Notas iniciais
– Por que não dá uma chance a ele? – pergunto, encarando Effy da maneira mais gentil que consigo.
Ela parece ofendida.
– Está mesmo me perguntando isso?
É realmente óbvio que o novato – e extremamente lindo – Ricky Prosper está tentando se aproximar de Effy. O que não entendo é a aversão que ela parece sentir por ele, sem nem sequer conhecer o garoto.
– Ele ofendeu você? – indago, tentando compreender. – Disse algo que deixou desconfortável?
O rosto delicado dela fechou-se numa carranca. Às vezes Effy era capaz de expressar emoções tão sérias e intensas que me deixava espantada.
– Não comece, Lola – rosna ela, sem olhar para mim. – Eu simplesmente não perderei meu tempo com aquele...
Dou uma risada alta.
– Acho que já entendi tudo – digo, sem conter um sorriso enorme. Cutuco Effy com o cotovelo. – Você está com medo.
Ela esbugalha os olhos.
– Medo? Medo de quê? Tenho certeza de que aquele esnobe mal daria conta de matar uma formiga – ela ergueu o queixo, desafiadora. – Que mal você acha que ele seria capaz de me fazer?
Sacudo a cabeça. Effy só pode ter vindo de outro planeta.
– Não acho que ele te faria algum mal, estrelinha – digo calmamente, chamando-a pelo apelido que lhe dei -, muito pelo contrário.
Effy fica pensativa, mas não diz mais nada. Resolvo não pressionar. Se ela tem medo de um provável sentimento por Ricky Prosper, não há nada que eu possa fazer a não ser tentar ajudá-la a enxergar o cara legal que ele parece ser. O cara legal que ele precisa ser. Porque é óbvio que há alguma coisa no modo como ele olha para minha melhor amiga.
A sineta toca, indicando o fim da aula. Effy e eu juntamos nossas coisas e caminhamos para fora da sala, conversando sobre a festa que as Primas Sinistras darão sábado. Que fique claro: nós as chamamos de sinistras porque elas realmente, definitivamente são sinistras. O pai da mais popular – Cay Alguma Coisa – é dono de uma companhia funerária muito bem sucedida. É, estranho demaaais. As outras duas parecem resultados de experiências em laboratório: perfeitas além do normal. Todas tão arrogantes e caprichosas quanto se pode imaginar que são.
– Eu não fui convidada – diz Effy, quando pergunto se ela pretende ir à festa.
– Bem, elas convidaram a escola inteira – dou de ombros. – Se for comigo, duvido que notem que você está lá.
Effy suspira.
– Não sei. Talvez eu vá. Só queria que você parasse de tentar entrar no mundo delas, Lola. São cretinas mimadas.
Reviro os olhos. Acontece que meu pai trabalha para o pai de uma dessas cretinas mimadas e vive me pedindo para fazer amizade com a filha do chefe. Sou consideravelmente boa em lidar com as pessoas, então para mim isso não é problema. O único empecilho é a opinião de Effy a respeito dessa “amizade”. Ela está certa de que, se eu me misturar com as Sinistras, vou acabar me tornando a Sinistra número quatro.
– Não se preocupe com isso, sei bem quem elas são.
– Há outro motivo para você querer ir a essa festa idiota? – resmunga Effy, parando diante de seu armário. – Um garoto, talvez?
Não consigo conter um sorriso. Sim, há um garoto.
O rosto de Effy se ilumina brevemente.
– Quem é, Lola? – ela sussurra, toda confidente. É a pessoa em que mais confio no mundo.
Mordisco o lábio e abro meu armário.
– Bem... você provavelmente não vai aprovar – dou risada.
– O nome dele, diga – ela exige.
– Tá, certo – respiro fundo. – Loyal quer me encontrar na festa!
Effy entra em choque e dá risada.
– Loyal? Boris Loyal? – ela mal consegue respirar. – Está brincando, não é? Por favor, diga que não está a fim daquele...
Ela para de falar quando vê que não estou brincando. Então suspira alto e olha para mim com seriedade. Não conheço ninguém mais sincera e mais, sei lá, nobre do que Effy, mesmo que eu não saiba nada sobre sua família, sobre onde ela vive ou sobre o lugar de onde ela veio. E quando ela me olha desse jeito sei que está falando sério.
– Ele... – ela sacode a cabeça, agitando os cabelos rosados, e bate a porta do armário. – Lola, ele não é para você. Sei que parece vago, mas você é uma pessoa muito boa e muito gentil para ter um bastardo como Loyal ao seu lado. Quer dizer... – Effy fica pálida. — Eu quis dizer...
Cruzo os braços.
– Você disse bastardo?
– E-eu disse...?
– Effy, não estamos mais no século dezoito. Não é legal dizer essas coisas sobre as pessoas.
– Você não entende... – ela tenta argumentar.
Uma necessidade de defender Loyal toma conta de mim. Eu não conhecia esse lado preconceituoso de minha amiga.
– Quer dizer que você acha que Loyal não é bom o suficiente para estar comigo apenas porque é filho ilegítimo de alguém? Effy, qual o problema nisso? – minha voz soa ofendida.
Effy bufa, encostando-se contra seu armário fechado.
– Você não entende – repete, zangada.
Arqueio as sobrancelhas.
– Entenderia se você me explicasse.
Effy entra em conflito consigo mesma e dá para ver pelas expressões que cruzam seu rosto.
– Lola, isso... isso é coisa minha, entende? – diz, parecendo nervosa. — É do lugar de onde vim.
É a primeira vez que ela fala sobre coisas assim. Sua família de certo é conservadora demais ou talvez exigente demais – mas isso não explicaria o cabelo cor de rosa de Effy nem a maneira irreverente como ela se veste.
– Em casa – continua ela -, as pessoas valorizam muito esses valores que aqui são vistos como arcaicos. Lá, a posição da sua família determina quem você é na sociedade. E... bem... – ela parece tímida por um segundo – se você é filho ilegítimo, perde o respeito das pessoas. É como se você fosse só metade de uma pessoa... consegue entender?
Levo alguns segundos para digerir o que ela queria dizer.
– Talvez eu entenda. Mas não concordo, Effy, não parece justo. Por que uma criança deveria pagar pelo erro dos pais?
Ela dá de ombros, zangada outra vez, e sei que não dirá mais nada. Decido colocar um fim no assunto:
– Escute – digo -, no lugar de onde você veio, seja onde for, as coisas parecem ser muito diferentes. Mas você vive aqui agora, Effy, e aqui nós não julgamos as pessoas dessa maneira. Se Loyal gosta de mim e eu gosto dele, por que não deveríamos ficar juntos?
Effy assente, sem olhar para mim. Parece que seus pensamentos estão bem distantes daqui.
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