A Conquista

1 Capítulo Um - O Sonho do Dragão


Notas iniciais
Comecei a escrever essa longfic na pandemia, depois de ler Fogo & Sangue pela primeira vez e me apaixonei pela história da Conquista. Acabei parando no meio do caminho, mas nesses últimos meses a vontade de continuar voltou com tudo. Essa é minha primeira fanfic longa, escrita com muito carinho e tentando ser fiel ao tom dos livros. Espero que gostem. Boa leitura! 🐉


Aegon


O escuro não era ausência, mas espera.

O ar era espesso como névoa de cinzas, denso e abafado, quente como o ventre de uma montanha. Aegon não sabia se caminhava ou flutuava, mas o mundo ao seu redor se movia com ele ou contra ele. Havia um cheiro de ferro no ar, de sangue e de carvão. A escuridão era total, mas seus olhos viam. Não luz, mas formas. Sob seus pés, havia cinzas. Cada passo afundava em camadas de pó branco e cinzento, tão fino que subia no ar como fumaça. E por entre aquelas cinzas... ossos. Costelas abertas, crânios rachados, vértebras torcidas como serpentes mortas.

E então ele os viu.

Três ovos. Grandes como crânios humanos. Deitados lado a lado, sobre um ninho de escamas queimadas e fios enegrecidos, como se uma mãe os houvesse posto ali no fim do mundo. Eles pulsavam com vida ou com alguma outra coisa mais antiga.

O primeiro era negro. Negro como carvão polido, suas escamas refletindo uma luz que não vinha de nenhuma tocha, estrela ou sol. Uma luz que parecia nascer do próprio tempo. Aegon achou que viu seu reflexo ali. O segundo era de bronze, mas não um bronze comum. Era manchado por manchas verdes, que se moviam com a luz. Como musgo sobre pedra molhada. Parecia mais antigo, mais pesado. O terceiro doía aos olhos. Era de um prateado pálido, tão claro que beirava o branco, mas brilhava por dentro. Vibrava. Tinha um zumbido, uma inquietude silenciosa, como se algo em seu interior já estivesse acordado, batendo as asas contra a prisão. A casca tremia, e Aegon sentiu a pele arrepiar.

As cascas racharam sem aviso. O som não foi de estalos ou quebras, mas de trovões ao longe, como se o próprio céu estivesse se partindo em duas metades. Das fendas, não vieram apenas chamas, veio um clarão antigo, primitivo, como se a criação estivesse sendo reescrita a partir do fogo. Primeiro em fiapos, depois em línguas inteiras, o fogo se ergueu. E o mundo, como Aegon conhecia, ardeu. Tudo foi consumido em vermelho e dourado. Um sol sangrento despontava por entre colunas de fumaça. E das cinzas, surgiu uma cidade.

Não uma que Aegon conhecesse, mas uma que parecia ter nascido do próprio sonho. Erguida onde o fogo encontrava o mar. As torres negras como vidro de dragão reluziam à luz do céu incendiado. Havia muralhas altas e afiadas como dentes, serpenteando pelos morros, e dentro delas, ruas vibrantes, vivas, pulsando com vozes. A cidade inteira parecia respirar.

Os telhados eram cobertos por placas de bronze, ferro e ouro, cintilando como escamas sob um sol que nunca se punha. Os estandartes tremulavam em todas as esquinas, não de casas antigas, mas um dragão de três cabeças, vermelho sobre preto, como ferida viva, que Aegon nunca tinha visto, mas era belo. Sinos tocavam ao longe, não em luto, mas em triunfo.

Aegon sentiu o cheiro da cidade antes mesmo de pisar nela. Sal, fumaça e promessas. Viu portões imensos se abrirem diante dele, portões forjados com os ossos do passado. Viu o mar tocando a base dos penhascos, e sobre eles, o que parecia ser um castelo, mas não como os castelos de agora. Este era novo, terrível e belo. Um trono de dragões, um trono forjado pelo fogo.

Ele voava acima de tudo, montado em Balerion, e o rugido do dragão era como um trovão chamando os céus à guerra. As asas abertas lançavam sombra sobre a cidade inteira, e sob sua sombra, os homens se ajoelhavam. Ele descia lentamente, sem esforço, guiado por algo mais forte que vontade.

No centro da praça maior, Aegon viu a si mesmo. Estava em pé, e suas irmãs estavam ao seu lado. Visenya trajava cota de malha escura, a mão repousando sobre o punho de sua espada, o rosto voltado para frente, inabalável. Rhaenys sorria, os cabelos prateados dançando ao vento, os olhos faiscando como se soubesse algo que ninguém mais sabia. Atrás delas, os três dragões pousavam, enrolando as asas com movimentos pesados, o calor ondulando ao seu redor.

A seus pés, sete coroas repousavam sobre a pedra. Cada uma era diferente: uma de ferro enferrujado, outra cravejada de safiras, uma feita de espinhos dourados, outra marcada por sal e conchas. Algumas estavam partidas, outras manchadas de sangue fresco. E o sangue escorria delas em filetes lentos, que se misturavam e corriam pela praça como rios de rubi.

Mas o sangue não apenas manchava. Ele fertilizava. Onde tocava, nasciam flores de pétalas grandes, árvores de folhas douradas, ervas que exalavam perfume de vitória. Cavalos surgiam, galopando livres em campos recém criados, e crianças corriam rindo sob céus sem nuvens. O mundo florescia.

Até que veio o frio.

No início foi apenas uma névoa, fina e quase imperceptível, se insinuando pelas bordas do sonho como uma lembrança esquecida. Depois, um vento cortante soprou do norte e os campos começaram a escurecer. As flores murcharam, as árvores perderam as folhas, os cavalos empacaram no meio do galope. A névoa se tornou neve, e a neve um manto branco e espesso que cobriu tudo.

O fogo apagou.

Os dragões rugiram, mas o som era abafado, como se viesse de longe demais. Suas asas congelaram, suas garras se tornaram frágeis. Um a um, tombaram. A cidade foi tomada pelo gelo. As torres ruíram sob o peso do inverno.

Aegon tentou se mover, mas o chão o puxava para baixo. O frio mordia seus ossos, congelava seus pulmões. Algo brilhou acima dele, uma lâmina longa, feita de puro gelo, afiada como vingança, cravando-se em seu peito com um som seco, como um galho quebrando. Ele arquejou. Não viu quem a empunhava. O mundo à sua volta se dissolvia em neve e silêncio. Tudo o que restou foram olhos. Dois olhos, tão azuis quanto o céu em tempos de paz, mas sem nenhuma paz dentro deles.

Aegon acordou ofegante.

O quarto estava escuro, exceto pelas brasas quase apagadas na lareira. O ar era quente, e ainda assim ele tremia. Seu corpo estava coberto de suor. Sentia o colchão úmido sob a pele nua, os lençóis grudando a ele como teias. À sua esquerda, Visenya dormia de lado, o rosto calmo, imóvel. À direita, Rhaenys murmurava algo em sonho, virando levemente, os cabelos caindo como véu prateado sobre os ombros nus.

Aegon não se moveu. Apenas respirou fundo, deixando o ar entrar com esforço. Ainda podia sentir o gelo em seu peito, um fantasma de dor que não era física, mas que lhe pesava nos ossos.

No fundo da alma, algo sussurrava.

E ele soube que o sonho não havia acabado. Tinha apenas começado.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui! Fico muito feliz por finalmente estar compartilhando essa história. Se quiserem, sintam-se à vontade pra deixar um comentário eu adoraria saber o que vocês acharam. Até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.