e meus olhos invariavelmente fecharam quando senti os lábios dele roçarem nos meus, buscando lenta e gentilmente a melhor forma de fazer aquilo, o melhor encaixe. E, mesmo que o álcool houvesse diminuído minha sensibilidade, eu consegui sentir cada milímetro, cada rugosidade sensual de seus lábios.
Notas finais
Muito obrigada à Taia, Pandora Beaumont, KassiaKarolayne, Sumie, Ganimedes, Mag, Diana R Barros, Bia Yuuji, Bruna Uzumaki, Eu-Pamy, Lilith Malfoy, FeerHaner, Álefe e Sunnie por todas as reviews, fiquei surpresa de uma forma muito agradável com o retorno que estou tendo aqui, suas lindas! *_*
Beijos, e até o próximo! :*
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