A Cor Da Chuva

13 Capítulo 12


Uma risada me escapou pelo nariz quando Viktor caiu do skate. Eu havia prometido que não iria rir, mas era difícil manter a promessa quando ele fazia todo um teatro para se equilibrar em cima daquilo ali, e ainda caía por qualquer coisa.

“Cala a boca, Diego.” Ele disse, mesmo que eu não houvesse falado nada, e ergueu-se do chão de cimento daquela parte do parque, onde justamente havia pistas para skates, bicicletas e patins. Eu ergui as mãos para o alto, sentado com as pernas cruzadas na grama próxima, e ri mais um pouco, disfarçadamente, enquanto Viktor se concentrava em subir novamente no skate.

Era sábado de manhã, e quase cinco meses já haviam se passado desde o final de semana mais bizarro e intenso da minha vida, se é que esses seriam o melhor dos adjetivos.

Desde a conversa que eu e Viktor tivemos, nós começamos a interagir de uma forma diferente. Era algo mais próximo do que antes, conversávamos mais, ríamos juntos em alguns momentos. Suas mãos geralmente não resistiam e me tocavam em algum carinho inconsciente quando estávamos juntos – Viktor era ainda mais carente do que eu imaginava, mas eu já me percebia acostumado com aquilo, e também acostumei-me a afagar seus cabelos quando estava distraído.

Nós nos beijávamos algumas vezes, e ele já havia dormido lá em casa muitas noites; porém eu nem precisava mentir para minha mãe ao chamá-lo apenas de amigo. Ainda que nossa amizade fosse peculiar, nós não transávamos. Viktor havia tentado, mas... Algo estava errado com o meu corpo e eu até começara a visitar o psiquiatra. A conclusão dele, depois de uns três meses e várias sessões onde eu tive de encontrar muita coragem para contar – em parte, e com algumas alterações – o que tinha acontecido comigo, não fora das mais agradáveis para um adolescente de dezessete anos.

“Eu desisto.” Viktor se lamentou e começou a caminhar em minha direção, caindo em seguida ao meu lado, de costas na grama. “Sempre gostei mais de roller. Quando eu era novo-”

“Porque agora você é muito velho...” Murmurei.

“Eu já estou com vinte anos.” Viktor reclamou, de olhos fechados, fugindo de uma nesga de sol que ultrapassava a copa das árvores sob as quais nos acomodávamos. “Você ainda continua um pivete de dezessete.”

“Mas faço aniversário daqui uns dois meses.” Falei. Eu nunca havia gostado da data do meu aniversário, era em fevereiro, e quando mais novo isso era realmente chato. Todos estavam de férias, e eu nunca podia fazer uma festa de aniversário, pois elas quase sempre ficavam às moscas. Hoje em dia, eu já não me importava tanto.

Como a avó do Viktor não se preocupava em lembrar do aniversário dele, em setembro, eu havia preparado algo surpresa para ele, e comprei-lhe um livro que ele comentou querer ler. Viktor era apaixonado por leitura, e chorou tanto ao deparar-se com a surpresa que achei ter feito algo errado, mas ele apenas nunca havia comemorado o aniversário antes. Aquela fora sua primeira vez, e eu acabei quase tão emocionado quanto ele, e a criança que pareceu renascer em seus olhos sardentos naquele dia.

“Isso é só ano que vem.” Viktor me espiou com apenas um olho aberto, e seus dedos já acariciavam meu pulso, numa carícia desatenta. “Acho que você combina bem com o teu signo.”

“Eu nem sei as características do meu signo. Nunca me interessei por isso.” Dei de ombros, me deitando também e não me importando em envolver a mão do ruivo com a minha, mesmo que estivéssemos em um lugar público. Era cedo ainda, e havia poucas pessoas no parque, e menos ainda naquela área de esportes. Éramos apenas nós e a natureza, agora.

“Aquarianos têm uma personalidade forte e atraente.” Viktor murmurou, com um ar preguiçoso. “São humanos, sinceros, refinados e idealistas, mas também imprevisíveis e gostam de contrariar. Não gostam de promessas vazias, ou de se sentirem solitários.” Ele girou e ficou parcialmente sobre mim, apoiando os cotovelos na grama, acima de meus ombros.

Olhei para suas íris e o abracei reflexamente pela cintura. Talvez fosse culpa da proximidade, de como eu o havia conhecido melhor e passado a gostar mais dele, mas se antes eu já achava o Viktor bonito, agora eu o achava lindo. Porém até isso parecia ter um conceito diferente. Era como olhar para uma criança de três anos, daquelas que aparecem em propaganda, e achá-la adorável.

“Também não gosto de me sentir solitário.” Ele admitiu e acariciou minhas bochechas, enquanto eu roçava os dedos em sua cintura.

“Ninguém gosta. Ou quase ninguém, há os que têm fobia social, ou são mesmo muito anti-sociais.” Falei, sem pensar. Depois me arrependi um pouco, porque, outra coisa que eu descobri era que o Viktor não tinha amigos. Ele tinha sérias dificuldades para se relacionar com outras pessoas, por mais que conseguisse interagir com algumas socialmente, estilo ‘conversa de bar’, não havia ninguém com quem ele tivesse um vínculo forte.

Além de mim.

“É, mas talvez no fundo essas só se sintam incompreendidas e tenham medo de se machucar e serem abandonas caso deixem alguém se aproximar.” Viktor fez uma careta, suspirando, e me deu um selinho rápido antes de descansar a cabeça no meu peito.

Eu percebia que eu não fugia muito disso também.

Eu tinha a Jady de amiga, apenas. Depois que meu pai morreu, eu evitei qualquer tipo de amizade com meus colegas de escola. Aos poucos eu melhorei, mas deixei poucas pessoas entrarem na minha vida, mesmo que eu tivesse um grupo de ‘amigos’, apenas a Jady era verdadeiramente próxima. Eu havia contado a ela sobre minha bissexualidade, e ela aceitara bem, mas brigara comigo por ter demorado tanto a contar.

Mas acima de tudo isso, eu tinha o Dimitri. Talvez por isso eu nunca houvesse me importado em criar laços fortes com mais ninguém. Eu tinha meu irmão, meu ídolo, meu amor – ainda que esse conceito de amor já não pudesse mais ser definido em um simples adjetivo. Fraternal? Amigo? Amoroso? Uma mistura de todos os conceitos que gerava um firmamento sem bordas, limites ou divisões? Céus, eu apenas sabia que doía como uma tortura da pior das ditaduras ter passado aqueles cinco meses distante dele.

Ele não me procurara, eu não tive a coragem de procurá-lo, e me perguntava se sofria tanto quanto eu. Até Lydia questionara quanto a nosso afastamento, farejando algo de muito errado, mas eu fugia do assunto. Seria parte do meu signo fugir quando as coisas se tornavam difíceis?

Fernanda era a única que entendia. Ela vinha ao meu quarto algumas noites, e ficávamos até tarde conversando. Eu sentia que começava a conhecê-la de uma maneira nova também. Ela tinha toda uma vida e todo um lado seu que eu desconhecia por completo, e até mesmo saber e entender sobre seus momentos difíceis envolvida com o vício em cocaína parecia importante, pois aquilo fora parte dela e jamais seria apagado por completo. Eu gostava de nossas ‘sessões noturnas’, pois ali, na penumbra do quarto, esticado na cama enquanto ela deitava a cabeça em minha barriga, formando um T com nossos corpos, eu podia discorrer sobre Dimitri por horas, falar de todos os momentos de que me lembrava, ressaltar cada um dos detalhes que me faziam amá-lo; porque a Fernanda também queria conhecê-lo sob uma nova ótica.

Eu não perguntava se ela o visitava, ou se ele aparecia ali em casa quando eu não estava. Tinha medo de perguntar, e talvez sentisse ciúmes se as respostas fossem positivas.

Eu e Viktor ficamos em silêncio por alguns instantes, sentindo a brisa sobre nós e ouvindo os barulhos calmos das árvores e dos pássaros. Os dias vinham sendo assim, bonitos, ensolarados, e aquela primavera enchera o parque de flores. Eu preferia assim, pois nas vezes que chovera naqueles meses, eu senti um vazio emocional que me levava a chorar escondido no meu quarto. O número do Dimitri estava entre os poucos contatos que eu tinha em meu celular novo, e eu ficava incontáveis minutos olhando para a tela, esperando meu dedo mover-se sozinho e apertar o botão ‘discar’.

“Você acha que eu vou conseguir andar de skate algum dia?” Viktor perguntou, de repente.

“Você tentou apenas hoje, e só por alguns minutos!” Eu ri e baguncei seus cabelos. “Não seja apressado.”

“Eu demorei a conseguir lutar mais ou menos bem no judô.” Viktor resmungou, como se já previsse demorar tempo demais para conseguir equilibrar-se no skate. “Só persisti porque tinha você como inspiração.”

“Posso ser tua inspiração no skate também.” Apertei sua bochecha com um beliscão. “Você tem cara de skatista.”

“Você não tem.” Viktor ergueu o rosto e sorriu traquinas. “Não tem cara de menino que apronta, aliás, tem muito cara de anjinho que não combina com esportes perigosos.”

“Skate não é um esporte perigoso.” Revirei os olhos. “E, pelo amor de deus, nem minha mãe diz mais que tenho cara de anjinho.”

“Um anjinho de asas quebradas...” Viktor sussurrou e aproximou o rosto. Fechei os olhos apenas quando já era possível ver nitidamente as sardas claras e pequenas que tinha sobre o nariz, invisíveis à distância. Senti seus lábios roçarem nos meus, antes de tê-los pressionados contra minha boca. A língua dele tinha gosto de canela, seu chiclete favorito, que combinava com a maneira lenta e carinhosa com que nossas línguas se tocavam.

Antes, ele costumava se animar e tentar aprofundar o beijo, querer deixar as mãos tatearem meu corpo e me apertarem buscando algum retorno em sua excitação. Mas depois das tantas vezes em que eu havia me retraído e fugido, desconfortável, ele havia entendido que aquilo era o máximo que eu poderia lhe dar, e se afastava pouco depois. Eu agradecia por não reclamar, ou tentar ultrapassar aqueles limites que eu inconscientemente havia criado.

Não tardou e nossos lábios se separaram. Ele sorriu para mim, e eu percebi naquele sorriso que o amava. Que amava a maneira com que era carinhoso, até mesmo grudento, como às vezes se perdia em expressões tristes, e como tentava disfarçá-las rapidamente quando percebia que alguém estava olhando. Amava a cor de seus cabelos, e adorava os olhos sardentos. Amava sua maneira de coçar o nariz, e resolver contas matemáticas absurdas em menos de três segundos. Gostava até da forma como chorava com toda a sinceridade do mundo, e como era irritante e enxerido muitas vezes. Que poderia amá-lo, ficar com ele para sempre, aguentar suas crises e me esforçar para tratar suas feridas.

Se meu coração não estivesse tomado por três únicas sílabas. Di-mi-tri. A língua subia e descia e então finalizava o som forte contra os dentes; as três sílabas se dissolviam na saliva como uma colherada de mel, açúcar ou chocolate preto, meio amargo, e, sempre que eu as pronunciava, lentamente, podia sentir numa lembrança nítida o perfume natural que ele tinha, logo depois de sair do banho, ou a colônia que colocava quando se arrumava.

XxX

“Então, já sabe o que irá fazer da vida ano que vem?” Viktor perguntou, enquanto passeávamos pelo parque. Eu andava com o skate, avançando devagar, e ele me seguia bem ao lado. Minha barriga já roncava, mesmo que fosse ainda onze horas eu cogitava os lugares onde poderíamos almoçar.

“Treinar judô. Decidi que não vou fazer faculdade tão cedo, mesmo que minha mãe queira isso. Eu não vou gastar quatro anos ou mais da minha vida em algo que nem tenho certeza.” Eu dava graças a deus por, apesar de tudo, ter voltado aos poucos a conseguir me concentrar nos treinos. Meu treinador tentou, mas não conseguiu esconder o alívio que sentiu, ou a satisfação exagerada. Eu havia ganhado dois campeonatos pequenos desde então, e ano que vem ainda havia o pan-americano e, então, o sonho da olimpíada.

“Você ainda tem muitos anos de judô pela frente.” Viktor concordou. “Fazer faculdade agora iria tomar muito do teu tempo... Talvez fosse legal fazer algum curso, de algum hobbie.” Ponderou, quando começamos a atravessar uma pequena ponte sobre o lago que cortava o parque. “Você consegue me imaginar como professor?”

“Não mesmo.” Soltei uma risadinha. “Você se irritaria com os alunos e atiraria giz e apagador neles no meio da aula, ou canivetes, quem sabe.” Falei, e Viktor se ofendeu e me empurrou pelo ombro. Não fora forte, mas o suficiente para me desequilibrar e...

Cair da ponte direto na água.

“Ah, minha nossa! Diego,” Viktor se aproximou, preocupado, mas quando eu emergi sentando-me no lago raso, ele explodiu em gargalhadas. “Foi mal! É sério!”

Joguei água nele e, quando ele esticou o braço para me ajudar a sair dali, fiz a clássica troca de lugares, jogando-o lá dentro enquanto usava o contrapeso para sair. Ele ficou irritado e me xingou de todos os palavrões de sua lista. Alguns eu nem mesmo conhecia.

"Boca suja." Comentei.

“Espera...” Viktor disse, saindo sozinho da água. “Eu li em algum lugar que a água desse lago é contaminada com alguns protozoários que infectam o ser humano...” Me olhou com os olhos arregalados, e nós dois soltamos exclamações de nojo depois de a informação tomar sentido. Era só o que faltava acabarmos doentes por culpa daquilo.

“Acho melhor corrermos até o chuveiro mais próximo.” Eu falei e Viktor rapidamente concordou, ficando pálido. Talvez tivesse um medo mortal de ficar doente. Balancei a cabeça para aquilo, com um suspiro, mas segurei meu skate e a mão dele, e corremos para fora do parque, acabando em minha casa.

XxX

Fora estranho ir a um psiquiatra, mas eu sentira que precisava desabafar, mesmo que Dimitri houvesse se transformado em um amigo de infância, de nome Carlo (um nome comum, mas não tão comum), e não meu irmão. Tinha medo de que, se falasse em incesto, o homem corresse para contar tudo à minha mãe. Porém até agora ele havia mantido o sigilo que eu exigira (e pelo qual eu pagava caro com meu próprio dinheiro), mesmo depois de eu relatar que havia sido drogado e quase estuprado por um desconhecido, e então transado com meu ‘amigo de infância’ sem estar plenamente consciente do que fazia.

“Muito bem, Diego.” Ele havia dito numa das consultas, com um ar profissional. “Seu corpo deve estar rejeitando toques mais íntimos por causa do trauma que você sofreu. Você passou por uma situação péssima, ouviu palavras de humilhação enquanto era quase estuprado, e ainda estava drogado, algo que violava ainda mais seu corpo e vontades. E depois passou por uma experiência incrivelmente destoante ao transar com o melhor amigo, homem, por quem nutria muito afeto, mas com quem não se imaginava tendo relações desse tipo. Isso não é algo que se apague fácil. Por mais que na superfície você ache que está tudo bem, seu inconsciente guarda essas lembranças, as sensações que você teve naquela noite; a sensação de perda do controle, do abuso, e às vezes essas memórias se agarram com aferroadas profundas na pessoa. Recuperar-se disso é um processo lento. Por mais que você consiga se tocar,” Eu corei e abaixei o rosto quando ele comentou isso. Eu havia relatado tudo que acontecia quanto ao meu corpo, e fiquei aliviado por ele manter-se profissional quanto a isso. “Quando está com outra pessoa, num momento de intimidade, seu corpo e subconsciente lembram-se dos momentos de violação e perda de controle e se recusam a deixar que alguém te toque novamente, rejeita o contato que antes te machucou e confundiu.” Ele parou por um momento, analisando-me. “Em parte, você também parece se culpar e atormentar por ter desenvolvido outros sentimentos por seu amigo Carlo, e essa confusão e culpa também podem estar te travando para se deixar envolver fisicamente por outra pessoa.”

“Diego?” Viktor chamou.

Estava nu à minha frente, nós dois sob a água quente do chuveiro. Um almoço nos esperava lá embaixo; minha mãe estava viajando, mas Fernanda estava em casa e havia cozinhado algo que me dava medo de comer, já que ela vinha aprendendo a usar panelas havia poucas semanas com a Isabel. Mas Isabel estava tirando o dia de folga, e restava Fernanda para nos alimentar.

“Hum?”

“Você ficou com um ar meio ausente.” Explicou, enquanto ensaboava os cabelos volumosos, criando um capacete de espuma na cabeça. “Achei que-“

“Tente me tocar.” Pedi, numa decisão súbita. Aquela explicação me fazia refletir. Meu corpo havia rejeitado Dimitri depois que ele confessara tudo que sentia, mas e minha mente? Os dois eram entes separados, ou tudo era conectado a ponto de tornar-se um só? Eu me sentia egoísta, mantendo-me longe de meu irmão, depois de tudo que ele dissera.

Eu sei que sou errado, Diego.

Por todas as leis da física, isso me doía. Queria dizer com convicção que não era, não éramos errados, queria encostar minha testa na dele e me manter despido a seu olhar, ao afirmar que não importava. Mas tinha medo, e tinha medo de voltar lá para que meu corpo o rejeitasse outra vez. Tinha medo de encontrá-lo e fraquejar, mentir, me justificar como havia feito quando a Fernanda nos flagrou, e isso apenas o machucaria mais.

Mas, Dimitri, você não é errado.

Não pode ser. Simplesmente não.

Viktor parou, piscando algumas vezes, nitidamente pego de surpresa pelo pedido. Me achei estúpido por pedir aquilo, eu estava usando o Viktor. Desde o início eu só o usava – usei para confirmar minha bissexualidade, para me ajudar a distrair daquele final de semana, para curar minhas feridas, e agora para testar se eu conseguiria ir além sem suar frio e sentir-me agoniado e nauseado.

“Não, esquece, eu-“

“Eu posso fazer isso!” Viktor disse e se aproximou, deixando a água lavar o xampu de seus cabelos. “Se for para fazer você se sentir bem...” Seu hálito bateu em meu rosto e eu me apoiei na lajota fria, experimentando um arrepio. Senti suas mãos em meu corpo e fechei os olhos, concentrando-me. Ele arranhou meu abdômen e encostou os lábios em meu peito, capturando as gotas de água que escorriam por ali, mas quando sua mão desceu para abaixo do meu umbigo, eu ofeguei e travei, sentindo uma espécie de pânico me tomar. Infernos, era apenas o Viktor, em quem eu confiava, gostava, mas num reflexo segurei sua mão e impedi que me tocasse mais íntimo.

“Não posso. Desculpe.” Murmurei, triste. Me senti destruído, quebrado, e com ganas de socar a parede. Viktor abaixou o rosto, afastando-se um passo. Eu conseguia tomar banho com ele, mas não conseguia nem vê-lo com alguma real malícia, quiçá tocá-lo e deixar-me tocar.

“Não se desculpe. Eu sei que aconteceu naquela noite algo que você ainda não quis me contar, que mexeu com você. Isso é mais do que óbvio, Diego, e por mais que eu sinta falta do sexo, eu já fico feliz de poder estar com você, mesmo que seja... Dessa forma meio estranha de amizade.” Ergueu o rosto e sorriu, mas era uma mistura de um sorriso verdadeiro, e um forçado, que se molhava com água quente. “Acredite, você está mesmo me salvando.” Tocou meu rosto e, no lugar de beijar minha boca, beijou meu nariz e voltou a tomar banho, normalmente.

Mas que porra! Transei com meu irmão!

É alguém assim que você quer que te salve?!

Era o que teria gritado até um tempo atrás, mas a culpa parecia estar dissipando-se com o tempo, igual à bruma que enchia o banheiro e sumia quando se abria a janela. No fundo, já não sabia mais como pensar, e ficava ali, deixando o tempo passar de uma forma lenta, dolorosa e medrosa...

XxX

Passei o dia com o Viktor, jogando vídeo-game e vendo filme. O dia mudou depois do meio-dia, tornando-se nublado, então não saímos e ainda tivemos a Fernanda para se juntar a nós no quarto onde criamos uma espécie de sala de cinema com almofadas.

“E você termina os estudos daqui uns meses e depois vai tentar faculdade de quê?” Viktor a enchia de perguntas. Até aí, nenhuma novidade.

“De administração e alguns cursos de decoração. Vou continuar na carreira da mãe. Tinha pensado em enfermagem antes, queria trabalhar em clínicas de reabilitação, mas acho que não seria forte o suficiente para isso.” Fê comentou. Tinha essa ideia agora na cabeça, e começara a trabalhar mesmo numa das lojas de decoração da mãe.

Lydia tinha três lojas, mas não trabalhava, ou parava em nenhuma, apenas administrava, enquanto fazia trabalhos para eventos e casas de gente mais rica que a gente. Nós vivíamos bastante humildes, considerando o dinheiro que tínhamos no banco.

“E você nunca mais se drogou desde que saiu da clínica?”

“Porra, Viktor.” Repreendi. Aquela boca grande dele não tinha limites.

“Desculpe.” Viktor pediu, enquanto Fernanda ria. Ela ficara mesmo melhor depois de começar a trabalhar, sentia-se útil, havia dito, ganhando a própria grana depois de torrar toda sua herança em cocaína e sabia deus mais o quê.

Depois de dois anos internada numa clínica, e mais dois anos de rebeldia e inércia — mesmo que longe das drogas — , ela estava enfim vencendo o passado e tocando a vida pra frente. Eu sentia um orgulho e felicidade sem igual de sua superação. Vinha sendo incrível descobrir ao poucos como era bom ter uma irmã.

"Não tem problemas. Não... Faz quatro anos que não coloco nenhuma espécie de droga no meu sistema." Nanda disse, com um ar orgulhoso de si própria, e tinha razão em sentir-se assim.

Meu quarto pareceu terrivelmente vazio depois que eles saíram; Viktor voltando para casa, pois disse precisar estudar para a última prova da faculdade, e Fernanda indo cuidar da própria vida em seu quarto. Eu não acreditava que iria passar um sábado à noite sozinho em casa, mas também não encontrei ânimo para sair, nem quando recebi um convite de alguns colegas que queriam comemorar que o ensino médio chegara ao final.

Minha formatura seria dali cinco dias.

E eu peguei meu celular e digitei uma mensagem, enviando-a antes que desistisse.

Você realmente esperou, e nesses cinco meses eu não te liguei nenhuma vez. Hoje eu tentei, mas ainda não tive coragem, só que eu estou sentindo a sua falta. Muito.

Meu coração era uma orquestra de estrondos, como trovões cardíacos, enquanto eu esperava uma replicata. E quando o apito de mensagem atingiu meus ouvidos, eu me sobressaltei e minha mão trêmula deixou meu celular cair na cama. Girei, ficando de bruços, e li a mensagem.

Mesmo que doa, eu vou esperar pelo tempo que for necessário, se eu tiver a menor das chances. Também sinto muito a sua falta, Diego. Eu estaria aí num piscar de olhos, se você pedisse, mas também tenho medo que não seja isso que você quer. Você não imagina o quanto essa mensagem me aliviou, cheguei a pensar que nem mesmo irmãos poderíamos continuar a ser.

Eu ia digitar a resposta, mas outra dele apitou antes disso, duas seguidas.

Eu te amo.

Me dê uma dica do que fazer. Qualquer uma.

Se minhas mãos já tremiam, agora elas rivalizavam com as cordas de um instrumento musical que vibram profundamente quando atingem seus acordes mais graves, e eu já sentia as lágrimas queimando meus olhos e chegando salgadas em minha boca. Amargas, amargas, salgadas, como o sentimento de solidão. De proibição. Eu não aguentava mais pensar naquele tabu. Foda-se todos os tabus. Foda-se. Foda-se. Eu queria internalizar aquilo e ignorar o preconceito, como eu havia ignorado o preconceito contra homossexuais desde sempre.

Vá na minha formatura, lá a gente conversa...

Enviei, e depois rapidamente complementei:

Eu também te amo, Dimitri.

Dimitri. Minha razão de ser, de agir, de tomar escolhas. Minha razão de manter-me forte, de tentar ser melhor, de viver e, possivelmente, morrer. Dimitri. Dimitri. Di-mi-tri.

Notas finais
AÊ! Agora ninguém pode reclamar, né? Nem demorei!
Próximo capítulo é narrado pelo Dimitri, o que acham? *.*
E vocês devem estar putas com o Diego por ele ter deixado passar todo esse tempo, e ainda ter ficado envolvido com o Viktor, mas era algo que a mente conturbada dele precisava, espero que no fundo o entendam. ;x
Beijos, obrigada a todos os chuchus que comentaram no capítulo passado, e até o próximo! (A história tem possivelmente mais uns três capítulos!). Beijão!