A Cor Da Chuva

14 Capítulo 13 _ Dimitri Parte I


Notas iniciais
Certo, eu fiquei MUITO surpresa com as duas novas recomendações que recebi. Obrigada MESMO a Rafaella Lima (recomendação enorme e incrível dessa linda) e TripasLegais (morro de rir desse nick, sua fofa) pelas recomendações, me deu um novo gás aqui, fiquei muito contente. Obrigada! ♥
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Se atentem que esse capítulo tem muitos pulos no tempo! Lembrando que a diferença de idade entre Diego e Dimitri é de cinco anos...

Não sei dizer em que momento exatamente começou. Começou, hoje sei, muito antes que eu percebesse. Mas lembro com exatidão o momento em que a percepção me atingiu de uma forma que assolou meus pensamentos e mudou tudo, me assustou, dilacerou e me levou a fugir.

Fugir o máximo que pude e meu máximo foi mudar-me de casa, encontrar um apartamento que talvez pudesse me proteger daqueles sentimentos que eu preferia não sentir. Mas isso era pouco demais, uma vez que eu permitia e desejava e convidava Diego para vir me visitar todos os finais de semana, ou o buscava depois das aulas apenas para levá-lo até o judô — mesmo que o ginásio fosse bem próximo do colégio.

Nesses dias eu olhava para nossa irmã, ainda controlada pelas drogas, mas já na fase da luta, percebendo que precisava de ajuda, desejando lutar, mesmo que caísse e fraquejasse, e chorasse nos meus braços pedindo que eu a compreendesse quando a buscava e a arrancava dos braços de um dos namorados filhos da puta que teve. Eu não falava nada, mas afagava seus cabelos e pensava que sim, eu a compreendia. Compreendia tanto que silenciosamente compartilhava sua dor, pois eu também era um viciado que tentava se livrar de dos efeitos de uma droga.

Mas minha droga era um anjo loiro, com um sorriso lindo, de coração grande e extremamente sensível, apesar de fingir que não. Era um anjo de asas quebradas que também era teimoso, e explosivo, curioso e exagerado, que só se acalmava nos meus braços. E dessa droga, eu sabia, jamais conseguiria me abster – mesmo que todas as culturas do mundo, ou quase todas, condenassem o que eu sentia, era impossível não querer amá-lo. Eu tentava ser bom por ele, tentava ser o irmão perfeito, seu porto-seguro, o cara maduro que estaria sempre ali por ele, pronto para ajeitar tudo que estivesse errado.

Mas não sou perfeito, e já havia errado muitas vezes.

XxX

"Está nervoso?" Perguntei a Diego, que apertava minha mão enquanto seguíamos para o ginásio. Eu havia convencido o treinador Nils a deixar Diego, mesmo tão novo, treinar no mesmo horário que eu, pois do contrário ele entraria numa turma mais cedo, com garotos na faixa de idade dele. Nils disse que ele então participasse das duas aulas, pois éramos muito mais avançados, e ele não queria um pirralho atrapalhando.

Meu pedido valia de alguma coisa porque eu participava de torneios e geralmente os ganhava, apesar de não ser o maior dos destaques. Também treinava pouco em comparação com outros garotos. Eu não tinha intenção de me profissionalizar. Treinava judô como hobbie e entrava em competições pelo desafio. O treinador insistia para que eu me dedicasse mais, porém com treze anos (ainda que parecesse ter uns dezesseis), eu não estava muito interessado.

"Você vai rir de mim." Diego resmungou, com beiço. "Cinco anos é muito tempo de diferença, eu devia ser mais velho."

"Eu já ri de você alguma vez?" Perguntei, como sempre achando adorável a forma como ficava emburrado, e pela preocupação do que eu iria achar de sua primeira vez no judô. Diego apenas me lançou um olhar seco e sério, com as pálpebras estreitadas, e eu soltei uma risada, abraçando-o pelos ombros para mantê-lo perto de mim.

"Ok, talvez eu dê algumas risadas." Fiz carinho em seu braço, quando chegávamos ao ginásio. O levei para os vestiários e tive de esperar algumas garotas que também treinavam por ali, não só do judô, pararem-nos para mimarem meu irmão. Diego tinha esse efeito sobre as garotas, elas ficavam loucas para apertá-lo, tocar-lhe os cabelos, enchê-lo de beijos nas bochechas. Se eu não fosse gay, isso seria uma vantagem, mas eu apenas achava entediante.

Eu ainda tinha de contar isso à nossa mãe. Aliás, eu tinha de terminar com a minha namorada. Já a havia apresentado para a família, e até pouco tempo atrás ainda fingia que não me atraía por homens, negando minha orientação sexual. Mas de uns tempos para cá isso estava insustentável, só me faltava a coragem para admitir isso a qualquer outra pessoa. Eu me perguntava o que Diego acharia disso, mas talvez ele ainda fosse muito novo para entender.

"Garotas são chatas." Diego falou quando entramos no vestiário masculino e nos livramos da mulherada. Soava bastante como um garoto de oito anos que ainda não se interessava pelo sexo oposto. "São grudentas! Como que você aguenta a Thamires?"

"Eu não aguento." Retruquei, dando de ombros e então rindo de sua expressão chocada. "Mas isso é segredo nosso, está bem?"

Diego assentiu, muito sério, mas, enquanto se trocava e colocava o quimono pequeno, que o deixou bastante bonitinho, ele parou pensativo.

"Mas por que está com ela então?" Perguntou, curioso, e veio sentar no meu colo. Diego adorava colo, e sentava sempre sem pedir permissão, não importava onde estivéssemos. Eu gostava disso, pois fazia apenas comigo.

"Não sei..." Admiti. "Talvez eu termine com ela."

"Ela não é tão chata." Ele mudou de opinião, apoiando o queixo no meu ombro. "Não fica apertando as minhas bochechas ou coisas assim. E ela gosta de Dragon Ball!"

"Então não quer que eu termine com ela?" Perguntei, rolando os olhos. Diego se aproximou mais, abraçando-me pelos ombros.

"Só se você não for encontrar outra mais chata." Ele murmurou, manhoso. "Mas se você terminasse teria mais tempo pra mim. Não gosto de ter de ficar dividindo você com ela..."

"É mesmo?" Perguntei divertido, e cutuquei sua barriga causando cosquinhas. "Nem havia percebido, principalmente quando entrava no meu quarto e nos atrapalhava até que a Thamires fosse embora..." Ironizei. Eu até achava isso bom.

Gostava da Thamires, mas não tinha tanto ânimo quanto ela para sexo. Ela era mais velha, dezesseis anos, e sempre mentia pras amigas que eu tinha também essa idade. No fundo, eu curtia mais a companhia do Diego do que a dela.

"Não faço isso!" Diego reclamou e pulou do meu colo. "Vamos logo, quero aprender tudo e ficar tão bom quanto você!" Disse, fechando a mão em punho em determinação.

"Vai ficar melhor do que eu." Rebati, bagunçando seus cabelos e me erguendo.

Fomos para o tatame e tivemos nossa primeira aula juntos. Nils ficou furioso por eu só dar atenção ao Diego, sem me importar em lutar contra os mais velhos, mas ao final comentou que o garoto tinha garra e talvez fosse promissor. Diego passou o resto do dia com o peito estufado, e passou horas contando à Lydia todos os detalhes do treino, parecendo mais dócil que o normal com a nossa mãe.

Lydia ficou satisfeita, e me agradeceu quando Diego não estava por perto.

"Acho que o judô irá mesmo ajudá-lo a gastar as energias e ficar menos estressado. Ele ainda sente muitas saudades do pai..." Ela murmurou e deu-me um beijo na testa, antes de dar boa noite e ir dormir.

Eu fui para meu quarto e encontrei Diego já na minha cama, adormecido. Ele não gostava de dormir sozinho, vinha tendo pesadelos nas últimas semanas e às vezes eu tinha de acordá-lo e acalmá-lo até que voltasse a dormir, abraçado a mim. Quando me deitei, ele por instinto se remexeu na cama e passou o braço pela minha cintura, buscando por contato.

Eu acariciei seus cabelos e pensei que seria difícil dormir sem o calor dele quando os pesadelos parassem e ele se cansasse de dormir na minha cama. Meu lado egoísta desejou que os pesadelos nunca o deixassem e, assim, sempre dependesse de mim.

Tal pensamento chegou a me assustar naquela noite.

XxX

"Você terminou mesmo com a Thamires?" Meu amigo, Afonso, perguntou. O nome não o valorizava, mas era um garoto bastante bonito de olhos verdes e rosto ainda imberbe. "A Thamires, cara! Você era tão sortudo pegando uma garota mais velha, e ela tinha aqueles peitões! Você é louco..."

Louco não. Gay. Pensei, dando de ombros e desconsiderando seu comentário. Estávamos na escola, no intervalo das aulas. Era irritante pensar que eu ainda tinha quatro anos pela frente tendo de aprender um monte de coisas que eu não gostava, mas me consolava pensar que tinha dinheiro suficiente para abrir meu próprio negócio bem mais cedo que a maioria das pessoas, o que me daria independência e mais liberdade.

Eu gostava do Afonso, mas aqueles papos de adolescente ainda na puberdade que começava a se interessar só em garotas começava a me cansar. Mas eu também não iria ser aqueles gays que andavam só com garotas. O jeito era continuar fingindo algum interesse no sexo oposto, mesmo que eu duvidasse que alguém viesse me encher a paciência caso descobrisse minha orientação sexual. Não enquanto eu fosse maior e mais forte do que todos os garotos da minha idade, e até que alguns mais velhos.

"Há outras garotas peitudas por aí." Suspirei, observando a movimentação dos outros estudantes pelas quadras abertas do colégio. Vi Diego jogando futebol numa quadra menor, dos pirralhos, com os colegas de turma. Ele sempre havia se interessado por futebol, e eu acabei me interessando também por causa dele, de modo que havia entrado para o time do colégio. Talvez eu visse aquele sorriso empolgado de admiração dele quando eu conseguisse virar capitão do time.

"Está preocupado que o teu irmão se meta em outra briga?" Afonso perguntou. Diego até ganhara certa fama na escola por causa das confusões em que andara se metendo, aquele pequeno cabeça quente. Eu esperava que ele melhorasse esse temperamento, mas com o judô as coisas vinham mesmo melhorando. Já fazia cinco meses, e agora Diego só entrava em discussões verbais. Já era alguma coisa.

"Já conversei com ele sobre isso uma noite, ele me prometeu que não sairia mais arrumando briga com agressão física... Ele tem cumprido isso ao menos." Eu disse, mexendo no relógio de pulso que ele havia me dado de aniversário. Eu confiava nas palavras do Diego. Não me lembrava de alguma vez ele ter mentido para mim, e por isso tentava também não mentir para ele. Era estranho ter uma relação assim com um pivete.

"É, mas eu acho que ele acabou de se machucar e-" Afonso começou a falar, mas eu já pulava o muro onde estávamos sentados e corria até a quadra. Diego caíra e agora segurava o joelho, apertando a perna contra o corpo. Ver o sangue entre suas mãos me deixou angustiado, e cheguei até ele o mais rápido que pude.

"Diego, vem, vou te levar na enfermaria." Falei e o puxei para minhas costas, colocando-o na garupa antes que ele sequer conseguisse reclamar da dor. Ele mordia os lábios com força, impedindo-se de chorar na frente dos outros. Aquela quadra tinha um chão áspero, e seu joelho estava em carne viva. Diego passou os braços por meu corpo e escondeu o rosto em meu pescoço, mantendo-se em silêncio durante todo o caminho.

O colégio era grande e tinha uma enfermaria, coisa rara em comparação com outras escolas por aí.

"Pode chorar se quiser, não tem mais ninguém pra olhar." Falei, seguindo rápido pelo corredor para chegar até a enfermaria. Eu não gostava do enfermeiro da escola, já havia escutado rumores de que dera em cima de algumas garotas mais velhas, e não o achava confiável, mas Diego estava sangrando bastante e era melhor do que nada. Seria bom se ele nem estivesse ali, eu poderia limpar e colocar uma gaze no ferimento por mim mesmo.

"Não. Estou cansado de chorar na tua frente..." Diego resmungou, abraçando-me com mais força. Suas mãos também estavam um pouco raladas, e peguei uma delas e a beijei. Não me importava que ele chorasse, mas não disse isso a ele, pois sabia que também era orgulhoso em momentos como esse. No judô nunca reclamava se apanhava, levantava decidido e voltava a lutar.

Para minha alegria, a enfermaria estava vazia, e eu mesmo pude cuidar do machucado do meu irmão.

Diego me observava em silêncio, comportado, tentando fingir que não doía muito.

"Acha que não vou conseguir treinar hoje? Eu acho que estou melhorando." Diego balançou a perna, enquanto eu fazia o curativo. Segurei seu tornozelo inquieto para que não me atrapalhasse.

"Seria melhor se faltasse hoje. Se cair sobre o joelho vai acabar doendo de novo e suas mãos estão raladas também." As peguei e comecei a limpá-las com cuidado. "A escola tinha que mudar aquelas quadras, colocar um chão liso. Do jeito que está é um absurdo." Reclamei, irritado por ver o Diego machucado. Sempre me sentia estranho e inquieto, com vontade de bater em alguém, ao vê-lo assim.

Meu temperamento também não era dos melhores, mas sempre me controlava ao máximo, principalmente para não dar exemplos errados ao meu irmão. Já não bastavam as mancadas da Fernanda. Às vezes eu achava que ser cabeça quente estava mesmo nos genes da família, só faltava nós seremos todos ruivos, aí sim a casa pegaria fogo.

"Dimitri..." Diego chamou e se inclinou para frente, encostando a testa na minha e mantendo seus olhos fixos nos meus. "Você me acha fraco?"

"Você se preocupa demais com isso..." Eu acariciei sua nuca e suspirei. "Tem só nove anos, é claro que não é tão forte quanto seu irmãozão." Brinquei, sorrindo de leve. Diego bufou, fazendo beiço, mas não se afastou; fechou os olhos e ficou acariciando meu pescoço, de um modo carinhoso.

"Te amo, Dimi." Murmurou, como que sonolento, e eu não aguentei e o abracei, beijando-lhe a testa.

"Também te amo, fracote." Impliquei. Por algum motivo eu vinha sendo mais implicante nos últimos tempos, talvez por ter entrado de fato na adolescência e, como todo adolescente, adorar importunar.

Recebi no braço um soco que não doeu nada e resolvi levar Diego pra casa e furtar as próximas aulas com ele.

XxX

"Então, vai contar pra tua mãe?" Afonso perguntou, deitado sobre meu corpo deixando que seus cabelos cacheados cor de areia tocassem minhas bochechas. Quem diria que ele seria o primeiro garoto com quem eu me envolveria.

Depois de um ano desde que eu terminara com a Thamires, nós tivemos nosso primeiro beijo. Uma coisa bem estranha depois de ficarmos ambos bêbados no aniversário de dezoito anos da prima dele. Agora estávamos com quinze, e namorávamos — ou fosse lá o que tínhamos — há uns três meses.

Eu gostava dele, mas não era nenhuma paixão avassaladora. Ainda sentia que éramos mais amigos do que duas almas apaixonadas, ou essas coisas que outros adolescentes diziam sentir por seus namorados. Ainda assim, era bem melhor do que eu havia tido com a Thamires, sem contar que ficar com ele me dera a certeza de que era mesmo homossexual e que isso nunca iria mudar. Com essa certeza, eu pensava em me assumir para minha família, pois odiava fazer as coisas às escondidas, ou contar-lhes mentiras.

"Vou. Hoje à noite." Murmurei e entreabri os lábios aceitando o beijo que ele me deu. Aproveitamos que os pais dele estavam viajando e fomos até o fim pela primeira vez. Como ele era completamente virgem, e eu já havia tido alguma experiência antes, mesmo que fosse com uma garota, acabei tomando as rédeas e gostando bastante do momento.

Mas não consegui retribuir o 'eu te amo' que ele me disse depois do sexo.

Naquela noite despejei a verdade à mesa do jantar. Não esperava que Lydia aceitasse muito bem, e ela de fato não aceitou. Caiu no choro e eu me senti miserável e com raiva. Depois de todas as vezes em que ela havia me elogiado e agradecido por ser um bom irmão e aguentar firme nos momentos de crise, tive de escutar depois do jantar palavras nada agradáveis sobre eu estar seguindo o mesmo caminho que a Fernanda. Segundo minha mãe, logo estaria me envolvendo com drogas e caindo em promiscuidade.

"Então a senhora finalmente abriu os olhos e admite o que está acontecendo com a sua filha?" Rebati. Era a primeira vez que ela falava, com todas as letras, que a Fernanda estava se drogando e estragando a vida. Ao menos para isso minha confissão servira, para abrir os olhos de minha mãe.

Lydia tapou a boca e pôs a chorar mais. Eu permaneci quieto, esperando algum ultimato. Eu acreditava poder lidar com qualquer palavra, mesmo que ficasse magoado. Achava que conseguiria escutá-la dizer ter nojo de mim, que não me via mais como filho e portanto eu merecia ser deserdado. Aguentaria muitas coisas, estava acostumado a aguentar momentos difíceis como uma muralha que aguenta sucessivos ataques de um exército inimigo, porém o que Lydia realmente disse me atingiu mais violentamente do que uma agressão física.

"Não vá colocar essas ideias transgressoras na cabeça do teu irmão. Não quero vocês dois dormindo juntos de novo." Ela demandou, chorosa mas autoritária. “Não ouse tocar no Diego com essas mãos sujas.”

Eu entreabri os lábios, chocado demais por alguns segundos para conseguir responder.

"Não vou me afastar do Diego porque você não gosta disso." Rebati enfim e, irritado, saí intempestivamente da sala antes que ela tivesse tempo de lançar mais alguma proibição. Fiquei furioso com a ideia dela de que eu pudesse molestar meu irmão apenas porque era gay. Era uma raiva tão grande, mas tão grande, que tive de tomar um banho gelado por mais de meia hora para que o calor ardido da ira deixasse minha pele e eu me acalmasse.

Quando voltei para o quarto e me joguei na cama, pegando qualquer coisa para ler e me distrair, Diego entrou no quarto, atraindo minha atenção pela maneira dissimulada com que vagueou pelo cômodo, com jeito de quem procura por alguma coisa, até parar e me perguntar abruptamente:

"O que há para se gostar num homem?" Diego era assim, direto, na maioria das vezes. Pelo menos comigo era, porque com os outros, pelo que eu ouvira dizer, se tornara bastante fechado, principalmente com colegas de escola. Algumas meninas mais assanhadas já se interessavam por ele, o que era incrível, pois ele e elas tinham apenas dez anos, mas por isso, depois de chamá-lo para a cama – tranquilizando-me por ele vir como sempre, sem nenhum receio – rebati:

"Não dá para explicar esse tipo de coisa, irmãozinho. É o mesmo se eu te perguntar o que há para se gostar numa menina. O que você responderia para me convencer?" Perguntei, até mesmo interessado em saber se ele já vinha colocando o olho nas colegas.

Diego não soube me responder, apenas deu de ombros e se acomodou nos meus braços, aceitando de bom grado o carinho que eu lhe fazia na testa.

"Posso dormir com você?" Ele perguntou ainda que soubesse a resposta. Eram poucos os dias em que não dormíamos juntos. Eu me lembrei das palavras da Lydia, mas não me importei. Ela não sabia lidar com Diego quando ele se revoltava, e ele com certeza se revoltaria caso soubesse da proibição da mãe, e não a aceitaria, assim como eu não aceitava.

"Claro que pode, cabeção." O beijei no pescoço e fui desligar a luz, deixando apenas o abajur ligado porque ainda precisava estudar para uma prova no dia seguinte. Fiquei sentado na cama, apoiado nos travesseiros enquanto Diego dormia abraçado à minha cintura, descansando a cabeça em minha barriga.

Já me sentia melhor pela aceitação fácil do Diego, mas as palavras de Lydia – e eu somente conseguiria chamá-la pelo nome a partir de então – ainda me atormentariam inúmeras vezes ao longo dos próximos anos.

XxX

“Você não cansa desses treinos de judô? Não tem porque se dedicar tanto se nem ao menos quer se profissionalizar...” Afonso falou estafado, quando disse que teria treino mais tarde e por isso não poderíamos sair. Éramos bem discretos, tanto que ninguém desconfiava da nossa relação, e eu não havia contado nada à Lydia.

Ela havia dito, há alguns meses, que me amava e que isso não iria mudar, depois de longos meses de um silêncio frio e rancoroso entre nós dois. Se eu contasse que estava namorando um garoto há dois anos, ela talvez tivesse outro ataque, eu não tinha como ter certeza. Como eu acreditava que minha relação com Afonso acabaria tão logo nos formássemos na escola, e faltavam apenas alguns meses para isso, achava melhor nem contar.

Afonso viajaria depois de formado para a Alemanha, em busca do sonho de cursar a faculdade na cidade natal de seus avôs. Ele, assim como eu, não parecia desolado com a ideia de nos separarmos, apesar de parecer triste em alguns momentos. Mas no fundo nós dois sabíamos que nosso romance poderia se encaixar naqueles que acontecem no ensino médio, e se desfalecem quando essa época acaba.

“É que o Diego...”

Estava para dizer que meu irmão se dedicava ao judô mais do que eu jamais imaginaria quando o levei pela primeira vez ao ginásio. Ele havia se apaixonado com tamanha intensidade, que era maravilhoso vê-lo treinar. Uma energia vibrante parecia explodir de cada um de seus movimentos, e lutar contra ele, mesmo que estivesse com apenas doze anos, já era bem mais difícil. E eu adorava, adorava cada um dos minutos, dos golpes, das vezes em que caíamos no chão e lutávamos por controle, tentando dominar um ao outro. Eu adorava ver aquela paixão nos olhos de Diego, e era isso que me mantinha treinando mais do que eu o faria, não fosse por meu irmão.

Porém não terminei a frase, pois recebi uma ligação. Meu coração deu um salto e eu me despedi apressado do Afonso, pegando um táxi e seguindo para a casa do filho da puta do namorado da Fernanda. Nunca tínhamos como saber onde ela estava, havia vezes em que ela sumia por dias, até meses. Só nos mandava mensagens dizendo que estava bem e que não a procurassem, até reaparecer em casa algum dia, geralmente buscando por dinheiro. Quando ela me ligava, era sempre terrível ir ao encontro dela e achá-la das mais variadas formas. Não adiantava o quanto brigássemos, o quanto ela prometesse que nunca mais faria aquilo, ou o quanto implorasse que não contasse nada à Lydia, ela sempre repetia, sempre se entregava, e eu sentia vontade de esganá-la, depois prendê-la em casa, para parar de me sentir inútil, impotente, incapaz de arrancá-la daquele vício.

A encontrei na frente do apartamento do Wallace. Estava pálida, tremendo, e me agarrou pelas golas da roupa assim que eu saía do táxi.

“Preciso de dinheiro, Dimitri.” Disse de imediato, num tom descontrolado. Suava frio e estremecia, os olhos inchados e vermelhos. “Meu dinheiro acabou, e do Wallace também. Ele mandou eu me deitar com o Felipe, porque ele aí libera fácil a droga; eu não quero, mas eu preciso do dinheiro. Eu sei que você tem um monte, por favor, me ajuda.”

“Fernanda, você precisa de ajuda...” Murmurei, desolado, sentindo um aperto monstruoso no peito e uma vontade de chorar que segurei. Fernanda era mais baixa, e como seria linda não fosse por aquelas drogas a arrebentando. “Mas não desse tipo de ajuda. Você precisa ir numa clínica, precisa de reabilitação. Eu sei que esse não é o futuro que você quer... Você me disse isso antes.”

Fernanda começara com maconha e álcool, mas depois de cinco anos, seus problemas já eram bem mais sérios. Nos últimos dois anos se tornara incontrolável, e mesmo que às vezes a prendêssemos em casa, não déssemos dinheiro – ela havia gastado todo o dinheiro próprio no último ano –, ela dava um jeito de fugir, se drogar, repetir todo o ciclo. Tinha ‘amigos’ que a ajudavam com isso, apesar de aquele namorado desgraçado e os outros não poderem ser chamados realmente de amigos. Eram pragas que a impediam de melhorar, de lutar.

“Isso foi antes, Dimitri! Mas que merda, para de dificultar! Vá cuidar do Diego e não me amole. Eu só estou pedindo por um pouco de dinheiro, é tão difícil assim de abrir mão de uns trocados? Sou sua irmã, então me ajude!” Berrou, me empurrando agressiva, e levou as mãos aos cabelos desarrumados. “Eu ‘tô sentindo que vou enlouquecer, Dimitri. Por favor, me ajuda, me ajuda, me ajuda, me ajuda...” Continuou a repetir feito louca, andando de um lado para o outro. “Eu não quero me deitar com o Felipe, mas eu preciso, preciso...”

“Vamos.” Eu a segurei e a arrastei comigo para dentro do táxi. O taxista ficou assustado com o ataque da Fernanda, se debatendo e gritando e me enchendo de pragas e xingamentos, mas a levei até em casa à marra. Mais do que nunca eu agradecia por parecer mais velho, e ela ser bem menor do que eu, estar bem fraca e sem forças.

Sem saber o que fazer, a tranquei no quarto depois de forçá-la a tomar alguns remédios para dormir que eu havia conseguido clandestinamente com um conhecido do Afonso. Eu sabia que ela iria me odiar por isso, que guardaria mágoa, mas eu não sabia como agir nesses momentos. Eu ficava nervoso, triste, atrapalhado, me sentia mais pivete do que era e desejava ter uma fórmula mágica para resolver aquele problema.

Mas eu não tinha e, nas várias dias e noites Fernanda sumia, deixando a todos com o coração na mão, sendo que às vezes era a polícia que a trazia de volta, quando não era ela que ligava chorando e pedindo por ajuda ou dinheiro, eu me sentia um irmão miserável. Dessa vez fui eu quem não aguentei. Fui para meu quarto e me sentei na cama.

Quando dei por mim, estava chorando abafado.

“Dimitri?”

Me sobressaltei ao escutar a voz do Diego. Ele havia ido para a casa de uma amiga, Jady, para fazer um trabalho de escola depois da aula. Ele tinha aula somente até meio dia, já eu tinha alguns dias em que ia até mais tarde. Esse era um deles, e eu achava que o veria apenas no treino de judô, que seria dali a duas horas apenas.

“Você está chorando?” Ele perguntou baixinho, e se aproximou enquanto eu limpava rapidamente as lágrimas. Não queria preocupá-lo também, já não bastava todas as vezes em que ele havia levado coices da Fernanda, e depois chorado no meu colo quando ficava sabendo sobre o que acontecia com a irmã. Diego amava Fernanda, mesmo que não soubesse demonstrar na frente dela, assim como ela também não deixava mais ninguém se aproximar.

“Você quer colo?” Diego perguntou num sussurro, tocando minha bochecha para limpar uma lágrima. Isso me arrancou uma risada. Ele era um garoto pouco precoce — garotos na idade dele já começavam a ficar bobos em relação a garotas, ou menos carinhosos, ou fofos, deixando a infância para trás, mas ele ainda era o mesmo garotinho adorável que eu conhecia tão bem.

“Quero.” Admiti e o puxei para mim, abraçando-o quando ele parou em pé, entre minhas pernas. Sentado, eu conseguia descansar minha cabeça em seu peito magro, como se fosse mais baixo que ele. Diego acariciou meus cabelos com ambas as mãos, até perguntar.

“É por causa da Fernanda...?” Murmurou, como se esse fosse um assunto proibido. Eu suspirei e ergui o rosto, e ele descansou a testa na minha. Era outra coisa que eu adorava, e que me fazia sentir melhor. Era como se através desse gesto estivéssemos abertos um para o outro, sem defesas, sem ver os problemas ao nosso redor, ver apenas – no meu caso – os olhos claros e lindos do meu irmão, enquanto ele mirava minhas esferas negras. Ali tínhamos um mundo próprio, só nosso, repleto de confiança cega e carinho, e só isso parecia me salvar.¹

Mas isso também seria minha perdição.

“Sim, é por causa da Fernanda.” Murmurei, sentindo-me terrivelmente cansado, e abracei Diego com mais força. Quando o fiz, ele soltou um gemidinho baixo, talvez de dor pela força que eu usei sem perceber, mas o som que saiu de seus lábios rosados, enquanto ainda me olhava, eriçou os pelinhos da minha nuca e fez meu coração disparar enlouquecido. Na hora não entendi minha reação a algo tão simplório, me sentindo confuso, mas não consegui afastá-lo.

“Ela vai melhorar, não vai?” Diego murmurou, triste. “Eu gosto dela, mas às vezes eu a odeio e chego a desejar que ela não volte quando some por vários dias. Me sinto mal por isso, mas também sinto raiva e vontade de xingá-la por agir tão estúpida, fazendo você e a mãe chorar.” Ele admitiu e se inclinou, me abraçando para esconder o rosto em meu ombro. “Sou uma pessoa terrível...”

“Não, não é.” Repliquei, sério. “Só está assustado, assim como eu também estou assustado, com medo. É uma situação difícil... Eu queria poder afirmar que ela vai melhorar, mas... Eu não tenho certeza.”

Diego assentiu com a cabeça e se afastou indo para a janela e se escorando ali. Olhou para a rua, com um olhar distraído.

“Está nublado hoje.” Ele murmurou, olhando para o céu enegrecido. Eu mal o escutei, ainda pensava na minha reação de alguns segundos, e de como meu corpo esquentara.

XxX

Diego parecia particularmente feroz no treino daquela noite.

A chuva caía pesada e o som dela se chocando no telhado, nos vidros e molhando todas as ruas da cidade era tudo o que se escutava naquele lugar fechado. Poucas pessoas haviam comparecido ao treino por culpa da torrente de água, e por isso eu e Diego lutáramos por quase todas as horas, desde o treino mais cedo, do pessoal mais jovem, até o mais avançado.

Eu obviamente levava a vantagem, conseguindo derrubá-lo com maior frequência por meu maior porte físico. Já vinha malhando na academia desde os quinze anos, o que me garantia boa massa muscular aos dezoito. Diego tinha o corpo magro e levemente definido, de acordo com a idade. Ele se irritava fácil por isso e começava a me atacar descuidadamente, o que me levava a derrubá-lo outra vez, e o ciclo se repetia até que ele estivesse furioso.

“Não pode ficar tão brabo e perder o controle e senso crítico dessa maneira, se quiser se sair bem nas competições.” Avisei, me divertindo com sua irritação; eu só conseguia achá-lo ainda mais bonitinho dessa forma, e minha vontade era abraçá-lo ali e enchê-lo de cosquinhas até que se rendesse aos risos, deixando a carranca de lado.

Minha fala só deixou Diego mais abespinhado e ele se jogou contra mim, agarrando minha cintura e usando o impulso e peso do corpo para me derrubar. Deu certo, ele me derrubou e caiu sobre mim. Tentou me dominar no chão, mas eu inverti as posições e o prendi sob meu corpo. Prendi suas mãos contra o tatame, e depois prendi suas pernas e pés, usando os meus para imobilizá-lo.

Ele se debatia e ofegava, tentando a todo custo escapar, e eu me senti tragado por aquela visão. Ele abaixo de mim, suado e avermelhado, arfando como se gemesse fraco, desesperado, o corpo roçando no meu; seus olhos parcialmente fechados e os lábios entreabertos. Minha mente ficou em branco. Esqueci onde estávamos, o que fazíamos, poderia ter esquecido até meu nome ali, ou quem eu era. Definitivamente não pensava que eu era o irmão dele, e portanto não deveria estar sentindo meu corpo queimar a partir de um ponto inespecífico em meu peito, que nenhuma fisgada deveria surgir na boca do estômago, ou ainda mais para baixo, no lugar que endurecia contra a coxa dele esfregando-se ali.

Meus sentidos só voltaram quando Diego se cansou, rendendo-se com os olhos fechados, virando a cabeça um pouco de lado e respirando fundo, exausto. Seu quimono estava desalinhado e deixava o peito a mostra, e os cabelos loiros, de um tom meio dourado, grudavam na testa e pescoço. Eu não entendia como não havia reparado antes no quanto ele era lindo, no quanto cada um de seus traços pareciam meticulosamente desenhados na busca da perfeição.

No quanto sua boca parecia ideal para um beijo...

O que estou pensando? Me perguntei com o coração aos pulos e levantei rápido antes que alguém notasse meu estado. Fui direto para o vestiário sem dizer uma palavra, largando um Diego confuso no chão. Entrei sob uma ducha fria esperando que isso acalmasse meu corpo, mas eu tremia inteiro com as mãos apoiadas na lajota e com os olhos arregalados, procurando no nada alguma explicação para as sensações recentes que estariam, então, eternamente marcadas em minha pele, meu corpo, em toda a essência do que eu era.

A água escorria abundante pelo meu corpo quando Diego entrou no vestiário e chamou por mim. Nunca pensei que ficaria tão nervoso ao escutar a voz dele, nunca pensei que desejaria correr da pessoa com quem eu sempre mais gostava de ficar.

“Estou aqui.” Respondi baixo. Eu saí do boxe pegando a toalha e comecei a me secar rapidamente, evitando olhar para o quimono desalinhado dele, ou para o rosto corado pelo esforço do treino. Tive dificuldades para pegar minhas roupas na mochila, não conseguindo me concentrar nem mesmo nisso.

“Por que saiu correndo? Ainda tem uma meia hora até o fim da aula.” Diego disse, sentando-se no banco comprido do vestiário, olhando-me enquanto terminava de me secar. Fiquei ainda mais assustado por perceber que seu olhar – que não tinha nada de diferente do normal – estava me deixando desconfortável, quente.

“Sim, mas vamos embora, não estou me sentindo bem.” Pedi, colocando rapidamente minha cueca. Diego se levantou e começou a tirar o quimono, me causando outro solavanco no peito. Parei o que fazia para olhá-lo, com uma expressão que devia beirar a de um idiota.

“Tudo bem... Mas vou tomar um banho também.” Ele falou terminando de se despir e seguindo para o banho depois de pegar sabonete e xampu. Minha respiração estava acelerada quando sentei no banco e tapei o rosto com as mãos, ouvindo o som do chuveiro sendo ligado. Por que isso está acontecendo? Me perguntei, deixando minhas mãos escorregarem para os cabelos. As palavras da Lydia voltaram à minha mente com força redobrada, causando-me mal-estar.

Não ouse tocar no Diego com essas mãos sujas.

Me perdi em ponderações complicadas e difusas, que nada me diziam, e então senti um toque molhado em meu antebraço. Ergui o olhar, sobressaltando-me novamente. No estado que eu estava, acho que uma agulha caindo no chão poderia me causar um problema cardíaco. Diego me encarava com a testa enrugada e as sobrancelhas apertadas. Estava nu, com a toalha ao redor dos ombros e os pingos d’água escorrendo pela pele clara, e essa era a pior parte.

“O que foi?” Ele perguntou. “Está se sentindo mal?”

“Sim... Então coloque logo tuas roupas e vamos pra casa.” Demandei mais incisivo do que gostaria, levantando-me e saindo do vestiário, decidindo esperá-lo do lado de fora enquanto se vestia. Caminhei a esmo e me vi perdido, desorientado, andando por uma terra desconhecida numa escuridão completa, tropeçando em pedras e ralando os joelhos e mãos.

O que significa tudo isso?

Naquele momento fatídico, percebi que no último ano eu vinha tendo pequenas e estranhas reações quando Diego estava comigo, eram detalhes que eu preferia ignorar, que me obrigava a esquecer rápido, desconsiderando-os com veemência; porém agora tudo parecia eclodir, expandindo e se contraindo, e se expandindo de novo, mais forte, intenso como uma chama intermitente que se tenta controlar com dificuldade, causando dor.

Porque era Diego, a criança em quem até um tempo atrás eu dava banho e fazia cosquinhas para tirar-lhe o beiço, que eu protegia dos próprios pesadelos e levava para algum parque nos finais de semana para andar de bicicleta ou skate; para quem eu ensinava tudo o que sabia e treinava junto porque queria que ele fosse o melhor em tudo, de quem eu me orgulhava como um irmão babão.

Era meu irmão caçula, com carinha de anjo e personalidade inquieta.

E eu simplesmente não podia sentir nada daquilo.

Notas finais
¹ Inspirado nas palavras da Aiko, numa de suas lindíssimas reviews! *-*
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Eu ia postar só quando tivesse as duas partes da narração do Dimitri prontas, mas eu travei de novo, e sabe deus quando conseguirei escrever... Então, resolvi dividir, até porque senão o cap. ficaria muito grande (mais de dez mil palavras). Próximo cap. veremos o verdadeiro tormento pelo qual o Dimitri passou a partir do momento em que percebeu o que sentia pelo Diego, desse ponto, até o momento atual da história! ;D Espero que tenham gostado dessa narrativa dele, hehehe! Beijão, galera linda!
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Achei uma foto que poderia ser perfeitamente o Diego quando baby: http://farm4.staticflickr.com/3834/9086574589_e29c013c0c.jpg (ai, que graça) *.* Vou montar uma galeria com fotinhos dos personagens, pro próximo cap. já tem! ;)