A Condensa

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Bem, não encontrei nenhuma fic em pt destes dois mas eu adoro-os por isso decidi fazer a minha. Espero não ser a única doida que os shippa e que alguém leia né xD Ou então que passe a gostar após ler! (sonho alto eu sei)Vemo-nos nas notas finais ^.^ Boa leitura o/

Os mosqueteiros preparavam-se para sair da quinta e escoltar a jovem condensa para o palácio real quando se ouviu um tiro, depois outro e mais outro até os invasores aparecerem e criarem um cenário de guerra e terror.

Aramis defendeu-se facilmente de um homem de rosto coberto, deferindo-lhe um corte no abdómen seguido por um murro no rosto que o deixou inconsciente. Porthos deu um tiro num e cortou a garganta a outro. Athos também se estava a conseguir defender igualmente bem até que um grito tomou-lhe a atenção. A pequena Sophia ia sendo atacada por um dos homens mascarados.

Foi tudo muito rápido, num momento, Athos defere um golpe mortal no homem com quem estava a lutar para salvar a criança, no momento a seguir, D’Artagnan agarra a condensa, virando-se de costas para o agressor e recebendo um corte nas costas que o deixa coberto de sangue. Sophia grita e chora agarrada a D’Artagnan. Athos corre para junto deles e tenta perceber a gravidade do corte.

Aramis e Porthos continuaram a atacar os agressores até só restar um que parecia ser o líder. Foi preciso unirem-se os dois para derrotarem aquele tipo de gargalhadas sádicas. No final conseguiram deixa-lo inconsciente, mas vivo. Amarraram-no fortemente para o interrogarem quando acordasse.

– Aramis! — Gritou Athos já coberto pelo sangue de D’Artagnan.

*The Musketeers*

– Então é aqui onde vive a condensa? — Pergunta Porthos olhando para a quinta de aspeto pobre.

– A condensa, a mãe e o padrasto. — Responde Aramis, desmontando do cavalo e aproximando-se da porta.

– Espera! — Chama D’Artagnan, agarrando o ombro de Aramis para ele parar de andar. — Não podes chegar ao pé de uma criança e dizer-lhe que é uma condensa e tem que abandonar os pais!

– Então como queres fazer?

– Falamos com os pais dela primeiro. — Responde Athos avançando até à porta.

Porthos e Aramis trocam um olhar estranho como se dissesse “desde quando ele se importa com estes pormenores?”.

Athos bateu à porta e quem abriu foi uma menina pequena de quatro anos que só deixou parte do seu rosto passar pela fenda da porta.

Athos permaneceu em pé a olhar sério aquela carinha redonda de grandes olhos castanhos. Ia começar a falar quando D’Artagnan se pôs agachado à frente da menina, ficando assim da sua altura.

– Olá. — Disse simplesmente com um enorme sorriso simpático. — És a Sophia?

A menina confirmou com a cabeça, sem desviar os olhos assustados de Athos.

– Eu sou o D’Artagnan, esse é o Athos, o Aramis e aquele é o Porthos — apontava para os amigos enquanto falava. — Somos mosqueteiros do rei. — Fez uma pausa para a menina absorver as informações e depois continuou. — Podemos falar com os teus pais?

– Eles não estão.

– Estás sozinha? — Pergunta Aramis.

Novamente a rapariga responde apenas com um acenar de cabeça.

– Isso facilita bastante as coisas. — Diz Athos virando as costas. — Tragam-na.

– Isso seria rapto. — Responde Aramis.

Ao ouvir isso, a criança assustou-se com a possibilidade de serem criminosos e fechou fortemente a porta.

– Nós não vamos raptar ninguém. — Diz Porthos alto para a menina ouvir.

– Vão embora! — Responde a porta fechada.

– O Athos e o Aramis só estavam a brincar. Abre a porta, por favor. — D’Artagnan pede gentilmente apesar de lançar um olhar duro aos responsáveis.

– Eu não gosto do Athos.

Com essa simples resposta, Athos faz um olhar indignando para a porta fechada e os companheiros começam a rir. Ao ouvir risos, Sophia acaba por abrir a porta com timidez mas assim que o seu olhar cruza com o de Athos, agarra-se a D’Artagnan como se ele fosse um escudo.

– Está tudo bem, está tudo bem. — Repete D’Artagnan abraçando a criança de volta. — Agora diz-nos. Onde estão os teus pais?

– Eles sairam para tratar de negócios.

– Há quanto tempo? — Pergunta Aramis.

– Não sei… Três dias, talvez.

– Eles costumam demorar muito? — Desta vez quem pergunta é Athos, tendo a sua pergunta ignorada, pelo que Porthos teve que a repetir para Sophia responder.

– Não. Nunca demoram mais de um dia.

Os mosqueteiros trocam olhares preocupados, a ponderar a situação. Tinham sido enviados ali para escoltar a condensa Sophia, prima do Rei, para o palácio, juntamente com a sua mãe.

– Deixas-nos entrar? — Pergunta D’Artagnan mudando bruscamente de assunto com um sorriso simpático. A menina concordou e puxou-o pela mão, mas mal tinha passado pela porta, parou e apontou para Athos.

– Ele não!

– Porque não? — Questiona Athos aborrecido.

– Não gosto de ti.

– Eu também não gosto de ti. — Responde seco.

Aramis e Porthos trocavam olhares divertidos enquanto observavam o amigo discutir com a criança.

– Tens que o deixar entrar. Precisamos dele. — Pede D’Artagnan ao constatar que se ele não falasse, ninguém o faria.

– Para quê?

– Para… — O mais novo olha para Aramis e Porthos que apenas encolhem os ombros. Athos estava encostado à lombada da porta com os braços cruzados e uma sobrancelha erguida, à espera da resposta de D’Artagnan. — Bem… Para… Ele é nosso amigo.

– Sério? — Pergunta a menina com descrença. — E vocês gostam dele?

– Sim.

– Então ele pode entrar. Mas ainda não gosto dele! — Diz a menina virando costas e caminhando até à sala, onde se atira para o sofá.

– Temos que procurar a mãe dela. — Diz Porthos, de maneira a que só os mosqueteiros ouvissem.

– Vocês dois — diz Athos apontando para Porthos e Aramis. — Vão procura-la pela aldeia. Nós ficamos a proteger a miúda e esperar que eventualmente os país dela voltem. Todos de acordo? — Athos vira o rosto para encarar D’Artagnan mas apenas encontra o lugar vazio. O mais jovem estava no sofá a ter uma conversa animada com Sophia.

– Boa sorte. — Ri-se Porthos ao ver o olhar de Athos ainda fixo nos outros dois.

Os dois despedem-se e abandonam o local. Athos não tem outra escolha se não juntar-se a Sophia e D’Artagnan e talvez conseguir perceber o que se passava ali.

– O que estão a fazer? — Assim que fala, Sophia fica quieta e séria, mas não lhe responde.

– Estava-mos só a falar da quinta. — Responde D’Artagnan. — O Aramis e o Porthos?

– Foram à aldeia.

– A minha mamã nunca me deixou ir à aldeia. Podemos ir? — Pede Sophia, subindo para as pernas de D’Artagnan.

– Porque ela não te deixava ir?

– Dizia que havia gente má que me queria fazer mal e levar para longe. Mas a minha vizinha vai lá todos os dias e nunca viu ninguém mau! A mamã é que é má!

– Já é tarde. E se fossemos todos dormir? — Sugere D’Artagnan olhando para Athos, deixando claro que precisavam de discutir o assunto.

Demorou quase uma hora para a criança aceitar ir dormir. Sophia mostrou-lhes o quarto dos seus pais e o de visitas, onde eles poderiam dormir. Claro que assim que a rapariga adormeceu, Athos e D’Artagnan voltaram para a sala onde poderiam falar sem que a criança os ouvisse.

– É obvio que a condensa estava a ser perseguida e a mãe dela sabia disso e não disse a ninguém. Provavelmente foram raptados ou mortos pelos perseguidores. — Começa Athos enquanto tira uma garrafa de vinho do armário do padrasto de Sophia e a abre sem cerimónias.

– Se for mesmo isso, Aramis e Porthos já devem ter descoberto alguma coisa. Alguém na cidade deve ter visto ou ouvido alguma coisa.

Athos estende a garrafa de vinho a D’Artagnan que recusa com abanar de cabeça.

– Quem é que poderia querer fazer-lhes mal? Nenhuma delas é herdeira direta do trono. — Continua D’Artagnan, sentando-se no sofá.

– Elas vão ser enviadas para Itália. A condensa Sophia faz parte da nobreza, mesmo não sabendo disso. Ela já tem um pretendente à sua espera. Alguém deve querer impedir que isso aconteça.

– Ela é apenas uma criança!

Athos encolhe os ombros e dá mais um gole na garrafa.

– Não é um assunto nosso.

D’Artagnan levantou-se rapidamente, pronto para discutir com Athos até que alguém a bater na porta o interrompeu.

Athos manteve-se quieto, apoiado na mesa com a garrafa já vazia na mão, a olhar sério para D’Artagnan. Novamente, voltam a bater na porta e o mais novo vê-se obrigado a ir abrir, sempre com o olhar atento de Athos sobre si.

– Viemos em má hora? — Brinca Porthos entrando juntamente com Aramis que arrasta um homem semi inconsciente e coberto de sangue para dentro de casa.

– Quem é esse? — Pergunta Athos, aproximando-se para o ver melhor.

– Um espião. — Responde Porthos.

– O homem da taberna disse que apareceu aqui na altura em que os pais da condensa desapareceram. — Explica Aramis enquanto amarra o homem a uma cadeira com a ajuda de D’Artagnan. — Disse que ele fazia muitas perguntas sobre o casal desaparecido e sobretudo sobre a sua filha e onde ela vivia.

– Para não ter descoberto que ela vivia aqui durante este tempo todo é porque não é lá muito bom espião. — Torça Porthos.

– Está sozinho? — Questiona Athos.

– Sim.

– Ele já vos disse alguma coisa?

– Só disse que era um soldado italiano.

D’Artagnan olha para Athos de cenho franzido.

– Não disseste que iam casar a Sophia com um príncipe italiano?

– Foi o que Treville me disse quando deu a missão.

– Então porque os italianos iriam atacar a futura rainha? — Pergunta Porthos também sem perceber nada.

– Ela é apenas uma criança! Por amor de Deus! Tem quatro anos! — Explode D’Artagnan. Estava a ser difícil para ele ver a pequena Sophia como uma futura rainha que já tem o marido escolhido.

O prisioneiro italiano começa a tossir e a ganhar consciência do que se estava a passar.

– Chega! — Reclama Athos elevando a voz. — Ela é a da realeza, este assunto não é da tua conta e nenhum de nós pode fazer nada.

O italiano começa-se a rir deixando os seus dentes partidos à mostra. Dentes esses que Porthos teve bastante prazer em partir quando o homem fez comentários maliciosos para Aramis.

D’Artagnan gritou revoltando dando um forte murro no homem que caiu no chão juntamente com a cadeira à qual estava amarrado. Não que o italiano fosse culpado da sua raiva no momento, apenas estava no sitio errado à hora errada e D’Artagnan precisava disso. Athos e Aramis apenas recuaram um passo graciosamente quando a cadeira com o prisioneiro caiu à sua frente com um estrondo. O mais jovem dos mosqueteiros, virou as costas no mesmo instante e voltou para o quarto de visitas onde iria passar a noite.

– Acho que o nosso menino se afeiçoou à criança. — Ri-se Porthos olhando para o italiano novamente inconsciente.

– Parece mais instinto paternal. — Acrescenta Aramis também a rir, mas tirando o sorriso da cara de Porthos com essas palavras.

– És o único aqui que sabe o que é isso. — Murmura Porthos sem humor na voz. Sem grande cuidado, levanta a cadeira com o italiano do chão e arrasta-o para o centro da sala, onde pode ter a certeza que ele não tem acesso a nenhum objecto. — Ele pode esperar até amanhã. Devíamos ir dormir.

– Porthos? — Chama Aramis, mas o homem continua a andar pelo corredor que leva aos quartos.

– Vai atrás dele. — Diz Athos que incrivelmente já tinha outra garrafa na mão quase vazia sem que Aramis desse por isso.

O rapaz suspira e revira os olhos, arrancando a garrafa das mãos do amigo e puxando-o pelo braço para o corredor onde Porthos tinha entrado.

– Esse é o conselho que devias dar a ti mesmo. Vai ver o que se passa com D’Artagnan que com Porthos sei lidar muito bem.

– Notasse.

Aramis mostra um olhar assassino ao amigo que apenas mostra um pequeno sorriso de lado como resposta.

– Ele deve estar na terceira porta. — Diz Athos por fim. — A primeira é o quarto da condensa e a segunda o quarto da mãe e do padrasto.

Aramis sorri mais descontraído e agradece antes de entrar no quarto indicado e fechar a porta. Athos ainda fica um tempo no corredor antes de ir para o último quarto que restava, o quarto onde D’Artagnan estaria.

Abriu a porta com cuidado para não fazer barulho e entrou pela pequena abertura, fechando a porta logo em seguida. O quarto estava escuro mas Athos pode ver algo a mexer-se debaixo dos cobertores graças à luz da noite que entrava pela janela. Aproximou-se para ver se o rapaz ainda estava acordado e acabou por ver mais uma cabeça a sair do monte de cobertores.

– Ela assustou-se com o barulho que fizemos na sala e teve medo de dormir sozinha. — Explica calmamente D’Artagnan, acariciando o cabelo da menina.

– Fizemos? — Questiona Athos ironicamente. De certeza que o que tinha acordado a jovem condensa foi o grande estrondo de uma cadeira a cair. E isso foi obra de D’Artagnan.

– Em vez de receber a resposta grosseira que estava a espera, D’Artagnan ri, desarmando completamente Athos que começa a achar que o rapaz tem dupla personalidade.

– Eu vou leva-la para o seu quarto. — Diz D’Artagnan levantando-se com a menina adormecida nos braços.

Athos ficou a vê-los desaparecer pela porta. Havia algo estranho com D’Artagnan e Athos só esperava que isso não afetasse a missão. Ele estava a afeiçoar-se demasiado à criança e, eventualmente, ela iria para Itália, longe dele. Suspirando pesadamente, descalçou as pesadas botas e pousou todas as armas que tinha no chão, junto à cama, assim como o seu casaco e camisa que também foram parar ao chão sem muitos cuidados.

Como D’Artagnan estava a demorar demasiado, fez o caminho até à porta e espreitou o corredor. Conseguiu distinguir facilmente o corpo do mais novo na beira da porta do quarto da menina. Athos caminhou até ele sem ser notado, não que se estivesse a esconder, apenas D’Artagnan estava demasiado perdido no seu mundo para dar por ele. Isso, até que o chão de madeira range quando Athos para ao seu lado.

O mais novo assusta-se ligeiramente, levantando rápido o rosto para ver quem se aproximava. Ambos arregalaram os olhos nesse momento mas por razões diferentes. D’Artagnan não esperava ver Athos, preferia até que fosse o italiano com uma faca de cozinha apontada a si do que ver Athos ali com aquele olhar preocupado. E Athos, bem, Athos arregalou os olhos porque não acreditava que o rapaz à sua frente estava a chorar. Aquele não era o D’Artagnan que ele conhecia, e agora estava oficialmente preocupado com o mais novo.

D’Artagnan voltou rapidamente a si e desviou o olhar, deixando que os seus cabelos tapassem o seu rosto molhado, não que fizesse grande diferença pois Athos já o tinha visto, mas o jovem não o conseguia encarar agora e achava que nunca mais ia conseguir.

Sem dizer uma única palavra, voltou para o quarto a passos rápidos, aproveitando o momento de choque do mais velho que não durou muito.

– D’Artagnan! — Chamou Athos em sussurro para não ter de lidar com a criança a acordar outra vez. D’Artagnan acelerou o passo e entrou no quarto sendo logo seguido por Athos.

– Vou dormir. — Murmurou baixinho, enfiando-se de baixo dos cobertores e escondendo o rosto.

– Porque estás a chorar? — Como esperado, não obteve resposta. — Diz de uma vez o que se passa contigo! Tens estado estranho desde que aqui chegamos e estás a comprometer a missão! — Reclamou Athos mas arrependendo-se de imediato quando um soluço escapou de D’Artagnan e ele encolheu-se mais na cama. — Ouve, eu… — Athos olha para o teto, tentando procurar palavras ou saber o que fazer. Nunca esteve numa situação assim com Aramis ou com Porthos. Mas D’Artagnan não era Aramis ou Porthos. Não. D’Artagnan era diferente e estava a precisar do seu apoio e não de reclamações e acusações. — Desculpa. — Disse por fim, sentando-se na cama aos seus pés. — Só quero perceber o que se está a passar contigo.

D’Artagnan não respondeu.

– O que se passa? — Insistiu o mais velho, colocando a mão no ombro de D’Artagnan que tremia levemente.

– Eu… — Athos aproximou-se mais para ouvir bem já que D’Artagnan estava a falar terrivelmente baixo e com a voz abafada dos cobertores e do choro. — Vamos dormir… Por favor.

Athos suspirou pesadamente mas acabou por concordar. Deitou-se no outro lado da cama tentando dar ao rapaz um pouco de espaço pessoal, apesar da cama ser dolorosamente pequena e isso ser uma tarefa impossível. Ele tentou obedecer ao pedido de D’Artagnan e ir dormir, a sério que tentou. Mas ter o rapaz a tremer ao seu lado não ajudava a sua mente a descansar e deixava-o cada vez mais preocupado.

D’Artagnan estava de costas viradas para si e de frente para a janela. Athos só conseguia ver a sua silhueta naquela noite fria de inverno. Mas bastava-lhe isso para saber exatamente onde o rapaz estava e poder traze-lo para um abraço que, esperava ele, fosse reconfortante e caloroso. D’Artagnan continuava de costas para Athos, mas agora estava rodeado pelos seus braços e tinha parado de tremer de repente, assim como as suas lágrimas tinham secado.

– Não precisas de falar se não quiseres. Só…fica aqui e… tenta descansar… — Disse Athos visivelmente atrapalhado e sem saber o que dizer.

D’Artagnan esboçou um pequeno sorriso que o mais velho não pode ver.

– Mas se quiseres eu posso ir embora. Posso ir para o sofá… ou assim… não me importo. A sério! — Continuou o mais velho. Agora era ele que tremia suavemente.

O mais novo virou-se dentro do abraço e abraçou Athos de volta, escondendo o rosto no ombro de Athos. Não se tinha apercebido que o mais velho estava sem camisa até se voltar para ele e isso agora estava a deixa-lo constrangido com a intimidade do momento.

– Obrigado… — Disse D’Artagnan contra o pescoço de Athos, fazendo o mesmo arrepiar-se. — Por favor, fica.

Athos não precisou de dizer nada. Acomodou-se mais no abraço e começou a acariciar os cabelos de D’Artagnan até que quase estivesse a cair no sono. Porém, uma voz voltou a acorda-lo.

– Eu tinha uma irmã.

Athos abriu os olhos de repente e procurou o olhar de D’Artagnan que ainda estava escondido no seu pescoço.

– Ela era muito alegre, simpática e curiosa. Nós costumava-mos perseguir os animais da quinta e deixa-los agitados até o meu pai vir ralhar connosco. — Ele esboça um pequeno sorriso, preso em memórias passadas. — Um dia… eu disse-lhe para irmos assustar as ovelhas que estavam perto dos cavalos. Ela… Ela gritou muito alto e acabou por assustar os cavalos que fugiram a correr por cima dela… — D’Artagnan tinha recomeçado a chorar e a tremer e Athos apertava-o fortemente tentando passar algum conforto. — Ele tinha apenas seis anos e eu nove… Devia ter tomado conta dela e não…

– Shhh… — Sussurrou Athos. — A culpa não foi tua.

– O meu avô espancou-me nesse dia, quase que me matava. — Continuou D’Artagnan. — Mas o meu pai chegou a tempo e protegeu-me, levando-me para longe daquela vila. Nunca mais lá voltei, não vi o enterro da minha própria irmã e nunca vi a sua campa…

– Não tiveste culpa… Eram apenas crianças…

– Ela chamava-se Sophia.

Athos congela por um momento. Com cuidado, volta a apertar o corpo do mais novo e dá-lhe um beijo no topo da cabeça.

– Ela não é a tua irmã… Não te podes afeiçoar a ela… — Athos sabia que não lhe devia dizer isto agora, mas ele precisava de saber e de ter isso em mente.

– Eu sei… Mas…

– Não. — Athos corta-o bruscamente. — Não podes confundir as coisas, não vais ter a tua irmã de volta e em breve também vais deixar de ver a condensa quando ela for para Itália.

Com um leve empurrão, D’Artagnan afasta-se de Athos e volta a virar-lhe as costas.

– D’Artagnan…

O mais novo não responde.

Athos segura-lhe o braço e tenta vira-lo para si mas novamente é empurrado. Não se deixando vencer, tenta a mesma coisa, desta vez sem tanto cuidado e podia jurar que estava a magoar o rapaz. D’Artagnan dá luta e tenta afastar-se mas acaba por ter os dois pulsos presos à cama por Athos.

– Eu sei o que é perder um irmão. — Diz Athos um pouco mais alto do que pretendia.

D’Artagnan para de tentar fugir e encara o homem mais velho em silêncio por um tempo. Já era possível ver os primeiros raios de sol raiarem e furarem as planícies da quinta fazendo com que uma luz alaranjada entrasse pelo quarto e iluminasse o rosto de Athos.

– E como é viver esses anos todos agarrado à bebida para esquecer? — Responde por fim com um olhar carregado.

– Ao menos não fico a chorar como uma criança. — Devolve com raiva.

– Eu não estou a incomodar ninguém!

– Estás a incomodar-me a mim!

– E porque te importas?! Podias deixar-me em paz e assim já não estaria a incomodar a sua excelentíssima pessoa!

Largando o pulso direito de D’Artagnan, Athos cerra o punho e dá um forte murro rente ao rosto do mais novo que fecha os olhos por reflexo.

– Como podes pedir-me para não me preocupar contigo?

Em resposta, D’Artagnan apenas desvia o olhar. Athos suspira pesadamente e sai de cima do mais novo, voltando a deitar-se no seu lado da cama.

– Desculpa… — Murmura D’Artagnan olhando para o teto. — Tu tens razão… Eu não me devia apegar tanto a ela…

– Apenas não voltes a ter uma crise como esta… Não sei lidar contigo assim e isso irrita-me.

D’Artagnan olha para o amigo antes de responder.

– Acho que te sais-te bem. — O mais novo ri pela primeira vez naquela noite e Athos sorri de volta encarando-o.

Estendeu-se um momento calmo de silêncio em que os dois homens apenas se encaravam e libertavam os seus fantasmas do passado.

– Awwww agora beijinho! Beijinho!

Sophia grita da porta enquanto salta e bate palmas. Athos senta-se repentinamente e D’Artagnan mexesse tão rápido que cai da cama.

– Oh, eu também queria ver o beijinho! — Graceja Porthos que estava ao lado de Sophia assim como Aramis.

Athos agarra numa almofada e atira-a fortemente a Porthos que continuava a rir.

Alguém teve uma noite agradável. — Ataca Athos cruzando os braços e vendo D’Artagnan levantar-se pelo canto dos olhos.

– Talvez. — Devolve Aramis sorrindo matreiro. — E a tua? Como foi?

– Eu também dormi bem! — Exclama Sophia sentindo-se esquecida.

– D’Artagnan? — Chama Athos ao ver que o rapaz tinha ficado quieto o tempo todo a encarar a criança. — Porque não vais arranjar algo para a Sophia comer?

O mais novo olha sério para Athos em modo de interrogação. Athos limita-se a sorrir e acenar com a cabeça como forma de encorajamento. D’Artagnan teria que saber separar as coisas, mas Athos não podia impedir aquele menino de estar com a criança. Não quando ele ficava tão desolado e de olhar perdido.

Por fim, D’Artagnan acabou por sorrir de volta e levar Sophia para a cozinha.

– Perdemos alguma coisa…? — Pergunta Aramis.

Athos nega com a cabeça e começa a vestir-se e a arrumar as suas coisas. Tinham que ir interrogar o italiano e era melhor estarem preparados e armados.

*The Musketeers*

– Porque está um senhor amarrado na sala? — Pergunta Sophia.

A criança estava ao colo de Aramis enquanto os restantes mosqueteiros interrogavam o homem.

– Porque é um homem mau e feio. — Responde Aramis.

– Então devia-mos amarrar o Athos.

O mais velho, a ouvir o seu nome ser mencionado, lançou um olhar agressivo à criança, que devolveu o olhar com a mesma intensidade.

– Porque estão a tentar atacar a criança? — Repete Porthos pela quarta vez, aproximando mais a faca que segurava da bochecha do homem. — Posso fazer aqui um desenho muito bonito se não quiseres responder. — Diz sombriamente, pressionando a faca até uma gota solitária de sangue escorrer. — Talvez uma flor, com muitas pétalas. Condiz contigo, não achas?

– Aramis, leva-a daqui. — Ordena Athos. — É melhor ela não ver isto.

Com alguma dificuldade, o rapaz leva a criança para outra divisão e brinca com ela enquanto os restantes “brincam” com o italiano.

– Itália! — Grita o homem de sotaque carregado quando Porthos fez mais pressão na ferida.

– Explica-te. — Ordenou D’Artagnan.

– Eu…Eu trabalho para a Itália. Por favor… Misericórdia!

– Porque a Itália haveria de querer matar a sua futura rainha? — Questiona Athos.

O homem não ia responder, mas bastou um movimento de Porthos para ele falar tudo de uma vez. Afinal, já tinha aprendido a não se meter com aquele tipo na noite anterior.

– Ela não tem sangue puro! O pai dela não é o conde, mas sim o homem com quem a condensa fugiu!

– O homem que vive aqui?

O italiano começa a rir histericamente, deixando os seus poucos dentes à mostra e fazendo com que a gota de sangue, que escorria da bochecha, entrasse para a boca.

– O que mete tanta piada seu pedaço de estrume? — Ordena Porthos, voltando a aproximar a faca do seu rosto.

O prisioneiro vira ligeiramente a cara para fugir do objecto cortante mas continua a rir.

– Esse… “homem”, teve a morte que merecia por estragar o sangue da condensa. Uma morte bem dolorosa que o fez implorar para morrer logo. — Diz voltando a rir.

– Vou querer que me descrevas isso tudo para fazer o mesmo contigo. — Diz Porthos com voz calma mas perigosa, emanando um aura agressiva.

– Ainda não. — Athos coloca uma mão no peito de Porthos e empurra-o ligeiramente para trás. — O que fizeram à condensa?

– Ainda estava viva quando os deixei. Ela é a única com sangue real neste protótipo de família.

– Ainda há uma coisa que não faz sentido. — Interrompe D’Artagnan. — Porque não mataram logo a condensa Sophia? Para quê esperar tanto tempo?

O homem volta a rir.

– Espero bem que no final me deixes mata-lo… — Sussurra Porthos só para Athos ouvir.

– Isso seria demasiado obvio. Ela vai morrer sim. Mas será um ataque qualquer terrorista. Triste infortúnio, não achas?

D’Artagnan fecha fortemente o pulso e puxa o braço atrás mas para ao ouvir Athos chamar o seu nome.

– Precisamos dele vivo por enquanto. — Diz monótono.

– Esse ataque… — Começa Porthos pensativo. — Quando vai ser?

Antes que o italiano tivesse tempo de responder, começaram-se a ouvir gritos e muita agitação vinda da rua. O prisioneiro começou a rir enquanto Athos espreitou pela janela, apenas para ter uma imagem do que já sabia. Toda a vila estava a ser atacada. As pessoas fugiam e corriam, tentando salvar as suas famílias e alguns bens. Casas e quintas ardiam juntamente com os animais e algumas pessoas que não fugiam a tempo. As pessoas que conseguiam fugir, acabavam por ser caçadas pelos homens encapuchados e mortas sem dó nem piedade.

– Temos que sair daqui. — Avisa Athos correndo para chamar Aramis e Sophia.

O prisioneiro italiano tinha voltado a rir que nem um lunático fazendo Porthos perder a cabeça e enfiar a faca no meio da testa, calando-o para sempre.

– Eish. Podias ter avisado! — Reclama D’Artagnan limpando o sangue que lhe espirrou para o rosto com a manga do casaco.


*The Musketeers*

Os mosqueteiros preparavam-se para sair da quinta e escoltar a jovem condensa para o palácio real quando se ouviu um tiro, depois outro e mais outro até os invasores aparecerem e criarem um cenário de guerra e terror.

Aramis defendeu-se facilmente de um homem de rosto coberto, deferindo-lhe um corte no abdómen seguido por um murro no rosto que o deixou inconsciente. Porthos deu um tiro num e cortou a garganta a outro. Athos também se estava a conseguir defender igualmente bem até que um grito tomou-lhe a atenção. A pequena Sophia ia sendo atacada por um dos homens mascarados.

Foi tudo muito rápido, num momento, Athos defere um golpe mortal no homem com quem estava a lutar para salvar a criança, no momento a seguir, D’Artagnan agarra a condensa, virando-se de costas para o agressor e recebendo um corte nas costas que o deixa coberto de sangue. Sophia grita e chora agarrada a D’Artagnan. Athos corre para junto deles e tenta perceber a gravidade do corte.

Aramis e Porthos continuaram a atacar os agressores até só restar um que parecia ser o líder. Foi preciso unirem-se os dois para derrotarem aquele tipo de gargalhadas sádicas. No final conseguiram deixa-lo inconsciente, mas vivo. Amarraram-no fortemente para o interrogarem quando acordasse, já que o anterior refém não poderia falar mais, cortesia de Porthos.

– Aramis! — Gritou Athos já coberto pelo sangue de D’Artagnan.

O rapaz não esperou que o chamassem uma segunda vez para ir a correr em direção a D’Artagnan.

– Vamos leva-lo para dentro. — Disse Aramis após uma rápida e vaga analise ao corte de D’Artagnan. O jovem ainda estava consciente e à primeira vista não parecia ser nada de grave. Mas iria precisar de levar pontos para parar o sangramento.

Athos e Aramis levaram facilmente o rapaz para dentro mas tendo os máximos cuidados para não alargar o corte ou magoa-lo demasiado. Deitaram-no de barriga para baixo, no quarto que partilhara com Athos. Tiraram-lhe as roupas de cima para deixar o corte mais visível.

– Porthos, vai buscar água e um pano. — Ordenou Aramis. — Athos, procura agulhas e linhas.

– Ele vai ficar bem? — Soluça a criança, inclinando-se para a cama tentando vê-lo melhor.

– Sim sim, mas agora preciso que te afastes para eu o tratar. — Diz Aramis rapidamente sem olhar o rosto de Sophia que voltava a encher-se de lágrimas. Mesmo a chorar silenciosamente, a jovem condensa afastasse da cama e senta-se encostada ao chão.

Porthos entra no quarto a tentar correr com a tigela de água sem entornar muito mas não conseguindo evitar deixar um rasto de água por onde passou. Aramis limpa rapidamente a ferida de D’Artagnan com cuidado mas sem conseguir evitar que o rapaz grite de dor e se contorça a tentar fugir do pano molhado.

– Fica quieto! — Reclama Aramis. — Porthos, agarra-o!

Porthos obedece e D’Artagnan volta a gritar, como se tivesse perdido o juízo.

Athos entrou no quarto logo a seguir com uma caixa de costura nas mãos. Deve ter tido dificuldades em encontrar a caixa pois estava transpirado e ofegante.

Aproximasse da cama para ver o estado de D’Artagnan mas logo o instruem para agarrar-lhe as pernas pois ele continuava a tentar fugir involuntariamente.

Agora que D’Artagnan estava minimamente quieto, Aramis podia começar a cozer a ferida. O golpe ia desde o ombro direito até meio das costas, do lado esquerdo. Felizmente não era muito fundo, até porque podia trazer graves consequências no sitio que era.

– Agora vai doer um pouco, tenta ficar quieto para não doer demais. — Avisa Aramis preparando a agulha.

Assim que o objeto furou a pele, D’Artagnan gritou contra a almofada, tentando manter-se quieto.

– Calma… Não vai demorar muito… — Assegurou-lhe Athos fazendo-lhe leves caricias nas pernas que segurava, tentando transmitir calma e confiança.

Aramis continuava a cozer sem parar, o melhor era fazer aquilo rápido.

Athos continuava a dizer palavras de conforto até sentir algo contra a sua perna. Para de falar por momentos para ver a pequena Sophia agarrada à sua perna como se fosse um peluche enorme.

– Continua a falar… Ele quer ouvir-te. — Diz a criança com voz chorona.

Athos continua a falar até Aramis acabar de cozer a ferida. Porthos solta os braços de D’Artagnan vagarosamente, esperando algum movimento brusco que nunca veio. Athos faz o mesmo e aproxima-se mais do rosto do rapaz constatando que ele tinha desmaiado. Não tinham duvidas disso porque ainda se ouvia perfeitamente a sua respiração pesada e estrangulada.

– É melhor deixarmo-lo descansar. — Comenta Porthos alternando o olhar entre D’Artagnan, Athos e a criança que continuava agarrada à perna de Athos.

– Vamos interrogar aquele tipo para sairmos daqui o mais depressa possível. — Diz Aramis, seguindo o olhar de Porthos.

Athos não respondeu mas os mosqueteiros nem esperavam outra coisa dele. Apenas deixaram o quarto e foram tratar do refém.

O mais velho acariciou suavemente os cabelos de D’Artagnan e suspirou tristemente de seguida. Sentou-se à beira da cama, sem tocar em D’Artagnan e limpou o rasto de lágrimas do seu rosto com a ponta dos dedos.

– Quando ele vai acordar? — Pergunta a menina, inclinando-se perto do rosto do rapaz adormecido.

– Não sei. — Responde vagamente.

– Ele disse que gostava muito de ti. Mas pediu-me para guardar segredo.

Athos desvia o olhar do rapaz para a criança que dava pequenas festinhas no braço de D’Artagnan.

– Ele também gosta muito de ti. — Responde, sem perceber bem onde Sophia queria chegar.

A pequena ri-se e Athos faz uma careta sem perceber. Sophia sobe para cima da cama e depois senta-se sobre as pernas de Athos para o olhar melhor.

– Eu quis dizer que ele gosta de ti como a mamã gosta do papá.

– Ah… — Athos olha brevemente para D’Artagnan atrapalhado. — Pois… Está bem.

Sophia faz uma cara zangada e dá-lhe um murro no braço.

– Au! Para que foi isso?

– És mau!

– Não grites que o vais acordar! — Reclama baixando o tom de voz.

– Devias de ter dito que também gostas dele e que vão ficar juntos para sempre! — Continua a criança a gritar. — És mau! E por isso não gosto de ti!

Amuada, Sophia volta para o chão e vira as costas a Athos, cruzando os braços numa prefeita pose de birra.

– Esse tipo de coisas eu direi diretamente a ele e não a ti. — Riposta Athos, também cruzando os braços, quase fazendo beicinho amuado como a criança.

– Sophia volta-se para Athos com um enorme sorriso no rosto.

– Talvez eu goste de ti. Mas só um bocadinho pequenino, ouviste? — Diz enfatizando as palavras juntando o polegar com o indicador e deixando um pequeno espaço entre eles.

Athos apenas responde com um meio sorriso torto mas que é suficiente para a menina voltar a abraçar-lhe as pernas.

– Aww que momento comovente. Espero não estar a estragar nada. — Diz Porthos da porta.

– Descobriram alguma coisa? — Involuntariamente, Athos levanta-se e pega na criança ao colo, para se aproximar de Porthos com um olhar sério.

– Pensei que não gostassem um do outro… — Começa por dizer.

– E não gostamos. — Respondem sérios ao mesmo tempo. Porthos não evitou em rir da cara de indignados deles. Parecia que tinha feito a maior ofensa do mundo.

– Ok ok, tudo bem, peço desculpa. — Porthos respira fundo, recompondo-se. — Eu e o Aramis vamos buscar a condensa. Pelo que o homem disse, ela não está muito longe daqui e não tem vigilância por ser um terreno abandonado.

– Têm a certeza que não é bluff?

– Não. — Responde sorridente. — Se nos demorarmos pede reforços.

– Eu posso ir com vocês… — Athos não teve tempo de terminar a frase pois foi logo interrompido por Porthos.

– Não. Tens de ficar a vigiar o D’Artagnan e a condensa júnior. Além disso o líder deles continua amarrado a uma cadeira na sala. Vê se consegues mais alguma informação dele.

Athos não parecia nada feliz com o plano, mas Porthos saiu logo antes que o amigo protestasse.

– A “condensa júnior” sou eu? — Perguntou a menina assim que Athos a pôs no chão.

– Sim.

– Porquê?

– Porque sim. — Responde chateado.

– Isso não é resposta! — Reclama amuada. — Então, a condensa é a minha mamã?

– Sim.

– Eles foram buscar a minha mamã?! — Grita eufórica correndo em direção à janela para ver Aramis e Porthos afastarem-se.

Athos apenas observou a rapariga ficar colada à janela durante um bocado.

– Então e o meu papá?

– Não sei… — Murmurou desviando o olhar. — Vou buscar mais água para baixar a febre de D’Artagnan.

– Eu vou! — A rapariga já tinha saído a correr ainda Athos não tinha dado o primeiro passo. Revirando os olhos, volta a sentar-se junto do mosqueteiro. Coloca a sua mão sobre a testa do rapaz para ver a febre. Não estava muito alta, mas existia.

– Só arranjas problemas… — Murmura suavemente com um pequeno sorriso.

– Trouxe água! — Grita Sophia ainda no corredor a passos lentos para não entornar nada. Verdade seja dita, estava a fazer um melhor trabalho que Porthos.

Athos ajuda a menina e coloca a água na mesinha de cabeceira, onde começa a molhar o pano e passar no rosto de D’Artagnan.

– Posso ajudar? — Pergunta Sophia com uns enormes olhos grandes.

– Não.

– Mas porquê? Eu também sei!

– Já disse que não. — Diz firmemente calando a criança.

Quando acaba o seu trabalho olha para Sophia que ainda estava no mesmo sitio a olhar tristemente para o chão. Athos revira os olhos e suspira cansado. Não sabia como D’Artagnan conseguia aturar crianças, mas aquilo definitivamente não era uma coisa para ele.

– Vá, vem cá. — Chama-a com voz cansada.

A pequena aproxima-se e vira o rosto para Athos. Com grandes olhos castanhos molhados.

– Não precisas de começar a chorar outra vez. — Reclama enquanto a senta nas suas pernas.

– Mas ele não acorda…

– Está só a dormir.

– Como sabes?

– Ele não te ia deixar. — Tentando imitar o que via D’Artagnan fazer muitas vezes, Athos aperta as bochechas da criança mas com demasiada força, fazendo-a queixar-se de dor e choramingar.

– Oh não não… — O mosqueteiro arregala os olhos e tenta acalmar a criança abraçando-a. — Desculpa, não te queria aleijar… Pronto, pronto.

– És mau! — Grita Sophia ainda a chorar no ombro de Athos.

– Não sejas chata, já pedi desculpa! — Riposta Athos. Apesar disso, continua a abraçar a criança e a embala-la.

– Que cenário maravilhoso para se acordar. — Uma voz seca e baixa vem da cama. Mas é o suficiente para parar o choro de Sophia e fazer as duas cabeças virarem-se para D’Artagnan. Apesar do rosto cansado e pálido, D’Artagnan sorria e os seus olhos brilhavam cheios de vida.

– Idiota… Não nos voltes a assustar assim! Que ideia foi a tua de te meteres à frente de uma espada? Não te ensinamos a defender-te?! — Começa Athos fazendo o sorriso de D’Artagnan virar um sorriso triste e envergonhado.

– Ele disse que estava com muito medo e que gosta muito de ti. — Diz Sophia após dar outro murro no ombro de Athos. — E eu também!

– Eu sei. Desculpem. — D’Artagnan volta a sorrir tentando sentar-se. Athos revira os olhos perante a forma patética como o rapaz tentava sentar-se e gemia a cada pequeno movimento. Pousa Sophia no chão e ajuda D’Artagnan a sentar-se, mas de maneira demasiado brusca, fazendo com que o mais novo acabasse quase deitado em cima de Athos.

– Desculpa… — D’Artagnan tentou endireitar-se mas Athos manteve-o na mesma posição.

– Não me voltes a assustar assim. — Murmura contra os cabelos de D’Artagnan, de maneira a que só ele ouvisse antes de o soltar. Mas agora era o mais novo que não queria sair.

D’Artagnan vira o rosto para cima de forma a encarar o rosto de Athos que estava a menos de um palmo de distância.

– Eu sabia que ias cuidar de mim. — Diz com um sorriso convencido.

Athos aproxima os rostos e finge dar uma cabeçada em D’Artagnan, de forma leve que se tornou apenas uma caricia.

– Se voltares a agir de maneira estúpida vou ser eu que te deixo aos cuidados dos médicos. — Ameaçou sério mas fazendo com D’Artagnan se risse.

– Está bem. — Com um simples movimento, colou os seus lábios aos de Athos tão rápido como se levantou e virou costas, fingindo olhar para Sophia e deixando o Athos atónico sentado na cama. — Onde está o Porthos e o Aramis? E o que aconteceu enquanto estive inconsciente? — Diz rapidamente, tentando controlar o rosto vermelho e ignorando as risadas de Sophia.

– Eles foram buscar a minha mamã! — Diz a criança.

Esquecendo rapidamente o constrangimento, D’Artagnan olha interrogativo para Athos que apenas confirma a história com um acenar de cabeça.

– E o Athos disse que gostava de ti! — Diz cantarolando e começando a rir-se. — Mas é segredo! Ele é que vai dizer-te.

Athos lança um olhar mortal à criança que se esconde atrás de D’Artagnan, continuando a rir.

– Nós… — Athos finge tossir, evitando olhara para D’Artagnan. — Temos que interrogar o lider do ataque.

– Oh! Claro! Onde ele está?

– Acho que ao lado do outro cadáver na sala.

Sem dizer mais nada, Athos levanta-se e dirige-se para a porta mas para a meio, voltando-se para D’Artagnan.

– Consegues andar?

O rapaz dá alguns passos e sente os pontos das costas serem forçados e doerem.

– Devagar. — Responde olhando para os pés enquanto tentava andar mais lentamente.

– Podes ficar aqui…

– Não! — D’Artagnan interrompe Athos bruscamente. — Eu posso ser útil. Vai andando que eu já lá chego.

Athos avança até ao mais novo e para à sua frente, vira as costas e agachasse.

– Sobe.

– Cavalinho! — Grita Sophia.

– Vamos, não temos o dia todo! — Reclama Athos perante a demora do rapaz.

D’Artagnan aproximasse e sobe nas costas do mais velho deixando as mãos nos ombros deste. Mas quando Athos se levanta, D’Artagnan abraça instintivamente o pescoço do maior para não cair.

– Calma. Não é longe. É só até à sala, e eu não te deixo cair. — Ri-se Athos contra as mãos de D’Artagnan fazendo-o arrepiar-se.

*The Musketeers*

– Já disse tudo aos vossos amigos! — Responde o refém pela terceira vez.

– Nós queremos ouvir à mesma para comparar os factos. — Diz D’Artagnan, sentado de lado numa cadeira, de forma a estar apoiado mas não fazer peso sobre as costas.

O mosqueteiro estava de frente para o refém e apontava-lhe uma arma. Athos estava atrás de D’Artagnan e Sophia estava entretida com a caixa de costura da mãe. Ela começou a dizer que gostava de fazer bordados com a mãe e depois contou uma história longa que nem Athos nem D’Artagnan prestaram atenção.

– Está bem mas baixa a arma! — Aceitou o homem.

D’Artagnan ainda a analisou um bocado antes de a baixar. O homem estava amarrado, de qualquer maneira.

– Nós trabalhamos para o conde de Itália. Ele não quer que o filho case com a condensa.

– Porquê? — Perguntou Athos, já sabia a resposta mas queria ter a certeza que ambos diziam a mesma coisa.

– Porque ela é uma mestiça! Não tem sangue real por parte do pai.

Athos viu pelo canto do olho D’Artagnan cerrar os punhos. Cuidadosamente, pousou a mão no ombro do rapaz que se acalmou quase que espontaneamente. Nesse momento, a porta da entrada é aberta por Porthos, Aramis e um senhora que estava num estado lamentável, mal se aguentando de pé se não fosse pela ajuda dos dois mosqueteiros que a apoiavam.

– Mamã! — Gritou Sophia correndo para abraçar a mulher.

Mesmo estando fraca, a senhora abaixou-se para abraçar fortemente a filha e a falar com ela.

– Correu tudo bem? — Pergunta Athos, ainda com a mão no ombro de D’Artagnan, facto que não passou despercebido a Aramis.

– Aquele imbecil enganou-nos. Haviam guardas sim, mas nós demos conta deles. Já podemos voltar para Paris. — Responde Porthos sorrindo cansado no final da frase.

– Como estás, D’Artagnan? — Pergunta Aramis aproximando-se do rapaz que ainda estava sem camisola, deixando assim a ferida visível.

– Vivo. — Responde simplesmente.

Aramis sorri de volta e despenteia o mosqueteiro mais novo.

– Vou buscar algo para a condensa comer, não me parece que a tenham alimentado.

– Muito obrigada, por tudo. — Diz a senhora. — Se não se importam, eu gostaria de descansar um pouco antes de partirmos…

– Vamos para onde mamã?

– Claro, esteja à vontade. Mas temos que ir ainda hoje. — Responde D’Artagnan.

– Ir para onde? — Insiste Sophia.

– Vem descansar comigo que eu conto-te tudo. — Diz a condensa agarrando na mão da filha e guiando-a para os quartos.

– Levamos o homem? — Pergunta Porthos, referindo-se ao refém.

– É melhor. — Responde Athos simplesmente.

– Porthos. — Chama Aramis. — Leva isto para as condensas. — Entrega um tabuleiro com comida para o rapaz que logo obedece ao pedido mesmo que reclamando pelo caminho. — E D’Artagnan. Como teu médico, ordeno-te que te vás deitar imediatamente.

D’Artagnan murmurou alguma coisa chateado mas quando deu por si, já tinha Athos agachado à sua frente, à espera que subisse.

– Está tudo bem com as tuas pernas? — Pergunta Aramis preocupado e começando a entrar em pânico. Ele tinha quase a certeza que o golpe nas costas não o tinha deixado paraplégico, mas agora estava com sérias dúvidas.

– Sim, apenas fico com dores no corte se me mexo muito.

– Ah claro. É normal. — Diz suspirando de alivio e vendo os dois irem para o quarto. Tinha a leve sensação que Athos não ia voltar tão cedo…

E, claro que Aramis estava certo. Athos tinha-se deitado ao lado de D’Artagnan, mas ao contrário do que ele pensava, tinham adormecido mal as suas cabeças tocaram nas almofadas, precisavam de compensar a noite anterior passada em branco. Mas obviamente que o facto de estarem abraçados e de D’Artagnan usar o peito de Athos como almofada, não tinha nada a ver com o frio.


Fim~

Notas finais
Obrigada a quem leu, espero que tenham gostado ^-^Estava a pensar em fazer outro cap com a história focada em Porthos e Aramis pois há muita coisa que ficou por dizer. Se alguém estiver interessado diga nos comentários.Até à próxima, kissus o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!