A Consciência de Ricky Prosper
14 Prosper
Notas iniciais
Effy deve ter notado minhas mãos tremendo ao volante. Meu rosto ardendo em vermelho. Minha respiração acelerada. Ela tem que ter notado. Dizer em voz alta o quanto gosto dela está me causando uma reação física com mesma proporção de um choque. Estou elétrico. Crispo os lábios com força, temendo que meu coração escape por eles se eu disser mais alguma coisa.
– Então... — Effy quebra o silêncio incômodo. — Como são seus tios?
Olho de esguelha para ela. Está remexendo as mãos sobre o colo. Está nervosa. Será que foi aquilo que eu disse?
– Ah, eles são bem normais, são gêmeos. Me acolheram após a morte de meus pais.
Não tenho memória alguma de meus pais e, não fosse pelos poucos retratos que meus tios têm deles, eu nunca conheceria seus rostos. Minha mãe era extraordinariamente bela e meu pai era forte e imponente. Havia algo a mais na postura deles e no modo como se posicionavam um ao lado do outro nas fotos. Algo nobre.
– Sinto muito — diz Effy, olhando para mim. — Também perdi meus pais.
Olho para ela e a vejo em choque. Effy cobre os lábios com as duas mãos, como se tivesse dito algo que não devia.
– Droga — rosna ela. — Prosper... finja que não ouviu isso.
Franzo a testa.
– Isso o quê? Que você perdeu seus pais?
Effy me encara como se eu fosse maluco, com aquele par de olhos lindos arregalados.
– Não perdi — ela sussurra. — Não perdi meus pais.
O que Effy tem de linda, tem de misteriosa e estranha.
– Tudo bem.
Moro com meus tios num sobrado à encosta das montanhas, onde poucos sinais de civilização podem ser detectados. Por algum motivo, sempre que nos mudamos, tio Don escolhe casas mais afastadas da cidade, para que tenhamos mais privacidade e conforto. Sou grato por isso.
Observo Effy admirar-se conforme a paisagem ao nosso redor muda e as familiares montanhas e pinheiros com os quais estou acostumado surgem. Ela parece encantada.
– Sua casa fica nas montanhas? — pergunta.
– Mais ou menos — dou de ombros. — Meu tio curte privacidade, sabe.
Ela assente, sem tirar os olhos da janela.
Finalmente chegamos ao sobrado de madeira de três andares que, para mim, mais parece um chalé grande. Effy desce do carro e admira tudo como se visse os pinheiros e as montanhas pela primeira vez. Acho que ela não costuma sair muito.
– É maravilhoso, Prosper — ela arqueja, tão inocente e vulnerável que mal parece a garota rabugenta que conheci semana passada. O vento sopra seus cabelos cor de rosa, expondo seu rosto delicado de porcelana.
– Obrigado — digo, posicionando-me ao seu lado. — Vamos entrar?
Ela assente.
Passamos pelo pequeno portão de madeira e subimos alguns degraus até nos depararmos com minha tia cuidando do jardim. Ela cantarola, regando as flores.
– Tia? — chamo. Effy está ao meu lado.
– Sim, Prosper? — ela olha por cima do ombro e seus olhos saltam de meus rosto para a pequena figura ao meu lado. — Oh. Olá.
– Essa é Effy. Ela é minha... amiga.
Minha tia tira uma das luvas e troca um aperto de mãos com Effy.
– É ótimo conhecer você — diz minha tia.
– Igualmente — assente Effy, sorrindo suavemente.
– Seu tio foi à cidade buscar nosso almoço, querido. Ele não deve demorar. Vai ficar e almoçar conosco, Effy?
A cor do rosto de Effy desaparece e ela morde o lábio.
– Não sei se devo... meus pais... — ela me encara, sem jeito.
– Tudo bem — assinto. — Mas deixe-me mostrar a casa para você antes que vá embora.
Effy abre um sorriso surpreendente e atravessamos a porta da frente.
Só então me dou conta de que Eco está terrivelmente quieta.
Estranhamente quieta.
Mostro à Effy nossa sala de estar, sala de TV, copa e cozinha. Ela parece mais curiosa a cada cômodo que adentramos e eu me sinto um verdadeiro guia turístico devido sua empolgação. É quase engraçada a maneira como Effy parece nunca ter visto objetos comuns como um telefone fixo, uma televisão de plasma ou um violão. A biblioteca, porém, é o lugar de que ela mais gosta.
– Uau — Effy diz, assim que entramos no santuário dos livros.
– Você gosta de ler?
– É claro — ela ri, percorrendo os olhos avidamente pelas prateleiras.
Enfio as mãos nos bolsos e a observo enquanto ela avalia cada título da enorme biblioteca de meu tio. Effy é outra pessoa agora. Não parece nada com a garota rude e odiosa que me tratou mal ou com a garota fria e distante que me pediu para nunca mais procurá-la hoje mais cedo. Essa Effy está desarmada, encantadoramente vulnerável e verdadeira. Me dou conta de que gosto mesmo dela e que quero conhecer todos os ângulos da sua personalidade. E também quero beijá-la. Quero muito.
– Eu poderia ficar aqui para sempre... — ela sussurra, roçando os dedos pelas lombadas dos livros. — Prosper, isso é um tesouro.
Sorrio, escorando-me em uma prateleira.
– Pode vir aqui sempre que quiser.
Effy olha para mim de olhos arregalados.
– Jura?
– Juro.
Ela baixa os olhos, corada.
– Sabe, Effy, você é mais legal assim.
– Assim como? — ela deixa os livros e vira-se para me encarar.
Aproximo-me dela até ficarmos a um palmo de distância um do outro.
– Aquela garota ranzinza e rude que tentou me afastar há uns dias... não é você. Você é assim, gentil, engraçada, bonita e esperta. E, bem, corajosa.
Effy pisca duas vezes e seus bochechas ficam vermelhas.
– Você me acha bonita?
Antes que eu perca a coragem, toco seu rosto com as pontas dos dedos. Effy olha diretamente para meus olhos e sua respiração fica entrecortada.
– Dane-se — ela diz, irritada. — Eu gosto de você, Prosper. Gosto mesmo. Para o inferno com todas as regras e costumes de Nobre Vida.
Mal posso respirar antes que ela puxe a gola de minha camisa, os lábios ficando a centímetros dos meus.
– Estou assustada — Effy sussurra. — Sinto um frio estranho na barriga e meu coração parece prestes a explodir, Prosper.
– Também estou assustado — confesso. Ela é a primeira garota a me fazer sentir assim. — Mas que bom que sentimos o mesmo.
Effy se afasta e suspira. Então sorri e segura minha mão.
E sei que, a partir de agora, não quero mais sair de perto dela.
Depois não diga que não avisei, sussurra Eco, surpreendendo-me.
Não direi.
Você está se metendo em problemas, Prosper. Não consegue sentir?
Ela não é um problema, Eco.
Não, Eco soa agourenta e sombria. Ela é a razão de todos os seus problemas.
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