Notas iniciais
Senti quando ele colocou os pés dentro do prédio. Como não sentiria? Ele é um Iluminado, a cria legítima daqueles guardiões idiotas. E, convenhamos, as crias legítimas são raras hoje em dia e, exatamente por isso, mais fortes. Como todos os outros Iluminados, esse é bonito e tem um magnetismo tão forte que atraiu a atenção da escola toda em menos de meia hora no prédio. Eles são sempre assim, os humanos. Amam o inalcançável.
Eu sou uma Cinzenta. Claro, pode parecer uma coisa ruim quando se compara com os Iluminados bonitinhos, mas não é tão terrível quanto ser um Sombrio. Em meu mundo, somos classificados ao nascer e de acordo com o nome das nossas famílias. Se você é de uma família rica, bem apessoada e poderosa, você é Iluminado. Se é nascido em um lar criminoso, clandestino e mal visto pelos demais, você é Sombrio. Se é um bastardo, independente de quem sejam seus pais, você é um Cinzento e deve servir aos Iluminados.
Eu sou a filha bastarda de uma Iluminada e um Sombrio. Meu pai, criminoso realmente perigoso procurado no lugar de onde vim, morreu há dois anos. Não conheci minha mãe, apenas ouvi falar dela. É rica e importante, dizem. Nunca tive a oportunidade de conhecê-la e, para ser sincera, não sei se pretendo algum dia. Após meu nascimento, fui despachada para um abrigo para crianças bastardas e a guerra entre os Iluminados e os Sombrios eclodiu. Alguns Iluminados decidiram deixar nosso mundo e refugiar-se no mundo dos humanos temporariamente. Fui entregue a uma família Iluminada como sua protegida e fugimos. Desde então vivo em meio aos humanos, fingindo ser a filha mais velha de meu protetor.
Hoje, com esse Iluminado aqui, tudo parece bagunçado, fora de ordem. Ele deve ser muito poderoso, pois a energia ao seu redor é repugnante e ao mesmo tempo atraente para mim. Uma parte minha, a parte que herdei das Sombras, o detesta. Outra, da Luz, quer estar perto dele. É confuso e frustrante, mas decidi confiar em meu lado Sombrio que diz que o garoto é encrenca. Porque ele é.
– Não vai comer nada, Effy? – pergunta minha amiga humana, Lola. Os cabelos dela me dão inveja de tão comuns e belos que são. Aquela cor, castanho, é extremamente bonita. De onde venho, as pessoas não nascem com essas tonalidades de cabelo.
– Não – respondo -, perdi o apetite.
Ela para e me observa.
– Você está irritada.
Não foi uma pergunta, percebo. Dentre os humanos, Lola é a que mais parece me entender, apesar de não saber nada sobre o que eu sou e de onde venho. A amizade dela é uma das únicas coisas humanas que realmente prezo.
– Não é nada demais. Só acho ridículo todo esse alvoroço por causa de um novato.
Lola ri.
– Ele é muito bonito, não é?
Concordo de má vontade.
– As pessoas vão esquecê-lo logo – diz ela. – Novidades só são novidades por um ou dois dias. Talvez três. Tudo vai voltar ao normal.
– Quando cheguei aqui as coisas não foram bem assim – digo, rabugenta.
A verdade é que eu tenho muita, muita inveja dos Iluminados. Todo o privilégio que recebem apenas por serem quem são é a prova de que não há justiça no mundo. Em nenhum dos mundos.
– É porque você é toda assim, esquisita – diz Lola, com um sorriso gentil brincando em seus lábios. Ela é a pessoa mais verdadeira que eu conheço.
Reviro os olhos e encaro meu reflexo na colher que Lola abandonou sobre a mesa. Vejo que a raiz de meus cabelos já está prateada outra vez – a cor que todos os Cinzentos ostentam — , o que quer dizer que preciso tingi-los o quanto antes possível. Não é seguro ostentar cabelos prateados como os meus são, não com essa guerra em meu mundo natal. Se algum Sombrio me encontrar, eles encontram meu protetor e sua família. E isso eu não posso permitir.
– Olá – diz uma voz grave às minhas costas. Lola ergue os olhos, espantada.
Viro-me na direção do dono da voz e não contenho uma careta de insatisfação.
É o Iluminado.
– Sim? – suspiro, encarando-o.
Ele gesticula para a bandeja em suas mãos.
– Eu atrapalhei você? – pergunta. – Digo... Você simplesmente saiu e...
– O que fiz não tem nada a ver com você – interrompo. – Eu não estou com fome.
Ele hesita.
– Certo – diz, sem jeito. Algo no modo como ele age parece tímido, inseguro. Pergunto-me se é possível que um Iluminado seja assim.
– De qualquer forma, obrigada por se preocupar – as palavras escapam de meus lábios antes que eu possa contê-las. Quero morder a língua por ser tão impulsiva.
O rapaz sorri, muito humano.
– Meu nome é Prosper. Ricky Prosper, na verdade – ele estende a mão, outra vez tímido.
Assinto como cumprimento, mas não dou a mão a ele.
– Effy – respondo. Gesticulo para Lola e digo: — Essa é minha amiga, Lola.
Ela sorri, amigável mas distante.
– É um prazer.
Por um segundo, ele não sabe o que fazer. E então abaixa a mão, voltando a segurar a bandeja.
– O prazer foi meu – diz. – Até mais.
– Até – diz Lola.
Eu não digo nada.
Ricky Prosper caminha para uma mesa distante da nossa, mas posso sentir seus olhos em mim o tempo todo. Não consigo evitar ser paranoica agora. E se ele estiver aqui porque recebeu ordens para encontrar uma certa Cinzenta? E se essa fachada perfeitamente humana foi exatamente isso: uma fachada?
– Effy – chama Lola -, está passando mal? Você está meio verde...
Sacudo a cabeça e forço-me a sorrir.
– Agora estou com fome. Já volto.
Volto ao balcão da cantina e me sirvo generosamente. Ainda posso sentir os olhos do Iluminado me seguindo, mas decido não me preocupar com isso. Se ele ousar me confrontar, terei que dar um jeito nele.
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